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Recuperação extrajudicial da Raízen (RAIZ4) tem impacto limitado nos fiagros

por João Souza
12/03/2026 às 13h36
em Negócios
Recuperação Extrajudicial Da Raízen (Raiz4) Tem Impacto Limitado Nos Fiagros - Gazeta Mercantil

Recuperação extrajudicial da Raízen (RAIZ4) coloca fiagros no radar, mas impacto tende a ser limitado

O pedido de recuperação extrajudicial da Raízen (RAIZ4) para renegociar parte de sua dívida chamou atenção do mercado financeiro e do setor agroindustrial. Investidores passaram a analisar possíveis efeitos sobre diferentes modalidades de investimento, especialmente os fiagros, fundos de investimento focados em títulos ligados ao agronegócio. Apesar do alerta inicial, especialistas ressaltam que a exposição direta desses fundos à companhia é limitada, o que deve reduzir impactos significativos nos portfólios e na rentabilidade dos cotistas.

O movimento da Raízen (RAIZ4) ocorre em um momento delicado para o crédito agrícola brasileiro, com juros elevados, variação cambial intensa e desafios logísticos e de safra. Esses fatores, combinados, reforçam a necessidade de avaliação estratégica por parte dos gestores de fundos e investidores.

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Exposição limitada dos fiagros à Raízen (RAIZ4)

Segundo Felipe Sousa, analista do Andbank, entre os principais fiagros negociados em bolsa, apenas o Kinea Crédito Agro (KNCA11) possui posição em papéis da Raízen, representando cerca de 1% do portfólio total. “Entre os maiores fundos, o único com exposição direta é o KNCA11, mas em uma parcela bastante pequena da carteira”, destacou Sousa.

O baixo percentual de exposição sugere que, mesmo com eventuais efeitos de volatilidade sobre os papéis da empresa, os impactos sobre os fiagros como um todo serão restritos. Para fundos menores ou com perfil mais conservador, a exposição direta é praticamente inexistente, reforçando a segurança relativa do segmento frente a movimentações isoladas de grandes empresas do setor.

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Volatilidade dos títulos e CRAs

Apesar da baixa exposição, a renegociação extrajudicial pode gerar volatilidade nos títulos emitidos pela Raízen (RAIZ4), incluindo CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio), debêntures e bonds. No caso do KNCA11, o fundo adquiriu um CRA da Raízen com vencimento em 2032, originalmente avaliado em R$ 57,9 milhões. Atualmente, esse mesmo título apresenta marcação de mercado próxima de R$ 22 milhões, refletindo o aumento da percepção de risco da empresa nos últimos meses.

Mesmo com essa desvalorização, gestores têm adotado uma postura cautelosa, evitando a venda imediata dos papéis para não realizar prejuízos definitivos. Em situações de recuperação extrajudicial, há possibilidade de que parte do valor investido seja recuperada, especialmente em títulos estruturados para permanecerem fora de processos judiciais complexos.

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Estratégias de mitigação adotadas pelos fiagros

Um ponto importante destacado por analistas é a estratégia de manutenção de reservas pelos fiagros para suavizar os rendimentos distribuídos aos cotistas. Essa prática permite que os fundos absorvam períodos de volatilidade sem comprometer o fluxo de pagamento, garantindo certa estabilidade em momentos de instabilidade no mercado de crédito.

Além disso, muitos dos títulos presentes nas carteiras dos fiagros, especialmente CRAs, possuem características extraconcursais. Isso significa que, em regra, eles não entram em recuperações judiciais, reduzindo o risco de perdas substanciais. No caso da Raízen (RAIZ4), que optou por uma recuperação extrajudicial e não judicial, a expectativa é de que o impacto sobre os fundos seja ainda menor.

Risco de contaminação e efeitos indiretos

Embora a exposição direta seja limitada, o principal risco apontado por analistas é de contaminação indireta no mercado de crédito agrícola. A indústria agro enfrenta desafios como variação de câmbio, preços de commodities e condições climáticas adversas, além de uma necessidade constante de capital de giro. Eventos de recuperação extrajudicial de empresas relevantes podem gerar maior cautela de credores e investidores, aumentando a percepção de risco do setor como um todo.

“Nossa atenção está voltada para a indústria agro, que tem dificuldades normais de safra e depende significativamente da variação cambial, fator que impacta setores com forte presença em exportações. A recuperação extrajudicial da Raízen é mais um elemento a ser monitorado, mas não representa um risco sistêmico”, explica Felipe Sousa.

Comparativo com fundos imobiliários

Um paralelo recente com o mercado de fundos imobiliários ilustra a forma como recuperações extrajudiciais podem afetar investidores. O anúncio da recuperação do Grupo Pão de Açúcar (PCAR3) impactou FIIs que possuíam imóveis alugados à varejista. O Guardian Real Estate (GARE11) possui sete contratos com a companhia, representando cerca de 14% da receita, enquanto o TRX Real Estate (TRXF11) tem 19 contratos e exposição de aproximadamente 7,8%.

Especialistas destacam que contratos entre fundos e grandes empresas frequentemente incluem mecanismos de proteção, como prazos longos e multas elevadas em caso de rescisão antecipada. No caso do TRXF11, os contratos com o GPA (PCAR3) contam com garantia do Assaí (ASAI3), empresa separada do grupo com estrutura financeira independente, reduzindo o risco de perdas permanentes para os investidores.

Perspectivas para o mercado de fiagros

Apesar da volatilidade gerada por pedidos de recuperação extrajudicial, a análise aponta que os fiagros devem apresentar resiliência. A exposição reduzida das carteiras, combinada com a natureza extraconcursal dos CRAs e reservas estratégicas mantidas pelos fundos, contribui para proteger os cotistas.

Ainda assim, o acompanhamento constante de indicadores financeiros, decisões corporativas e políticas de crédito é crucial. A indústria agrícola permanece sensível a fatores externos como taxas de juros, custos logísticos e políticas de exportação. A diversificação da carteira e a análise criteriosa dos ativos continuam sendo ferramentas essenciais para investidores que desejam manter estabilidade e rentabilidade.

Volatilidade como oportunidade de investimento

Para gestores e investidores de fiagros, a volatilidade decorrente da recuperação extrajudicial pode se transformar em oportunidade. Títulos adquiridos com deságio, como CRAs e debêntures, podem gerar ganhos significativos caso a empresa consiga reestruturar sua dívida de forma eficaz. Dessa forma, o mercado de crédito agrícola oferece espaço para estratégias de médio e longo prazo, desde que acompanhadas de gestão prudente e avaliação detalhada do risco.

Fiagros e o futuro do crédito agrícola brasileiro

O episódio da Raízen (RAIZ4) reforça a necessidade de monitoramento contínuo de fatores macroeconômicos e setoriais que influenciam o mercado de crédito agrícola. A estrutura dos títulos, a natureza extraconcursal dos CRAs e a gestão estratégica dos fundos ajudam a proteger os fiagros, mas não eliminam totalmente os riscos.

A resiliência do setor demonstra que, mesmo em cenários de instabilidade, é possível mitigar impactos e identificar oportunidades. O mercado de fiagros continua a se consolidar como uma alternativa robusta de investimento ligada ao agronegócio brasileiro, oferecendo rentabilidade atrativa para investidores que buscam exposição ao setor de forma planejada e diversificada.

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