O Santander Brasil (SANB11) registrou lucro líquido gerencial recorrente de R$ 2,885 bilhões no terceiro trimestre de 2026, queda de 28% em relação aos R$ 4,009 bilhões apurados no mesmo período do ano anterior. O resultado, divulgado nesta quarta-feira (28), mostra que a instituição ainda enfrenta dificuldades para recuperar a rentabilidade, mesmo com medidas de controle de despesas e uma estratégia de concessão de crédito mais seletiva. O retorno sobre o patrimônio líquido médio recorrente, indicador conhecido como ROAE, recuou para 11,9%, ante 17,5% um ano antes.
A deterioração aparece também nas principais linhas operacionais. A receita total caiu 1,9% em 12 meses, para R$ 20,375 bilhões, enquanto as despesas líquidas com provisões para devedores duvidosos aumentaram 14,4%, para R$ 7,460 bilhões. Ao mesmo tempo, a carteira de crédito ampliada avançou 4,7%, mas o crescimento ficou concentrado em grandes empresas, pequenas e médias empresas e financiamento ao consumo. O saldo destinado a pessoas físicas encolheu na comparação anual.
A reação do mercado foi negativa. Na manhã desta quarta-feira, as units do banco chegaram a cair 5,1%, para R$ 24,55, às 11h51, em meio à avaliação dos investidores sobre o balanço. A pressão refletiu a combinação de lucro abaixo das expectativas, deterioração de indicadores de crédito e ausência de sinais suficientes de recuperação consistente da rentabilidade.
O resultado líquido ficou abaixo da estimativa média de R$ 3,161 bilhões divulgada antes do balanço, segundo levantamento de expectativas de mercado publicado pelo Money Times. O ROAE de 11,9% também ficou aquém da projeção de 12,7%. A diferença entre o desempenho efetivo e o esperado reforçou as dúvidas sobre a velocidade com que o banco poderá recompor seus indicadores de retorno.
Queda da rentabilidade se prolonga ao longo de 2026
A trajetória dos últimos trimestres evidencia a dimensão da deterioração. Depois de alcançar R$ 4,086 bilhões no quarto trimestre de 2025, o lucro recorrente recuou para R$ 3,788 bilhões no primeiro trimestre deste ano, R$ 3,014 bilhões no segundo e R$ 2,885 bilhões no terceiro.
Entre o encerramento de 2025 e setembro de 2026, a redução foi de aproximadamente 29,4%. Considerando apenas os dois últimos trimestres, a queda chegou a 4,3%. O movimento indica que a pressão sobre os resultados não se limitou à comparação anual com uma base mais elevada de lucro em 2025: a retração também continuou na comparação sequencial.
O ROAE acompanha essa tendência. O indicador passou de 17,5% no terceiro trimestre de 2025 para 17,6% no quarto trimestre daquele ano, recuou para 16% no primeiro trimestre de 2026, atingiu 12,5% no segundo e chegou a 11,9% em setembro.
A redução de 5,6 pontos percentuais em um ano representa perda de capacidade de gerar resultado em relação ao capital próprio médio empregado pelo banco. Para o acionista, o indicador é importante porque permite avaliar a rentabilidade do capital investido, além da evolução isolada do lucro nominal.
A diferença entre o resultado operacional e o lucro final também merece atenção. O resultado operacional caiu 37,9% em relação ao terceiro trimestre de 2025, para R$ 2,603 bilhões. O resultado gerencial antes dos impostos diminuiu 37,3%, para R$ 2,689 bilhões, recuo mais intenso do que o observado no lucro líquido recorrente.
A linha de imposto de renda e contribuição social apresentou um valor positivo de R$ 305 milhões no trimestre, ante uma despesa de R$ 190 milhões um ano antes. Essa diferença ajudou a limitar a queda do resultado final em comparação com a retração das linhas anteriores da demonstração financeira.
O desempenho mostra que a recuperação da rentabilidade depende de uma melhora simultânea das receitas, do custo de crédito e do resultado operacional. O controle administrativo, isoladamente, ainda não compensou as pressões que atingem a atividade bancária.
Carteira de crédito cresce, mas a expansão se concentra nas empresas
A carteira de crédito ampliada do Santander alcançou R$ 721,264 bilhões em setembro, aumento de 0,9% em relação a junho e de 4,7% em 12 meses. Em valores absolutos, o saldo cresceu R$ 32,463 bilhões na comparação anual.
A composição desse avanço ajuda a explicar a estratégia adotada pela instituição. A carteira de grandes empresas chegou a R$ 265,690 bilhões, alta de 4,3% no trimestre e de 7,8% em um ano. O banco atribuiu o crescimento trimestral principalmente ao crédito para comércio exterior, capital de giro e operações de garantias.
Nas pequenas e médias empresas, o saldo atingiu R$ 96,618 bilhões, expansão de 0,7% em três meses e 8,5% em 12 meses. O financiamento ao consumo somou R$ 97,147 bilhões, crescimento anual de 9,1%, embora tenha recuado 3,6% na comparação trimestral.
Em sentido contrário, a carteira destinada a pessoas físicas terminou setembro em R$ 261,808 bilhões, queda de 0,6% no trimestre e de 0,9% em um ano. O banco relacionou o movimento à redução da exposição ao segmento massificado, que reúne operações direcionadas principalmente a clientes de menor renda.
A mudança é particularmente visível em algumas modalidades. O crédito consignado totalizou R$ 54,623 bilhões, recuo de 2,7% no trimestre e de 13,6% em 12 meses. O crédito pessoal e outras operações da categoria somaram R$ 33,219 bilhões, diminuição de 3,1% na comparação trimestral e 11,6% na anual.
Ao mesmo tempo, o crédito imobiliário para pessoas físicas atingiu R$ 79,213 bilhões, alta de 2,6% no trimestre e de 10,3% em um ano. O saldo de cartões de crédito chegou a R$ 65,733 bilhões, avanço anual de 9,8%.
A diferença entre as modalidades indica uma reorganização do balanço, com menor participação de linhas massificadas e ampliação de produtos considerados estratégicos pela administração. A seletividade pode limitar a exposição a determinados riscos, mas reduz o espaço para expansão de receitas em operações que tradicionalmente contribuem para a margem financeira.
Margem financeira perde força e limita o crescimento das receitas
A margem financeira bruta somou R$ 14,958 bilhões no terceiro trimestre, queda de 2,5% em relação ao segundo trimestre e de 1,6% na comparação anual. O indicador reúne os resultados financeiros associados à atividade bancária e permite acompanhar o efeito das operações de crédito, da captação de recursos e das atividades de mercado.
A margem financeira com clientes ficou em R$ 15,853 bilhões, recuo de 1,3% em três meses e de 4,2% em 12 meses. Segundo o Santander, a redução da participação do segmento de menor renda na carteira pressionou o resultado, apesar da evolução dos saldos médios em algumas linhas, como crédito imobiliário e cartões.
O spread anual, diferença entre a taxa cobrada nas operações de crédito e o custo de captação dos recursos, caiu de 10,63% no terceiro trimestre de 2025 para 9,70% em setembro de 2026. Em relação a junho, a diminuição foi de 0,33 ponto percentual.
A margem financeira com o mercado também permaneceu negativa. O resultado foi de R$ 895 milhões negativos, ante R$ 718 milhões negativos no trimestre anterior. Na comparação anual, porém, houve melhora de 33,6%, diante do resultado negativo de R$ 1,348 bilhão registrado no terceiro trimestre de 2025.
A evolução positiva dessa última linha em relação ao ano anterior não foi suficiente para compensar a retração da margem com clientes e as demais pressões operacionais.
As comissões, que incluem receitas de cartões, seguros, administração de recursos e outros serviços, totalizaram R$ 5,417 bilhões. Houve alta trimestral de 1,6%, mas queda anual de 2,4%. O desempenho desigual revela que algumas atividades continuam crescendo, sem que isso tenha sido suficiente para sustentar a receita total.
As receitas de cartões avançaram 8,1% em 12 meses, para R$ 1,695 bilhão. A linha de seguros chegou a R$ 1,189 bilhão, expansão de 5,6%. Já as receitas de administração de recursos aumentaram 23,7%, para R$ 599 milhões, enquanto fundos e previdência cresceram 28%, para R$ 247 milhões.
A principal pressão veio da corretagem e da colocação de títulos, cujas receitas recuaram 46,5% no ano, para R$ 228 milhões. As receitas de conta corrente diminuíram 11,3%, para R$ 791 milhões. A combinação de retração em atividades do mercado de capitais e redução de determinadas tarifas limitou o avanço das comissões.
Inadimplência de longo prazo avança e mantém provisões elevadas
A qualidade do crédito permanece entre os principais fatores de pressão sobre o balanço. A inadimplência acima de 90 dias atingiu 3,4% da carteira ampliada, ante 3,3% em junho e 2,8% em setembro de 2025. O aumento foi de 0,1 ponto percentual no trimestre e de 0,6 ponto em 12 meses.
O movimento foi mais intenso na carteira de pessoas físicas. Nesse segmento, a inadimplência superior a 90 dias chegou a 5,5%, avanço de 0,4 ponto percentual em relação ao trimestre anterior e de 1,3 ponto em um ano. O Santander apontou maior pressão nas operações direcionadas à baixa renda e no agronegócio, em um ambiente de endividamento elevado.
Nas pequenas e médias empresas, o indicador recuou 0,3 ponto percentual no trimestre, para 5%. Nas grandes empresas, permaneceu em 0,2%, praticamente estável. A evolução desigual demonstra que a deterioração não atingiu todos os segmentos com a mesma intensidade.
A inadimplência de curto prazo, medida pelos atrasos entre 15 e 90 dias, seguiu direção oposta e caiu de 3,3% em junho para 3,2% em setembro. A melhora nesse indicador, entretanto, ainda não foi suficiente para reverter a elevação dos atrasos mais prolongados.
Desde o primeiro trimestre de 2026, o banco passou a divulgar os índices de inadimplência alinhados à carteira ampliada, que inclui, além das operações de crédito, títulos e garantias. Os dados comparativos de 2025 foram ajustados para permitir a análise da evolução entre os períodos.
As despesas líquidas com provisões para perdas de crédito somaram R$ 7,460 bilhões, queda de 2,5% no trimestre, mas alta de 14,4% na comparação anual. O custo de crédito chegou a 3,89%, ante 3,81% no segundo trimestre.
Um cálculo a partir dos valores divulgados pelo banco mostra que as despesas líquidas com provisões corresponderam a aproximadamente 36,6% da receita total do trimestre, contra 31,4% um ano antes. A diferença de 5,2 pontos percentuais evidencia o peso crescente das perdas esperadas sobre a receita gerada pela operação.
O indicador não representa, isoladamente, a margem de lucro nem a taxa de inadimplência, mas permite dimensionar quanto o resultado destinado a cobrir perdas de crédito absorve da receita total. O avanço dessa participação ajuda a explicar a dificuldade de recomposição do lucro, mesmo com a redução das provisões na comparação trimestral.
Juros elevados mantêm pressão sobre famílias e concessão de crédito
O ambiente monetário brasileiro continua sendo relevante para a trajetória do Santander. Na decisão de setembro, o Comitê de Política Monetária do Banco Central reduziu a Selic para 13,75% ao ano, dando continuidade ao processo de flexibilização iniciado em 2026.
Apesar dos cortes, o custo do dinheiro permanece elevado, enquanto a instituição aponta o endividamento das famílias e a piora de determinadas carteiras como fatores de pressão sobre as provisões. Para os bancos, esse contexto afeta tanto a demanda por crédito quanto a capacidade de pagamento de parte dos tomadores.
A estratégia de reduzir a exposição a operações de maior risco procura limitar a deterioração dos ativos, mas também altera a composição das receitas. No caso do Santander, a diminuição da carteira de pessoas físicas contrasta com o crescimento das operações corporativas, que sustentaram a expansão do saldo total de crédito.
O desafio consiste em conciliar a seletividade na concessão com a recuperação das margens. Uma melhora mais consistente do resultado dependerá da evolução da inadimplência, da necessidade de provisões e da capacidade de ampliar receitas sem comprometer a qualidade da carteira.
Controle de custos ajuda, mas ainda não compensa a queda das receitas
As despesas gerais do Santander totalizaram R$ 6,383 bilhões no terceiro trimestre, redução de 3% em relação ao trimestre anterior e de 0,6% na comparação anual. As despesas com pessoal diminuíram 4,2% em 12 meses, para R$ 2,879 bilhões, enquanto as despesas administrativas aumentaram 2,5%, para R$ 3,505 bilhões.
O banco também reduziu sua estrutura operacional. O número de funcionários passou de 51.747 em setembro de 2025 para 45.782 em setembro deste ano, diminuição de 5.965 pessoas, equivalente a aproximadamente 11,5%. A quantidade de agências caiu de 961 para 827, redução de 134 unidades, ou cerca de 13,9%.
O índice de eficiência ficou em 38,8%, ante 37,5% um ano antes, embora tenha melhorado em relação aos 39,3% registrados no segundo trimestre. O indicador relaciona despesas operacionais e receitas consideradas em sua metodologia; por isso, a elevação anual mostra que a redução de custos não acompanhou suficientemente a pressão sobre as receitas.
A expansão dos ativos e do patrimônio líquido também não se traduziu em maior retorno. Os ativos totais atingiram R$ 1,312 trilhão, alta anual de 4,7%, enquanto o patrimônio líquido chegou a R$ 99,219 bilhões, avanço de 5,4%. No mesmo período, o ROAE recuou 5,6 pontos percentuais.
O quadro evidencia a diferença entre crescimento do balanço e criação de rentabilidade. O Santander ampliou seus ativos e preservou a expansão do crédito em segmentos estratégicos, mas a margem financeira menor, as provisões mais elevadas e a dificuldade de recuperar receitas impediram que esse crescimento se convertesse em maior lucro.
A próxima etapa da recuperação dependerá da combinação entre estabilização da inadimplência, alívio no custo de crédito e retomada da margem com clientes. Até que esses fatores avancem de forma conjunta, a instituição continuará enfrentando limitações para recuperar o retorno observado em 2025.
Fontes:
Santander Brasil – Informe de Resultados do terceiro trimestre de 2026, demonstração do resultado gerencial, carteira de crédito, provisões, indicadores de inadimplência, despesas e patrimônio líquido
Banco Central do Brasil – Comunicado do Comitê de Política Monetária de setembro de 2026 e decisão sobre a taxa Selic
BB Investimentos – Análise do resultado do Santander Brasil no terceiro trimestre de 2026, avaliação da rentabilidade, margem financeira e qualidade do crédito
Money Times – Levantamento das expectativas de mercado para o lucro e o ROAE do Santander Brasil e informações sobre a reação intradiária das units em 28 de outubro de 2026







