Senado aprova PL da Dosimetria e reacende debate sobre penas, atos golpistas e cenário político
O Senado Federal aprovou nesta quarta-feira o PL da Dosimetria, proposta legislativa que altera critérios de aplicação de penas para crimes contra o Estado Democrático de Direito e que, na prática, pode beneficiar Jair Bolsonaro e outros condenados ou investigados pelos atos de 8 de janeiro de 2023. A votação, marcada por forte polarização política, expôs divisões no Congresso e reacendeu o debate jurídico, institucional e eleitoral no país.
Com 48 votos favoráveis, 25 contrários, uma abstenção e cinco ausências, o PL da Dosimetria avançou após já ter sido aprovado na Câmara dos Deputados e na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado. O texto agora segue para sanção presidencial, em meio à pressão do governo para veto e à articulação da oposição para consolidar a mudança na legislação penal.
A aprovação ocorre em um momento sensível da política brasileira, com investigações em curso, decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) ainda pendentes e um cenário eleitoral que começa a se desenhar para 2026. Mais do que uma simples alteração técnica no Código Penal, o PL da Dosimetria tornou-se símbolo de uma disputa maior sobre punição, responsabilização e narrativa política dos eventos que marcaram o início de 2023.
O que é o PL da Dosimetria e por que ele gera controvérsia
O PL da Dosimetria trata da forma como as penas são calculadas e aplicadas nos crimes contra o Estado Democrático de Direito. O projeto estabelece novos parâmetros para a progressão de regime, amplia possibilidades de redução de pena e redefine a forma como crimes conexos são considerados na sentença.
Na prática, a proposta cria mecanismos que podem resultar em penas menores e progressão mais rápida para regimes mais brandos, especialmente para condenados classificados como participantes sem papel de liderança ou sem envolvimento direto em planejamento e articulação dos atos.
Críticos do PL da Dosimetria argumentam que a mudança enfraquece o caráter pedagógico das condenações e abre margem para interpretações que beneficiam figuras centrais investigadas por tentativa de golpe. Defensores, por outro lado, sustentam que a proposta corrige excessos, garante proporcionalidade e diferencia níveis de participação nos crimes.
Como foi a votação no Senado
A aprovação do PL da Dosimetria no plenário do Senado revelou uma maioria sólida formada por partidos do centro e da direita, além de dissidências em siglas tradicionalmente associadas à base governista.
Todos os 14 senadores do PL votaram favoravelmente ao projeto, reforçando a posição do partido de Jair Bolsonaro. União Brasil, Republicanos, PSB, PSDB e Novo também registraram voto integralmente favorável de suas bancadas, o que ampliou significativamente o placar pró-projeto.
Do outro lado, senadores do PT e de partidos aliados ao governo concentraram os votos contrários, defendendo que o PL da Dosimetria representa um retrocesso institucional e uma sinalização negativa no enfrentamento a ataques à democracia.
A única abstenção registrada foi do senador Angelo Coronel, do PSD da Bahia, enquanto cinco parlamentares estavam ausentes no momento da votação.
A tramitação acelerada e o papel da CCJ
Antes de chegar ao plenário, o PL da Dosimetria passou pela Comissão de Constituição e Justiça, onde foi aprovado por 17 votos a 7. A tramitação relativamente rápida chamou atenção de especialistas em direito penal e ciência política, que apontam articulação intensa nos bastidores para garantir o avanço da proposta ainda em 2025.
Na CCJ, o debate foi marcado por embates técnicos sobre constitucionalidade, separação de poderes e segurança jurídica. Parlamentares favoráveis sustentaram que o projeto não interfere em decisões judiciais já proferidas, mas apenas redefine parâmetros legais futuros. Oposição e governo, por sua vez, alertaram para o risco de efeitos retroativos indiretos.
O impacto direto sobre condenados do 8 de janeiro
Um dos pontos mais sensíveis do PL da Dosimetria é a previsão de redução de até dois terços da pena para condenados classificados como vândalos comuns nos ataques de 8 de janeiro de 2023. A proposta diferencia esses réus daqueles enquadrados como articuladores ou financiadores, o que pode resultar em revisões significativas de sentenças.
Outro trecho central estabelece que o crime de tentativa de golpe de Estado, que possui penas mais altas, pode ser absorvido pelo crime de tentativa de abolição do Estado Democrático de Direito quando houver condenação simultânea. Essa mudança altera a lógica atual de cumulação de penas e pode reduzir significativamente o tempo de prisão em casos específicos.
Juristas divergem sobre os efeitos práticos do PL da Dosimetria. Alguns avaliam que a aplicação dependerá de interpretação judicial caso a caso, enquanto outros alertam para a possibilidade de pedidos de revisão de pena com base na nova legislação.
Jair Bolsonaro no centro do debate político
Embora o texto do PL da Dosimetria não cite nomes, a proposta foi rapidamente associada a Jair Bolsonaro, ex-presidente e figura central nas investigações sobre os atos golpistas. A oposição vê o projeto como uma tentativa indireta de reduzir eventuais punições ao ex-mandatário e de reposicionar sua base política para o cenário eleitoral futuro.
Aliados de Bolsonaro defendem que o PL da Dosimetria não tem destinatário específico e que a legislação deve ser geral, abstrata e impessoal. Para eles, a proposta busca garantir equilíbrio na aplicação das penas e evitar condenações consideradas excessivas ou desproporcionais.
Independentemente da interpretação, o avanço do projeto reforça a centralidade do tema na disputa política e mantém o ex-presidente no centro das atenções, mesmo fora do cargo.
Governo pressiona por veto presidencial
Após a aprovação do PL da Dosimetria no Senado, o líder do governo no Congresso, senador Randolfe Rodrigues, defendeu publicamente que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vete integralmente o texto. A avaliação do Planalto é de que a proposta fragiliza o combate a crimes contra a democracia e envia um sinal negativo à sociedade e às instituições.
A decisão de Lula será estratégica. Um veto pode reforçar o discurso institucional do governo, mas também intensificar o embate com o Congresso, que já demonstrou força para aprovar o projeto com margem confortável. Caso o veto seja derrubado, o PL da Dosimetria entrará em vigor mesmo contra a vontade do Executivo.
Repercussão entre partidos e cenário eleitoral
A votação do PL da Dosimetria também funcionou como termômetro do alinhamento político para os próximos anos. Partidos que caminharam juntos na aprovação sinalizam possível convergência em pautas futuras, especialmente relacionadas a segurança jurídica, revisão penal e crítica a decisões do Judiciário.
Analistas avaliam que o resultado fortalece a oposição e amplia o discurso de que há maioria parlamentar favorável a uma agenda mais conservadora no Congresso. para o governo, o desafio passa a ser recompor base e evitar novas derrotas em temas sensíveis.
O que muda a partir de agora
Com a aprovação no Senado, o PL da Dosimetria entra na fase final do processo legislativo. Caso seja sancionado, caberá ao Judiciário interpretar e aplicar as novas regras, definindo alcance, limites e eventuais efeitos sobre condenações em andamento.
Mesmo antes de uma eventual sanção, o projeto já cumpre um papel político relevante: recoloca o debate sobre os atos de 8 de janeiro no centro da agenda, pressiona o Executivo e redefine estratégias de oposição e governo para os próximos capítulos da disputa institucional.
Independentemente do desfecho, o PL da Dosimetria consolida-se como uma das propostas mais controversas do atual ciclo legislativo, com potencial de impacto duradouro sobre o sistema penal, a política e a democracia brasileira.






