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BC sinaliza corte dos juros pelo Banco Central a partir de março após quase dois anos

por Camila Braga
29/01/2026 às 03h21
em Economia
Bc Sinaliza Corte Dos Juros Pelo Banco Central A Partir De Março Após Quase Dois Anos - Gazeta Mercantil

BC sinaliza primeiro corte dos juros em quase dois anos e abre nova fase da política monetária

O Banco Central (BC) deu o sinal mais claro desde 2024 de que o ciclo de aperto monetário chegou ao fim. Ao decidir manter a taxa Selic em 15% ao ano, o Comitê de Política Monetária (Copom) indicou que o corte dos juros pelo Banco Central deve começar já na próxima reunião, marcada para março. A comunicação oficial, lida com lupa por analistas, foi interpretada como o início de uma inflexão estratégica após quase dois anos de política monetária restritiva.

A sinalização ocorre em um momento de arrefecimento das pressões inflacionárias, desaceleração gradual da atividade econômica e melhora das expectativas para o câmbio, fatores que, combinados, criam um ambiente mais favorável para a flexibilização dos juros. Ainda assim, o BC reforçou o discurso de cautela, deixando claro que o processo será conduzido de forma gradual e dependente dos dados.

Leia também: Bitcoin hoje sobe com expectativa de corte de juros pelo Fed.

Comunicação do Copom indica mudança de rumo

O comunicado divulgado após a reunião foi considerado objetivo ao antecipar que, “em se confirmando o cenário esperado”, o colegiado pretende iniciar a flexibilização da política monetária já no próximo encontro. Na prática, trata-se do mais forte indicativo até agora de que o corte dos juros pelo Banco Central está no radar imediato da autoridade monetária.

A decisão de manter a Selic inalterada em 15% ao ano foi unânime e amplamente esperada pelo mercado. O ponto central, porém, foi a mudança de tom. O Copom manteve o compromisso com a convergência da inflação à meta de 3%, mas sinalizou que o atual nível de juros já cumpre o papel de conter a demanda sem necessidade de novos apertos.

Leia também: Copom indica corte de juros só após o Carnaval.

Primeira redução desde 2024 pode ocorrer em março

Caso o corte seja confirmado na reunião de março, será a primeira redução da Selic desde maio de 2024, quando a taxa passou de 10,75% para 10,5%. A partir de setembro daquele ano, diante da reaceleração inflacionária, o BC retomou o ciclo de alta, levando os juros ao patamar atual, mantido desde junho de 2025.

Agora, com a inflação dando sinais mais consistentes de desaceleração, o corte dos juros pelo Banco Central volta a ser considerado viável. Projeções de mercado apontam para uma redução inicial de 0,5 ponto percentual, levando a Selic para 14,5% ao ano, movimento visto como compatível com o nível elevado dos juros reais no país.

Inflação mais comportada fortalece cenário de flexibilização

Um dos principais fatores que sustentam a mudança de postura do BC é o comportamento da inflação. As projeções oficiais para o chamado horizonte relevante, que se estende até o terceiro trimestre de 2027, indicam um IPCA de 3,2%, abaixo das estimativas anteriores. Para 2026, a expectativa recuou de 3,5% para 3,1% no caso dos preços livres, justamente aqueles mais sensíveis à política de juros.

Esse cenário reforça a avaliação de que o corte dos juros pelo Banco Central pode ocorrer sem comprometer o objetivo central da política monetária. Ainda assim, o Copom destacou que manterá uma postura restritiva pelo tempo necessário para assegurar a ancoragem das expectativas.

Câmbio ajuda e cria “defasagem” favorável ao BC

Outro elemento relevante é o comportamento do câmbio. As projeções do BC consideram um dólar em torno de R$ 5,35, valor acima das cotações recentes, próximas de R$ 5,20. Essa diferença cria uma espécie de “defasagem” que torna o cenário inflacionário mais benigno do que o inicialmente projetado.

A valorização do real tem sido influenciada tanto por fatores internos, como a desaceleração econômica, quanto por fatores externos, incluindo a busca global por alternativas ao dólar. Esse contexto reforça a leitura de que há espaço técnico para o corte dos juros pelo Banco Central, desde que a autoridade mantenha credibilidade e previsibilidade em suas decisões.

Juros reais seguem entre os mais altos do mundo

Mesmo com a possível inflexão, o Brasil ainda ostenta uma das maiores taxas de juros reais do planeta. Levantamentos recentes apontam juros reais acima de 9%, colocando o país entre os líderes globais nesse ranking, atrás apenas de poucas economias emergentes.

Esse patamar elevado reforça o argumento de que o início do corte dos juros pelo Banco Central não representaria um afrouxamento excessivo da política monetária, mas sim um ajuste gradual a um cenário macroeconômico menos pressionado pela inflação.

Estratégia do BC busca preservar credibilidade

Ao longo do comunicado, o BC deixou claro que o ritmo e a magnitude do ciclo de cortes dependerão da evolução dos dados econômicos. A palavra “cautela” foi mantida como eixo central da estratégia, indicando que a autoridade monetária não pretende repetir erros do passado, quando cortes prematuros comprometeram a estabilidade de preços.

Essa postura é vista como essencial para preservar a credibilidade do BC junto ao mercado financeiro. Um processo bem calibrado de corte dos juros pelo Banco Central tende a reduzir prêmios de risco, melhorar as condições financeiras e permitir uma flexibilização mais prolongada ao longo do tempo.

Impactos esperados na economia real

A expectativa pelo início do ciclo de cortes já começa a influenciar decisões de investimento e consumo. Juros mais baixos tendem a aliviar o custo do crédito, estimular investimentos produtivos e favorecer setores sensíveis à taxa de juros, como construção civil e varejo.

No entanto, o BC deixou claro que não pretende impulsionar fortemente a economia no curto prazo. O objetivo do corte dos juros pelo Banco Central é promover um ajuste fino, compatível com a convergência da inflação à meta e com a estabilidade financeira.

Cenário internacional exige atenção redobrada

Apesar dos sinais positivos no ambiente doméstico, o Copom destacou que o cenário externo segue desafiador. A política monetária dos Estados Unidos, marcada por cautela do Federal Reserve, e as tensões geopolíticas globais impõem riscos adicionais aos países emergentes.

Nos EUA, o Fed decidiu manter os juros inalterados, interrompendo temporariamente o ciclo de cortes iniciado no ano anterior. A sinalização de que novas reduções podem demorar reforça a necessidade de prudência por parte do BC brasileiro ao conduzir o corte dos juros pelo Banco Central.

Expectativas para o restante do ano

Analistas projetam que, caso o primeiro corte seja confirmado em março, o ciclo possa se estender ao longo de 2026, levando a Selic para patamares próximos de 12,5% ao ano no fim do período. Tudo dependerá da evolução da inflação, do câmbio e do cenário fiscal.

O consenso é que o BC dificilmente acelerará o ritmo de cortes sem uma ancoragem sólida das expectativas. Assim, o corte dos juros pelo Banco Central deve ocorrer de forma gradual, previsível e condicionada aos dados, reforçando a estratégia de longo prazo da autoridade monetária.

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