A economia mundial deverá crescer 2,6% em 2026, abaixo dos 2,9% registrados no ano passado, segundo o Relatório sobre Comércio e Desenvolvimento divulgado nesta sexta-feira (9) pela Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad). A nova avaliação mostra que a atividade econômica internacional continua avançando, mas enfrenta dificuldades para transformar a expansão do comércio em ganhos de renda e produtividade distribuídos entre os países. O conflito no Oriente Médio, o encarecimento da energia e a concentração dos investimentos tecnológicos estão entre os fatores que condicionam o desempenho global.
O levantamento apresenta uma diferença importante entre o ritmo da produção mundial e o das transações comerciais. Enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) global deverá avançar 2,6%, o volume do comércio internacional de bens e serviços tem expansão estimada em aproximadamente 4%, considerando preços constantes. Em 2025, as trocas internacionais alcançaram o recorde de US$ 35 trilhões. Para 2026, a valorização das mercadorias associada ao choque energético também contribui para elevar os valores negociados, sem necessariamente representar aumento equivalente nas quantidades comercializadas.
A desaceleração é mais intensa entre as economias em desenvolvimento, cuja expansão deverá passar de 4,7% em 2025 para 4% neste ano. A perda de 0,7 ponto percentual corresponde a uma redução de aproximadamente 14,9% no ritmo de crescimento anterior, enquanto a economia mundial apresenta desaceleração relativa de 10,3%. Outro dado relevante é o estreitamento da vantagem de crescimento dos países em desenvolvimento sobre a média global: a diferença diminui de 1,8 para 1,4 ponto percentual, evidenciando a dificuldade dessas economias em acelerar sua aproximação dos níveis de renda dos países mais ricos.
Choque do petróleo amplia custos e compromete a recuperação econômica
A pressão sobre os preços de energia tornou-se um dos principais obstáculos à atividade econômica internacional. Nas semanas posteriores ao início do conflito no Oriente Médio, o petróleo Brent passou de aproximadamente US$ 70 para mais de US$ 110 por barril, conforme os dados reunidos pela Unctad. A diferença representa uma valorização superior a 57%, com efeitos sobre os custos de transporte, geração de energia, produção industrial e distribuição de mercadorias. A dimensão do impacto varia conforme a dependência de combustíveis importados, a estrutura de preços internos e a capacidade das empresas de absorver despesas adicionais.
O encarecimento ocorre em uma região fundamental para o abastecimento energético mundial. Em análise publicada em março, a Unctad identificou que o Estreito de Ormuz concentra aproximadamente um quarto do petróleo transportado por via marítima no planeta. A passagem também responde por cerca de um terço do comércio marítimo internacional de fertilizantes, equivalente a aproximadamente 16 milhões de toneladas. Interrupções nesse corredor afetam, portanto, não apenas o fornecimento de combustíveis, mas também insumos utilizados pela agricultura e por diferentes segmentos industriais.
Os efeitos sobre a inflação não dependem exclusivamente da cotação internacional do petróleo. A elevação dos fretes, dos seguros marítimos e dos custos de produção pode alcançar os preços de alimentos e produtos industrializados, inclusive em economias geograficamente distantes do conflito. Países importadores líquidos de energia enfrentam pressão adicional sobre suas contas externas, enquanto famílias de menor renda tendem a sofrer proporcionalmente mais com despesas relacionadas a transporte, alimentação e eletricidade.
A instabilidade também alcançou os mercados financeiros. Segundo a Unctad, a volatilidade dos fluxos internacionais de capitais dobrou desde o início do conflito, elevando a exposição de países dependentes de financiamento externo. Em junho, o Banco Mundial estimou que a dívida pública agregada das economias em desenvolvimento havia passado de menos de 40% do PIB em 2010 para mais de 70%. Esse aumento restringe a capacidade fiscal de governos que precisam financiar infraestrutura, serviços públicos e medidas de proteção econômica diante de novos choques.
Investimentos em inteligência artificial concentram lucros e oportunidades
A expansão das tecnologias de inteligência artificial tornou-se uma das principais forças de sustentação do comércio mundial, especialmente nas cadeias de semicondutores, servidores e equipamentos de computação avançada. A Unctad, entretanto, identifica uma concentração expressiva dos benefícios econômicos desse crescimento. O acesso às etapas mais rentáveis da produção depende de investimentos elevados, conhecimento especializado e capacidade tecnológica, fatores que favorecem empresas e países já estabelecidos nos segmentos de maior valor agregado.
Um estudo de caso apresentado no relatório examina a distribuição do valor agregado rastreado em um equipamento avançado de servidores de inteligência artificial. Os lucros após impostos representam 68% desse valor, enquanto a remuneração dos trabalhadores corresponde a menos de 15%. A comparação indica que a participação dos lucros é superior a quatro vezes e meia a parcela destinada ao trabalho no exemplo analisado. O resultado não representa necessariamente toda a indústria tecnológica, mas ilustra como a expansão da produção pode beneficiar de maneira muito diferente os participantes de uma mesma cadeia.
A concentração aparece também na localização dos novos investimentos internacionais. Entre 2020 e 2025, aproximadamente 70% do valor dos projetos greenfield anunciados em setores estratégicos de alto valor ficou nas economias desenvolvidas. O levantamento inclui semicondutores, infraestrutura de inteligência artificial e tecnologias associadas à transição energética. Esses projetos envolvem a implantação de novas operações produtivas e podem contribuir para estabelecer atividades industriais e tecnológicas nos países que recebem os recursos.
Nos países em desenvolvimento, a maior presença relativa do investimento estrangeiro ocorre em minerais críticos e materiais estratégicos, segmento no qual concentram cerca de 60% dos novos investimentos considerados pela Unctad. A agência destaca a situação africana: embora o continente responda pela maior parte da extração mundial de cobalto, retém menos de 1% do valor nas cadeias de suprimentos de tecnologias verdes analisadas. A diferença evidencia as limitações de uma inserção internacional baseada predominantemente no fornecimento de matérias-primas, sem participação proporcional nas etapas industriais posteriores.
Ásia responderá por 59% do crescimento global em 2026
A distribuição geográfica da expansão econômica também revela diferenças importantes. Segundo a Unctad, a Ásia deverá responder por 59% do crescimento mundial em 2026. A Índia aparece entre os destaques, com avanço projetado de 7,3%, seguida pela Indonésia, com 5,2%, e pela China, com 4,5%. O desempenho da região reflete a combinação de mercados consumidores, capacidade industrial e participação em cadeias produtivas internacionais, embora os resultados individuais permaneçam sujeitos às condições econômicas de cada país.
O crescimento asiático ocorre simultaneamente à reorganização das relações comerciais entre as grandes potências. As trocas entre Estados Unidos e China diminuíram mais de 20% desde 2024, enquanto países do Leste Asiático ampliaram suas operações comerciais com ambos os mercados. O movimento mostra que a fragmentação das relações bilaterais não significa necessariamente redução generalizada das transações internacionais. Parte dos fluxos passa a ser reorganizada entre outros participantes das cadeias produtivas, criando oportunidades para economias capazes de atender às novas exigências comerciais.
Essas oportunidades, contudo, não estão igualmente disponíveis. Restrições à exportação de componentes, mecanismos de avaliação de investimentos estrangeiros e exigências de fornecimento dificultam a entrada de novos participantes em setores estratégicos. A Unctad observa que a aproximação dos níveis de renda dos países ricos perdeu força em grande parte do mundo em desenvolvimento desde meados da década passada. A industrialização continua sendo uma possibilidade de avanço econômico, mas exige capacidades tecnológicas e financeiras mais complexas do que aquelas necessárias em etapas anteriores da globalização.
Na América Latina e no Caribe, a perspectiva permanece mais moderada. Em suas projeções de junho, o Banco Mundial estimou crescimento regional de 2,2% em 2026, com aceleração para 2,5% em 2027. Para economias como a brasileira, a reorganização comercial e a volatilidade das commodities representam canais relevantes de transmissão das mudanças internacionais, tanto pelas exportações quanto pelos custos de insumos importados. O resultado efetivo depende da composição das atividades produtivas e das condições internas de investimento, financiamento e consumo.
Banco Mundial e FMI divergem sobre intensidade da desaceleração
A previsão divulgada pela Unctad situa-se entre as estimativas apresentadas anteriormente por outros organismos multilaterais. Em junho, o Banco Mundial projetou crescimento global de 2,5% para 2026, enquanto o Fundo Monetário Internacional (FMI) estimou, em julho, expansão de 3%. A diferença entre a avaliação mais recente da Unctad e a do FMI chega a 0,4 ponto percentual, enquanto a distância em relação ao Banco Mundial é de apenas 0,1 ponto percentual.
As projeções refletem datas de elaboração, hipóteses e metodologias próprias. Apesar das diferenças, os organismos identificam efeitos negativos do choque energético sobre países importadores de combustíveis e reconhecem a contribuição dos investimentos tecnológicos para sustentar parte da atividade mundial. Em julho, o FMI estimou inflação global de 4,7% em 2026, depois de 4,1% em 2025, indicando uma interrupção no processo de desaceleração dos preços observado anteriormente.
Os cenários adversos também permanecem relevantes. O Banco Mundial calculou, em junho, que o crescimento internacional poderia cair para 1,3% em 2026 caso as interrupções no fornecimento de energia fossem mais graves e viessem acompanhadas de forte instabilidade financeira. Trata-se de uma simulação de risco, e não da previsão central da instituição. A duração das restrições energéticas e a evolução dos custos de financiamento estão entre as variáveis capazes de modificar o desempenho econômico no restante do ano.
Redução da ajuda internacional agrava dificuldades dos países mais pobres
Além dos efeitos imediatos da guerra e das mudanças comerciais, a Unctad aponta uma deterioração das condições de financiamento do desenvolvimento. A assistência oficial internacional deverá diminuir quase 7% em 2026, registrando a terceira queda anual consecutiva. A redução atinge particularmente países de menor renda e pequenos Estados insulares, para os quais os recursos externos representam uma parcela importante do financiamento de infraestrutura, programas públicos e medidas de adaptação econômica.
A agência defende que a resposta aos choques de energia não fique restrita ao aumento dos juros ou à contenção de despesas governamentais. Como parte da inflação decorre de dificuldades de oferta, investimentos em infraestrutura energética e diversificação do abastecimento podem reduzir vulnerabilidades. O relatório ressalta que, desde 2024, fontes renováveis apresentaram custos inferiores aos da alternativa fóssil mais barata de nova instalação em mais de 90% dos casos avaliados, embora a viabilidade dos projetos dependa das condições locais de financiamento e infraestrutura.
Outra prioridade é ampliar a participação doméstica na renda gerada pelas cadeias produtivas. A Unctad recomenda integrar políticas industriais, tecnológicas e financeiras, estimulando conexões entre investimentos estrangeiros e fornecedores locais. A cooperação regional também aparece como alternativa para ampliar mercados e diminuir obstáculos comerciais, especialmente entre economias em desenvolvimento que buscam diversificar suas atividades e reduzir a dependência de poucos parceiros.
O diagnóstico apresentado em 9 de outubro mostra que a continuidade do crescimento mundial não assegura, por si só, uma distribuição equilibrada de seus benefícios. Com o comércio em expansão, a produção tecnológica concentrada e os custos energéticos ainda sujeitos à instabilidade geopolítica, a capacidade de transformar oportunidades internacionais em renda, empregos e investimentos produtivos será determinante para o desempenho dos países em desenvolvimento nos próximos anos.
Fontes:
Unctad – divulgação de 9 de outubro de 2026 sobre o Relatório sobre Comércio e Desenvolvimento, com projeções econômicas, comércio internacional, investimentos estratégicos e distribuição regional do crescimento.
Unctad – análise de março de 2026 sobre as interrupções no Estreito de Ormuz e seus efeitos sobre petróleo, fertilizantes e comércio marítimo.
Banco Mundial – Perspectivas Econômicas Globais de junho de 2026, com projeções de crescimento, evolução do endividamento público, inflação e cenários de risco.
Fundo Monetário Internacional – atualização de julho de 2026 das Perspectivas da Economia Mundial, com estimativas de crescimento, inflação e efeitos do conflito no Oriente Médio.








