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Vivo (VIVT3) lança conexão via satélite com Starlink para 50 milhões de clientes

Novo serviço permite usar WhatsApp e mapas em áreas sem sinal de celular, com acesso gratuito por até 12 meses e restrições para chamadas de emergência.

por Bianca Neri
27/10/2026 às 13h33
em Tecnologia
Starlink - Gazeta Mercantil

A Vivo (VIVT3) anunciou uma parceria com a Starlink, empresa de conectividade via satélite da SpaceX, de Elon Musk, para oferecer comunicação diretamente entre celulares e satélites em regiões brasileiras sem cobertura de telefonia móvel. O serviço, denominado Vivo Satélite, começou a funcionar na segunda-feira (26) e contempla inicialmente cerca de 50 milhões de clientes elegíveis, entre consumidores e empresas. A iniciativa amplia o alcance potencial da operadora para rodovias, propriedades rurais e localidades remotas, sem exigir a instalação de antenas individuais ou equipamentos adicionais.

A tecnologia utilizada é conhecida como Direct-to-Device (D2D) e permite que smartphones compatíveis estabeleçam conexão com satélites de órbita baixa quando não encontram uma rede celular terrestre disponível. Na primeira etapa, o serviço oferece funcionalidades selecionadas, como mensagens pelo WhatsApp, SMS, compartilhamento de localização, aplicativos de mapas e chamadas de voz por aplicativos compatíveis. A conexão depende de condições técnicas específicas e não oferece a mesma experiência de navegação de uma rede convencional 4G ou 5G.

O lançamento representa um movimento estratégico para a Telefônica Brasil, controladora da Vivo, em um mercado no qual a cobertura geográfica passou a ganhar importância na disputa por clientes. Embora as redes móveis alcancem a maior parte da população brasileira, extensas áreas do território nacional permanecem sem infraestrutura terrestre de telecomunicações. A possibilidade de complementar as antenas convencionais com satélites cria oportunidades comerciais no agronegócio, no transporte, na logística e em atividades realizadas fora dos centros urbanos.

A expansão também ocorre em um momento de transformação do mercado de telecomunicações. A Starlink vem ampliando suas operações brasileiras de banda larga fixa e desenvolvendo a capacidade de conectar aparelhos móveis diretamente à sua constelação orbital. Para a Vivo, o acordo representa uma maneira de oferecer cobertura complementar sem depender exclusivamente da construção de novas torres em áreas de baixa densidade populacional.

Como funciona a conexão entre celulares da Vivo e satélites da Starlink

O funcionamento do Vivo Satélite se diferencia dos serviços tradicionais de internet por satélite. Na modalidade convencional, o usuário precisa instalar uma antena receptora e utilizar equipamentos específicos para acessar a rede. Com a tecnologia D2D, os satélites operam como uma extensão da infraestrutura celular, permitindo a comunicação com aparelhos compatíveis com padrões de telefonia móvel.

A Starlink utiliza satélites equipados com sistemas de comunicação capazes de estabelecer conexões com dispositivos LTE. A infraestrutura orbital se integra à rede da operadora por meio de acordos técnicos e comerciais, permitindo que o celular reconheça a rede satelital de forma semelhante ao funcionamento do roaming entre prestadoras de telefonia.

Segundo as informações técnicas disponibilizadas pela própria Starlink, os satélites utilizam antenas avançadas que desempenham funções equivalentes às de uma estação de telefonia celular. A comunicação com a infraestrutura terrestre é complementada por conexões entre os próprios satélites, permitindo encaminhar o tráfego de dados até os sistemas das operadoras parceiras.

No caso da Vivo, a conexão satelital é acionada quando o aparelho não encontra cobertura móvel disponível, inclusive por meio de redes terrestres compatíveis de outras prestadoras em roaming. O serviço não foi desenvolvido para reforçar uma conexão 4G ou 5G que esteja funcionando com baixa intensidade. Portanto, um cliente que permaneça conectado a uma rede terrestre com sinal fraco não necessariamente poderá selecionar a alternativa via satélite.

Outra condição indispensável é a visibilidade do céu. Edificações, túneis, vegetação densa, estruturas metálicas e características do relevo podem prejudicar ou impedir a comunicação. A Vivo esclarece que a conectividade foi planejada principalmente para utilização em ambientes externos, nos quais há menos obstáculos entre o aparelho e os satélites.

Essas limitações tornam necessária uma distinção entre alcance geográfico potencial e disponibilidade efetiva do serviço. Embora a parceria seja apresentada como uma expansão da cobertura para todo o território brasileiro, isso não significa que qualquer celular conseguirá acessar a rede em todas as localidades ou circunstâncias. A conexão continuará dependendo da compatibilidade do equipamento, da disponibilidade dos satélites e das condições ambientais.

WhatsApp, mapas e mensagens estão disponíveis, mas chamadas de emergência não funcionam

A primeira versão do Vivo Satélite prioriza serviços essenciais de comunicação e localização. Entre os aplicativos e protocolos contemplados estão WhatsApp, SMS, MMS, RCS, iMessage, Google Mensagens, Google Maps, Apple Maps e o aplicativo oficial da Vivo. O acesso a essas funcionalidades não consome a franquia de internet do plano móvel, conforme as condições comerciais divulgadas pela operadora.

No WhatsApp, o serviço contempla mensagens de texto e áudio, envio de arquivos de mídia e chamadas de voz, respeitadas as limitações técnicas da conexão. As chamadas de vídeo, por outro lado, não estão disponíveis. O acesso livre à internet, a aplicativos não autorizados e a páginas externas também não faz parte da oferta inicial.

A possibilidade de utilizar mapas e compartilhar localização pode beneficiar motoristas, trabalhadores rurais, profissionais que atuam em campo e pessoas que precisam atravessar regiões sem sinal convencional. Entretanto, a operadora alerta que mensagens podem sofrer atrasos e que a qualidade das chamadas por aplicativo está sujeita a interrupções relacionadas à movimentação dos satélites e às condições de recepção.

Uma restrição particularmente relevante aparece nos termos oficiais de utilização: o Vivo Satélite não oferece suporte a chamadas destinadas aos serviços de emergência nem ao recebimento de alertas públicos da Defesa Civil enquanto o dispositivo estiver conectado à rede satelital.

A limitação exige atenção porque a conectividade via satélite costuma ser associada à segurança em locais isolados. Embora seja possível utilizar aplicativos compatíveis para comunicar uma situação de dificuldade a outras pessoas, a tecnologia disponível nesta fase não substitui integralmente os canais convencionais de emergência.

A própria Vivo estabelece em suas condições contratuais que o serviço não deve ser considerado o único ou principal meio de comunicação em situações críticas. A empresa também ressalta que a cobertura não é garantida de maneira contínua ou ininterrupta, podendo sofrer alterações por fatores técnicos, ambientais, operacionais ou regulatórios.

Serviço será gratuito até outubro de 2027 para pessoas físicas

A estratégia comercial prevê um período promocional de utilização sem cobrança adicional para clientes elegíveis. Para consumidores pessoa física, os termos oficiais estabelecem a disponibilização experimental entre 26 de outubro de 2026 e 25 de outubro de 2027, período correspondente a aproximadamente 12 meses.

No segmento empresarial, a gratuidade inicial será menor. Os documentos contratuais da Vivo Empresas estabelecem a oferta promocional entre 26 de outubro de 2026 e 26 de janeiro de 2027, equivalente a três meses. Após essa etapa, os clientes corporativos poderão contratar o produto de acordo com as condições comerciais que estiverem vigentes.

A elegibilidade dos consumidores depende do plano contratado. Estão contempladas determinadas ofertas das modalidades Pós-Pago, Controle, Vivo Lite, Tourist Plan e Pré-Pago. Nesta última categoria, o acesso está associado a promoções com saldo a partir de R$ 30, além dos demais requisitos estabelecidos pela operadora.

Para utilizar o serviço, também será necessário possuir um smartphone incluído na relação de aparelhos compatíveis, chip 4G, 5G ou eSIM habilitado, sistema operacional atualizado e roaming nacional de dados ativado. A presença de tecnologia 4G no aparelho, isoladamente, não garante compatibilidade com a conexão satelital.

A ativação deverá ocorrer automaticamente nas condições adequadas de uso. Quando isso não acontecer, a Vivo informa que poderá ser necessário realizar uma busca manual nas configurações do telefone para selecionar a rede identificada como VIVO STARLINK.

Até o lançamento, não havia sido apresentada uma tabela definitiva de preços para os consumidores após o encerramento da gratuidade. Os termos comerciais permitem modificações nas condições de elegibilidade, disponibilidade e oferta promocional, observadas as regras de comunicação prévia previstas pela companhia.

A gratuidade inicial pode contribuir para acelerar a adoção da tecnologia e permitir que a operadora avalie o comportamento de utilização antes de definir sua estratégia de monetização. Para empresas, o modelo abre possibilidades de contratação de serviços complementares de conectividade, particularmente em operações que dependem de equipes distribuídas por regiões com infraestrutura limitada.

Brasil tem 1,1 milhão de conexões de banda larga por satélite de baixa órbita

A parceria foi anunciada no mesmo dia em que a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) divulgou seu Relatório de Monitoramento da Competição referente ao terceiro trimestre de 2026. O documento mostra a expansão simultânea das redes móveis e dos serviços de comunicação por satélite no mercado brasileiro.

Segundo a agência, o país encerrou o período com 280,5 milhões de acessos de telefonia móvel. Desse total, 69,8 milhões utilizavam tecnologia 5G, equivalente a aproximadamente 24,9% das conexões. Os números mostram o crescimento das redes de maior capacidade, mas também evidenciam a dimensão do mercado que ainda depende de tecnologias anteriores.

Na banda larga fixa, a Anatel contabilizou 57,9 milhões de assinaturas, incluindo 46,92 milhões de acessos por fibra óptica e aproximadamente 1,10 milhão por satélites de baixa órbita. Os serviços dessa última categoria representavam cerca de 1,9% do total de conexões fixas do país.

A participação relativamente pequena dos satélites no conjunto da banda larga fixa não elimina sua relevância para localidades nas quais a instalação de cabos ou redes terrestres apresenta custos elevados. Em determinadas regiões, especialmente nas áreas rurais e de difícil acesso, a conectividade orbital representa uma alternativa de infraestrutura independentemente de sua participação no mercado nacional.

É importante distinguir, porém, a banda larga fixa via satélite do novo serviço destinado aos celulares. As 1,10 milhão de conexões registradas pela Anatel correspondem ao primeiro mercado e não representam a quantidade de smartphones habilitados à tecnologia D2D. Também não devem ser confundidas com os aproximadamente 50 milhões de clientes que a Vivo considera elegíveis à oferta anunciada.

A diferença entre esses indicadores é relevante para acompanhar a evolução comercial da parceria. O número de linhas potencialmente atendidas não equivale ao total de usuários que efetivamente utilizarão a conexão satelital, tampouco representa uma previsão de novos clientes pagantes.

Anatel mantém regras experimentais para a comunicação direta com satélites

A implementação da tecnologia também depende da evolução regulatória brasileira. A Anatel mantém um ambiente regulatório experimental destinado à utilização de radiofrequências de telefonia móvel em aplicações de conexão direta entre satélites e dispositivos.

O projeto foi originalmente estruturado pelo Ato nº 5.322, de abril de 2024, e teve seu prazo ampliado pelo Ato nº 10.902, de 24 de agosto de 2026. Com a prorrogação, o ambiente experimental poderá funcionar até 22 de abril de 2029, salvo alterações decorrentes da aprovação de regras definitivas ou de decisões da autoridade reguladora.

A regulamentação permite que prestadoras do Serviço Móvel Pessoal solicitem autorizações temporárias para desenvolver aplicações D2D, respeitando condições técnicas e limites de utilização do espectro. A estrutura também contempla aplicações de caráter comercial, desde que observados os requisitos definidos pela agência.

A autorização experimental não equivale a uma liberação permanente e irrestrita de radiofrequências. As empresas participantes permanecem sujeitas a exigências técnicas, avaliações sobre possíveis interferências e condições associadas às respectivas autorizações.

A definição de um marco regulatório permanente será importante para determinar como diferentes operadores de satélite poderão atuar no Brasil, quais frequências estarão disponíveis e como serão tratadas as relações com as prestadoras móveis existentes.

O tema ganha relevância adicional porque o compartilhamento de infraestrutura orbital pode envolver empresas com interesses comerciais distintos. Ao mesmo tempo em que fornecem capacidade de comunicação para operadoras tradicionais, prestadoras de serviços por satélite também desenvolvem tecnologias capazes de ampliar sua própria participação no mercado de telecomunicações.

Parceria amplia oportunidades para Vivo e Starlink no mercado brasileiro

Para a Vivo, a incorporação de conectividade satelital pode funcionar como instrumento de diferenciação comercial em um setor marcado pela competição entre grandes operadoras nacionais. O serviço permite ampliar a oferta de comunicação em áreas onde a instalação de antenas convencionais pode não apresentar retorno econômico suficiente para justificar novos investimentos.

No mercado corporativo, a cobertura complementar pode ter utilidade para empresas de logística, transporte, energia, agricultura e infraestrutura. Funcionários que realizam deslocamentos por áreas sem sinal terrestre poderão utilizar aplicativos compatíveis para trocar informações e compartilhar localização, desde que atendidas as condições operacionais.

A possibilidade de ampliar contratos e fortalecer o relacionamento com clientes empresariais não representa, entretanto, uma estimativa de receita adicional. Até o momento, não foram apresentados publicamente parâmetros suficientes para calcular o impacto financeiro da parceria sobre o faturamento, a margem operacional ou os investimentos da Telefônica Brasil.

Para a Starlink, o acordo amplia o alcance de sua tecnologia móvel no Brasil por meio da base de clientes de uma operadora já estabelecida. Esse modelo permite integrar os satélites às redes de telecomunicações existentes, sem exigir que a empresa desenvolva imediatamente toda a infraestrutura comercial de uma operadora móvel independente.

A SpaceX também trabalha no desenvolvimento de uma nova geração de satélites destinada a ampliar a capacidade de transmissão de dados diretamente para smartphones. Segundo as informações técnicas divulgadas pela Starlink Mobile, a evolução deverá aumentar a velocidade disponível e permitir funcionalidades mais próximas das oferecidas pelas redes móveis terrestres.

Essas melhorias ainda não devem ser confundidas com as características do serviço atualmente oferecido aos clientes brasileiros. A disponibilidade de conexões mais rápidas dependerá da implantação da nova infraestrutura orbital, da compatibilidade dos dispositivos e das condições regulatórias e comerciais aplicáveis.

A operação iniciada em outubro de 2026 estabelece, portanto, uma nova modalidade de conectividade complementar no país. A evolução do Vivo Satélite dependerá da quantidade de clientes que utilizarão efetivamente o recurso, do desempenho da rede em localidades remotas, dos preços definidos após os períodos promocionais e da capacidade das empresas de ampliar as funcionalidades sem comprometer a confiabilidade do serviço.

Fontes:

Vivo — Página oficial do Vivo Satélite, requisitos de compatibilidade, aplicativos disponíveis e orientações de utilização.

Telefônica Brasil — Termos e condições do serviço de conectividade satelital para pessoas físicas e jurídicas, com períodos promocionais, critérios de elegibilidade e limitações técnicas.

Starlink Mobile — Documentação técnica institucional sobre a tecnologia de comunicação direta entre satélites e aparelhos celulares.

Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) — Relatório de Monitoramento da Competição do terceiro trimestre de 2026, divulgado em 26 de outubro de 2026.

Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) — Atos nº 5.322/2024 e nº 10.902/2026 e documentação do ambiente regulatório experimental para aplicações Direct-to-Device.

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