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Vorcaro teria ordenado ataque hacker para apagar dados apreendidos pela PF

Tentativa teria ocorrido durante prisão domiciliar e incluído contas no iCloud de Vorcaro e Fabiano Zettel, segundo informações da investigação.

por Letícia Nóbrega
09/10/2026 às 12h28
em Política
Daniel Vorcaro - Gazeta Mercantil

Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, teria ordenado em janeiro de 2026 uma tentativa de invasão de sua conta no iCloud com o objetivo de apagar dados de um celular que já estava apreendido pela Polícia Federal. A operação teria sido articulada enquanto ele cumpria prisão domiciliar em São Paulo e buscaria impedir que investigadores tivessem acesso a mensagens, fotografias e outros arquivos armazenados na nuvem. Segundo informações da investigação reveladas pela revista piauí e posteriormente confirmadas pelo Estadão, a PF identificou a tentativa e conseguiu preservar o conteúdo.

O celular estava havia cerca de dois meses em poder dos investigadores da Operação Compliance Zero, aberta para apurar irregularidades relacionadas ao Banco Master. A conta de Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e também investigado, teria sido incluída na mesma tentativa de exclusão. Zettel havia sido preso em 14 de janeiro, quando tentava embarcar no Aeroporto Internacional de Guarulhos com destino a Dubai, e teve o aparelho celular apreendido.

A apuração atribui a intermediação da operação ao publicitário Thiago Miranda, que teria acionado o profissional de segurança digital Thiago Santos. Segundo os relatos obtidos pela imprensa, Santos conseguiu acessar a conta de Vorcaro, mas a atividade foi percebida pela Polícia Federal antes que os dados fossem eliminados. A defesa de Miranda sustenta a legalidade de sua atuação, enquanto Santos nega ter praticado irregularidades. A defesa de Vorcaro não apresentou resposta às perguntas encaminhadas pela reportagem que revelou o episódio.

Celular já estava sob controle da Polícia Federal

A tentativa de acesso ocorreu em um momento no qual o aparelho físico de Vorcaro já estava sob custódia policial. A apreensão havia ocorrido durante a investigação que levou à prisão do empresário em novembro de 2025, no mesmo período em que o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master e de outras instituições do conglomerado.

Mesmo com o celular apreendido, parte das informações vinculadas ao aparelho poderia permanecer sincronizada em serviços de armazenamento na nuvem. É nesse ponto que a tentativa de acesso ao iCloud ganha relevância para a investigação: o objetivo, segundo a apuração publicada, seria eliminar registros antes que a PF concluísse a extração e análise do material digital.

A investida não teria produzido o efeito pretendido. Relatórios policiais posteriores passaram a reproduzir diálogos e outros dados extraídos dos aparelhos, indicando que as informações permaneceram disponíveis aos investigadores. O próprio episódio da tentativa de invasão também passou a integrar o material sob análise.

Eventual tentativa deliberada de eliminar provas pode ter consequências penais próprias, mas a definição jurídica depende das circunstâncias concretas, da participação atribuída a cada pessoa e das conclusões da investigação. Até o momento, as informações conhecidas descrevem uma apuração em andamento, e não uma condenação sobre esse episódio específico.

Operação também teria como alvo dados de Fabiano Zettel

A conta de Fabiano Zettel também teria sido incluída na operação. Cunhado de Vorcaro, ele aparece em diferentes frentes das investigações relacionadas ao Banco Master e teve o celular apreendido depois de ser detido em janeiro no Aeroporto de Guarulhos.

A tentativa de apagar os dois conjuntos de informações teria sido tratada como uma mesma operação digital. Segundo a apuração publicada, Vorcaro teria pedido a Thiago Miranda que encontrasse uma forma de retirar os dados armazenados na nuvem antes que fossem integralmente obtidos pelos investigadores.

Miranda, por sua vez, teria recorrido a Thiago Santos para executar tecnicamente a tarefa. O profissional posteriormente prestou esclarecimentos à Polícia Federal e negou ter participado de atividades ilegais, afirmando ter comparecido espontaneamente para explicar sua atuação.

A investigação sobre os aparelhos ganhou importância à medida que mensagens atribuídas a Vorcaro passaram a revelar contatos com empresários, agentes públicos, políticos e outros interlocutores. Parte desse conteúdo originou novas linhas de apuração e pedidos para que fatos encontrados no material fossem analisados pelas autoridades competentes.

Relatórios sobre policial e diretor do Banco Central também são investigados

A tentativa de apagar os dados teria ocorrido dentro de uma estrutura mais ampla de monitoramento de pessoas ligadas às investigações e à liquidação do Master. Segundo as informações divulgadas, Vorcaro teria solicitado a produção de levantamentos sobre um agente da Polícia Federal e sobre Renato Dias de Brito Gomes, diretor de Organização do Sistema Financeiro e Resolução do Banco Central.

Renato Gomes ocupava uma posição diretamente relacionada aos processos de supervisão e resolução de instituições financeiras. A área sob sua responsabilidade participou das análises envolvendo o Banco Master antes da decretação da liquidação extrajudicial, em novembro de 2025.

Um dos levantamentos teria resultado em um documento de 11 páginas sobre o diretor. Também foram identificados conteúdos publicados nas redes sociais que buscavam questionar sua atuação e a decisão do Banco Central envolvendo o Master. A Polícia Federal investiga se essas ações faziam parte de uma campanha coordenada para pressionar autoridades e influenciar a percepção pública sobre a atuação do órgão regulador.

O Banco Central afirmou oficialmente, ao decretar a liquidação do Banco Master, que a medida foi motivada por uma grave crise de liquidez, comprometimento significativo da situação econômico-financeira e graves violações às normas que regem o Sistema Financeiro Nacional. A autarquia também tornou indisponíveis os bens dos controladores e ex-administradores das instituições submetidas aos regimes especiais.

Agente da PF teria sido alvo de levantamento

Outro nome que aparece no material é o do policial federal Wilker Goulart. Segundo a apuração, um grupo ligado a Miranda teria elaborado um levantamento sobre o agente em dezembro de 2025, período em que as investigações sobre Vorcaro já estavam em andamento.

Poucos dias depois, durante uma audiência realizada no Supremo Tribunal Federal, Vorcaro mencionou o policial nominalmente e afirmou acreditar que ele tentava investigá-lo havia vários anos. A proximidade temporal entre a elaboração do levantamento e a declaração passou a ser analisada no contexto das ações de monitoramento atribuídas ao grupo.

O ponto relevante para a investigação não é a simples coleta de informações públicas sobre um agente do Estado, mas a finalidade atribuída aos levantamentos e a eventual existência de uma estrutura organizada para acompanhar investigadores, obter dados restritos ou interferir nas apurações.

Essa frente integra o chamado Projeto DV, investigação que examina a atuação de pessoas e estruturas digitais que teriam sido utilizadas para monitorar autoridades, produzir conteúdos e organizar campanhas contra integrantes do Banco Central e outros envolvidos no caso Master.

Ataques em redes sociais entraram na mira da investigação

Entre o fim de dezembro de 2025 e o início de 2026, autoridades envolvidas nas decisões sobre o Banco Master passaram a ser alvo de uma grande quantidade de publicações nas redes sociais. Parte do conteúdo questionava diretamente a atuação de integrantes do Banco Central e apresentava a liquidação da instituição como resultado de decisões arbitrárias ou precipitadas.

Renato Gomes esteve entre os alvos mais recorrentes. Algumas publicações usaram montagens, memes e mensagens irônicas para questionar a velocidade e as razões das decisões tomadas pela autoridade monetária.

A Polícia Federal passou a investigar se houve coordenação entre empresas de comunicação, páginas de grande alcance, influenciadores e pessoas ligadas a Vorcaro para ampliar artificialmente esse tipo de conteúdo. A apuração procura distinguir manifestações espontâneas de ações estruturadas e eventualmente financiadas para pressionar autoridades ou constranger investigadores.

Thiago Miranda, dono da agência MiThi, passou a ser um dos investigados nessa frente. Ele foi alvo de busca e apreensão e teve o passaporte recolhido por determinação judicial. Sua defesa afirma que todos os atos praticados pelo publicitário foram legais e sustenta que o andamento das investigações demonstrará a inexistência de ilícitos.

Banco Master está em liquidação desde novembro de 2025

O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master em 18 de novembro de 2025, juntamente com o Banco Master de Investimento, Banco Letsbank e a corretora pertencente ao conglomerado. Na ocasião, a autoridade monetária afirmou que o grupo enfrentava grave crise de liquidez e comprometimento significativo de sua situação econômico-financeira.

O Banco Master Múltiplo inicialmente foi submetido a Regime Especial de Administração Temporária. Posteriormente, em março de 2026, também passou à liquidação extrajudicial. Os regimes permanecem registrados pelo Banco Central entre os procedimentos de resolução envolvendo instituições do antigo conglomerado.

Vorcaro tornou-se alvo de diferentes investigações relacionadas à gestão da instituição e às operações realizadas pelo grupo. As apurações abrangem suspeitas de irregularidades financeiras e outras condutas que ainda dependem de conclusão das autoridades e de eventual julgamento.

A tentativa de apagar dados do iCloud adiciona agora outra frente ao caso. Se confirmada nos termos apontados pelas investigações, ela mostra que, mesmo depois da apreensão do aparelho, houve uma movimentação destinada a interferir no acesso da Polícia Federal a informações consideradas relevantes.

Defesas negam irregularidades

A defesa de Thiago Miranda afirmou que sustenta a “absoluta legalidade” dos atos praticados por ele e que as investigações deverão demonstrar que não houve participação em atividades ilícitas. Miranda é investigado tanto no âmbito da Compliance Zero quanto nas apurações relacionadas ao Projeto DV.

Thiago Santos também negou qualquer atividade irregular e afirmou ter se apresentado espontaneamente à Polícia Federal para prestar esclarecimentos. As informações publicadas indicam que seu relato passou a integrar os elementos usados pelos investigadores para reconstruir a tentativa de acesso às contas digitais.

A defesa de Daniel Vorcaro não havia respondido aos questionamentos sobre a tentativa de invasão quando a reportagem que revelou o caso foi publicada. A ausência de manifestação não significa reconhecimento das acusações, e os fatos continuam sujeitos à investigação e ao contraditório.

O elemento novo é que a tentativa de exclusão dos dados, segundo as informações obtidas pelos veículos que tiveram acesso ao material, foi detectada enquanto os celulares estavam formalmente apreendidos e os investigadores preservavam seu conteúdo. A partir disso, a Polícia Federal deverá determinar quem participou efetivamente da operação, qual foi a finalidade de cada ação e se houve prática de crimes além daqueles já investigados no caso Banco Master.

Fontes:

Banco Central do Brasil — atos e comunicados sobre a liquidação extrajudicial do Banco Master e das demais instituições do conglomerado

Polícia Federal — Operação Compliance Zero e investigações relacionadas ao caso Banco Master

Supremo Tribunal Federal — decisões e atos judiciais relacionados às investigações envolvendo Daniel Vorcaro

Documentos e relatos integrantes das investigações sobre a tentativa de acesso a dados digitais e o chamado Projeto DV

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