Pressão sobre Tarcísio de Freitas: Prisão de pastor da Igreja da Lagoinha e maior doador de campanha expõe conexões no caso Banco Master
A cobrança pública de João Amoêdo lança luz sobre a complexa teia que une o governador de São Paulo, o escândalo financeiro bilionário e a influência de lideranças da Igreja da Lagoinha nos bastidores do poder.
A política nacional amanheceu sob o impacto de revelações que entrelaçam fé, grandes fortunas e suspeitas de crimes contra o sistema financeiro. O governador Tarcísio de Freitas enfrenta o que pode ser considerado o primeiro grande teste de integridade financeira de sua gestão, após a prisão de Fabiano Campos Zettel na Operação Compliance Zero. Zettel não é apenas um empresário envolvido no escândalo do Banco Master; ele é pastor da influente Igreja da Lagoinha e figura como o maior doador pessoa física da campanha que elegeu o atual chefe do Executivo paulista em 2022. A cobrança por explicações, liderada pelo ex-presidente do Partido Novo, João Amoêdo, expõe a vulnerabilidade de Tarcísio de Freitas diante das alianças firmadas em sua ascensão ao poder.
O caso transcende a esfera policial e adentra o delicado terreno da influência religiosa na política. A Igreja da Lagoinha, instituição de origem mineira com capilaridade global e forte trânsito entre a elite política conservadora, vê um de seus pastores no centro de uma investigação sobre fraudes que podem custar R$ 41 bilhões ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Para Tarcísio de Freitas, a associação direta — e financeiramente documentada — com uma liderança religiosa agora presa tentando fugir do país exige uma resposta institucional contundente, sob pena de contaminação de seu capital político para 2026.
O elo entre Tarcísio de Freitas e a Igreja da Lagoinha
A pergunta que ecoa nos corredores do Palácio dos Bandeirantes e nas redes sociais, impulsionada por João Amoêdo, é direta: qual a natureza da relação entre Tarcísio de Freitas e o pastor-empresário Fabiano Zettel? Os registros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) são frios, mas reveladores. Em 13 de outubro de 2022, data crítica do segundo turno, Zettel injetou R$ 2 milhões na campanha de Tarcísio de Freitas.
No entanto, o perfil do doador adiciona camadas de complexidade. Zettel é uma liderança ativa da Igreja da Lagoinha, denominação conhecida por atrair celebridades, grandes empresários e políticos de alto coturno. A igreja, que nasceu em Belo Horizonte, tornou-se um hub de poder e influência. O fato de o maior financiador individual de Tarcísio de Freitas ser um pastor dessa congregação sugere que a captação de recursos da campanha passou, invariavelmente, por articulações dentro deste ecossistema religioso-empresarial.
A Igreja da Lagoinha tem sido um pilar de apoio ao bolsonarismo e à direita conservadora, espectro no qual Tarcísio de Freitas se insere. A prisão de Zettel, contudo, coloca em xeque o compliance dessas relações. Não se trata apenas de um fiel, mas de um pastor com acesso privilegiado a recursos vultosos, capaz de doar milhões enquanto, segundo a Polícia Federal, participava de esquemas fraudulentos no Banco Master. O governador precisa esclarecer se essa doação foi uma iniciativa isolada de um fiel abastado ou parte de um movimento institucional de apoio político orquestrado nos bastidores dos templos.
A cobrança de João Amoêdo: Ética e Transparência
A manifestação de João Amoêdo na rede social X (antigo Twitter) foi cirúrgica ao conectar os pontos. É fundamental que Tarcísio de Freitas, candidato novamente este ano ao governo de SP ou à Presidência do Brasil, explique qual é a sua ligação com Fabiano Zettel”, escreveu. Amoêdo destacou não apenas o laço financeiro, mas o parentesco de Zettel: ele é cunhado de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master e também frequentador de círculos de elite ligados à Igreja da Lagoinha.
Para Amoêdo e para os analistas de mercado, o silêncio de Tarcísio de Freitas é ensurdecedor. Em um momento onde o governador busca se projetar como a face técnica e “limpa” da direita, ter seu nome vinculado a um escândalo de lavagem de dinheiro e fraude bancária através de um “irmão de fé” é um passivo tóxico. A cobrança de Amoêdo reflete uma demanda da sociedade por entender até onde vai a simbiose entre púlpito, cofre e urna.
A Conexão Lagoinha: Fé, Poder e Negócios
Para compreender a gravidade da situação de Tarcísio de Freitas, é necessário dissecar o ambiente de onde provém seu maior doador. A Igreja da Lagoinha não é uma denominação periférica; é uma potência midiática e social. Seus líderes e pastores, como Fabiano Zettel, muitas vezes acumulam funções de empresários, investidores e articuladores políticos.
A prisão de Zettel expõe o que sociólogos chamam de “teologia da prosperidade corporativa. Dentro de ambientes como o da Igreja da Lagoinha, negócios e fé caminham lado a lado. O networking realizado nos cultos e eventos da igreja facilita transações vultosas e apoios políticos. Foi nesse caldo cultural que Tarcísio de Freitas encontrou suporte financeiro decisivo.
Contudo, a Operação Compliance Zero revela o lado sombrio dessa interseção. As investigações sugerem que a estrutura de confiança e a rede de relacionamentos da igreja podem ter servido, ainda que indiretamente, para conferir legitimidade a figuras envolvidas em fraudes financeiras. Daniel Vorcaro e seu cunhado pastor, Zettel, representam a elite econômica desse grupo. Ao aceitar R$ 2 milhões de um pastor da Igreja da Lagoinha ligado a um banco problemático, a campanha de Tarcísio de Freitas assumiu um risco de imagem que agora se materializa em manchetes policiais.
A tentativa de fuga e o perfil do Pastor-Empresário
O episódio da prisão de Zettel possui contornos cinematográficos que complicam a narrativa de defesa de Tarcísio de Freitas. O pastor da Igreja da Lagoinha foi detido pela Polícia Federal em um hangar, prestes a embarcar em um jatinho particular com destino a Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. A tentativa de sair do país, interpretada pelas autoridades como risco de fuga, desmonta qualquer imagem de idoneidade que poderia ser usada para blindar o governador.
A figura do “pastor” geralmente evoca simplicidade e serviço comunitário. No entanto, Zettel encarna o “pastor-magnata”, que movimenta milhões, possui jatos e transita em paraísos fiscais e turísticos de luxo. É esse perfil que financiou a eleição de Tarcísio de Freitas. A desconexão entre a imagem pública do governador — austero e técnico — e o estilo de vida ostentatório e agora criminoso de seu doador cria uma dissonância cognitiva no eleitorado.
A apreensão do celular e do passaporte de Zettel pode abrir uma Caixa de Pandora. As autoridades certamente buscarão, nas mensagens do pastor da Igreja da Lagoinha, indícios de como sua influência religiosa e financeira foi usada para abrir portas em Brasília e São Paulo. Se houver registros de conversas diretas ou pedidos de favores a Tarcísio de Freitas, a crise política mudará de patamar.
O Escândalo do Banco Master e o Fundo Garantidor
Enquanto a política discute as conexões religiosas, a economia sangra. O Banco Master, controlado pelo cunhado do pastor da Igreja da Lagoinha, está no centro de uma liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central. As fraudes investigadas envolvem a venda de ativos “podres” e a manipulação de balanços. O impacto estimado de R$ 41 bilhões sobre o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) é um dos maiores da história do sistema financeiro nacional.
Tarcísio de Freitas governa o estado que é o coração financeiro do Brasil. Ter sido financiado por um dos artífices de um rombo dessa magnitude gera constrangimento junto à Faria Lima e aos grandes bancos, que acabarão pagando a conta do FGC. A associação com o grupo da Igreja da Lagoinha envolvido no caso coloca o governador em uma posição desconfortável diante do mercado, que preza por segurança jurídica e compliance.
A Operação Compliance Zero, ao atingir o núcleo familiar e religioso dos controladores do banco, mostra que o esquema utilizava laranjas e estruturas de fachada. A pergunta que o mercado faz é: o dinheiro doado a Tarcísio de Freitas em 2022 tinha origem lícita, ou era parte da drenagem de recursos da instituição financeira agora liquidada?
A responsabilidade política e o “Due Diligence”
Ninguém acusa Tarcísio de Freitas de ter cometido a fraude bancária. No entanto, na política moderna, a responsabilidade sobre a escolha de financiadores é total. Aceitar a maior doação de campanha de um pastor da Igreja da Lagoinha cujos laços familiares com banqueiros sob suspeita eram públicos (ou facilmente verificáveis) denota, no mínimo, imprudência.
A campanha de 2022 foi marcada pelo forte apelo ao eleitorado evangélico. A aproximação de Tarcísio de Freitas com denominações como a Igreja da Lagoinha foi estratégica para garantir votos. O reverso da medalha é que, ao abraçar politicamente essas instituições, o candidato também abraça seus problemas e seus personagens controversos.
João Amoêdo toca nesse ponto ferida. A “nova política” prometida por Tarcísio de Freitas pressupõe critérios rigorosos de compliance. Se o governador não sabia das atividades de Zettel, falhou na checagem. Se sabia e aceitou o recurso mesmo assim, falhou na ética. Em ambos os casos, a explicação é devida.
O silêncio e as consequências para 2026
Até o momento, a estratégia de Tarcísio de Freitas tem sido o silêncio. Evitar comentar a prisão do pastor da Igreja da Lagoinha é uma tentativa de não nacionalizar o desgaste. Contudo, com a oposição e figuras independentes como Amoêdo martelando o tema, o isolamento do assunto torna-se impossível.
Para 2026, a sombra de Fabiano Zettel acompanhará Tarcísio de Freitas. Em debates presidenciais ou estaduais, a pergunta “Quem é o seu maior doador?” terá uma resposta pronta e munição pesada para adversários. A imagem do pastor algemado ao tentar fugir para Dubai será colada à imagem do governador.
Além disso, a investigação pode revelar se a influência da Igreja da Lagoinha tentou pautar políticas públicas ou nomeações no governo de São Paulo como contrapartida à doação. Qualquer indício nesse sentido seria devastador para a narrativa de meritocracia de Tarcísio de Freitas.
A fé, o crime e o governo
O caso que une Tarcísio de Freitas, o Banco Master e a Igreja da Lagoinha é um microcosmo dos dilemas do Brasil contemporâneo. Revela como o poder econômico, travestido de liderança religiosa, infiltra-se nas altas esferas da política partidária. A prisão de Fabiano Zettel não é apenas um fato policial; é um alerta político.
Para Tarcísio de Freitas, o caminho para estancar a crise passa pela transparência radical. Explicar à sociedade seus laços com a liderança da Igreja da Lagoinha, abrir as contas de campanha e demonstrar distanciamento das práticas do Banco Master são imperativos. O governador precisa provar que sua gestão não foi contaminada pelos pecados financeiros de seus “irmãos” de campanha. Enquanto isso não ocorre, a dúvida plantada por João Amoêdo germina, ameaçando a colheita política de um dos nomes mais fortes da direita brasileira.






