A Toky (TOKY3), controladora das redes Tok&Stok e Mobly, aprovou nesta segunda-feira, 27 de julho, um novo grupamento de ações na proporção de 20 para 1, em uma tentativa de elevar o preço unitário dos papéis e atender às regras da B3 para companhias com ações negociadas abaixo de R$ 1. A operação foi autorizada pelos acionistas em assembleia geral extraordinária e será efetivada no pregão de 28 de agosto, quando cada conjunto de 20 ações será convertido em uma única ação.
O grupamento ocorre enquanto a Toky atravessa uma recuperação judicial com dívidas superiores a R$ 1 bilhão e pouco mais de dois meses depois de ter realizado outra operação semelhante, na proporção de quatro ações para uma.
Com a nova mudança, a quantidade de ações ordinárias emitidas cairá de 54.196.740 para 2.709.837. O capital social permanecerá inalterado em R$ 1,278 bilhão.
Na prática, um investidor que possuir 2 mil ações de Toky (TOKY3) passará a deter 100 papéis após a operação. O preço de cada ação deverá ser multiplicado por 20 no ajuste inicial, sem alteração automática do valor financeiro total da posição.
A medida não injeta recursos na companhia, não reduz as dívidas e não altera a participação proporcional de cada acionista. Seu efeito é essencialmente societário e operacional: diminuir o número de papéis e elevar a cotação unitária na mesma proporção.
Investidor terá 30 dias para evitar frações
Os acionistas poderão ajustar voluntariamente suas posições entre 28 de julho e 27 de agosto.
Durante esse período, será possível comprar ou vender ações para formar posições divisíveis por 20. O ajuste poderá ser feito por meio de operações normais na B3 ou, quando aplicável, por negociações privadas.
Quem tiver 200, 400 ou 1.000 ações, por exemplo, receberá respectivamente 10, 20 ou 50 ações depois do grupamento, sem formação de frações.
Um investidor com 105 ações teria direito a 5,25 ações. As cinco unidades inteiras permaneceriam em sua carteira, enquanto a fração equivalente a 0,25 ação seria separada para o procedimento de leilão.
A partir de 28 de agosto, os papéis passarão a ser negociados exclusivamente na forma grupada. As frações individuais não permanecerão nas carteiras e não poderão ser negociadas diretamente pelos acionistas.
A companhia reunirá todas as frações em números inteiros e venderá os lotes em um ou mais leilões na B3. O dinheiro líquido obtido será distribuído proporcionalmente entre os titulares, conforme a fração pertencente a cada um.
O prazo e o procedimento de pagamento serão divulgados posteriormente pela Toky.
Grupamento não representa ganho para o acionista
O aumento do preço unitário produzido pelo grupamento não corresponde a uma valorização econômica.
Se 20 ações forem negociadas a R$ 0,20 cada antes da operação, o conjunto terá valor de R$ 4. Depois do grupamento, o acionista passará a ter uma ação com preço teórico de R$ 4.
A quantidade diminui na mesma proporção em que a cotação é ajustada. Por isso, o patrimônio do investidor permanece inicialmente igual, desconsideradas oscilações de mercado, custos de corretagem e o tratamento das frações.
O mesmo princípio vale para a capitalização da empresa. O valor de mercado não aumenta apenas porque existem menos ações com preço unitário maior.
Depois do início da negociação grupada, a cotação voltará a ser determinada pelas ordens de compra e venda. As ações poderão subir ou cair conforme as expectativas sobre a recuperação judicial, a liquidez da empresa, os resultados operacionais e a capacidade de reorganizar as dívidas.
O grupamento também não impede que o papel volte a ser negociado abaixo de R$ 1. Caso a desvalorização continue, a companhia poderá enfrentar novamente questionamentos da B3.
Toky realiza segundo grupamento em 2026
A nova operação chama atenção por ocorrer pouco depois de outro grupamento.
No fim de abril, os acionistas haviam aprovado a conversão de quatro ações em uma. A primeira mudança passou a produzir efeitos no início de junho e reduziu a quantidade de papéis em circulação.
Agora, a empresa aplicará um fator adicional de 20 para 1. Considerados os dois grupamentos sucessivos, o efeito acumulado equivale à conversão de 80 ações existentes antes da primeira operação em uma ação após a segunda.
Um investidor que detinha 8 mil papéis antes do grupamento de junho passou a ter 2 mil ações. Depois da operação de agosto, ficará com 100.
A repetição mostra que o primeiro ajuste não foi suficiente para manter a cotação acima do limite exigido pela Bolsa.
O preço das ações permaneceu pressionado pela situação financeira do grupo, pela entrada em recuperação judicial e pelas incertezas sobre a reestruturação de capital.
O número menor de papéis também pode influenciar a liquidez. Com menos ações disponíveis, determinados negócios poderão exigir maior diferença entre preços de compra e venda, sobretudo em um ativo já marcado por elevada volatilidade.
Regra da B3 mira ações abaixo de R$ 1
A B3 classifica como penny stocks as ações negociadas persistentemente abaixo de R$ 1.
Pelas regras de listagem, uma companhia não pode permanecer por 30 pregões consecutivos com cotação média inferior a esse patamar. Quando ocorre o desenquadramento, a Bolsa notifica a empresa e estabelece prazo para apresentação e execução de um plano de regularização.
A Toky informou ter recebido a notificação em fevereiro.
O grupamento é a solução mais utilizada nesses casos porque eleva mecanicamente o preço por ação. A operação também busca reduzir oscilações percentuais provocadas por pequenas variações em centavos.
Em uma ação cotada a R$ 0,20, uma mudança de apenas R$ 0,01 representa oscilação de 5%. Se o mesmo investimento estiver representado por um papel de R$ 4 após o grupamento, uma alteração de R$ 0,01 equivale a 0,25%.
A menor sensibilidade a variações mínimas pode reduzir parte da especulação intradiária. Não elimina, contudo, a volatilidade ligada aos fundamentos da companhia.
Papéis de empresas em recuperação judicial continuam sujeitos a movimentos intensos, baixa previsibilidade e risco de perda relevante do capital.
Bônus de subscrição também serão ajustados
O fator de 20 para 1 será aplicado aos bônus de subscrição TOKY11 e TOKY12.
Bônus de subscrição são títulos que dão ao investidor o direito de adquirir ações da companhia em condições e prazos previamente definidos.
Para preservar a equivalência econômica dos instrumentos, a quantidade de ações a que cada bônus dá direito será reduzida, enquanto o preço de exercício será aumentado proporcionalmente.
Sem esse ajuste, os titulares dos bônus poderiam receber uma participação diferente da prevista quando os títulos foram emitidos.
A alteração não representa uma nova emissão nem uma mudança deliberada no valor econômico do direito. É uma adequação matemática necessária diante da redução do número de ações.
Os investidores que possuem TOKY11 ou TOKY12 deverão acompanhar os comunicados da empresa e da B3 para verificar os novos fatores de exercício e eventuais mudanças operacionais.
Debêntures MBLY21 entram no ajuste
O grupamento também afetará as debêntures conversíveis MBLY21.
Debêntures conversíveis são títulos de dívida que podem ser transformados em ações de acordo com regras estabelecidas na escritura da emissão.
Como o número de ações será dividido por 20, a relação de conversão também precisará ser recalculada. O preço ou a quantidade aplicável será ajustado de modo a preservar, em tese, o equilíbrio econômico anterior.
A mudança é especialmente relevante no contexto da recuperação judicial, porque títulos de dívida, bônus de subscrição e ações ocupam posições diferentes na estrutura de capital.
Os acionistas assumem o risco residual da companhia. Os credores possuem direitos definidos pelos contratos e pelas regras do processo recuperacional, embora possam estar sujeitos a renegociação, prazos e condições aprovados no plano.
A conversão de dívida em ações pode aparecer como instrumento de reestruturação de capital, mas o grupamento aprovado não significa, por si só, que as debêntures serão convertidas.
Recuperação judicial envolve dívida bilionária
A Toky protocolou o pedido de recuperação judicial em maio, afirmando enfrentar uma crise financeira agravada por juros elevados, restrição de crédito e retração do consumo de móveis e artigos de decoração.
O processo abrange a holding e subsidiárias responsáveis pelas operações da Tok&Stok e da Mobly.
A dívida informada no pedido supera R$ 1,1 bilhão. A companhia também relatou prejuízos operacionais acumulados entre 2022 e 2025 e dificuldades para renegociar o endividamento.
Em junho, a 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais da Capital deferiu o processamento do pedido.
A decisão não significa que o plano de recuperação já tenha sido aprovado nem que as dívidas tenham sido perdoadas. O deferimento reconhece o preenchimento inicial dos requisitos para que o processo avance sob supervisão judicial.
A Justiça nomeou um administrador judicial e suspendeu por 180 dias as execuções e medidas de constrição relacionadas aos créditos sujeitos à recuperação.
A empresa também deve apresentar contas mensalmente, incluindo movimentações bancárias, recolhimento de tributos, encargos sociais e informações solicitadas pelo administrador.
Bloqueio de R$ 77 milhões agravou crise de caixa
No processo, o Grupo Toky apontou um bloqueio de aproximadamente R$ 77 milhões em recebíveis como um dos fatores que agravaram a falta de liquidez.
Segundo a companhia, a retenção seria superior ao valor vencido alegado pela instituição responsável e teria comprometido recursos necessários ao pagamento de salários, fornecedores e despesas operacionais.
A controvérsia integra o conjunto de disputas que serão analisadas durante a recuperação. As partes envolvidas têm direito à defesa, e as alegações da empresa ainda estão sujeitas à apreciação judicial.
Além do bloqueio, o grupo citou o impacto prolongado da pandemia, o custo elevado do crédito e a retração nas compras de bens duráveis.
Móveis e artigos de decoração dependem frequentemente de parcelamento. Quando os juros sobem e o crédito fica mais restrito, consumidores tendem a adiar compras de maior valor.
Essa dinâmica reduz vendas, aumenta estoques e pressiona o capital de giro, sobretudo em empresas com despesas elevadas de lojas físicas, centros de distribuição e logística.
Prejuízo aumentou no primeiro trimestre
O Grupo Toky registrou prejuízo líquido de R$ 75,5 milhões no primeiro trimestre de 2026, ante uma perda próxima de R$ 44 milhões no mesmo período do ano anterior.
A piora ocorreu enquanto a empresa tentava integrar as operações da Mobly e da Tok&Stok e reorganizar seu endividamento.
A união das duas marcas havia sido concluída no fim de 2024, em uma estratégia destinada a criar escala, combinar lojas físicas e comércio eletrônico e gerar sinergias de despesas.
A integração, porém, coincidiu com um ambiente desfavorável para o varejo de móveis. O grupo precisou administrar dívidas anteriores da Tok&Stok, custos de reestruturação e necessidade de recomposição de estoques.
A recuperação judicial deverá definir como o passivo será renegociado. O plano poderá prever alongamento de prazos, descontos, venda de ativos, conversão de créditos em participação acionária e novas fontes de financiamento.
Até que as condições sejam apresentadas e votadas pelos credores, permanece elevada a incerteza sobre a estrutura financeira que emergirá do processo.
Acionista continua exposto à reestruturação
O grupamento resolve uma exigência de cotação, mas não altera os principais riscos enfrentados por quem possui Toky (TOKY3).
O acionista continuará exposto à evolução das vendas, ao fluxo de caixa, à capacidade de manter estoques, às negociações com fornecedores e ao resultado da recuperação judicial.
Também existe risco de diluição. Caso o plano inclua aumento de capital ou conversão de dívidas em ações, a participação dos atuais investidores poderá ser reduzida se eles não acompanharem a emissão ou se a conversão ocorrer em condições previstas no processo.
O grupamento pode facilitar futuras operações societárias ao reduzir o número de ações e tornar a cotação nominal mais adequada. Isso não significa que uma emissão ou conversão esteja definida.
A empresa deverá divulgar ao mercado qualquer proposta capaz de alterar o capital, os direitos dos acionistas ou as condições dos títulos conversíveis.
A aprovação do grupamento, portanto, deve ser interpretada como uma providência de regularização perante a B3, e não como sinal de que a recuperação financeira foi concluída.
Prazo de agosto exige atenção dos investidores
Os acionistas precisam verificar a quantidade de ações mantida em carteira antes de 27 de agosto.
Posições que não forem múltiplas de 20 gerarão frações. Embora o titular receba sua parte do dinheiro obtido no leilão, o valor final dependerá do preço de venda e poderá ser pago somente depois da liquidação e dos procedimentos operacionais.
A formação voluntária de um lote múltiplo permite ao investidor permanecer integralmente posicionado após o grupamento, mas exige uma decisão própria de compra ou venda.
A operação não deve ser interpretada como recomendação para aumentar, reduzir ou manter exposição ao papel.
Em 28 de agosto, o mercado passará a negociar uma Toky com apenas 2.709.837 ações emitidas, preço unitário teoricamente 20 vezes maior e o mesmo capital social de R$ 1,278 bilhão.
A mudança atenderá formalmente ao objetivo de retirar o papel da faixa de centavos. A sustentação da cotação, contudo, dependerá da execução do plano de recuperação, da renegociação da dívida bilionária e da capacidade de Tok&Stok e Mobly voltarem a gerar caixa de maneira consistente.










