Warren Buffett, chairman da Berkshire Hathaway (BRK.A, BRK.B), voltou a colocar a especulação de curtíssimo prazo no centro do debate sobre Wall Street ao afirmar, durante a reunião anual de acionistas da companhia em Omaha, Nebraska, que os investidores americanos nunca estiveram tão inclinados a comportamentos semelhantes a apostas. A declaração, dada em entrevista à CNBC em 2 de maio, ocorreu na primeira assembleia anual sob o comando executivo de Greg Abel e recuperou uma comparação recorrente de Buffett: o mercado seria uma “igreja com um cassino anexo”, mas o cassino se tornou especialmente atraente.
Mais de três meses depois, dados do mercado de derivativos e os próprios balanços da Berkshire ajudam a dimensionar o alerta sem transformá-lo em previsão de queda. O volume de opções com vencimento no mesmo dia continuou avançando, o CAPE de Robert Shiller aproximou-se do recorde observado na bolha pontocom e a Berkshire permaneceu com centenas de bilhões de dólares em liquidez, embora em montante inferior ao citado em algumas estimativas sobre o primeiro trimestre.
A combinação não demonstra que as ações americanas estejam prestes a cair. Ela mostra, porém, que o ambiente descrito por Buffett reúne simultaneamente negociação de curtíssimo prazo em escala recorde, múltiplos historicamente elevados e uma das maiores reservas de liquidez mantidas por uma companhia privada.
O “cassino” de Buffett aparece nos dados de opções
Buffett afirmou que operações com opções de um dia não deveriam ser confundidas com investimento de longo prazo. Segundo ele, instrumentos desse tipo aproximam a atividade de uma aposta sobre movimentos imediatos dos preços. A crítica é essencialmente comportamental: distingue a compra de participação em empresas, baseada em geração de caixa e valor intrínseco, de posições construídas para capturar oscilações de horas ou minutos.
A expansão das chamadas opções 0DTE — zero days to expiration — oferece uma medida objetiva da mudança. A Cboe informou que, no primeiro trimestre de 2026, o volume diário médio de opções 0DTE sobre o S&P 500 atingiu o recorde de 3 milhões de contratos. No segundo trimestre, a negociação desse tipo de instrumento manteve a expansão: o volume de contratos 0DTE cresceu 46,2% no acumulado do ano e ultrapassou 20 milhões de contratos por dia.
O fenômeno, contudo, não pode ser classificado automaticamente como jogo. A própria Cboe ressalta que contratos com vencimento diário também são utilizados por investidores institucionais e profissionais para hedge, geração de renda, arbitragem e gerenciamento de riscos associados a eventos específicos. O dado relevante para a tese de Buffett é outro: instrumentos que comprimem o horizonte de decisão para uma única sessão deixaram de ser um nicho do mercado.
Nos produtos de S&P 500 negociados pela Cboe, 59% do volume do SPX já corresponde a contratos 0DTE. A operadora também calcula aumento anual de 54% nesse volume desde 2016. Ao mesmo tempo, alerta que contratos próximos do vencimento podem apresentar elevada sensibilidade às oscilações do ativo subjacente durante o pregão.
Isso amplia a capacidade de investidores assumirem posições direcionais de curtíssimo prazo, mas não significa que o volume bruto, isoladamente, provoque maior volatilidade. A composição das operações, a existência de posições de hedge e o equilíbrio entre compradores e vendedores também determinam o impacto efetivo sobre o mercado.
CAPE chega a 42,65 e fica perto do recorde de 1999
A segunda peça do quadro está nos valuations. O CAPE, ou Cyclically Adjusted Price-to-Earnings, desenvolvido por Robert Shiller, compara o nível do mercado acionário com uma média de dez anos dos lucros corporativos ajustados pela inflação. O objetivo é reduzir o efeito de oscilações temporárias nos resultados e observar quanto os investidores estão pagando por uma base de lucros normalizada.
Em 13 de agosto, o CAPE do S&P 500 estava em aproximadamente 42,65 vezes. A média histórica da série é de cerca de 17,4 vezes e a mediana, de 16,1. O maior registro continua próximo de 44,2 vezes, alcançado em dezembro de 1999, durante a fase final da bolha das empresas de internet.
A leitura atualiza a fotografia apresentada no primeiro semestre. O indicador continuou avançando depois da entrevista de Buffett e chegou a uma distância reduzida do máximo histórico. Isso torna a comparação com a bolha pontocom inevitável do ponto de vista estatístico, mas não permite concluir que uma queda semelhante esteja próxima.
O CAPE não foi concebido como cronômetro de mercado. Seu uso é mais consistente na avaliação de preços e retornos potenciais em horizontes longos. Um índice elevado informa que os investidores estão pagando muito por cada unidade de lucro real normalizado; não informa em qual pregão essa disposição pode mudar.
A comparação histórica também exige considerar transformações estruturais. A composição do S&P 500 mudou, as maiores empresas possuem margens diferentes das companhias dominantes em décadas anteriores e uma parcela significativa das receitas das multinacionais americanas é obtida fora dos Estados Unidos. Empresas de tecnologia altamente lucrativas também passaram a representar parcela muito maior do índice.
Esses elementos podem justificar parte da elevação estrutural dos múltiplos, mas não eliminam o risco decorrente de preços que incorporam expectativas de crescimento elevadas por períodos prolongados.
“Buffett Indicator” não tem uma única leitura
Outro indicador frequentemente associado a Buffett compara o valor de mercado das empresas americanas com o Produto Interno Bruto dos Estados Unidos. Uma leitura amplamente divulgada marcou 231,69% em 7 de maio de 2026. A análise das diferentes séries, porém, revela um ponto importante: não existe uma única metodologia padronizada para o chamado “Buffett Indicator”.
Uma medição baseada em dados trimestrais colocou a relação em aproximadamente 218,1% no primeiro trimestre de 2026. Já estimativas que atualizam diariamente a capitalização acionária enquanto utilizam o PIB mais recentemente divulgado chegaram a cerca de 240% em agosto.
As leituras não são necessariamente contraditórias. Elas utilizam períodos, universos de empresas e métodos de atualização distintos. Uma relação calculada com capitalização de mercado diária e PIB trimestral defasado tende a reagir imediatamente às oscilações da Bolsa. Uma medida que sincroniza as duas variáveis dentro do mesmo trimestre sacrifica parte da atualidade, mas reduz essa defasagem.
A consequência é que números como 218%, 231% ou 240% não devem ser comparados sem conhecer a metodologia utilizada. O elemento comum entre as séries é que todas permanecem em patamares historicamente muito elevados.
Isso reforça a leitura de que o valor agregado das empresas negociadas nos Estados Unidos cresceu substancialmente em relação à produção econômica do país, mas não estabelece uma linha automática a partir da qual o mercado necessariamente precise corrigir.
Berkshire tinha US$ 373,5 bilhões em liquidez em março
Os balanços da própria Berkshire oferecem um terceiro elemento para avaliar a postura defendida por Buffett. Ao fim de março, os negócios de seguros e demais operações do conglomerado mantinham US$ 373,5 bilhões em caixa, equivalentes de caixa e títulos do Tesouro americano de curto prazo, descontadas obrigações relacionadas a compras ainda não liquidadas.
O valor oficial é inferior aos quase US$ 400 bilhões citados em algumas estimativas sobre a empresa, mas ainda representa uma reserva extraordinária de liquidez. O balanço mostra US$ 51,48 bilhões em caixa e equivalentes e US$ 339,26 bilhões em investimentos de curto prazo em Treasury Bills antes dos ajustes considerados pela companhia para chegar à métrica líquida.
No trimestre seguinte, a reserva diminuiu. Em 30 de junho, a Berkshire informou US$ 359,2 bilhões em caixa, equivalentes e Treasury Bills líquidos das obrigações por aquisições ainda não liquidadas. O patrimônio líquido atribuível aos acionistas alcançou US$ 747,9 bilhões.
A queda da liquidez impede interpretar o caixa como uma decisão de permanecer completamente fora do mercado. A companhia concluiu em janeiro a aquisição da OxyChem por aproximadamente US$ 9,4 bilhões e recomprou US$ 4,8 bilhões de ações próprias no primeiro semestre, com a maior parte das recompras concentrada no segundo trimestre.
Em 24 de julho, depois do fechamento do balanço trimestral, a Berkshire concluiu ainda a aquisição da construtora Taylor Morrison Home Corporation. O negócio envolveu aproximadamente US$ 6,8 bilhões em dinheiro, segundo o formulário trimestral da companhia.
A fotografia é, portanto, mais complexa do que a simples ideia de uma “montanha de caixa” parada. A Berkshire continua carregando liquidez excepcional, mas simultaneamente utiliza capital quando identifica ativos que atendem aos seus critérios de preço e retorno.
Greg Abel começa a imprimir sua disciplina de capital
A reunião de 2 de maio teve peso adicional porque marcou a primeira assembleia anual desde que Greg Abel assumiu como CEO da Berkshire. Em sua primeira carta anual aos acionistas no cargo, divulgada em fevereiro, Abel confirmou a reunião em Omaha e assumiu formalmente a comunicação sobre desempenho e alocação de capital da companhia. Buffett permaneceu chairman do conselho.
O segundo trimestre revelou uma decisão importante nessa nova etapa: a Berkshire voltou a recomprar suas próprias ações em escala relevante. Foram US$ 4,8 bilhões no primeiro semestre, quase integralmente concentrados entre maio e junho. A companhia informa que a recompra somente pode ocorrer quando o CEO considerar que os papéis estão abaixo de uma estimativa conservadora de valor intrínseco, após consulta ao chairman.
A política também estabelece que as recompras não podem reduzir o caixa, equivalentes e títulos do Tesouro consolidados para menos de US$ 30 bilhões. O limite é muito inferior aos US$ 359,2 bilhões mantidos em junho, oferecendo ampla capacidade financeira para novas aquisições ou recompras se a administração identificar oportunidades.
Esse movimento é relevante porque evita uma interpretação simplista das declarações de Buffett. A Berkshire não está afirmando que todas as ações americanas estejam caras ou que o mercado necessariamente vá cair. Ao recomprar seus próprios papéis e concluir aquisições bilionárias, o conglomerado mostra que continua identificando oportunidades específicas mesmo em um mercado de múltiplos elevados.
Valuation alto não significa queda iminente
A principal distinção é entre valuation e timing. CAPE elevado, relação mercado/PIB em níveis extremos e crescimento das opções de curtíssimo prazo descrevem um mercado em que expectativas e comportamento especulativo ganharam relevância. Nenhum desses indicadores, isoladamente ou em conjunto, determina a data ou a magnitude de uma eventual correção.
O histórico americano contém períodos prolongados em que múltiplos permaneceram acima das médias enquanto os lucros corporativos continuaram crescendo. Também registra correções provocadas por choques econômicos ou financeiros quando os valuations estavam muito abaixo dos extremos atuais.
O elemento particular de 2026 é a coexistência dos sinais. A Cboe registra expansão de 46,2% no volume de opções 0DTE neste ano; o CAPE se encontra a menos de dois pontos do recorde histórico de 1999; diferentes metodologias da relação entre capitalização e PIB permanecem muito acima das médias históricas; e a Berkshire mantém US$ 359,2 bilhões em liquidez mesmo depois de recompras e aquisições bilionárias.
É nesse contexto que a metáfora utilizada por Buffett ganha utilidade analítica. O “cassino” não significa que Wall Street tenha deixado de financiar empresas nem que contratos de derivativos sejam, por definição, apostas. Significa que a infraestrutura disponível para assumir riscos em horizontes cada vez menores cresceu justamente quando o preço agregado das ações americanas voltou a patamares raramente observados.
Buffett não apresentou uma previsão de crash em maio. Seu alerta foi sobre comportamento. Os dados divulgados desde então mostram que, ao menos no mercado de opções de vencimento diário, a tendência que motivou sua crítica continuou avançando. Para a Berkshire, a resposta permanece coerente com a disciplina que construiu sua estratégia durante décadas: preço e valor são conceitos diferentes, e liquidez mantém aberta a possibilidade de agir quando os dois voltam a convergir.
Fontes:
Berkshire Hathaway — Relatório do primeiro trimestre de 2026
https://www.berkshirehathaway.com/qtrly/1stqtr26.pdf
Berkshire Hathaway — Relatório do segundo trimestre de 2026
https://www.berkshirehathaway.com/qtrly/2ndqtr26.pdf
Berkshire Hathaway — Carta anual de Greg Abel aos acionistas
https://www.berkshirehathaway.com/letters/2025ltr.pdf
Cboe Global Markets — Dados e estatísticas sobre opções 0DTE
https://www.cboe.com/en/tradable-products/0dte/
Cboe Global Markets — Mercado de opções no segundo trimestre de 2026
https://www.cboe.com/insights/posts/state-of-the-options-industry-options-market-continued-to-break-records-in-q-2-2026/
Robert J. Shiller — Yale University — Base histórica de preços, lucros e CAPE
https://www.econ.yale.edu/~shiller/data.htm







