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Estrangeiros retiram R$ 15,6 bi da B3 em 9 pregões de agosto e batem recorde desde 2022

Fluxo parcial até dia 13 já supera recorde mensal desde 2022, coloca 2026 com as duas maiores saídas da série e pressiona Ibovespa

por Camila Braga
17/08/2026 às 19h15
em Ibovespa
Ibovespa Em Queda - Gazeta Mercantil

Investidores estrangeiros retiraram R$ 15,63 bilhões líquidos da bolsa brasileira entre os dias 1º e 13 de agosto, em um movimento que já configura a maior saída mensal desde o início da série histórica acompanhada pela Elos Ayta em janeiro de 2022. O dado, apurado a partir dos boletins diários da B3 (B3SA3), considera apenas o mercado secundário e foi divulgado nesta segunda-feira, 17 de agosto.

O montante chama atenção pelo caráter parcial. Agosto ainda tem mais da metade dos pregões pela frente, mas o saldo negativo acumulado em apenas nove sessões superou o recorde anterior de R$ 13,28 bilhões registrado em maio de 2026 quando se inclui o mercado primário, e de R$ 14,91 bilhões quando se considera exclusivamente o secundário. Em comparação direta, a saída de agosto até o dia 13 é 17,7% superior ao recorde de maio no critério que inclui IPOs e follow-ons e 18,3% acima do pico histórico de agosto de 2023, de R$ 13,21 bilhões.

Leia também: Trabalhadores estrangeiros nos EUA enfrentam maior fiscalização no setor hoteleiro.

Com isso, 2026 passa a concentrar as duas maiores retiradas mensais da série. O ano também já acumula um segundo trimestre com saída líquida de R$ 19,5 bilhões no secundário, segundo levantamento da mesma consultoria, o segundo maior volume trimestral desde 2022, atrás apenas do primeiro trimestre de 2024, quando a retirada somou R$ 22,9 bilhões. O fluxo parcial de agosto corresponde a cerca de 80% de todo o segundo trimestre em menos de duas semanas.

Recorde parcial muda o ranking de 2026 e eleva média diária

A média diária de retirada em agosto até o dia 13 ficou em aproximadamente R$ 1,73 bilhão por pregão, considerando nove sessões úteis. Mantido esse ritmo, o mês caminharia para um saldo negativo superior a R$ 36 bilhões ao fim de agosto, mais que o dobro do recorde atual. Em dólar, pela cotação de R$ 5,20 observada no mercado futuro na mesma semana, a saída equivale a cerca de US$ 3 bilhões em nove dias.

A Elos Ayta consolida o fluxo estrangeiro a partir da base pública da B3 que discrimina compras e vendas por categoria de investidor. A consultoria divulga duas métricas distintas. A primeira mede apenas o mercado secundário, que reflete negociação direta em tela. A segunda inclui a participação de não residentes em ofertas públicas iniciais e subsequentes. No episódio de maio, a diferença entre as duas leituras foi relevante: R$ 14,91 bilhões de saída no secundário contra R$ 13,27 bilhões quando incluídas as ofertas. Em agosto, até o dia 12, dados de mercado indicavam saída de R$ 13,56 bilhões no secundário, número que subiu para R$ 15,63 bilhões no fechamento do dia 13.

A distinção é importante porque ofertas primárias podem atenuar o saldo negativo. Quando um investidor estrangeiro subscreve um follow-on, o recurso entra como fluxo primário positivo, mesmo que no secundário ele esteja vendendo outras posições. Nos nove pregões de agosto não houve IPO no período, o que torna o resultado quase integralmente explicado por vendas no mercado à vista.

Leitura técnica da B3 e contrapartida doméstica

A B3 divulga diariamente a participação de investidores estrangeiros por tipo de mercado e alerta que analisar apenas o secundário pode subestimar a permanência do capital externo no Brasil. A bolsa destaca que parte do movimento pode representar rotação de carteira, com saída de um papel e entrada em outro, sem que o recurso deixe o país.

No ano, a dinâmica doméstica tem funcionado como amortecedor parcial. Em episódios anteriores de retirada externa, investidores pessoa física ampliaram compras aproveitando preços descontados, enquanto investidores institucionais locais reduziram exposição. Em agosto de 2025, por exemplo, o fluxo doméstico mostrou aporte de pessoas físicas e saída de fundos, padrão que voltou a ser observado nas primeiras semanas de agosto de 2026 nas mesas de operação.

Para o Ibovespa, a correlação tem sido direta. Entre os dias 3 e 12 de agosto, o índice de referência recuou de 174,9 pontos para 164,6 pontos na cotação do principal ETF espelho, queda de 5,9% em sete pregões, enquanto o dólar futuro para o vencimento mais líquido avançou para a faixa de R$ 5,24 na máxima intradiária, antes de recuar para R$ 5,20. O volume financeiro diário manteve-se acima de R$ 6,5 bilhões no período.

O que explica a aceleração da saída

Três vetores combinados ajudam a explicar a retirada.

O primeiro é externo. O Federal Reserve manteve a taxa básica de juros dos Estados Unidos na faixa de 3,50% a 3,75% e indicou em suas projeções a possibilidade de uma elevação adicional ainda em 2026. A sinalização reduziu o apetite por ativos de risco e fortaleceu o dólar globalmente, movimento que historicamente pressiona fluxos para mercados emergentes. Na mesma semana, o contrato futuro de dólar no Brasil operava em alta de 0,40% a 0,78% nas sessões de maior aversão.

O segundo é o juro doméstico. O Banco Central do Brasil reduziu a Selic para 14% ao ano na última reunião do Comitê de Política Monetária, mas não sinalizou os próximos passos. A ausência de guidance ampliou a volatilidade nos juros futuros e elevou a percepção de que a taxa permanecerá em patamar restritivo por mais tempo, o que aumenta o custo de carregamento de posições em ações e reduz o diferencial de juros que atraía capital estrangeiro no primeiro semestre.

O terceiro é fiscal e eleitoral. Relatórios de mercado citados por consultorias apontam incerteza quanto à trajetória da dívida pública e ao cumprimento do arcabouço fiscal, além de cautela pré-eleitoral que tradicionalmente leva grandes fundos globais a diminuir exposição ao Brasil no segundo semestre do ano que antecede eleições gerais. Em agosto de 2024, por exemplo, o mesmo debate sobre sustentabilidade fiscal já havia sido apontado como fator de volatilidade do fluxo externo.

Impacto para empresas, índices e próximos passos

A retirada de R$ 15,6 bilhões em nove pregões tem impacto direto sobre a formação de preços, especialmente em papéis de maior liquidez e peso no Ibovespa, onde a participação estrangeira é mais elevada. Petrobras (PETR4), Vale (VALE3) e Itaú Unibanco (ITUB4) concentram parte relevante do giro de não residentes e tendem a sentir primeiro o efeito de vendas sistemáticas. Em termos de capitalização, a saída equivale a cerca de 0,3% do valor de mercado total da B3, mas representa múltiplas vezes o volume médio diário de negociação de diversos setores.

Para o restante de agosto, o mercado monitora três datas. A B3 divulga o saldo consolidado de estrangeiros do mês completo no início de setembro, com abertura entre mercado à vista, a termo e opções. A próxima decisão do Copom e a ata do Federal Reserve devem definir a direção dos juros nas duas pontas. E o calendário corporativo segue com balanços do segundo trimestre, que podem alterar a percepção de lucro e geração de caixa e, por consequência, a atratividade relativa da bolsa brasileira.

Se o fluxo de agosto se encerrar próximo ao ritmo atual, 2026 caminhará para superar 2008 em termos de saída anual proporcional, ano em que estrangeiros retiraram R$ 8,6 bilhões em doze meses. Em 2026, apenas maio e a primeira quinzena de agosto somam R$ 30,54 bilhões de retirada no critério que inclui primário, volume 3,5 vezes maior que o total de 2008. Mesmo no critério mais restrito do secundário, a soma de maio com agosto parcial alcança R$ 30,54 bilhões, confirmando a intensidade do movimento.

A apuração não indica mudança estrutural na base de investidores, mas reforça a sensibilidade do mercado local a juros globais e a sinais fiscais domésticos. A continuidade ou reversão do fluxo dependerá da combinação entre diferencial de juros, crescimento de lucros das companhias e clareza sobre a trajetória fiscal nos próximos trimestres.

Fontes:

B3 – boletim diário de mercado e dados de participação e movimentação de investidores estrangeiros no mercado secundário e em ofertas públicas

Elos Ayta Consultoria – levantamento de fluxo mensal de capital estrangeiro na B3 desde janeiro de 2022 e séries trimestrais desde 2022

Federal Reserve – decisão de política monetária, manutenção da taxa na faixa de 3,50% a 3,75% e projeções de juros para 2026

Banco Central do Brasil – decisão do Copom, nível da taxa Selic e comunicados de política monetária

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