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Grupo Mateus (GMAT3): XP rebaixa ação e corta projeção de lucro em até 33%

Corretora reduz recomendação de compra para neutra e vê pressão de consumo, queda das vendas mesmas lojas e cenário macroeconômico mais difícil no Norte e Nordeste.

por João Souza
18/08/2026 às 12h05
em Mercados
Grupo Mateus Corta 6,6 Mil Funcionários Em Demissão Em Massa

(Imagem: Grupo Mateus/Divulgação)

A XP Investimentos rebaixou a recomendação para as ações do Grupo Mateus (GMAT3) de compra para neutra e reduziu o preço-alvo para R$ 5 por ação no fim de 2027, após revisar para baixo as projeções de resultado da varejista. O corte mais severo alcança 33% nas estimativas de lucro líquido, enquanto as previsões para o EBITDA foram reduzidas em até 28%.

O movimento ocorre apesar de o novo preço-alvo ainda representar potencial de valorização de aproximadamente 26,5% em relação ao fechamento utilizado como referência na segunda-feira, 17 de agosto. Esse percentual implica uma cotação-base próxima de R$ 3,95 por ação. A mudança para recomendação neutra mostra, portanto, que ter upside matemático não é suficiente para justificar compra quando os analistas consideram que a relação entre risco e retorno piorou.

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A tese da XP está concentrada principalmente na capacidade do Grupo Mateus de acelerar as vendas nas mesmas lojas e preservar margens em um ambiente de consumo mais difícil nas regiões Norte e Nordeste. Todos os nove estados onde a companhia atua estão, segundo levantamento dos analistas, entre os 12 de maior participação do Bolsa Família na renda média per capita. O Maranhão, berço da empresa e responsável por quase metade de sua base de lojas, aparece como o ponto de maior exposição.

O relatório é assinado por Danniela Eiger, Pedro Caravina e Laryssa Sumer. A XP reconhece melhorias em produtividade, controles internos e governança, mas considera que a combinação entre crescimento moderado da receita e pressões macroeconômicas torna mais difícil ampliar a rentabilidade daqui para frente.

XP corta lucro projetado em até 33%

A revisão das projeções é uma das mudanças mais relevantes do relatório.

Para 2026 e 2027, a XP reduziu suas estimativas de EBITDA em aproximadamente 20% a 28%. No lucro líquido, os cortes são ainda maiores: cerca de 33% e 30%, respectivamente. Para 2027 isoladamente, EBITDA e lucro sofreram revisões na ordem de 28% a 30%.

A diferença entre os cortes ajuda a mostrar que a preocupação da corretora vai além das vendas.

O EBITDA mede a geração operacional antes do resultado financeiro, impostos, depreciação e amortização. Quando a projeção de lucro líquido sofre redução proporcionalmente maior, isso indica que outros componentes da demonstração de resultados também pesam na expectativa final para o acionista.

No segundo trimestre, por exemplo, o resultado financeiro do Grupo Mateus piorou 11% em relação ao primeiro trimestre, enquanto o lucro atribuível aos controladores ficou em R$ 237 milhões.

Para a XP, a principal variável capaz de modificar essa leitura seria uma retomada mais consistente do crescimento de vendas mesmas lojas, indicador conhecido como SSS, de same-store sales. O problema é que os dados recentes seguem na direção contrária.

Vendas mesmas lojas caíram 8% no 2T26

O Grupo Mateus divulgou os resultados do segundo trimestre em 13 de agosto. A receita líquida alcançou aproximadamente R$ 9,85 bilhões, crescimento de 12,2% sobre um ano antes e de aproximadamente 5% na comparação sequencial. A expansão, porém, foi sustentada principalmente pela consolidação do Novo Atacarejo, abertura de unidades e outras frentes de crescimento.

Por baixo do aumento da receita consolidada, a dinâmica orgânica foi bem menos favorável.

As vendas mesmas lojas recuaram 8%, uma deterioração adicional de 0,7 ponto percentual sobre o trimestre anterior. Nas operações originais do Novo Atacarejo em Pernambuco, Paraíba e Alagoas, o SSS caiu 13,6%. Nas lojas Mateus, houve alguma melhora sequencial, mas o indicador ainda permaneceu negativo em aproximadamente 6%.

Esse contraste é importante para interpretar os números.

Uma empresa pode aumentar a receita total abrindo ou adquirindo lojas mesmo quando as unidades que já estavam funcionando vendem menos. Para a análise de eficiência do negócio existente, portanto, o SSS negativo funciona como um sinal de atenção.

Segundo a XP, o Grupo Mateus atribuiu parte da pressão ao endividamento das famílias, à migração para produtos mais baratos — o chamado trade-down — e aos efeitos ainda presentes de mudanças realizadas nas vendas de balcão no primeiro trimestre.

Lucro sobe no trimestre, mas desaba 39% em um ano

O lucro líquido atribuível aos acionistas controladores chegou a aproximadamente R$ 237 milhões no segundo trimestre.

Na comparação com os três primeiros meses de 2026, houve avanço de cerca de 11%. Contra o segundo trimestre de 2025, entretanto, o resultado caiu aproximadamente 39%.

A receita de R$ 9,85 bilhões e o lucro atribuível de R$ 237 milhões resultam em uma margem líquida de apenas cerca de 2,4%, cálculo da Gazeta Mercantil.

Essa relação ajuda a dimensionar a sensibilidade do setor supermercadista: mesmo uma pequena deterioração em custos, despesas financeiras ou margem bruta pode provocar variações relevantes no lucro final, porque a atividade opera com margens relativamente estreitas.

No EBITDA pós-IFRS 16, o Grupo Mateus registrou aproximadamente R$ 682 milhões, crescimento de 25,5% frente ao primeiro trimestre, mas retração de 12,1% sobre um ano antes. A margem EBITDA ficou próxima de 6,9%, contra 8,8% no segundo trimestre de 2025.

Ou seja, houve recuperação em relação ao começo de 2026, mas o nível de rentabilidade permaneceu significativamente abaixo do observado um ano antes.

Eficiência melhorou, mas XP vê limite para as margens

Nem todos os indicadores do trimestre foram negativos.

A margem bruta atingiu 23,5%, alta de 0,6 ponto percentual na comparação sequencial. As despesas operacionais corresponderam a 16,4% da receita, redução de 1 ponto percentual frente ao trimestre anterior.

A melhora está associada ao programa de produtividade iniciado no fim de 2025, além de menor provisão para perdas com crédito e ajustes no mix de vendas.

A XP, porém, faz uma ressalva importante: todo o ganho sequencial de margem bruta veio da operação Novo, enquanto o negócio legado apresentou ligeira contração. Isso leva os analistas a questionarem quanto espaço adicional existe para continuar aumentando margem sem uma retomada mais forte da receita orgânica.

Essa é uma das razões pelas quais a instituição não interpretou a recuperação sequencial do EBITDA como suficiente para sustentar a antiga recomendação de compra.

Caixa negativo adiciona outro sinal de atenção

Outro ponto menos visível no lucro contábil apareceu no fluxo de caixa.

O fluxo de caixa livre, excluindo arrendamentos e venda de ativos, foi negativo em R$ 223 milhões no segundo trimestre. A XP atribuiu boa parte do consumo de caixa à formação de aproximadamente R$ 516 milhões em estoques antes das campanhas de aniversário previstas para o terceiro trimestre.

A relação entre dívida líquida e EBITDA passou de aproximadamente 0,3 vez no primeiro trimestre para 0,5 vez no segundo. O patamar continua relativamente baixo em termos absolutos, mas a direção do indicador mostra aumento da alavancagem no período.

O ciclo de conversão de caixa informado foi de 42 dias e apresentou melhora anual. Na comparação sequencial ajustada, entretanto, a XP calcula deterioração, especialmente quando se desconsidera uma antecipação de recebíveis de R$ 361 milhões realizada pelo Novo em junho.

O ponto central é que o crescimento da receita não está sendo convertido automaticamente em expansão equivalente de lucro e caixa.

Bolsa Família entra na conta da XP

A exposição geográfica do Grupo Mateus ocupa uma posição incomum na tese de investimento da XP.

A instituição calcula que os nove estados de atuação da companhia estejam entre os 12 onde o Bolsa Família representa maior proporção da renda média per capita. No Maranhão, onde nasceu o Grupo Mateus e está concentrada parcela relevante das unidades, essa dependência é ainda maior.

A XP estima que o benefício médio tenha recuado cerca de 5% nos últimos três anos e considera limitado o espaço fiscal para um aumento expressivo no curto prazo. A análise é uma projeção da corretora, não uma determinação já anunciada pelo governo.

Dados divulgados pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social nesta terça-feira mostram que o benefício médio nacional do Bolsa Família em agosto de 2026 é de R$ 678,35. O calendário mensal de pagamentos começou justamente nesta terça-feira, 18 de agosto.

Para uma varejista fortemente exposta ao consumo das classes de menor renda, alterações na renda disponível dessas famílias podem afetar volume, composição da cesta e frequência das compras.

Inflação cria uma combinação menos favorável

A inflação constitui o segundo componente da tese macroeconômica.

Na avaliação da XP, o Grupo Mateus vive hoje situação oposta à observada em 2023. Naquele período, uma inflação geral mais moderada ajudava a preservar renda, enquanto a inflação de alimentos contribuía para o crescimento nominal das vendas. Agora, a instituição identifica pressão maior do custo de vida em mercados relevantes do Norte e Nordeste combinada a menor inflação de alimentos.

Os dados nacionais do IBGE ajudam a ilustrar parte dessa dinâmica. Em junho de 2026, o IPCA avançou 0,16%, acumulando 4,64% em 12 meses, enquanto o grupo Alimentação e Bebidas apresentou queda de 0,24% no mês.

Para supermercados, inflação mais baixa de alimentos pode ser positiva para consumidores, mas reduz o crescimento nominal da receita quando volumes não avançam suficientemente para compensar preços menores.

É justamente a fraqueza de volumes que preocupa os analistas no caso do Grupo Mateus.

Bets e medicamentos GLP-1 aparecem como riscos adicionais

A XP também acrescentou dois fatores menos tradicionais à análise: apostas esportivas e medicamentos da classe GLP-1.

Segundo a corretora, a penetração das apostas em determinadas regiões onde o Grupo Mateus atua pode desviar parte da renda disponível das famílias para jogos. A instituição também considera que a maior disponibilidade de medicamentos GLP-1, associados entre outros usos ao tratamento da obesidade, pode produzir algum efeito negativo incremental sobre o consumo de alimentos.

Esses pontos devem ser interpretados como hipóteses de risco incluídas no modelo da XP, e não como evidência de que bets ou medicamentos já sejam responsáveis por uma parcela determinada da redução das vendas do Grupo Mateus.

O próprio resultado operacional fornece, por enquanto, evidência mais direta de pressão: o SSS negativo e a queda dos volumes reportada pela administração.

Por que R$ 5 ainda significa recomendação neutra?

À primeira vista, existe uma aparente contradição.

Se a XP estabelece preço-alvo de R$ 5 e esse valor representa aproximadamente 26,5% de valorização sobre a referência de R$ 3,95, por que não manter a recomendação de compra?

Porque recomendação de ações não depende apenas do potencial de alta calculado.

Os analistas ponderam probabilidade de execução das projeções, riscos macroeconômicos, trajetória dos lucros, possibilidade de revisões adicionais e alternativas disponíveis no mercado.

No caso de GMAT3, a XP continua descrevendo o Grupo Mateus como um operador sólido, com posição dominante nos principais mercados onde atua, mas considera que a aceleração do SSS necessária para ampliar margens tornou-se mais difícil. Por isso, entende que a relação entre risco e retorno se deteriorou.

A mudança de compra para neutra é, assim, menos uma aposta em colapso operacional e mais uma revisão da quantidade de risco necessária para capturar o retorno potencial.

A diferença é relevante.

O Grupo Mateus continua crescendo em receita, abrindo unidades e implementando medidas de produtividade. Ao mesmo tempo, vendas mesmas lojas negativas, lucro anual 39% menor, fluxo de caixa livre negativo e aumento sequencial da alavancagem mostram que o crescimento consolidado ainda convive com pressões importantes por baixo da linha de receita.

Para recuperar uma visão mais positiva sobre GMAT3, o indicador decisivo passa a ser menos o número de novas lojas e mais a capacidade de fazer as unidades existentes voltarem a vender mais.

É nesse ponto que está o alerta da XP: sem uma recuperação do consumo e dos volumes, os ganhos de eficiência podem não ser suficientes para sustentar uma nova expansão das margens — e foi esse risco que levou a corretora a cortar as projeções de lucro em até 33% e retirar a recomendação de compra.

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