A Agência Nacional do Cinema (Ancine) instaurou um procedimento administrativo para apurar possíveis irregularidades na produção de “Dark Horse”, filme sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. A investigação foi aberta após denúncias formalmente apresentadas ao órgão regulador e está na fase de instrução probatória, etapa em que denunciantes e envolvidos podem apresentar documentos, informações e alegações antes de uma decisão administrativa.
Segundo a Ancine, a produtora Go Up Entertainment está registrada como agente econômico desde 9 de julho de 2025. Até o momento, porém, não há pedido de registro para lançamento comercial do longa no Brasil, exigência prevista para a exploração comercial de obras audiovisuais em território nacional, conforme informou o órgão ao Correio Braziliense.
A apuração ocorre em meio à repercussão política e financeira em torno de “Dark Horse”, produção estrelada pelo ator norte-americano Jim Caviezel. O filme ganhou novo grau de exposição após reportagens apontarem dúvidas sobre financiamento, distribuição e regularidade das filmagens realizadas no Brasil. A Reuters informou que o projeto também passou a ser associado ao escândalo envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
Ancine analisa classificação da obra
Um dos principais pontos sob análise da Ancine é a classificação de “Dark Horse”. A agência avalia se o filme deve ser considerado uma obra brasileira ou estrangeira, definição que pode alterar as obrigações legais aplicáveis à produção.
A classificação é relevante porque obras brasileiras e estrangeiras seguem regras distintas para registro, produção, comunicação, circulação e exploração comercial no país. No caso de filmagens internacionais realizadas em território brasileiro, há exigências específicas de comunicação prévia ao órgão regulador.
A Ancine também apura qual foi o papel efetivo da Go Up Entertainment no projeto. A dúvida central é se a empresa brasileira atuou diretamente como produtora da obra ou se apenas prestou serviços a uma produtora estrangeira responsável pelo longa.
Essa distinção pode determinar se houve descumprimento de obrigações regulatórias durante as gravações realizadas em 2025, em São Paulo. Segundo a agência, filmagens internacionais feitas no Brasil precisam ser previamente comunicadas ao órgão, o que, de acordo com o procedimento aberto, não teria ocorrido no caso de “Dark Horse”.
Go Up Entertainment está registrada desde julho de 2025
A Go Up Entertainment aparece no centro da apuração por ser a empresa brasileira vinculada à produção de “Dark Horse”. De acordo com a Ancine, a produtora está registrada como agente econômico desde 9 de julho de 2025.
O registro como agente econômico é uma etapa necessária para atuação formal no setor audiovisual regulado. Ele permite que a empresa seja identificada pela agência e submetida às obrigações previstas para agentes que atuam na produção, distribuição, exibição ou exploração de obras audiovisuais.
Apesar do registro da empresa, a Ancine informou que não há, até agora, pedido de registro para lançamento comercial do longa no Brasil. A ausência desse pedido não impede, por si só, a existência do projeto, mas passa a ser relevante caso haja intenção de exploração comercial da obra em território nacional.
O procedimento administrativo deverá esclarecer se a produção deveria ter adotado providências anteriores perante a agência, especialmente em razão das gravações feitas no país e da participação de empresa brasileira no projeto.
Filmagens no Brasil entram no centro da investigação
As filmagens de “Dark Horse” foram realizadas em parte no Brasil, incluindo locações em São Paulo. A Ancine apura se a produção cumpriu as exigências aplicáveis a gravações internacionais em território nacional.
A legislação do setor audiovisual prevê que filmagens estrangeiras realizadas no Brasil devem ser comunicadas previamente ao órgão regulador. A regra busca dar transparência à atuação de produtoras internacionais no país e permitir o acompanhamento institucional de projetos que utilizam locações, equipes e serviços locais.
No caso de “Dark Horse”, a agência informou que não houve essa comunicação prévia. Por isso, o processo administrativo tenta apurar se a obra se enquadra como produção estrangeira filmada no Brasil, como produção brasileira ou como coprodução sujeita a obrigações específicas.
A definição terá impacto direto sobre eventuais responsabilidades. Se forem confirmadas irregularidades, a Ancine poderá aplicar medidas administrativas previstas em lei, incluindo sanções contra os responsáveis pela produção.
Filme ganhou repercussão após dúvidas sobre financiamento
“Dark Horse” ganhou repercussão nacional após reportagens levantarem dúvidas sobre sua estrutura de financiamento e distribuição. A Reuters informou que o filme se envolveu em um escândalo político no Brasil depois de o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) admitir ter buscado recursos junto a Daniel Vorcaro para financiar a produção.
Segundo a agência, o projeto teria recebido uma promessa de financiamento de US$ 24 milhões de Vorcaro, embora a Go Up Entertainment tenha negado ter recebido dinheiro do banqueiro. A reportagem também apontou que o orçamento estimado do filme, de cerca de US$ 16 milhões, colocaria a produção entre as mais caras já associadas ao cinema brasileiro.
Flávio Bolsonaro afirmou que a busca por recursos privados para o filme ocorreu sem oferta de vantagem em troca. O caso, no entanto, ampliou o escrutínio sobre a relação entre agentes políticos, financiadores privados e a produção audiovisual.
A associação do longa ao caso Banco Master aumentou a pressão por esclarecimentos. Daniel Vorcaro está no centro de um escândalo financeiro que levou a questionamentos sobre fraudes, supervisão bancária e impactos no Fundo Garantidor de Crédito (FGC).
Jim Caviezel interpreta Bolsonaro no longa
O ator Jim Caviezel, conhecido internacionalmente por “A Paixão de Cristo” e “Som da Liberdade”, interpreta Jair Bolsonaro em “Dark Horse”. A produção é apresentada como uma cinebiografia do ex-presidente, com foco em sua trajetória política.
Segundo informações divulgadas sobre o projeto, o filme tem direção de Cyrus Nowrasteh e foi escrito por Mário Frias, deputado federal pelo PL de São Paulo e ex-secretário de Cultura no governo Bolsonaro. A obra retrata episódios ligados à campanha presidencial de 2018 e ao atentado a faca sofrido por Bolsonaro em Juiz de Fora.
Caviezel afirmou nas redes sociais que a estreia nos Estados Unidos está prevista para setembro de 2026. Veículos especializados, porém, informaram que a produção ainda busca uma distribuidora internacional, o que adiciona incerteza sobre o calendário de lançamento.
No Brasil, a situação regulatória também permanece indefinida, já que, segundo a Ancine, ainda não há pedido de registro para lançamento comercial do filme.
Apuração administrativa pode resultar em sanções
A Ancine informou que os resultados da apuração serão divulgados publicamente após a conclusão do processo administrativo. A agência ressaltou, contudo, que procedimentos sancionadores têm acesso restrito durante a tramitação.
Caso sejam confirmadas irregularidades, poderão ser adotadas as medidas previstas na legislação, incluindo sanções administrativas contra os responsáveis pela produção. As penalidades podem variar conforme a natureza da infração, o enquadramento da obra e a responsabilidade dos agentes envolvidos.
A fase de instrução probatória é justamente o momento em que a agência reúne elementos para avaliar se houve descumprimento de regras. Denunciantes e envolvidos podem apresentar documentos, respostas e argumentos antes de uma decisão.
Até a conclusão do procedimento, a apuração não equivale a condenação administrativa. A linguagem adotada pelo órgão é de investigação sobre possíveis irregularidades, e os envolvidos terão direito a se manifestar no processo.
Caso amplia pressão sobre produção ligada a Bolsonaro
A investigação da Ancine adiciona uma nova frente de pressão sobre “Dark Horse”. O filme já vinha sendo alvo de questionamentos sobre financiamento, distribuição e bastidores de produção, além de ter sido associado ao debate político nacional por retratar a trajetória de Jair Bolsonaro.
O caso também ocorre em um ambiente de maior exposição do PL e de Flávio Bolsonaro, que aparece no centro das discussões sobre a tentativa de financiamento da obra junto a Daniel Vorcaro. A repercussão política cresceu após a divulgação de informações sobre contatos entre o senador e o banqueiro.
Para a Ancine, o foco formal da apuração está nas obrigações regulatórias do setor audiovisual. A agência deverá definir se houve falha na comunicação de filmagens internacionais, se a Go Up Entertainment atuou como produtora ou prestadora de serviços e se havia exigências adicionais para registro da obra.
O desfecho poderá ter efeitos para a produção, para a produtora brasileira e para o lançamento do filme no país. Até lá, “Dark Horse” seguirá sob escrutínio administrativo, político e financeiro.










