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Andrade Gutierrez pede nova recuperação extrajudicial para renegociar R$ 3,4 bilhões em dívidas

Construtora afirma que obras paralisadas, dólar mais alto e Selic elevada comprometeram o caixa; plano já teria adesão de mais de 70% dos credores

por Alice Nascimento
21/05/2026 às 12h55
em Empresas
Andrade Gutierrez - Gzt - Gazeta Mercantil

A Andrade Gutierrez apresentou um novo pedido de recuperação extrajudicial para renegociar dívidas avaliadas em R$ 3,4 bilhões, segundo documento protocolado na terça-feira (19) na 1ª Vara Empresarial de Belo Horizonte. A companhia afirma que a proposta já foi acolhida por mais de 70% dos credores, percentual mínimo exigido para que o plano possa ser homologado pela Justiça. Este é o segundo pedido de recuperação extrajudicial do grupo em três anos e meio, após um acordo firmado em 2022.

A empresa, uma das maiores construtoras de engenharia pesada da América Latina, sustenta que acumulou prejuízo superior a R$ 2 bilhões desde 2022. No documento enviado ao Judiciário, a Andrade Gutierrez afirma que as medidas de reestruturação adotadas no acordo anterior tiveram resultado, mas que novas adversidades afetaram a capacidade de pagamento das dívidas agora submetidas à renegociação.

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Entre os fatores citados pela companhia estão a paralisação e o adiamento de obras, a valorização do dólar e a manutenção da taxa Selic em patamar elevado. Segundo a Andrade Gutierrez, em dezembro de 2024, cerca de 47% de sua carteira de projetos estava paralisada ou postergada, o que afetou diretamente o fluxo de caixa do grupo.

Novo plano tenta evitar deterioração financeira

A recuperação extrajudicial é um instrumento usado por empresas em dificuldade financeira para negociar diretamente com credores a reestruturação de dívidas. Diferentemente da recuperação judicial, o acordo é construído fora do processo judicial tradicional e depois levado ao Judiciário para homologação.

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Na prática, a empresa busca apoio de uma parcela relevante dos credores antes de apresentar o plano à Justiça. Uma vez homologado, o acordo passa a ter segurança jurídica e pode vincular os credores sujeitos às condições previstas, desde que cumpridos os requisitos legais.

No caso da Andrade Gutierrez, a companhia afirma ter obtido adesão superior a 70% dos credores. Esse ponto é central porque indica que a maior parte dos credores abrangidos já teria aceitado os termos da proposta.

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A homologação, no entanto, ainda depende da análise judicial. A Justiça deverá avaliar se o plano cumpre as exigências legais, se os credores foram adequadamente representados e se as condições apresentadas respeitam os critérios previstos para esse tipo de reestruturação.

Dívida de R$ 3,4 bilhões será dividida em dois planos

A Andrade Gutierrez estruturou o pedido de recuperação extrajudicial em dois planos. O primeiro concentra a maior parte das dívidas e envolve empresas do grupo no Brasil, como AGE, Andrade Gutierrez Investimentos em Engenharia; AGCS, Andrade Gutierrez Construções e Serviços; e AGIE, Andrade Gutierrez International.

O segundo plano trata de créditos relacionados a AGINT, Zagope e Inzag, fundos ligados a títulos emitidos pela Andrade Gutierrez no exterior. A divisão mostra a complexidade da estrutura financeira do grupo, que possui obrigações no Brasil e fora do país.

A separação dos créditos por blocos permite que a companhia trate diferentes perfis de credores e dívidas conforme a natureza de cada obrigação. Em conglomerados com atuação internacional, esse desenho pode ser necessário para acomodar títulos externos, financiamentos locais, instrumentos corporativos e dívidas com características jurídicas distintas.

A renegociação busca reorganizar prazos, condições de pagamento e obrigações financeiras. O objetivo declarado é preservar a continuidade das atividades e reduzir a pressão sobre o caixa.

Obras paralisadas pressionaram geração de caixa

Um dos principais argumentos apresentados pela Andrade Gutierrez é o impacto da paralisação de obras sobre sua situação financeira. Segundo a companhia, quase metade da carteira de projetos estava paralisada ou postergada ao fim de 2024.

Em empresas de engenharia pesada, a interrupção de contratos pode ter efeitos relevantes. Obras de grande porte exigem mobilização de equipes, equipamentos, fornecedores, garantias e capital de giro. Quando o projeto é paralisado, a empresa pode deixar de receber receitas previstas, mas continuar arcando com parte dos custos operacionais e financeiros.

Esse desequilíbrio afeta diretamente a geração de caixa. Também pode provocar disputas contratuais, necessidade de renegociação com fornecedores e postergação de pagamentos a credores.

A Andrade Gutierrez afirma que esse cenário comprometeu a capacidade de pagamento das dívidas submetidas ao novo plano. O pedido de recuperação extrajudicial busca, portanto, ajustar o passivo à nova realidade operacional do grupo.

Dólar e Selic agravaram custo da dívida

Além das obras paralisadas, a companhia citou a valorização do dólar como um dos fatores que elevaram o custo de suas dívidas em moeda estrangeira. Para empresas com passivos externos, a alta da moeda americana aumenta o valor da dívida em reais e pode pressionar indicadores de alavancagem.

A Selic elevada também agravou o quadro financeiro. Juros mais altos encarecem financiamentos, aumentam despesas financeiras e dificultam a rolagem de dívidas. Esse efeito é especialmente sensível para empresas intensivas em capital, como construtoras de infraestrutura.

O setor de engenharia pesada costuma operar com contratos longos, margens pressionadas e necessidade elevada de financiamento. Em um ambiente de juros altos, qualquer atraso relevante na carteira de obras pode ampliar rapidamente a pressão sobre o caixa.

A combinação entre dívida elevada, custo financeiro maior, dólar valorizado e interrupção de projetos levou a Andrade Gutierrez a buscar uma nova renegociação com credores.

Segundo pedido em três anos e meio expõe desafios do grupo

O novo pedido de recuperação extrajudicial ocorre cerca de três anos e meio depois do primeiro acordo de reestruturação, firmado em 2022. A repetição do procedimento indica que a companhia ainda enfrenta dificuldades para estabilizar sua situação financeira.

A Andrade Gutierrez foi um dos principais alvos da Operação Lava Jato, investigação que atingiu grandes empreiteiras brasileiras e provocou forte impacto sobre contratos, reputação, acesso a crédito e capacidade de atuação no mercado de obras públicas e privadas.

Mesmo após o fim do ciclo mais intenso da Lava Jato, empresas do setor continuaram lidando com efeitos prolongados, como restrição de crédito, redução de contratos, necessidade de reforço de governança e reestruturação de passivos.

A Andrade Gutierrez permanece como uma das maiores empresas brasileiras de engenharia e construção pesada, mas sua trajetória recente é marcada por ajustes financeiros e tentativa de preservar capacidade operacional em um ambiente mais restritivo.

Construtora mantém atuação em infraestrutura

Fundada em 1948, em Minas Gerais, a Andrade Gutierrez tem atuação histórica em obras de grande porte nas áreas de mobilidade, energia, mineração, óleo e gás. O grupo já operou no Brasil e em mais de 40 países, consolidando-se como um dos principais conglomerados de engenharia pesada da América Latina.

A presença em projetos complexos também torna a companhia exposta a riscos elevados. Obras de infraestrutura dependem de financiamento, licenciamento, contratos públicos e privados, estabilidade regulatória, fornecedores, mão de obra especializada e cronogramas de longo prazo.

Quando esses fatores são afetados por atrasos, disputas ou mudanças macroeconômicas, o impacto financeiro pode ser expressivo. A paralisação de quase metade da carteira, conforme alegado pela empresa, ajuda a explicar a pressão sobre o caixa e a necessidade de nova renegociação.

A recuperação extrajudicial, se homologada, pode dar fôlego financeiro à companhia e permitir a reorganização das obrigações sem interrupção imediata das atividades.

Recuperação extrajudicial difere da judicial

A recuperação extrajudicial costuma ser vista como alternativa menos complexa do que a recuperação judicial. Na recuperação judicial, a empresa entra em um processo mais amplo, com supervisão judicial mais intensa, apresentação de plano, assembleia de credores e proteção legal contra cobranças por determinado período.

Na recuperação extrajudicial, a negociação ocorre de forma mais direta com os credores. O Judiciário entra depois, para homologar o acordo e conferir segurança jurídica ao plano.

Apesar de ser um instrumento mais enxuto, a recuperação extrajudicial não elimina riscos. Credores podem questionar a proposta, a Justiça pode exigir ajustes e a empresa precisa cumprir as condições pactuadas para evitar nova deterioração financeira.

No caso da Andrade Gutierrez, o fato de a companhia afirmar que já alcançou mais de 70% de adesão entre credores aumenta a chance de avanço do plano, mas não garante automaticamente a homologação.

Caso reforça pressão sobre construção pesada no Brasil

O novo pedido da Andrade Gutierrez evidencia a pressão persistente sobre o setor de construção pesada no Brasil. Empresas desse segmento ainda enfrentam efeitos combinados de juros altos, restrição financeira, disputas contratuais, retomada desigual de investimentos e exigências maiores de governança.

A infraestrutura voltou a atrair capital em áreas como saneamento, energia, mobilidade e concessões, mas o ambiente segue seletivo. Companhias com passivos elevados precisam equilibrar capacidade técnica, acesso a crédito, execução de contratos e disciplina financeira.

Para credores, o ponto central será avaliar se o novo plano da Andrade Gutierrez oferece condições realistas de pagamento e preserva valor econômico. Para a empresa, o desafio é reorganizar a dívida sem comprometer a continuidade das operações.

A decisão da Justiça em Belo Horizonte será determinante para o andamento da reestruturação. Se o plano for homologado, a construtora terá uma nova oportunidade de ajustar seu passivo e recuperar previsibilidade financeira.

Reestruturação pode definir fôlego da Andrade Gutierrez

A nova recuperação extrajudicial coloca a Andrade Gutierrez diante de uma etapa decisiva. A companhia tenta renegociar R$ 3,4 bilhões em dívidas em meio a prejuízo bilionário, obras paralisadas, passivos em moeda estrangeira e custo financeiro elevado.

O pedido também será acompanhado de perto pelo setor de infraestrutura, por credores e por empresas de engenharia que enfrentam desafios semelhantes. A Andrade Gutierrez ainda carrega relevância histórica e operacional no mercado brasileiro, mas precisa demonstrar capacidade de reorganização financeira para sustentar sua atuação nos próximos anos.

A homologação do plano poderá reduzir a pressão imediata sobre o caixa. A efetividade da reestruturação, porém, dependerá da retomada de projetos, da geração de receita, da disciplina na execução das obras e do controle do endividamento.

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