O Túnel Santos-Guarujá avançou para a fase de preparação contratual e de desenvolvimento dos projetos antes do inÃcio das obras, previsto para 2027. O empreendimento, estruturado como parceria público-privada (PPP) e estimado em R$ 6,8 bilhões, terá 1,5 quilômetro de extensão, sendo 870 metros sob o canal do Porto de Santos. A concessão foi assinada em 28 de janeiro de 2026 com a TSG Concessionária, controlada pelo grupo português Mota-Engil, e teve a transferência inicial do ativo formalizada em julho.
O cronograma oficial estabelece 2026 como o ano dedicado à elaboração dos projetos funcional e executivo, estudos complementares e providências necessárias à implantação. A mobilização dos canteiros, a construção da doca seca e as primeiras dragagens estão previstas para 2027. A fabricação dos módulos de concreto deverá ocorrer em 2028, enquanto a instalação dos elementos imersos está planejada para 2029. A conclusão dos sistemas e testes operacionais está prevista para 2030, com inÃcio da operação comercial em 2031.
A atualização do estágio do projeto é relevante porque a obra já deixou a etapa de licitação. O contrato de concessão foi firmado e o Termo de Transferência Inicial (TTI), assinado em 7 de julho pela TSG e pelo governo paulista, iniciou a contagem dos prazos contratuais. Na prática, o empreendimento ainda não está em fase de escavação ou montagem do túnel, mas já entrou no perÃodo de preparação que antecede a execução fÃsica.
Aporte público supera três quartos do investimento previsto
Do valor estimado de R$ 6,8 bilhões, aproximadamente R$ 5,14 bilhões correspondem ao aporte público previsto no contrato. O montante equivale a cerca de 75,5% do investimento informado pelo governo paulista. A divisão envolve recursos do governo de São Paulo e da União, em uma estrutura na qual a concessionária ficará responsável pela construção, operação e manutenção do sistema durante 30 anos.
A participação pública tornou-se um dos principais pontos de atenção institucional do projeto em 2026. Em março, o Tribunal de Contas da União determinou que a Autoridade Portuária de Santos (APS) não realizasse o aporte federal de aproximadamente R$ 2,6 bilhões até que fosse formalizado um mecanismo de governança para controlar a aplicação dos recursos. A decisão estava ligada à necessidade de estabelecer responsabilidades, acompanhamento e prestação de contas sobre o dinheiro federal empregado na PPP.
O cenário mudou em maio, quando o TCU revogou o efeito cautelar que impedia o aporte e informou não haver objeção à transferência para uma conta vinculada, desde que observadas as medidas de controle. O desembolso efetivo, porém, permaneceu condicionado à formalização do instrumento de governança exigido pelo tribunal.
Em 14 de julho, a APS e a Secretaria de Parcerias em Investimentos de São Paulo assinaram o Termo de Compromisso para disciplinar a utilização dos recursos federais. O acordo criou um Comitê Técnico de Governança do Custeio Federal, responsável por acompanhar a execução fÃsica e financeira, analisar informações e validar eventos de desembolso. A estrutura também prevê a manutenção dos recursos em conta vinculada, com liberação conforme as condições estabelecidas para a execução do empreendimento.
A sequência de decisões mostra que a principal pendência institucional relacionada ao financiamento público foi tratada antes da entrada efetiva na fase de obras. O projeto, entretanto, continua sujeito aos controles previstos no contrato e à fiscalização dos órgãos responsáveis.
Projeto concentra mobilidade rodoviária, pedestres, ciclistas e VLT
O desenho contratado prevê três faixas de rolamento por sentido. Uma delas poderá receber, futuramente, o VeÃculo Leve sobre Trilhos (VLT), enquanto o sistema contará também com estruturas destinadas à circulação de pedestres e ciclistas. A concepção foi planejada para permitir diferentes modalidades de deslocamento em uma única ligação permanente entre as duas cidades.
O trecho submerso terá 870 metros e ficará sob o canal portuário, enquanto o conjunto do empreendimento alcançará aproximadamente 1,5 quilômetro. A técnica prevista é a do túnel imerso: os módulos de concreto serão produzidos em uma área de fabricação, preparados para receber os sistemas internos e posteriormente posicionados em uma trincheira aberta no fundo do canal.
O cronograma detalha a sequência dessa operação. Em 2028, a previsão é iniciar a pré-moldagem dos elementos de concreto e a dragagem da área onde os módulos serão assentados. No ano seguinte, ocorrerão a imersão e a montagem das peças, além das obras de acesso. Em 2030, entram na programação os acabamentos, sistemas de operação e testes necessários antes da abertura ao público.
A configuração também foi desenhada para não interromper a navegação comercial no canal do Porto de Santos. A solução utiliza a construção dos módulos fora do canal e sua posterior imersão, reduzindo a necessidade de manter uma grande frente permanente de escavação no leito navegável. O próprio projeto estadual aponta a preservação da capacidade de expansão do porto como uma das premissas da solução.
Conexão com o sistema viário amplia o efeito sobre a logÃstica
No lado do Guarujá, o empreendimento terá integração com a Rodovia Cônego Domênico Rangoni, no distrito de Vicente de Carvalho. A conexão foi incorporada ao planejamento do projeto após demandas apresentadas pelo municÃpio para que a chegada do túnel não terminasse isoladamente no tecido urbano.
Essa ligação é relevante porque a Cônego Domênico Rangoni funciona como um dos principais eixos terrestres de acesso ao sistema portuário e à região do retroporto. Hoje, a ligação entre Santos e Guarujá por veÃculos também depende da rodovia, fazendo com que deslocamentos entre as duas cidades possam atingir cerca de 43 quilômetros e, em condições normais, consumir aproximadamente uma hora.
Com a nova ligação, a travessia direta entre as áreas urbanas deverá cair para menos de cinco minutos, segundo a concessionária. Considerando uma referência de 50 minutos atualmente utilizada pelo projeto, a redução potencial supera 90% no tempo de deslocamento. Esse ganho, porém, corresponde ao percurso de travessia e não necessariamente ao tempo total de uma viagem, que continuará dependendo dos acessos viários em cada margem.
A estrutura também altera a relação entre mobilidade urbana e operações portuárias. O projeto foi concebido para atender deslocamentos cotidianos entre Santos e Guarujá sem criar uma nova barreira para a circulação de navios pelo canal, ao mesmo tempo em que incorpora transporte coletivo, bicicletas e pedestres.
Balsas continuam como ligação principal até a conclusão
Enquanto o túnel não estiver em operação, a travessia continuará dependendo do sistema existente de balsas e embarcações de pequeno porte. Segundo dados do projeto estadual, mais de 28 mil pessoas cruzam diariamente as duas margens utilizando balsas e catraias.
A diferença entre o sistema atual e a futura ligação fixa explica parte da dimensão esperada para o projeto. A travessia por embarcações está sujeita a filas, condições operacionais do porto e capacidade do sistema aquaviário, enquanto o túnel pretende criar um corredor permanente de circulação.
O projeto também foi estruturado para atender caminhões, além de veÃculos de passeio e transporte público. Com isso, a obra terá efeito sobre deslocamentos metropolitanos e sobre a circulação associada à atividade portuária, embora os benefÃcios efetivos para o tráfego dependam da conexão entre o túnel e as demais vias da Baixada Santista.
Preparação social já começou antes da obra fÃsica
A fase preparatória avançou também no relacionamento com as áreas urbanas diretamente afetadas. Em 31 de agosto, a TSG iniciou atendimento presencial no bairro do Macuco, em Santos, uma das áreas de acesso previstas para o empreendimento. O posto passou a receber moradores para esclarecimentos sobre o projeto, cadastramento socioeconômico, desapropriações, documentação e direitos relacionados ao processo.
A medida mostra que a implantação não depende apenas da construção do trecho submerso. O empreendimento inclui acessos, instalações operacionais e intervenções urbanas que atingem áreas consolidadas dos dois municÃpios. A preparação das desapropriações e dos atendimentos à população ocorre, portanto, antes da etapa de fabricação e imersão dos módulos.
O governo estadual estima que a execução deverá gerar cerca de 9 mil empregos diretos e indiretos. A concessionária também informa que pretende priorizar a contratação local sempre que possÃvel, embora as vagas e os requisitos sejam definidos de acordo com cada etapa da implantação.
Cronograma coloca construção entre 2027 e 2030
Com a transferência inicial concluÃda em julho, o próximo ciclo do empreendimento é concentrado em projetos, estudos complementares, licenciamento e preparação dos canteiros. O inÃcio das obras está previsto para 2027, enquanto a fabricação dos módulos e a intervenção direta no canal deverão ganhar escala a partir de 2028.
A programação contratual prevê a imersão e montagem dos elementos em 2029, seguida pela conclusão dos acessos e dos sistemas em 2030. A operação comercial está programada para 2031.
Até lá, o principal desafio de execução será coordenar uma obra de alta complexidade com a atividade portuária, as intervenções urbanas, os controles ambientais e o fluxo dos recursos públicos. O acompanhamento federal também permanece ativo: o TCU retirou a trava cautelar sobre o aporte, mas determinou mecanismos especÃficos de governança, enquanto a fiscalização estadual ficará a cargo da Agência Reguladora de Serviços Públicos Delegados de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp) e do governo paulista.
O túnel, portanto, chega ao último trimestre de 2026 com concessão formalizada, concessionária instalada e cronograma de implantação definido, mas ainda na etapa anterior ao inÃcio das obras fÃsicas. A meta contratual permanece a entrada em operação em 2031, quando Santos e Guarujá deverão passar a contar, pela primeira vez, com uma ligação terrestre permanente sob o canal do porto.
Fontes:
Governo de São Paulo – informações do projeto do Túnel Imerso Santos-Guarujá, investimentos, aporte público, extensão, concessão e cronograma de execução
TSG Concessionária – Termo de Transferência Inicial, inÃcio da vigência da concessão e caracterÃsticas técnicas do empreendimento
Tribunal de Contas da União – Acórdão 690/2026 e decisão sobre governança e aporte federal ao projeto
Tribunal de Contas da União – Acórdão 1139/2026, que revogou a cautelar sobre o aporte e estabeleceu condições para os recursos federais
Autoridade Portuária de Santos – Termo de Compromisso para governança e validação dos desembolsos do aporte federal
TSG Concessionária – atendimento social no bairro do Macuco e informações sobre a fase preparatória do empreendimento










