Asilo político de Bolsonaro: PF encontra minuta com erro no nome de Milei em pedido para a Argentina
A Polícia Federal encontrou um documento inusitado durante as investigações contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Trata-se de uma minuta de pedido de asilo político de Bolsonaro na Argentina, mas com um detalhe que chamou a atenção: o nome do presidente argentino, Javier Milei, estava escrito de forma incorreta, como “Miliei”.
O episódio, além de expor fragilidades no documento, reacendeu o debate sobre uma possível tentativa de fuga de Bolsonaro diante das investigações em curso no Supremo Tribunal Federal (STF), que apuram a participação do ex-chefe do Executivo em suposto plano de golpe articulado por seus aliados.
O erro no nome de Milei e a minuta de asilo
Segundo o relatório final da PF, a minuta de asilo político de Bolsonaro estava em sua residência e tinha como destinatário o presidente da Argentina, Javier Milei. O erro de digitação, transformando Milei em “Miliei”, reforçou a percepção de que se tratava de um documento ainda em elaboração.
O conteúdo indicava que Bolsonaro se declarava “perseguido político” e solicitava refúgio no país vizinho. Para os investigadores, esse material seria uma evidência de que o ex-presidente planejava deixar o Brasil caso houvesse avanço das investigações que poderiam resultar em sua prisão preventiva.
Contexto das investigações
A descoberta do documento aconteceu no âmbito da operação da PF que apura uma rede de apoiadores de Bolsonaro suspeita de planejar um golpe para impedir a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O asilo político de Bolsonaro seria, segundo a PF, uma alternativa considerada após a deflagração de medidas que miraram aliados e familiares, incluindo a apreensão de celulares do vereador Carlos Bolsonaro (PL-RJ) em Angra dos Reis.
O relatório da Polícia Federal destacou que os “elementos informativos encontrados” demonstram que o ex-presidente tinha em mãos um plano de evasão para a Argentina, editado pela última vez em fevereiro de 2024.
A ligação com a família Bolsonaro
Outro detalhe citado pelos investigadores é que o documento estava associado a Fernanda Bolsonaro, esposa do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A menção fortaleceu as suspeitas de que havia um círculo familiar envolvido na elaboração ou no armazenamento do pedido de refúgio.
Esse vínculo ampliou a discussão sobre até que ponto a família Bolsonaro estaria ciente ou alinhada com um possível plano de fuga.
A defesa de Bolsonaro
O advogado e ex-secretário de Comunicação, Fábio Wajngarten, saiu em defesa do ex-presidente, negando categoricamente qualquer tentativa de evasão. Segundo ele, Bolsonaro nunca teria cogitado deixar o Brasil, classificando o episódio como fruto de “vazamentos criminosos” que buscariam constranger o ex-mandatário.
Para Wajngarten, a minuta não passaria de uma sugestão enviada por terceiros, sem qualquer caráter oficial. Ele ressaltou que Bolsonaro estava em sua residência em Angra dos Reis quando circularam rumores sobre uma possível prisão e que, nesse contexto, muitas ideias eram enviadas ao ex-presidente por meio de auxiliares próximos, mas não eram levadas adiante.
Milei e a relação com Bolsonaro
A menção ao presidente argentino, Javier Milei, no documento de asilo político de Bolsonaro, adiciona um ingrediente internacional à crise. Milei é considerado um aliado ideológico do bolsonarismo, tendo se aproximado do ex-presidente durante campanhas e encontros políticos.
O erro no nome, contudo, foi visto como um detalhe constrangedor, considerando a proximidade que ambos cultivavam publicamente. No meio político argentino, o episódio gerou comentários sobre o impacto que uma eventual solicitação de refúgio poderia causar na relação bilateral.
A repercussão política
A revelação do documento trouxe nova pressão sobre Bolsonaro. A oposição usou o episódio para reforçar a narrativa de que o ex-presidente teria buscado alternativas para escapar das consequências jurídicas de suas ações.
Já aliados de Bolsonaro minimizaram a importância do material, destacando que a minuta não passou de um rascunho sem validade oficial.
No Congresso, parlamentares de oposição levantaram a possibilidade de convocar autoridades para esclarecer a veracidade e o contexto em que o documento foi encontrado.
Asilo político: como funciona
O asilo político é um instituto previsto no direito internacional e pode ser solicitado por pessoas que alegam perseguição política em seu país de origem. No caso da Argentina, o pedido teria de ser analisado pelo governo de Javier Milei e poderia abrir uma crise diplomática com o Brasil.
Na prática, a concessão de asilo não é automática. Envolve análise jurídica, política e diplomática, além da avaliação sobre os impactos bilaterais entre os países envolvidos.
No cenário do asilo político de Bolsonaro, especialistas em direito internacional avaliam que seria improvável que a Argentina aceitasse o pedido sem gerar tensões com o governo brasileiro.
O impacto jurídico no STF
O documento de asilo político de Bolsonaro também pode ser usado como elemento de prova pelo Supremo Tribunal Federal. Para os investigadores, o material reforça a tese de que o ex-presidente cogitava fugir do país diante das acusações de crimes relacionados à tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito.
Se incorporado ao processo, o episódio pode pesar em eventuais decisões do STF sobre medidas cautelares, incluindo a manutenção de restrições já impostas a Bolsonaro.
Possíveis consequências diplomáticas
Caso o pedido tivesse sido levado adiante, a solicitação de asilo político de Bolsonaro na Argentina poderia provocar um desgaste diplomático imediato. O governo brasileiro, atualmente comandado por Lula, poderia interpretar a concessão como ingerência nos assuntos internos.
Além disso, a Argentina, liderada por Milei, estaria em posição delicada ao equilibrar afinidades ideológicas com Bolsonaro e interesses institucionais com o Brasil.
A descoberta da minuta de asilo político de Bolsonaro, com erro no nome de Javier Milei, representa mais um capítulo polêmico no cerco judicial e político ao ex-presidente. Embora a defesa negue que Bolsonaro tenha cogitado seriamente deixar o país, o documento encontrado pela PF reforça a narrativa de que havia, ao menos, uma possibilidade considerada por aliados próximos.
O episódio une elementos de constrangimento pessoal, repercussão diplomática e impacto jurídico, consolidando-se como mais uma peça na complexa teia de investigações que envolvem o ex-chefe do Executivo.






