O último ato de campanha de Luiz Inácio Lula da Silva antes do primeiro turno das eleições de 2026 terminou sem uma estimativa independente de público produzida pelo Monitor do Debate Político, grupo de pesquisadores ligado à Universidade de São Paulo que nos últimos anos passou a realizar contagens de manifestações por meio de imagens aéreas e visão computacional.
Segundo reportagem publicada pelo Metrópoles, a equipe de segurança do presidente não autorizou a captação das fotografias aéreas necessárias à pesquisa durante a mobilização realizada neste sábado, 3 de outubro, na região da Avenida Paulista e da rua Augusta, em São Paulo.
A justificativa apresentada foi de segurança. O espaço aéreo na área do evento teria sido restringido diante da preocupação com possíveis ações envolvendo drones contra o presidente.
A ausência das imagens inviabilizou o método utilizado pelos pesquisadores. Diferentemente de estimativas baseadas na área ocupada e em uma densidade presumida de pessoas por metro quadrado, o Monitor utiliza fotografias aéreas de alta resolução para identificar participantes individualmente por meio de visão computacional.
Com isso, não há uma estimativa produzida pelo grupo que permita determinar quantas pessoas estavam no ato de Lula no momento de maior concentração.
A falta da medição também significa que fotografias amplas do evento, declarações de organizadores ou impressões visuais não devem ser apresentadas como substitutos equivalentes à contagem científica.
Método da USP depende de imagens feitas do alto
O Monitor do Debate Político utiliza essa metodologia desde 2022.
O procedimento começa com a captura de imagens aéreas de toda a extensão da manifestação, normalmente por drones. As fotografias são produzidas no momento identificado pelos pesquisadores como o pico de concentração do evento.
Em seguida, um sistema de visão computacional treinado para reconhecer pessoas em grandes aglomerações processa as imagens.
As detecções são consolidadas para produzir uma estimativa acompanhada de margem de erro.
O grupo também costuma disponibilizar as fotografias utilizadas e informações sobre o procedimento, permitindo que os resultados sejam posteriormente auditados.
A metodologia procura resolver um problema histórico das manifestações políticas brasileiras: as diferenças, por vezes muito grandes, entre os números anunciados pelos organizadores, adversários, autoridades e veículos de comunicação.
Em vez de simplesmente multiplicar uma área pela quantidade estimada de pessoas por metro quadrado, o sistema procura detectar indivíduos diretamente nas imagens.
Essa característica torna a obtenção das fotografias aéreas uma etapa essencial.
Sem elas, não há base para aplicar o algoritmo.
Segurança contra drones impede justamente a ferramenta usada para contar
O episódio produz uma circunstância incomum.
O mesmo tipo de equipamento que permite ao Monitor realizar a contagem — uma aeronave remotamente pilotada — também integra o conjunto de riscos avaliados pelas equipes responsáveis pela proteção de autoridades.
Drones dependem de autorização para acesso ao espaço aéreo brasileiro e estão sujeitos às regras do Departamento de Controle do Espaço Aéreo.
Em eventos com autoridades e grande concentração de pessoas, restrições adicionais podem ser adotadas por razões operacionais ou de segurança.
No caso do ato de Lula, segundo a informação publicada pelo Metrópoles, a preocupação com possíveis ataques por drones levou à restrição que impediu a fotografia aérea necessária à pesquisa.
Não há, nas informações públicas consultadas, indicação de que tenha ocorrido efetivamente uma tentativa de ataque durante o evento.
Portanto, a existência de uma medida preventiva de segurança não deve ser apresentada como evidência de que um atentado estava em curso ou havia sido concretamente identificado.
Ausência de contagem não permite concluir se ato foi grande ou pequeno
A impossibilidade de realizar a medição também impõe um limite importante à interpretação política do episódio.
Não ter uma contagem do Monitor não significa que o evento teve público pequeno.
Também não significa que teve público elevado.
Significa apenas que uma das metodologias independentes utilizadas para medir manifestações não pôde ser aplicada naquele evento.
Imagens feitas ao nível da rua apresentam limitações para estimar multidões porque enquadramento, ângulo, distância e horário podem produzir percepções muito diferentes sobre a quantidade de pessoas presentes.
O mesmo vale para números divulgados pelas próprias campanhas.
Sem metodologia comparável, estimativas fornecidas por organizadores ou adversários devem ser identificadas como tais e não tratadas como medição independente.
Monitor já contabilizou atos de diferentes campos políticos
A relevância da ausência da pesquisa aumenta porque o Monitor do Debate Político passou a medir manifestações de diferentes orientações políticas.
O grupo informa ter utilizado sua metodologia em atos associados tanto à direita quanto à esquerda, além de eventos de natureza social e religiosa.
Os pesquisadores defendem que a utilização de um procedimento replicável reduz a disputa em torno de números divulgados pelas organizações responsáveis pelos atos.
Em trabalhos anteriores, as estimativas do Monitor ficaram tanto abaixo de números reivindicados por organizadores quanto diferentes das obtidas por outros métodos.
Isso ocorre porque o grupo mede prioritariamente o número de pessoas presentes simultaneamente no momento de maior concentração.
Essa métrica é diferente, por exemplo, de uma tentativa de calcular quantas pessoas passaram por determinado evento ao longo de várias horas.
Ato ocorreu depois de disputa sobre uso da Paulista
A própria realização da caminhada deste sábado foi precedida por uma disputa administrativa e judicial.
A Prefeitura de São Paulo havia restringido a realização do evento na região da Avenida Paulista, argumentando que as vias deveriam permanecer disponíveis para circulação na véspera da eleição.
A coligação que apoia Lula e Fernando Haddad recorreu à Justiça Eleitoral.
O Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo suspendeu a restrição da Subprefeitura da Sé e autorizou a caminhada, condicionando o evento à preservação da circulação e dos trabalhos relacionados às eleições.
Apesar da autorização, a configuração originalmente prevista sofreu alterações.
A mobilização acabou concentrada principalmente na rua Augusta e em áreas próximas à Paulista, depois de divergências sobre posicionamento de trios elétricos e utilização das vias.
Lula participou da caminhada acompanhado do vice-presidente Geraldo Alckmin, do candidato ao governo paulista Fernando Haddad e de outros integrantes da coligação.
Flávio também não teve público estimado pelo Monitor
O principal adversário de Lula na disputa presidencial, Flávio Bolsonaro, também realizou um ato no sábado.
O candidato do PL participou de uma motociata entre Santa Bárbara d’Oeste e Americana, no interior paulista.
O Monitor do Debate Político igualmente não produziu uma estimativa de público para a mobilização.
Nesse caso, porém, a razão foi metodológica e diferente daquela registrada no ato de Lula.
Segundo a informação divulgada sobre o trabalho do grupo, o sistema utilizado para contagem de multidões não é adequado para mensurar uma manifestação estruturada principalmente em motocicletas.
Isso produz uma consequência importante para qualquer tentativa de comparação entre os eventos realizados na véspera da votação.
Não existe, para aquele sábado, um número produzido pela mesma metodologia independente que permita afirmar qual dos dois candidatos reuniu mais pessoas.
Comparações baseadas somente em fotografias, extensão das vias ocupadas ou números divulgados pelas campanhas não possuem a mesma base metodológica.
Restrição elimina um dado relevante na reta final
Contagens de manifestações não equivalem a pesquisas eleitorais.
O número de pessoas presente em um evento político não representa amostra estatística do eleitorado e não permite inferir diretamente intenção de voto ou resultado eleitoral.
Ainda assim, a medição independente fornece um indicador objetivo sobre a capacidade de mobilização presencial das campanhas.
É justamente esse dado que ficou indisponível para o último grande ato de Lula antes da abertura das urnas.
A restrição aplicada por razões de segurança impediu a utilização do equipamento necessário ao levantamento, deixando o evento sem a estimativa normalmente produzida pelo Monitor.
A conclusão possível é limitada, mas objetiva: não existe contagem científica do grupo da USP para o público presente no ato de Lula deste sábado.
Qualquer número que circule sobre o tamanho da mobilização precisa, portanto, ser acompanhado da identificação de quem o produziu e de qual metodologia foi utilizada.
Fontes
Monitor do Debate Político no Meio Digital — metodologia de contagem de manifestações por imagens aéreas e visão computacional.
Departamento de Controle do Espaço Aéreo — regras para acesso ao espaço aéreo por aeronaves remotamente pilotadas.
Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo — calendário e regras eleitorais aplicáveis a caminhadas e manifestações de campanha.






