A AXIA Energia (AXIA3), antiga Eletrobras, encerrou o terceiro trimestre de 2026 com lucro líquido contábil de R$ 1,113 bilhão, revertendo o prejuízo de aproximadamente R$ 5,45 bilhões registrado no mesmo período de 2025. O balanço divulgado na quarta-feira (4) mostra uma recuperação expressiva do resultado societário, embora os indicadores ajustados revelem um desempenho mais moderado das operações da companhia de geração e transmissão de energia elétrica.
O lucro líquido ajustado somou R$ 1,759 bilhão entre julho e setembro, queda de 19,1% em relação aos R$ 2,176 bilhões apurados um ano antes. A diferença entre os dois indicadores demonstra que a reversão do prejuízo contábil não correspondeu a uma expansão equivalente da rentabilidade recorrente. O resultado também ficou abaixo das expectativas médias de analistas, que projetavam lucro de aproximadamente R$ 1,5 bilhão, segundo estimativas de mercado divulgadas após a apresentação dos números.
O Ebitda regulatório ajustado, indicador que mede o resultado operacional antes de juros, impostos, depreciação e amortização, alcançou R$ 6,915 bilhões, crescimento de 8,4% na comparação anual. O desempenho reflete a contribuição dos negócios de geração e transmissão, acompanhada de uma redução das despesas operacionais. Apesar do avanço, o indicador ficou ligeiramente abaixo da projeção de R$ 7 bilhões considerada pelo consenso de mercado.
Lucro ajustado da AXIA recua apesar da recuperação contábil
A análise dos resultados exige distinguir os critérios societários dos indicadores regulatórios utilizados pela companhia. Enquanto o lucro contábil passou de negativo para positivo, o lucro ajustado diminuiu em relação ao terceiro trimestre de 2025, evidenciando que a evolução financeira não foi uniforme.
Pelo padrão contábil societário, o Ebitda alcançou aproximadamente R$ 3,79 bilhões, revertendo o resultado negativo de R$ 1,49 bilhão apresentado um ano antes. Entretanto, após os ajustes considerados pela administração, o Ebitda societário ficou em R$ 4,53 bilhões, redução de 23% na comparação anual.
O contraste com o Ebitda regulatório ajustado, que cresceu 8,4%, decorre das diferenças de reconhecimento de receitas, custos e ajustes aplicáveis à atividade elétrica. Os indicadores não são diretamente intercambiáveis, razão pela qual a comparação precisa considerar o mesmo critério contábil em cada período.
A receita operacional líquida societária somou aproximadamente R$ 10,04 bilhões, praticamente estável em relação ao terceiro trimestre de 2025. A receita operacional líquida regulatória ficou próxima de R$ 10,03 bilhões, com crescimento de 0,9% na comparação anual.
Segundo a administração, o desempenho operacional foi favorecido pelo aumento das margens de contribuição dos segmentos de geração e transmissão, além da redução das despesas com pessoal, materiais, serviços e outros gastos operacionais. A melhora do resultado financeiro também contribuiu para a evolução dos números consolidados.
Geração e transmissão sustentam resultado operacional
A expansão das margens dos dois principais segmentos foi determinante para o crescimento do Ebitda regulatório ajustado. Na geração de energia, a margem de contribuição avançou 9,1%, alcançando aproximadamente R$ 3,07 bilhões. Na transmissão, o crescimento foi de 8,3%, para cerca de R$ 4,53 bilhões.
A companhia também registrou redução de 10,8% nas despesas classificadas como PMSO, que abrangem pessoal, materiais, serviços e outros custos. O controle desses gastos faz parte da estratégia de eficiência operacional adotada após a transformação societária da antiga Eletrobras.
A recuperação das margens ocorreu, contudo, em um contexto de condições distintas entre os segmentos. A geração de energia permanece exposta às oscilações dos preços de curto prazo e às condições hidrológicas, enquanto a transmissão possui receitas associadas aos contratos de concessão e à disponibilidade da infraestrutura.
Essa diferença ajuda a explicar por que o desempenho da companhia depende tanto das condições do mercado de energia quanto da execução dos projetos de expansão da rede elétrica. No caso da transmissão, novos empreendimentos podem ampliar a Receita Anual Permitida (RAP), mas exigem investimentos antecipados e cumprimento de prazos regulatórios.
Investimentos chegam a R$ 7,3 bilhões em nove meses
A AXIA acelerou seus desembolsos com expansão e modernização de ativos em 2026. Entre janeiro e setembro, os investimentos somaram R$ 7,3 bilhões, crescimento de 28% em relação ao mesmo período do ano anterior. Apenas no terceiro trimestre, foram aplicados aproximadamente R$ 2,86 bilhões, avanço anual de 5,7%.
A transmissão concentra parte relevante desse esforço financeiro. Os investimentos em reforços e melhorias da infraestrutura existente atingiram R$ 1,3 bilhão no trimestre, aumento de 20% na comparação anual. Os projetos decorrentes de leilões de transmissão receberam outros R$ 681 milhões.
A companhia informou que está implementando 269 empreendimentos de transmissão de grande porte, com investimentos estimados em R$ 6,7 bilhões entre 2026 e 2030. A expectativa apresentada pela administração é que esses projetos acrescentem aproximadamente R$ 2 bilhões à Receita Anual Permitida ao longo do período de implantação.
O montante representa uma perspectiva de crescimento da receita contratada, mas depende da conclusão das obras, da entrada em operação das instalações e do cumprimento das condições estabelecidas nos respectivos contratos e atos regulatórios.
Dívida líquida sobe para R$ 47,6 bilhões
O aumento dos investimentos também está acompanhado por uma expansão do endividamento. A dívida líquida da AXIA alcançou aproximadamente R$ 47,57 bilhões ao final de setembro, crescimento de R$ 2,11 bilhões em relação ao encerramento do segundo trimestre.
Na comparação com setembro de 2025, o aumento foi de aproximadamente R$ 4,99 bilhões. Os números indicam que a companhia continua ampliando sua estrutura de financiamento para sustentar os projetos de geração e transmissão e administrar suas obrigações financeiras.
Apesar do crescimento do saldo devedor, a empresa conseguiu melhorar algumas condições de suas captações. O prazo médio da dívida alcançou 56,3 meses, enquanto o custo médio de financiamento caiu de CDI mais 0,64% ao ano para CDI mais 0,19% ao ano na comparação anual.
Entre julho e outubro, a AXIA realizou aproximadamente R$ 14,3 bilhões em operações de captação e refinanciamento. O volume inclui R$ 6,6 bilhões em debêntures, R$ 4 bilhões em operações bilaterais com instituições financeiras e R$ 1,8 bilhão em renovações de contratos.
A companhia também contratou financiamentos de longo prazo com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), incluindo R$ 1,4 bilhão para o Parque Eólico Coxilha Negra e R$ 500 milhões por meio do Fundo Clima. Ambas as operações possuem prazo de 20 anos.
A ampliação do financiamento reforça a disponibilidade de recursos para os investimentos, mas torna a geração futura de caixa um elemento essencial para avaliar a sustentabilidade da expansão e a capacidade de remuneração dos acionistas.
AXIA aprova até R$ 11,7 bilhões para acionistas em 2026
A política de alocação de capital permanece entre os principais temas acompanhados pelos investidores. Ao longo de 2026, o Conselho de Administração aprovou até R$ 11,7 bilhões em recursos destinados aos acionistas, incluindo R$ 7,7 bilhões referentes ao primeiro semestre e uma nova parcela de até R$ 4 bilhões aprovada em setembro.
O valor representa o capital autorizado para alocação aos acionistas e não deve ser confundido, necessariamente, com o montante integral já pago em dividendos ou outros mecanismos de remuneração.
A estratégia procura equilibrar a distribuição de recursos com a necessidade de financiamento dos projetos de expansão. Esse equilíbrio tornou-se particularmente relevante diante do aumento da dívida líquida e dos compromissos de investimento previstos para os próximos anos.
A AXIA também avançou no processo de resgate ou conversão das ações preferenciais classe C, conhecidas como PNC. A sexta operação, anunciada em outubro, envolve aproximadamente R$ 3,48 bilhões, com pagamento previsto para 6 de novembro de 2026, conforme as condições divulgadas pela companhia.
AXIA conclui cancelamento de registro na SEC dos Estados Unidos
Além da divulgação dos resultados, a AXIA informou nesta quinta-feira (5) que se tornou efetivo o cancelamento de seu registro perante a Securities and Exchange Commission (SEC), órgão responsável pela regulação do mercado de capitais norte-americano.
A medida conclui uma reorganização iniciada em abril, quando a companhia anunciou a intenção de encerrar sua listagem na Bolsa de Nova York e reduzir as obrigações regulatórias associadas à manutenção de um registro como emissora de valores mobiliários nos Estados Unidos.
Os recibos de ações da companhia, conhecidos como American Depositary Receipts (ADRs), deixaram de ser negociados na New York Stock Exchange em agosto e passaram ao mercado de balcão norte-americano, identificado pela sigla OTC.
Com a conclusão do cancelamento, a empresa deixa de estar sujeita às obrigações periódicas de apresentação de documentos à SEC previstas para companhias registradas, incluindo o relatório anual Form 20-F e as comunicações pelo Form 6-K.
A mudança não representa o encerramento das negociações dos valores mobiliários da empresa nos Estados Unidos. Os ADRs permanecem disponíveis no mercado de balcão, enquanto as ações continuam listadas na B3, no segmento Novo Mercado.
A AXIA informou que continuará disponibilizando em inglês, em sua página de Relações com Investidores, as informações divulgadas no Brasil, em conformidade com as disposições norte-americanas aplicáveis à nova situação de registro.
Resultado coloca geração de caixa e investimentos no centro das atenções
A combinação de lucro contábil positivo, redução do lucro ajustado e aumento do endividamento define o cenário financeiro apresentado pela AXIA no terceiro trimestre. Embora os negócios de geração e transmissão tenham registrado crescimento de suas margens operacionais, a expansão da companhia exige recursos expressivos e pressiona a administração a manter disciplina financeira.
Nos nove primeiros meses de 2026, o lucro líquido ajustado societário acumulado alcançou R$ 7,1 bilhões, praticamente o dobro dos R$ 3,6 bilhões registrados no mesmo intervalo de 2025. O desempenho acumulado mostra uma recuperação relevante ao longo do exercício, mesmo com a redução do indicador ajustado no terceiro trimestre isoladamente.
Para os próximos períodos, a evolução da dívida, a execução dos projetos de transmissão e a capacidade de transformar investimentos em receitas adicionais serão determinantes para avaliar o desempenho da companhia. A política de remuneração dos acionistas também continuará dependendo da disponibilidade de caixa e das decisões de alocação de capital.
Fontes:
AXIA Energia — Divulgação oficial dos resultados do terceiro trimestre de 2026, publicada em 4 de novembro de 2026.
AXIA Energia — Central de Resultados e informações financeiras do 3T26, Relações com Investidores.
Comissão de Valores Mobiliários (CVM) — Fato relevante da AXIA Energia sobre a mudança de negociação dos ADRs e protocolo do Formulário 15F, de 5 de agosto de 2026.
Comissão de Valores Mobiliários (CVM) — Registro de fato relevante da AXIA Energia sobre o cancelamento do registro perante a SEC, de 5 de novembro de 2026.








