O Grupo Pão de Açúcar (GPA), negociado na B3 sob o código PCAR3, registrou prejuízo líquido consolidado de R$ 731 milhões no terceiro trimestre de 2026, revertendo o lucro de R$ 134 milhões apurado no mesmo período do ano anterior. O resultado divulgado na noite de quarta-feira, 4 de novembro, inclui perdas de R$ 220 milhões nas operações continuadas e de R$ 511 milhões em atividades descontinuadas. Apesar do desempenho negativo, a companhia conseguiu ampliar suas margens operacionais e reduzir despesas, enquanto avança na implementação do plano de recuperação extrajudicial homologado pela Justiça em outubro.
A receita líquida somou R$ 4,12 bilhões entre julho e setembro, queda de 9,6% na comparação anual. As vendas totais alcançaram R$ 4,6 bilhões, recuo de 6,5%, refletindo tanto a decisão de encerrar negócios menos rentáveis quanto dificuldades de abastecimento nas lojas. Em contrapartida, o Ebitda ajustado cresceu 16,9%, para R$ 482 milhões, com margem de 11,7%, avanço de 2,7 pontos percentuais em relação ao terceiro trimestre de 2025.
Os números mostram duas situações distintas. O GPA conseguiu melhorar a rentabilidade das operações que mantém em funcionamento, mas continua enfrentando retração nas vendas e pressão sobre o resultado financeiro. A companhia também carrega os efeitos contábeis de atividades encerradas e ainda não havia incorporado ao balanço de setembro os benefícios previstos na renegociação de suas dívidas.
Prejuízo consolidado aumenta R$ 865 milhões em um ano
A passagem de um lucro consolidado de R$ 134 milhões para um prejuízo de R$ 731 milhões representa uma deterioração de R$ 865 milhões no resultado atribuível aos acionistas controladores. A maior parcela da perda trimestral veio das operações descontinuadas, responsáveis por R$ 511 milhões, incluindo uma provisão contábil de R$ 467 milhões reconhecida no período.
Nas operações continuadas, que representam os negócios mantidos pela companhia, o prejuízo foi de R$ 220 milhões, ante lucro de R$ 142 milhões um ano antes. A comparação direta, entretanto, é influenciada por um crédito tributário extraordinário de R$ 418 milhões contabilizado no terceiro trimestre de 2025. Sem esse benefício, o resultado daquele período teria sido negativo em R$ 276 milhões.
A exclusão do efeito extraordinário altera a leitura do desempenho. Em bases comparáveis, o prejuízo das operações continuadas diminuiu R$ 56 milhões, equivalente a uma melhora de aproximadamente 20,3%. Isso indica que parte da deterioração apresentada na comparação contábil decorre de uma base anterior favorecida por um ganho não recorrente, e não exclusivamente de uma piora nas atividades atuais.
O resultado financeiro também permaneceu negativo. Incluindo os juros relacionados aos contratos de arrendamento, o saldo entre receitas e despesas financeiras ficou em R$ 389 milhões negativos, contra R$ 317 milhões negativos no terceiro trimestre de 2025. A piora de R$ 72 milhões ocorreu principalmente pela redução das receitas financeiras, influenciada pelo menor saldo médio de caixa e pela ausência de benefícios registrados no período anterior.
Receita cai 9,6%, mas margem bruta alcança 30,7%
A redução das vendas foi acompanhada por uma melhora da rentabilidade bruta. O lucro bruto alcançou R$ 1,264 bilhão, crescimento de 0,4% sobre o terceiro trimestre de 2025, mesmo com a queda de R$ 437 milhões na receita líquida. A margem bruta passou de 27,6% para 30,7%, expansão de 3,1 pontos percentuais.
Segundo a administração, o avanço está relacionado à priorização de canais mais rentáveis, à descontinuação do formato Aliados e a mudanças na sistemática de recolhimento do ICMS sobre determinados produtos. O desempenho do comércio eletrônico também contribuiu para a melhora das margens, embora suas vendas tenham diminuído durante o trimestre.
As despesas com vendas, gerais e administrativas recuaram 7,8%, de R$ 890 milhões para R$ 821 milhões. A economia de R$ 69 milhões reflete medidas de redução de custos, renegociação de contratos e ajustes nas estruturas administrativas, tecnológicas e logísticas.
Com essas mudanças, o Ebitda ajustado avançou de R$ 412 milhões para R$ 482 milhões, crescimento de R$ 70 milhões. O indicador mede o desempenho operacional antes de juros, impostos, depreciação e amortização, considerando os ajustes apresentados pela companhia. Sua evolução positiva demonstra ganhos de eficiência, mas não elimina os efeitos das despesas financeiras e dos registros extraordinários sobre o lucro líquido.
Falta de produtos nas lojas continua afetando as vendas
O desempenho comercial segue como uma das principais dificuldades do GPA. As vendas nas mesmas lojas, indicador que permite comparar unidades presentes nos dois períodos, recuaram 1,4% no terceiro trimestre, descontados os efeitos de calendário.
O Pão de Açúcar apresentou queda de 0,7% nessa comparação, enquanto o Extra Mercado registrou retração de 1,9%. O segmento de proximidade, formado pelas bandeiras Minuto Pão de Açúcar e Mini Extra, teve recuo de 2,9%, mostrando que a redução das vendas atingiu diferentes formatos da rede.
A companhia atribuiu parte desse desempenho aos problemas de abastecimento relacionados ao processo de recuperação extrajudicial. A negociação com credores afetou as condições comerciais com fornecedores e contribuiu para elevar os níveis de ruptura, expressão utilizada no varejo para identificar a falta de produtos disponíveis nas prateleiras.
Segundo o GPA, a disponibilidade de mercadorias melhorou em relação ao segundo trimestre, mas ainda não havia retornado aos níveis observados antes do anúncio da reestruturação. A empresa também apontou a pressão sobre o poder de compra das famílias e o elevado endividamento dos consumidores como fatores que dificultaram a recuperação das vendas.
O grupo encerrou setembro com 717 lojas, nove a menos do que em junho. A rede reúne 200 unidades Pão de Açúcar, 164 Extra Mercado e 353 estabelecimentos de proximidade.
Para recuperar o desempenho comercial, a administração iniciou em outubro um projeto de regionalização das operações, com maior autonomia para negociação com fornecedores locais. No Rio de Janeiro, o Extra Mercado começou a implementar uma nova estratégia comercial, incluindo redução de preços de mais de 2 mil produtos.
GPA acumula R$ 365 milhões em redução de despesas
O programa de eficiência operacional atingiu R$ 365 milhões em economias acumuladas entre janeiro e setembro de 2026, equivalente a 87,9% da meta anual de R$ 415 milhões. Dessa forma, restam aproximadamente R$ 50 milhões em reduções adicionais para que a companhia alcance o objetivo estabelecido para o exercício.
Os investimentos também foram reduzidos. O capex acumulado nos nove primeiros meses somou R$ 226 milhões, queda de 56% em relação ao mesmo período de 2025. A empresa mantém uma previsão de desembolsos entre R$ 300 milhões e R$ 350 milhões para o conjunto de 2026, concentrando os recursos em iniciativas consideradas prioritárias.
A contenção dos investimentos acompanha a necessidade de preservar liquidez durante a reestruturação financeira. O GPA reduziu gastos com expansão de lojas, tecnologia e logística, ao mesmo tempo em que mantém projetos destinados a melhorar a distribuição de mercadorias e a eficiência operacional.
No comércio eletrônico, as vendas recuaram 13,7%, para R$ 517 milhões. A empresa diminuiu sua exposição a plataformas de terceiros e ampliou a participação relativa do canal próprio, buscando operações com maior rentabilidade. A mudança ajudou a melhorar as margens, mas também contribuiu para a redução do faturamento digital.
Recuperação extrajudicial pode reduzir dívida líquida em 67%
A homologação do plano de recuperação extrajudicial, decidida pela Justiça de São Paulo em 7 de outubro e publicada oficialmente em 20 de outubro, representa uma etapa importante da reorganização financeira do GPA. O acordo abrange aproximadamente R$ 4,57 bilhões em créditos sujeitos à renegociação e prevê mudanças nos prazos e nas condições de pagamento.
Ao final de setembro, a dívida líquida da companhia, incluindo recebíveis de cartão de crédito não antecipados, era de R$ 3,755 bilhões. Considerando os efeitos previstos no plano e a destinação de R$ 293 milhões provenientes da venda de sua participação na financeira FIC para amortização de obrigações, o endividamento cairia para aproximadamente R$ 1,246 bilhão.
A redução estimada é de R$ 2,509 bilhões, equivalente a 66,8% do saldo informado no balanço. O indicador de alavancagem, medido pela relação entre dívida líquida e Ebitda ajustado antes dos efeitos dos arrendamentos, passaria de 3,7 vezes para 1,2 vez.
Esses números representam uma simulação financeira, e não a posição efetivamente registrada em setembro. O próprio GPA esclareceu que os efeitos contábeis da homologação ainda não estavam incorporados aos resultados do terceiro trimestre e deverão começar a aparecer nas demonstrações do quarto trimestre de 2026.
A operação de venda da participação na FIC também permanecia condicionada à aprovação do Banco Central. Portanto, o cálculo de redução do endividamento considera uma transação cuja conclusão ainda depende dessa autorização regulatória.
O plano estabelece ainda o alongamento do prazo médio das dívidas abrangidas, de 2,1 para 6,4 anos, e a redução dos pagamentos previstos até 2028, de aproximadamente R$ 5,2 bilhões para R$ 400 milhões. O custo médio dessas obrigações deverá passar de CDI acrescido de 1,8% ao ano para CDI mais 0,5% ao ano, conforme as condições previstas na reestruturação.
Reestruturação entra em fase de execução até dezembro
Com a publicação da sentença de homologação, começaram a correr os prazos para a execução das medidas previstas no plano. Os credores que escolheram disponibilizar novos recursos ou modificar instrumentos de crédito em moeda estrangeira têm prazo de até 30 dias corridos, contado de 20 de outubro, para cumprir as respectivas obrigações, observadas as condições contratuais.
A companhia, por sua vez, dispõe de até 60 dias corridos a partir dessa data para emitir e entregar as novas debêntures previstas na renegociação. Esses títulos substituirão parte das obrigações financeiras existentes, conforme as alternativas de pagamento escolhidas pelos credores.
A implementação também envolve procedimentos de substituição e bloqueio de títulos registrados na B3, incluindo debêntures do GPA e certificados de recebíveis imobiliários abrangidos pelo plano. As medidas fazem parte da reorganização dos instrumentos de dívida e não alteram diretamente o funcionamento cotidiano das lojas.
A administração espera que a conclusão dessas etapas contribua para normalizar o relacionamento com fornecedores e melhorar as condições de abastecimento. A recuperação das vendas, entretanto, dependerá da recomposição dos estoques, da capacidade de negociação comercial e do comportamento do consumo.
O balanço do terceiro trimestre mostra que o GPA conseguiu ampliar sua eficiência operacional, mas ainda precisa transformar a melhora das margens em recuperação consistente do faturamento e do resultado líquido. Os próximos demonstrativos serão importantes para verificar os efeitos efetivos da reestruturação financeira e a evolução das operações após a homologação judicial do plano.
Fontes:
GPA — Release de Resultados do terceiro trimestre de 2026, divulgado em 4 de novembro, com demonstrações financeiras, indicadores operacionais, evolução das margens e composição do prejuízo.
GPA — Apresentação de Resultados do terceiro trimestre de 2026, encaminhada à Comissão de Valores Mobiliários, com informações sobre eficiência operacional, endividamento e projeções financeiras.
GPA — Fato Relevante de 21 de outubro de 2026, referente à publicação da sentença de homologação do Plano de Recuperação Extrajudicial e aos prazos para sua implementação.
Comissão de Valores Mobiliários — Documentos financeiros e societários da Companhia Brasileira de Distribuição referentes ao terceiro trimestre de 2026 e à reestruturação de suas obrigações financeiras.







