A B3 (B3SA3) iniciou nesta terça-feira (13) a negociação de quatro novos contratos futuros vinculados aos tÃtulos da dÃvida pública dos Estados Unidos, conhecidos como Treasuries, ampliando as alternativas disponÃveis no Brasil para investidores interessados nos movimentos dos juros americanos. Os produtos permitem assumir posições em diferentes segmentos da curva de rendimentos dos tÃtulos do Tesouro dos Estados Unidos, tanto para proteger carteiras quanto para negociar expectativas sobre a trajetória da polÃtica monetária americana. As operações são realizadas na infraestrutura da bolsa brasileira, com liquidação financeira em reais, dispensando a remessa de recursos ao exterior para a negociação desses instrumentos.
Os lançamentos incluem os contratos futuros de US Treasury Note de dois anos (T02), de cinco anos (T05), de dez anos Ultra (T1U) e de US Treasury Bond (TBN), associado ao segmento de tÃtulos com vencimentos superiores a 20 anos. Eles complementam o contrato futuro de Treasury de dez anos (T10), já oferecido pela B3, e permitem que investidores acompanhem desde os vencimentos mais influenciados pelas decisões de curto prazo do Federal Reserve (Fed), o banco central americano, até os tÃtulos de prazo mais longo, cujas taxas refletem também expectativas de inflação, crescimento econômico e sustentabilidade das contas públicas dos Estados Unidos. A ampliação da oferta ocorre em um perÃodo de maior volatilidade dos rendimentos americanos, que continuam entre as principais referências para a formação de preços nos mercados financeiros internacionais.
A decisão da B3 de ampliar o portfólio de derivativos internacionais acompanha o aumento da importância dos juros americanos nas estratégias de investimento. Em 16 de setembro, o Federal Reserve elevou sua taxa básica em 0,25 ponto percentual, para a faixa de 3,75% a 4% ao ano, em resposta à persistência das pressões inflacionárias. Desde então, os rendimentos dos tÃtulos do Tesouro americano registraram movimentos expressivos. A taxa de referência dos Treasuries de dez anos, por exemplo, passou de 4,78% ao ano em 4 de setembro para 5,31% em 5 de outubro, segundo dados do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos. A alta de 53 pontos-base em pouco mais de um mês evidencia a dimensão das mudanças nas expectativas dos investidores e ajuda a explicar o interesse por instrumentos capazes de administrar essa exposição.
Novos contratos ampliam operações em diferentes prazos
Cada um dos quatro contratos lançados nesta terça-feira corresponde a uma região especÃfica da curva de juros americana. O T02 está associado aos tÃtulos de dois anos, que costumam reagir mais diretamente à s expectativas sobre as próximas decisões do Federal Reserve. O T05 acompanha o segmento de cinco anos, no qual as projeções para a polÃtica monetária começam a incorporar, com maior intensidade, perspectivas de médio prazo para inflação e atividade econômica. O T1U oferece exposição ao segmento de dez anos Ultra, enquanto o TBN permite negociar movimentos relacionados a tÃtulos de prazo superior a 20 anos, geralmente mais sensÃveis à s mudanças nas expectativas de longo prazo.
Os contratos possuem valores de referência diferentes. O futuro de Treasury de dois anos tem valor de face de US$ 200 mil, enquanto os contratos de cinco anos, dez anos Ultra e prazo superior a 20 anos apresentam valor nocional de US$ 100 mil cada. Esses montantes representam a exposição de referência dos instrumentos e não correspondem ao dinheiro que o investidor necessariamente precisa desembolsar para abrir uma posição. Como ocorre no mercado futuro, a negociação depende da apresentação de garantias e está sujeita a ajustes financeiros, conforme as regras da B3 e das instituições intermediárias. O mecanismo permite operar volumes elevados com uma parcela do capital correspondente à exposição, caracterÃstica que amplia tanto as possibilidades de utilização dos contratos quanto os riscos envolvidos.
Uma particularidade dos novos produtos é a ausência de entrega fÃsica dos tÃtulos americanos. Diferentemente de determinados contratos negociados nos Estados Unidos, que podem resultar na entrega de Treasuries ao comprador, os futuros oferecidos pela B3 possuem liquidação exclusivamente financeira. Os resultados são apurados com base na famÃlia de Ãndices B3 DÃvida Externa Americana, desenvolvida para representar o comportamento dos diferentes segmentos dos tÃtulos públicos dos Estados Unidos. Embora os contratos tenham referência em dólares, os ganhos e as perdas apurados nos ajustes diários são convertidos em reais pela taxa PTAX, divulgada pelo Banco Central. Isso permite que a operação seja conduzida no mercado brasileiro, sem exigir a transferência de dólares para uma corretora estrangeira.
Para Marcos Skistymas, diretor de Produtos Listados da B3, os novos instrumentos representam uma ampliação da conexão dos investidores brasileiros com o mercado financeiro internacional. Segundo o executivo, a possibilidade de negociar diferentes prazos dos tÃtulos americanos dentro da infraestrutura nacional oferece alternativas para estratégias de proteção e posicionamento sobre a trajetória dos juros, mantendo as operações no ambiente regulado da bolsa brasileira. A estrutura pode interessar principalmente a gestores, tesourarias e investidores que já acompanham o mercado de renda fixa internacional e procuram instrumentos para ajustar suas posições com maior flexibilidade.
Alta dos juros americanos altera preços dos tÃtulos e abre espaço para estratégias de proteção
O funcionamento dos contratos está diretamente relacionado à dinâmica de precificação dos tÃtulos públicos prefixados. Quando os juros de mercado sobem, os preços dos tÃtulos já emitidos tendem a cair, pois os investidores passam a exigir uma remuneração maior para adquirir papéis com caracterÃsticas semelhantes. Quando os rendimentos recuam, ocorre o movimento inverso: os tÃtulos existentes, que oferecem condições relativamente mais atrativas, tendem a se valorizar. Essa relação é fundamental para compreender os ganhos e as perdas de quem negocia futuros de Treasuries, já que os contratos refletem o comportamento dos preços dos tÃtulos de referência e não simplesmente a direção das taxas de juros.
Um investidor que projeta redução dos juros americanos pode assumir uma posição comprada em contratos futuros para buscar ganhos com uma eventual valorização dos tÃtulos. Já um gestor que possui uma carteira de renda fixa internacional e teme novas altas dos rendimentos pode vender contratos futuros, procurando compensar parte das perdas que seus investimentos sofreriam em um cenário de queda dos preços dos Treasuries. A proteção, entretanto, não é automática nem necessariamente integral. Seu resultado depende da correspondência entre os vencimentos, da sensibilidade das posições à s taxas de juros, da quantidade de contratos negociados e das condições de mercado no momento da operação.
A possibilidade de negociar diferentes prazos também permite montar estratégias relacionadas à inclinação da curva americana. Em 5 de outubro, por exemplo, os Treasuries de dois anos apresentavam rendimento de 4,84% ao ano, enquanto os tÃtulos de dez anos ofereciam 5,31%, uma diferença de 47 pontos-base. Na mesma data, os papéis de 30 anos rendiam 5,66% ao ano, ou 82 pontos-base acima dos tÃtulos de dois anos. Essas diferenças variam conforme as expectativas sobre a polÃtica monetária, o comportamento futuro da inflação e o prêmio exigido para manter recursos aplicados por perÃodos maiores. Com os novos instrumentos, os participantes poderão estruturar operações que busquem resultados não apenas da alta ou queda dos juros, mas também de mudanças na distância entre as taxas de vencimentos distintos.
A negociação dessas diferenças exige atenção à sensibilidade de cada contrato. TÃtulos longos, em geral, apresentam oscilações de preço mais acentuadas diante de alterações nas taxas de juros do que papéis de prazo curto com caracterÃsticas semelhantes. Por isso, o TBN pode apresentar um comportamento bastante diferente do T02, mesmo que ambos estejam sujeitos à s mesmas notÃcias sobre inflação ou decisões do Federal Reserve. O valor de face dos contratos, isoladamente, não permite determinar qual deles representa maior risco. Para dimensionar as posições, gestores costumam utilizar indicadores como duração modificada e DV01, que ajudam a estimar o impacto financeiro de mudanças nos rendimentos. Sem esse ajuste, uma estratégia montada com contratos de prazos diferentes pode produzir uma exposição desequilibrada.
Lançamento ocorre em perÃodo de juros elevados nos Estados Unidos
A chegada dos novos contratos à bolsa brasileira coincide com um momento em que o Federal Reserve mantém a polÃtica monetária sob pressão das expectativas de inflação. Ao elevar a taxa básica em setembro, o banco central americano reforçou a necessidade de conter a alta dos preços, mesmo diante dos possÃveis efeitos do encarecimento do crédito sobre empresas e consumidores. As decisões do Fed influenciam diretamente os vencimentos mais curtos dos Treasuries, mas seus efeitos também alcançam os tÃtulos longos, à medida que os investidores revisam suas projeções sobre crescimento econômico, inflação e trajetória futura dos juros.
Os rendimentos dos tÃtulos públicos americanos possuem importância que ultrapassa o mercado doméstico dos Estados Unidos. Eles são utilizados como referência para a precificação de empréstimos corporativos, financiamentos imobiliários, operações de renda fixa e investimentos internacionais. Quando essas taxas sobem, ativos de outros paÃses podem precisar oferecer remuneração adicional para continuar atraindo capital. O movimento também interfere nas taxas de câmbio e nas decisões de investidores institucionais que distribuem recursos entre diferentes economias. No Brasil, oscilações relevantes dos Treasuries frequentemente influenciam o comportamento do dólar, dos juros futuros e das ações negociadas na B3, embora os preços domésticos também respondam aos fundamentos econômicos locais.
A ampliação da oferta de derivativos permite que participantes do mercado brasileiro negociem diretamente expectativas relacionadas aos rendimentos americanos, sem depender exclusivamente de instrumentos vinculados ao câmbio ou aos juros domésticos. Para uma gestora com exposição a tÃtulos internacionais, por exemplo, a disponibilidade de contratos de dois, cinco e mais de 20 anos pode facilitar a construção de operações voltadas a segmentos especÃficos de sua carteira. Já instituições financeiras que acompanham diariamente os movimentos do mercado global passam a dispor de alternativas adicionais para administrar riscos de taxa de juros utilizando uma infraestrutura com a qual já operam.
A possibilidade de realizar os ajustes em reais também representa uma conveniência operacional, mas não elimina todos os efeitos do câmbio. Como os resultados têm referência em dólares e são convertidos pela PTAX, é necessário considerar as regras de apuração de cada contrato para compreender a exposição financeira efetiva. A liquidação em moeda brasileira tampouco transforma os produtos em aplicações conservadoras ou equivalentes à compra direta de tÃtulos públicos. Trata-se de derivativos sujeitos a oscilações de mercado, exigências de margem e possÃveis perdas superiores ao capital inicialmente apresentado como garantia.
Liquidez e controle de risco serão decisivos para novos produtos
Apesar das possibilidades abertas pelo lançamento, o desenvolvimento de um mercado ativo para os novos futuros dependerá da presença de compradores, vendedores e participantes dispostos a oferecer liquidez de maneira contÃnua. Contratos recém-lançados podem apresentar volumes de negociação reduzidos, especialmente nos primeiros pregões, com diferenças maiores entre os preços ofertados para compra e venda. Essas condições influenciam o custo das operações e a facilidade para encerrar posições, fatores particularmente importantes para investidores que pretendem utilizar os instrumentos em estratégias de curto prazo ou realizar ajustes frequentes de exposição.
Outro aspecto relevante é o mecanismo de ajustes diários. Em uma operação futura, movimentos desfavoráveis podem gerar débitos na conta do investidor antes do encerramento definitivo da posição, exigindo a disponibilidade de recursos para honrar essas obrigações. Se as garantias se tornarem insuficientes, a corretora poderá solicitar aportes adicionais ou adotar medidas de redução e encerramento da exposição, conforme as regras aplicáveis. Esse funcionamento diferencia os contratos futuros da compra convencional de um tÃtulo público mantido em carteira, na qual não existe, em condições normais, a mesma obrigação de realizar pagamentos diários em razão das oscilações de mercado.
A chegada do T02, T05, T1U e TBN representa mais uma etapa da estratégia da B3 de ampliar o acesso local a instrumentos relacionados ao mercado internacional. A bolsa já oferecia o futuro de Treasury de dez anos e agora passa a contemplar diferentes regiões da curva americana, aproximando sua estrutura de negociação das necessidades de investidores que operam riscos de juros globais. O lançamento ocorre em um momento de volatilidade relevante nos rendimentos dos Estados Unidos, o que aumenta a utilidade potencial de instrumentos de proteção, mas também torna mais importante compreender sua exposição antes de negociar.
O alcance efetivo dos novos contratos será determinado pelo interesse dos participantes, pela formação de liquidez e pela capacidade de atender à s necessidades de gestão de risco do mercado brasileiro. Para investidores institucionais, a ampliação do número de vencimentos pode permitir uma administração mais precisa das carteiras internacionais. Para outros participantes, oferece uma maneira de acompanhar movimentos dos juros americanos diretamente pela B3, desde que sejam considerados os riscos próprios das operações futuras. A principal mudança está na ampliação das alternativas disponÃveis: com cinco referências de Treasuries negociadas no Brasil, incluindo o contrato de dez anos já existente, o mercado doméstico passa a dispor de instrumentos para operar uma parcela mais ampla da curva de juros da maior economia do mundo.
Fontes
- B3 — Comunicado institucional de 13 de outubro de 2026 sobre o lançamento de quatro contratos futuros de Treasuries.
- B3 — OfÃcio Circular nº 061/2026-VPC, de 24 de setembro de 2026.
- B3 — Especificações dos contratos futuros e metodologia dos Ãndices B3 DÃvida Externa Americana.
- Federal Reserve — Comunicado do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) de 16 de setembro de 2026.
- Departamento do Tesouro dos Estados Unidos — Taxas oficiais dos tÃtulos públicos americanos, setembro e outubro de 2026.
- Banco Central do Brasil — Metodologia de apuração da taxa PTAX.








