A temporada de balanços dos maiores bancos brasileiros começa nesta quinta-feira (22) sob a pressão do aumento da inadimplência, do endividamento das famílias e das incertezas sobre a evolução da economia em 2027. Dados do Banco Central mostram que a taxa de atrasos superiores a 90 dias nas operações de crédito com recursos livres atingiu 6,6% em agosto, o maior patamar da série histórica iniciada em março de 2011. O indicador representa um desafio para instituições como Banco do Brasil (BBAS3), Bradesco (BBDC4), Santander Brasil (SANB11), Itaú Unibanco (ITUB4), BTG Pactual (BPAC11) e Nubank (ROXO34). Além dos lucros registrados entre julho e setembro, investidores acompanharão as perspectivas apresentadas pelos executivos para o próximo ano.
O Bradesco será o primeiro grande banco integrante do Ibovespa a apresentar os resultados do terceiro trimestre, após o fechamento do mercado em 22 de outubro. A divulgação ocorrerá três dias antes do segundo turno das eleições presidenciais, marcado para domingo (25), enquanto os balanços das demais instituições serão conhecidos nas semanas seguintes. A proximidade entre o calendário eleitoral e as apresentações financeiras deverá ampliar a atenção sobre os comentários das administrações a respeito de juros, crédito, inadimplência e política econômica. O mercado procura identificar se a deterioração da qualidade das carteiras de empréstimos continuará pressionando a rentabilidade do setor.
Inadimplência de 6,6% acende alerta no sistema financeiro
O levantamento mais recente do Banco Central, divulgado em 29 de setembro, aponta que a inadimplência nas operações com recursos livres avançou de 6,4% em julho para 6,6% em agosto. O aumento de 0,2 ponto percentual em apenas um mês reforça a preocupação com a capacidade de pagamento dos consumidores e das empresas. Em comparação com agosto de 2025, a elevação foi de 0,9 ponto percentual. Os números indicam que a deterioração do crédito não se restringe a um movimento pontual, mas integra uma trajetória de agravamento observada ao longo dos últimos meses.
A situação é particularmente preocupante entre pessoas físicas, cuja taxa de inadimplência no crédito livre alcançou 8% em agosto. Entre as empresas, o indicador ficou em 4,3%, demonstrando que o percentual de atrasos das famílias é quase o dobro do registrado no segmento empresarial. Considerando todas as modalidades de financiamento do Sistema Financeiro Nacional, inclusive operações com recursos direcionados, a inadimplência total atingiu 5%. A diferença evidencia a importância de distinguir os indicadores antes de avaliar os riscos assumidos por cada instituição.
Os dados também mostram que o endividamento das famílias chegou a 49,9% em julho, enquanto o comprometimento de renda com o pagamento de dívidas alcançou 28,7%. Isso significa que uma parcela expressiva da renda disponível continua destinada ao cumprimento de obrigações financeiras, reduzindo a capacidade de consumo e a margem para contratação de novos empréstimos. Para os bancos, esse ambiente exige maior seletividade na concessão de crédito e acompanhamento constante da capacidade de pagamento dos clientes. A consequência pode ser uma combinação de crescimento mais lento das carteiras e aumento das despesas com provisões.
A deterioração da qualidade do crédito produz efeitos que ultrapassam os resultados das instituições financeiras. Quando a inadimplência aumenta, os bancos podem elevar as taxas cobradas dos novos tomadores, restringir limites disponíveis ou exigir garantias adicionais. Essas decisões afetam diretamente o consumo das famílias, o capital de giro das empresas e a capacidade de financiamento de investimentos produtivos. A persistência desse cenário pode contribuir para uma desaceleração econômica, mesmo que o sistema bancário continue apresentando lucros elevados.
Banco do Brasil enfrenta maior pressão com crédito rural
O Banco do Brasil concentra algumas das maiores preocupações dos analistas em razão da exposição ao agronegócio e do aumento das despesas relacionadas a empréstimos de recuperação incerta. No segundo trimestre de 2026, a instituição registrou lucro líquido ajustado de R$ 3,9 bilhões e custo do crédito de R$ 18,5 bilhões. A inadimplência superior a 90 dias alcançou 5,61% na carteira total, enquanto o segmento rural apresentou deterioração significativa dos indicadores. O desempenho intensificou questionamentos sobre a capacidade de recuperação dos resultados no segundo semestre.
A carteira de agronegócios do Banco do Brasil atingiu R$ 421,6 bilhões em junho, crescimento de 4,1% em relação ao mesmo período do ano anterior. O tamanho dessa exposição torna a instituição especialmente sensível às dificuldades enfrentadas por produtores rurais para honrar financiamentos. A inadimplência no segmento agropecuário chegou a 6,27% no segundo trimestre, mais do que o dobro dos 3,16% registrados um ano antes. A combinação de crescimento da carteira e aumento dos atrasos amplia a necessidade de acompanhar as renegociações e os recursos destinados à cobertura de perdas esperadas.
Analistas do BTG Pactual trabalham com um cenário mais pessimista para o terceiro trimestre, no qual o lucro líquido do Banco do Brasil poderia ficar próximo de R$ 1,9 bilhão. A estimativa está associada à possibilidade de redução de 50% a 60% no lucro antes dos impostos em comparação com o trimestre anterior, diante do aumento das provisões. O cenário é mais negativo do que o consenso compilado pela LSEG, que aponta lucro de aproximadamente R$ 3,7 bilhões. A diferença de R$ 1,8 bilhão entre as projeções evidencia a elevada incerteza em torno do resultado da instituição.
Uma análise dessa divergência mostra que a projeção mais pessimista corresponde a aproximadamente 51% do lucro estimado pelo consenso de mercado. Isso significa que a avaliação dos riscos da carteira rural pode produzir diferenças substanciais nas expectativas de rentabilidade, mesmo entre instituições que acompanham os mesmos indicadores econômicos. A temporada de balanços deverá esclarecer se o banco conseguiu estabilizar as despesas com perdas de crédito ou se continuará enfrentando deterioração dos recebimentos. O resultado será divulgado em 11 de novembro, após o fechamento do mercado.
As medidas de renegociação de dívidas rurais também fazem parte das incertezas. A Resolução CMN nº 5.340, de setembro de 2026, autorizou a composição de determinadas operações inadimplentes, estabelecendo condições para sua regularização. A existência de mecanismos de renegociação pode contribuir para reorganizar o fluxo de pagamentos dos produtores, mas não garante recuperação imediata dos valores envolvidos. O efeito sobre os balanços dependerá das condições contratadas, da efetiva capacidade de pagamento dos devedores e das regras contábeis aplicáveis.
Bradesco deve apresentar lucro de R$ 7,1 bilhões
No Bradesco, os analistas esperam um desempenho marcado pela recuperação gradual das receitas financeiras, mas ainda pressionado pela necessidade de constituir provisões. O consenso de estimativas reunido pela LSEG aponta lucro líquido de aproximadamente R$ 7,1 bilhões no terceiro trimestre. A instituição busca ampliar sua rentabilidade por meio de disciplina de despesas, evolução das receitas de serviços e fortalecimento dos resultados da área de seguros. Entretanto, a qualidade da carteira de crédito continuará sendo um fator decisivo para avaliar a sustentabilidade dessa recuperação.
A expectativa de melhora da margem financeira com clientes contrasta com a possibilidade de crescimento das despesas relacionadas a empréstimos inadimplentes. Essa combinação pode limitar a expansão do lucro, mesmo que determinadas linhas de receita apresentem evolução favorável. Para os investidores, será importante identificar se a recuperação operacional decorre de fatores recorrentes ou de resultados que dificilmente serão repetidos nos próximos trimestres. A teleconferência da administração está programada para sexta-feira (23), às 10h30, pelo horário de Brasília.
Santander enfrenta pressão sobre margens e qualidade do crédito
O Santander Brasil também chega à temporada de balanços com expectativas de desempenho moderado. As projeções compiladas pela LSEG indicam lucro de aproximadamente R$ 3,2 bilhões no terceiro trimestre, enquanto analistas do Safra e do Citi apontam pressões sobre a margem financeira e o custo do crédito. Entre os segmentos que despertam maior preocupação estão cartões de crédito destinados a consumidores de menor renda, pequenas e médias empresas e operações ligadas ao agronegócio. A deterioração dessas carteiras pode limitar os efeitos positivos do crescimento das receitas de serviços e das iniciativas de redução de despesas.
A instituição já havia enfrentado dificuldades no segundo trimestre, quando registrou lucro líquido de aproximadamente R$ 3 bilhões e aumento dos gastos com provisões. O desempenho reforçou a importância de uma estratégia mais seletiva na concessão de empréstimos e de maior controle sobre riscos assumidos. A divulgação marcada para 28 de outubro permitirá verificar se houve estabilização dos indicadores ou continuidade das pressões observadas anteriormente. A evolução das margens financeiras também será determinante para avaliar o potencial de recuperação do banco.
Itaú e BTG Pactual apresentam perspectivas mais favoráveis
Em contraste com os desafios enfrentados por Banco do Brasil e Santander, o Itaú Unibanco aparece entre as instituições com expectativas mais favoráveis para o terceiro trimestre. Analistas consultados pelo mercado projetam lucro líquido de aproximadamente R$ 12,6 bilhões, sustentado por controle de custos e relativa estabilidade da qualidade dos ativos. A diversificação das receitas e a disciplina na concessão de crédito são apontadas como fatores importantes para a resiliência da instituição. Os números serão divulgados em 3 de novembro.
O BTG Pactual também deverá apresentar desempenho positivo, com estimativa de lucro líquido de R$ 5,2 bilhões. A expansão da carteira de crédito, a estabilidade dos spreads e uma dinâmica mais favorável das provisões sustentam as expectativas de crescimento. Entretanto, as receitas provenientes de atividades de banco de investimento poderão apresentar desempenho menos expressivo em comparação com outras áreas. A divulgação dos resultados está prevista para 10 de novembro.
Considerando apenas os cinco bancos tradicionais analisados — Banco do Brasil, Bradesco, Santander, Itaú e BTG Pactual —, a soma das estimativas centrais de lucro alcança aproximadamente R$ 31,8 bilhões no terceiro trimestre. O valor evidencia a capacidade de geração de resultados do sistema bancário, apesar das dificuldades enfrentadas por determinados segmentos do crédito. Entretanto, a concentração das maiores expectativas de lucro em instituições consideradas mais resilientes revela diferenças relevantes entre os modelos de negócios. A comparação demonstra que o ambiente econômico adverso não atinge todos os bancos com a mesma intensidade.
Nubank deve crescer, mas provisões preocupam
O Nubank, por sua vez, deverá manter a trajetória de expansão de receitas, segundo a avaliação de analistas do UBS BB. A expectativa é de crescimento moderado do lucro em relação ao trimestre anterior, acompanhado de aumento das despesas com provisões. Parte do benefício observado no segundo trimestre com iniciativas de renegociação de dívidas tende a perder intensidade na comparação trimestral. O consenso compilado pela LSEG projeta lucro de US$ 1,09 bilhão para a companhia, que apresentará seu balanço em 12 de novembro.
O desempenho do banco digital será particularmente relevante para avaliar os riscos associados ao crescimento das carteiras de consumidores atendidos por plataformas financeiras. A expansão do acesso ao crédito amplia oportunidades comerciais, mas também exige mecanismos capazes de avaliar adequadamente a capacidade de pagamento dos clientes. Em um ambiente de endividamento elevado, o crescimento acelerado pode produzir resultados diferentes daqueles observados em períodos de menor inadimplência. A evolução dos atrasos e das provisões deverá indicar se o modelo consegue preservar a rentabilidade sem comprometer a qualidade dos ativos.
Banco Central avalia medidas para conter endividamento
Além dos resultados individuais, o mercado acompanha possíveis alterações regulatórias destinadas a reduzir riscos associados ao elevado endividamento das famílias. O Banco Central estuda mecanismos para incentivar práticas mais responsáveis na concessão de crédito, com maior atenção à análise da capacidade financeira dos consumidores. Entre as possibilidades discutidas pelo mercado estão ajustes em exigências prudenciais, critérios de avaliação de riscos e instrumentos de proteção do sistema financeiro. Até o momento, essas hipóteses não devem ser confundidas com a implementação efetiva de novas regras.
Medidas macroprudenciais podem produzir impactos diferentes conforme o tipo de exigência adotada. Regras mais rigorosas de capital, por exemplo, podem aumentar a quantidade de recursos próprios que as instituições precisam manter para sustentar determinadas operações. Alterações nos depósitos compulsórios podem afetar os recursos disponíveis para financiamento, enquanto exigências adicionais na avaliação de clientes podem reduzir a concessão de crédito a consumidores mais endividados. O efeito final dependerá do formato das medidas e do prazo estabelecido para sua eventual aplicação.
A discussão ocorre em um momento de sensibilidade política, às vésperas da definição da eleição presidencial. Os investidores procuram antecipar como as propostas econômicas dos candidatos poderão influenciar juros, contas públicas, consumo e expectativas de crescimento. Entretanto, os indicadores de inadimplência refletem operações contratadas ao longo de períodos anteriores e não se alteram imediatamente em função de resultados eleitorais. A recuperação da qualidade do crédito depende principalmente da evolução da renda, das condições de financiamento e da capacidade efetiva de pagamento dos tomadores.
Confira o calendário e as projeções dos balanços
| Instituição | Divulgação | Lucro esperado |
|---|---|---|
| Bradesco (BBDC4) | 22/10 | R$ 7,1 bilhões |
| Santander (SANB11) | 28/10 | R$ 3,2 bilhões |
| Itaú (ITUB4) | 03/11 | R$ 12,6 bilhões |
| BTG Pactual (BPAC11) | 10/11 | R$ 5,2 bilhões |
| Banco do Brasil (BBAS3) | 11/11 | R$ 3,7 bilhões |
| Nubank (ROXO34) | 12/11 | US$ 1,09 bilhão |
As projeções correspondem a estimativas compiladas pela LSEG e divulgadas antes da publicação dos balanços. Os números representam expectativas de mercado e podem diferir dos resultados efetivamente apresentados.
A divulgação dos balanços também deverá oferecer elementos para avaliar o comportamento do crédito nos primeiros meses de 2027. A manutenção de níveis elevados de inadimplência pode levar bancos a continuar restringindo operações consideradas mais arriscadas, mesmo diante de uma eventual melhora das expectativas econômicas. Por outro lado, estabilização dos atrasos e redução das despesas com provisões poderão favorecer a recuperação das margens e da rentabilidade. O acompanhamento dessas tendências será essencial para compreender a capacidade do sistema financeiro de sustentar a expansão dos empréstimos.
A principal questão para os investidores, portanto, não será apenas identificar quais bancos apresentaram os maiores lucros entre julho e setembro. O desempenho das carteiras de crédito, a evolução das provisões e as perspectivas anunciadas pelas administrações poderão ter impacto mais duradouro sobre a avaliação das instituições. Com a inadimplência em recursos livres no maior nível da série histórica, o setor enfrenta o desafio de preservar sua rentabilidade sem agravar a restrição ao financiamento de famílias e empresas. Os resultados das próximas semanas deverão mostrar quais bancos estão mais preparados para atravessar esse cenário.
Fontes
Banco Central do Brasil — Estatísticas Monetárias e de Crédito, nota de 29 de setembro de 2026
Banco do Brasil — Comunicado institucional e resultados financeiros do segundo trimestre de 2026, divulgados em agosto
Conselho Monetário Nacional — Resoluções nº 5.330, de 23 de julho de 2026, e nº 5.340, de 4 de setembro de 2026
Bradesco Relações com Investidores — Agenda oficial de divulgação dos resultados do terceiro trimestre de 2026
Banco do Brasil Relações com Investidores — Calendário de eventos corporativos de novembro de 2026
BTG Pactual Relações com Investidores — Calendário de divulgação de resultados do terceiro trimestre de 2026








