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Banco Digimais, de Edir Macedo: fraude no consignado e rombo de R$ 8,5 bi

por Álvaro Lima
27/03/2026 às 21h00
em Economia
Banco Digimais, De Edir Macedo, Confirma Fraude No Consignado E Acumula Rombo De R$ 8,5 Bi Com Risco Ao Fgc - Gazeta Mercantil

Banco Digimais: o rombo de R$ 8,5 bilhões, a fraude nos contratos e o risco bilionário ao FGC

O Banco Digimais, instituição financeira controlada pelo bispo Edir Macedo, fundador e líder da Igreja Universal do Reino de Deus, acumula um patrimônio líquido negativo de R$ 8,5 bilhões e enfrenta acusações graves de fraude em sua carteira de crédito consignado — um cenário que guarda semelhanças perturbadoras com o caso do Banco Master e que coloca em alerta reguladores, investidores e o mercado financeiro brasileiro.

A situação do Banco Digimais, revelada pela revista Piauí, vai além de um simples desequilíbrio contábil. A instituição opera em um modelo de captação agressivo, oferece CDBs com remuneração de 125% do CDI — taxa acima da média de mercado para bancos de médio porte — e distribui esses títulos para pessoas físicas por meio de plataformas de investimento de grande alcance, como BTG Pactual e XP Investimentos. O perfil de risco do banco, portanto, está disseminado pela base de investidores de varejo do país.

Leia também: Digimais, de Edir Macedo, tinha R$ 271,4 milhões em fundo com cártulas do Besc


O modelo de captação e o paralelo com o Banco Master

Para compreender a extensão do problema no Banco Digimais, é necessário entender o modelo operacional que sustentou sua expansão. A instituição adotou uma política de captação via Certificado de Depósito Bancário (CDB) com rentabilidade significativamente superior à média, atraindo investidores em busca de retorno mais elevado dentro da segurança aparente de um produto bancário coberto pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC).

Esse mecanismo é o mesmo que sustentou o crescimento do Banco Master, instituição que se tornou o epicentro de uma das maiores crises do sistema financeiro brasileiro nos últimos anos. No caso do Master, o modelo de captação a taxas elevadas foi combinado com a construção de uma carteira de crédito precária, parte dela fraudulenta — o que resultou, posteriormente, na tentativa de venda dessas carteiras ao Banco Regional de Brasília (BRB), operação que expôs ao mercado a fragilidade real dos ativos da instituição.

No Banco Digimais, o padrão se repete com precisão desconcertante. A instituição financeira de Edir Macedo também distribuiu CDBs em plataformas de grande capilaridade — BTG Pactual e XP Investimentos — e também apresenta irregularidades graves na composição de sua carteira de ativos.


Os 22 mil contratos sem lastro: a fraude que o próprio banco confirmou

O coração da crise do Banco Digimais está nos contratos de crédito consignado. O fundo EXP1 adquiriu 55 mil contratos dessa carteira por R$ 650 milhões. Tratava-se, em tese, de uma operação segura: o crédito consignado tem desconto em folha de pagamento, o que o torna um dos produtos financeiros de menor inadimplência do mercado brasileiro.

O problema emergiu quando o fundo EXP1 realizou a due diligence — processo de auditoria e verificação dos ativos adquiridos. A análise revelou que 22 mil dos 55 mil contratos não tinham lastro. Em linguagem direta: quase 40% dos contratos vendidos ao fundo simplesmente não existiam como operações reais. Eram contratos fictícios, sem operações subjacentes que os justificassem.

Diante da descoberta, o Banco Digimais não negou a fraude. A instituição confirmou a irregularidade e tentou, como solução, oferecer novas carteiras de crédito ao fundo EXP1 em substituição aos contratos fraudulentos. O fundo, porém, recusou a proposta. A decisão do EXP1 foi pela rescisão e pela cobrança do valor investido — R$ 650 milhões — de volta.

A confirmação da fraude pelo próprio banco é um elemento jurídico e regulatório de extrema gravidade. Diferente de uma disputa interpretativa sobre a qualidade dos ativos, o reconhecimento explícito de contratos sem lastro configura, em tese, irregularidade grave perante o Banco Central do Brasil (BCB), órgão responsável pela supervisão das instituições financeiras no país.


O patrimônio negativo e o prejuízo acumulado

Os números financeiros do Banco Digimais corroboram o quadro de deterioração estrutural da instituição. Ao encerrar o terceiro trimestre de 2025, o banco registrou prejuízo líquido de R$ 252,6 milhões — apenas no período de julho a setembro. O patrimônio líquido negativo de R$ 8,5 bilhões, por sua vez, indica que o passivo da instituição supera amplamente seus ativos, uma condição que, em circunstâncias normais, levaria um banco a solicitar intervenção ou liquidação extrajudicial perante o regulador.

Um patrimônio líquido negativo nessa magnitude não é construído de forma repentina. Ele é o resultado de um processo progressivo de acúmulo de perdas, provisionamento insuficiente de ativos problemáticos e, possivelmente, de uma gestão de risco sistematicamente inadequada ao longo de anos. A combinação desses fatores com a fraude nos contratos consignados aponta para uma falência estrutural do modelo de negócios da instituição.


O risco para o FGC e para os investidores de varejo

A gravidade do caso do Banco Digimais transcende os limites da instituição e de seus controladores. O Fundo Garantidor de Crédito (FGC) é o mecanismo de proteção dos investidores pessoas físicas no Brasil, cobrindo até R$ 250 mil por CPF por instituição em caso de falência ou liquidação bancária.

Caso o Banco Digimais quebre sem que haja uma solução de mercado — como uma aquisição ou reestruturação —, o custo estimado para o FGC seria de aproximadamente R$ 8 bilhões, considerando os depósitos à vista em conta corrente e os depósitos a prazo, especialmente os CDBs distribuídos pelas plataformas digitais.

Esse montante representa um impacto significativo para o FGC, fundo que é financiado pelas próprias instituições financeiras brasileiras e que tem patrimônio finito. Uma sangria de R$ 8 bilhões afetaria não apenas a solidez do fundo garantidor, mas poderia elevar o custo de contribuição de todos os bancos participantes do sistema — um ônus que, em última instância, tende a ser repassado aos clientes do sistema financeiro como um todo.

Os investidores que adquiriram CDBs do Banco Digimais pelas plataformas da XP Investimentos e do BTG Pactual, muitos deles atraídos pela rentabilidade de 125% do CDI, estão diretamente expostos a esse risco. A proteção do FGC até R$ 250 mil oferece algum conforto para pequenos investidores, mas aqueles com posições acima desse limite podem enfrentar perdas efetivas em um eventual cenário de liquidação.


BTG Pactual negocia a compra: o mesmo roteiro do Banco Master

Nos bastidores do mercado financeiro, circula com insistência a informação de que o BTG Pactual está em negociações avançadas para a aquisição do Banco Digimais. A operação, se confirmada, seguiria um roteiro que remete diretamente ao episódio do Banco Master: o BTG Pactual, que também distribuiu CDBs do Master por suas plataformas, passou a negociar a compra de carteiras saudáveis da instituição em dificuldades.

No caso do Banco Master, a estratégia do BTG foi de seleção dos melhores ativos — as chamadas carteiras saudáveis —, deixando para o FGC e para outros credores o ônus dos ativos problemáticos. Se a lógica se repetir com o Banco Digimais, o resultado prático seria a privatização dos ganhos e a socialização das perdas: o BTG ficaria com o que tem valor e o restante do sistema financeiro arcaria com os custos do que não presta.

Até o momento da publicação desta matéria, o BTG Pactual não confirmou oficialmente qualquer negociação com o Banco Digimais. Procurado pela reportagem, o banco não se manifestou sobre o assunto.


Igreja Universal, Edir Macedo e o controle do banco

O Banco Digimais tem como controlador indireto o bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus — uma das maiores organizações religiosas do Brasil, com presença em dezenas de países e patrimônio estimado em bilhões de reais. A relação entre a Igreja Universal e o Banco Digimais não é nova, mas a crise atual coloca sob holofotes a gestão financeira de um conglomerado que opera em setores que vão da comunicação ao entretenimento e às finanças.

A Igreja Universal controla, entre outros ativos, a RecordTV, uma das maiores emissoras de televisão do país. O cruzamento entre um banco em situação financeira crítica e um grupo religioso e midiático de grande porte cria uma equação de risco reputacional e regulatório que vai além do comum.


Banco Central e o papel do regulador

A questão que paira sobre o mercado é: o que o Banco Central do Brasil (BCB) fará diante do quadro do Banco Digimais? A autarquia tem instrumentos regulatórios para atuar em situações de crise bancária — desde a exigência de aporte de capital pelos controladores até a decretação de intervenção ou liquidação extrajudicial.

Fontes do mercado financeiro apontam que o regulador já acompanha de perto a situação do Banco Digimais, mas nenhuma medida formal foi anunciada publicamente. O BCB, em geral, prefere soluções de mercado — como aquisições ou reestruturações capitaneadas pelo setor privado — antes de acionar mecanismos de intervenção direta, que costumam gerar impacto sistêmico e abalar a confiança do público no sistema bancário.


O crédito consignado como epicentro do risco sistêmico

O episódio do Banco Digimais traz à tona uma vulnerabilidade sistêmica no mercado de crédito consignado brasileiro. O consignado, por suas características — desconto em folha, inadimplência baixa, liquidez razoável — tornou-se um ativo de referência para bancos médios e fundos de investimento. Mas justamente essa reputação de segurança pode ter criado um ambiente propício para a construção de carteiras fictícias.

Se um comprador acredita que o ativo é seguro, tende a realizar uma auditoria menos rigorosa. E se a auditoria é menos rigorosa, abre-se espaço para a inserção de contratos sem lastro. O caso do Banco Digimais, portanto, deve servir de alerta para todo o mercado secundário de consignado: a due diligence criteriosa é insubstituível, independentemente da reputação do ativo subjacente.


A crise que o Brasil não pode ignorar

O Banco Digimais não é um banco qualquer. É uma instituição com penetração no varejo, distribuição em plataformas de grande porte, exposição ao FGC na casa dos R$ 8 bilhões e controladores com perfil público elevado. A combinação desses fatores transforma o caso em um teste para a robustez do sistema de supervisão financeira brasileiro.

O mercado financeiro nacional ainda processa as lições do episódio do Banco Master. Agora, antes mesmo que esse capítulo esteja completamente encerrado, o Banco Digimais apresenta ao regulador, aos investidores e ao público brasileiro um novo e igualmente complexo desafio.

A história, ao que tudo indica, ainda está sendo escrita — e seu desfecho pode custar bilhões ao sistema. Seria esse o próximo Banco Master?

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