Casas de apostas começaram a preparar o terreno para uma eventual mudança radical na legislação brasileira e já notificaram clubes de futebol sobre a possibilidade de encerramento de contratos de patrocínio caso o governo federal adote medidas que inviabilizem a operação do setor no país. A Superbet comunicou São Paulo e Fluminense sobre esse risco, enquanto a Esportes da Sorte enviou notificações a clubes parceiros, entre eles o Corinthians. A ameaça atinge uma cadeia comercial que envolve 13 dos 20 clubes da Série A e contratos estimados em mais de R$ 1 bilhão.
O movimento ocorre em meio à elaboração, pelo governo federal, de uma medida provisória sobre apostas on-line. O conteúdo ainda estava em definição nesta quinta-feira (24), o que significa que não existe, até o momento, uma proibição em vigor capaz de produzir automaticamente a rescisão desses contratos. A possibilidade de rompimento depende do alcance da eventual medida e, principalmente, das cláusulas previstas em cada acordo comercial.
A situação colocou clubes e patrocinadores diante de um problema contratual antes mesmo de uma eventual alteração legal. Empresas autorizadas pelo Ministério da Fazenda operam hoje sob um regime federal de licenciamento, fiscalização e publicidade. A própria lista oficial de operadores autorizados foi atualizada em 24 de setembro e inclui Superbet, Betano e Esportes da Sorte, entre outras marcas.
Dependência dos clubes cresceu com expansão das apostas
A dimensão financeira explica a reação dos clubes. Levantamento divulgado em setembro aponta que as casas de apostas responderam por R$ 1,03 bilhão dos R$ 3,069 bilhões arrecadados em patrocínios pelos 20 clubes da Série A em 2025. O segmento, portanto, representou cerca de 33,6% de toda a receita comercial obtida com patrocínios naquele recorte.
Em termos de escala, os R$ 1,03 bilhão também equivalem a cerca de 7,2% da receita total de R$ 14,3 bilhões dos clubes no mesmo ano. A proporção ajuda a distinguir duas dimensões do problema: o dinheiro das bets não representa a maior parcela da receita global dos times, mas se tornou uma fatia relevante e concentrada da receita comercial, especialmente nos contratos de maior exposição.
Na fotografia atual da Série A, 65% dos clubes — 13 de 20 — têm uma casa de apostas ocupando a principal propriedade comercial de suas camisas. Flamengo, Fluminense, Corinthians e São Paulo estão entre os clubes diretamente expostos ao risco de revisão desses acordos.
O contrato do Flamengo com a Betano ilustra a dimensão dos compromissos assumidos no setor. O Conselho Deliberativo aprovou em agosto de 2025 um acordo máster com duração até 31 de dezembro de 2028, abrangendo o futebol profissional, modalidades olímpicas e outros ativos de comunicação do clube.
Isso significa que uma eventual alteração regulatória não afetaria apenas a receita do restante da temporada. Dependendo do texto aprovado e das cláusulas de cada contrato, poderia abrir uma disputa sobre compromissos plurianuais, indenizações, multas e substituição de propriedades comerciais.
A própria estrutura da atual regulação mostra que os contratos não estão vinculados a empresas que atuam informalmente à margem do sistema federal. A Secretaria de Prêmios e Apostas informa que, desde 1º de janeiro de 2025, somente operadores autorizados podem atuar nacionalmente no mercado regulado.
Governo ainda amplia fiscalização e regras de publicidade
A discussão ganha uma dimensão adicional porque o mercado não estava simplesmente sem regulamentação antes da nova controvérsia. Em 2026, o governo federal vem ampliando as regras para publicidade, proteção ao consumidor e combate à operação irregular.
Em julho, o Ministério da Fazenda tornou obrigatória a presença de mensagens de advertência em anúncios de apostas. As peças publicitárias passaram a ter de exibir alertas como “Apostar pode causar dependência”, “Apostar faz você perder dinheiro” ou “Aposta não é investimento”, com espaço mínimo correspondente a 10% da área da publicidade.
Em setembro, a Secretaria de Prêmios e Apostas publicou nova regulamentação voltada à prevenção e repressão de transações relacionadas à exploração irregular das apostas de quota fixa. O conjunto de medidas reforçou a fiscalização sobre operadores clandestinos e mecanismos de pagamento utilizados fora do mercado autorizado.
Esse processo regulatório continuou mesmo enquanto cresciam as discussões políticas sobre uma eventual proibição. Em agosto, outra portaria tratou de procedimentos para autorizações e de atividades de patrocínio e divulgação de marcas de empresas de jogos e apostas em eventos oficiais da Copa do Mundo Feminina de 2027 no Brasil.
Há, portanto, uma mudança potencial de direção no centro da disputa: o mercado que atualmente possui empresas autorizadas, regras específicas de publicidade, fiscalização de pagamentos e normas de patrocínio pode passar a enfrentar uma restrição estrutural caso o Executivo avance com uma medida de alcance mais amplo.
A lista oficial do Ministério da Fazenda registrava 85 empresas autorizadas, número que corresponde às empresas habilitadas no regime nacional. A relação inclui operadores associados a algumas das marcas mais presentes no futebol, entre elas Betano, Esportes da Sorte e Superbet.
Contratos agora dependem do alcance da medida
O impacto financeiro sobre os clubes não será necessariamente uniforme. Uma proibição integral da operação das apostas teria efeito contratual muito diferente de uma restrição limitada à publicidade, ao patrocínio esportivo ou apenas aos jogos de cassino on-line.
Essa distinção é relevante porque os contratos comerciais costumam ter mecanismos específicos para eventos de força maior, mudanças regulatórias e impossibilidade superveniente de cumprimento. Em alguns casos, a alteração pode abrir espaço para renegociação; em outros, pode fundamentar uma tentativa de rescisão. O efeito concreto dependerá da redação de cada contrato e da interpretação jurídica adotada pelas partes.
No caso informado pela Esportes da Sorte, a notificação enviada aos clubes não equivale, por si só, a uma rescisão. O documento sinaliza uma possibilidade condicionada à mudança do ambiente legal. A diferença é importante: enquanto não houver alteração normativa capaz de afetar a atividade ou decisão formal da empresa, os acordos permanecem vigentes.
A Superbet ocupa posição particularmente relevante nessa discussão porque seus contratos com São Paulo e Fluminense estão concentrados justamente na propriedade máster. No caso do Flamengo, a Betano ainda não havia formalizado uma notificação de rompimento, mas o clube acompanha a possibilidade de consequências distintas conforme o tipo de mudança legislativa. Uma restrição parcial poderia produzir renegociação, enquanto uma proibição ampla atingiria diretamente a lógica econômica do contrato.
O risco também se distribui de maneira desigual entre clubes. As equipes com acordos mais longos e valores mais elevados têm maior exposição financeira nominal. Já clubes com menor capacidade de reposição comercial podem enfrentar dificuldade adicional para substituir rapidamente uma marca de apostas por uma empresa de outro segmento.
Futebol e setor de apostas já travam disputa sobre o novo marco
A reação dos clubes não começou com as notificações. Em 17 de setembro, dirigentes, federações e representantes do setor divulgaram um manifesto contrário a mudanças que, na avaliação das entidades, poderiam comprometer receitas do futebol e estimular a migração de apostadores para operadores ilegais.
O argumento econômico se apoia no crescimento acelerado dos contratos. Os investimentos das casas de apostas nos clubes que disputavam a Série A passaram de aproximadamente R$ 618 milhões em 2024 para cerca de R$ 1,03 bilhão em 2025, segundo levantamento de mercado divulgado em setembro.
A discussão, porém, não envolve apenas a receita dos clubes. A legislação brasileira passou a incorporar mecanismos de controle sobre apostadores e operadores justamente em razão dos riscos associados ao mercado. Em 2026, o governo ampliou medidas de proteção financeira e de bloqueio de acesso às plataformas para beneficiários de programas específicos de renegociação de dívidas, além de criar instrumentos de monitoramento relacionados ao endividamento.
Esse histórico cria um cenário no qual os interesses econômicos do futebol e as políticas públicas de controle das apostas passaram a disputar o mesmo espaço regulatório. Para os clubes, a questão central é a previsibilidade dos contratos em vigor. Para o governo, a discussão envolve até onde deve avançar a regulação de uma atividade que já funciona sob autorização federal.
Enquanto o texto da medida provisória não for formalizado, não há base para considerar os contratos automaticamente encerrados. A eventual publicação do ato abrirá uma nova etapa, na qual será necessário verificar seu alcance, as regras de transição, a situação das empresas autorizadas e a validade dos compromissos comerciais já assinados.
Para o futebol, a consequência mais imediata é a necessidade de preparar alternativas comerciais para um mercado que se tornou uma das principais fontes de patrocínio da elite nacional. Para as casas de apostas, o risco é diferente: contratos firmados para vários anos podem deixar de produzir retorno econômico caso uma mudança legal impeça a atividade, a publicidade ou a utilização das propriedades esportivas adquiridas.
A disputa, portanto, já ultrapassou o terreno das declarações públicas. As primeiras notificações colocaram contratos concretos sob revisão potencial, mas o efeito jurídico e financeiro definitivo ainda depende do conteúdo da medida que o governo pretende apresentar e das decisões que vierem depois de sua eventual publicação.
Fontes:
Ministério da Fazenda – lista atualizada de empresas autorizadas a operar apostas de quota fixa no mercado nacional, com atualização de 24 de setembro de 2026
Ministério da Fazenda – regras de publicidade de apostas e novas exigências de advertência ao consumidor estabelecidas em julho de 2026
Ministério da Fazenda – legislação e atos regulatórios de 2026 sobre apostas de quota fixa, fiscalização, mercado ilegal e patrocínio
Clube de Regatas do Flamengo – aprovação do contrato de patrocínio máster com a Betano, vigente até dezembro de 2028










