O governo federal identificou 48 contas de apostadores com saldo superior a R$ 500 mil em plataformas de apostas de quota fixa e decidiu submetê-las a uma análise mais detalhada. Segundo o ministro da Fazenda, Dario Durigan, os valores destoam do comportamento observado na grande maioria das contas que ainda mantinham recursos nas bets e podem resultar no encaminhamento de informações para investigação pelas autoridades competentes.
A identificação faz parte da primeira etapa de fiscalização realizada depois da Medida Provisória nº 1.394/2026, que proibiu no país a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa. O prazo para que os apostadores retirassem voluntariamente o dinheiro diretamente das plataformas terminou às 23h59 desta segunda-feira, 5 de outubro. A partir desta terça-feira, 6, sites e aplicativos abrangidos pela medida deixam de operar.
Os dados mais recentes do Ministério da Fazenda mostram que ainda havia R$ 1,33 bilhão nas plataformas ao final do período de saque voluntário, distribuídos entre 26,54 milhões de CPFs com saldo positivo. Desde 26 de setembro, o volume caiu R$ 775,6 milhões, enquanto o número de CPFs com recursos diminuiu em 2,36 milhões.
Os números atualizam o primeiro balanço divulgado pelo governo, quando ainda havia R$ 1,453 bilhão sob acompanhamento e a redução acumulada era de R$ 652,6 milhões. Com a continuação dos saques até segunda-feira, a retirada acumulada avançou para R$ 775,6 milhões.
Tomando como referência os dados mais recentes, o volume remanescente caiu aproximadamente 36,8% desde 26 de setembro. O número de CPFs com saldo positivo, por sua vez, recuou cerca de 8,2%, de 28,9 milhões para 26,54 milhões.
A diferença entre os dois percentuais indica que houve uma redução proporcionalmente muito maior no dinheiro mantido nas plataformas do que no número de pessoas que ainda possuíam algum saldo. Isso acontece porque a maior parte das contas remanescentes possui quantias muito pequenas.
Cerca de 92% das contas com saldo positivo tinham menos de R$ 10, enquanto mais de 96% registravam menos de R$ 25.
É justamente nesse cenário que as 48 contas acima de R$ 500 mil chamaram a atenção da Fazenda.
48 contas concentram pelo menos R$ 24 milhões
Considerando apenas o piso informado pelo governo, as 48 contas possuem juntas mais de R$ 24 milhões. O valor real é necessariamente superior, porque todas ultrapassam individualmente a marca de R$ 500 mil.
Esse montante mínimo equivale a aproximadamente 1,8% dos R$ 1,33 bilhão que permaneciam nas plataformas no fim do prazo de saque voluntário. Trata-se de uma concentração relevante considerando que o grupo representa uma fração mínima do universo de 26,54 milhões de CPFs com saldo positivo.
A comparação fica ainda mais evidente quando se considera que o saldo médio matemático das contas remanescentes era de aproximadamente R$ 50 por CPF. Essa média, entretanto, é fortemente influenciada por contas de valores elevados e não representa o perfil típico do apostador, já que mais de nove em cada dez contas tinham menos de R$ 10.
Durigan afirmou que é justamente essa discrepância que justificará uma verificação específica.
Segundo o ministro, movimentações que fogem do padrão predominante podem ser encaminhadas às autoridades responsáveis quando surgirem indícios que justifiquem investigação. A existência de saldo elevado, isoladamente, não significa que tenha ocorrido irregularidade nem permite concluir que os titulares tenham cometido qualquer crime.
O governo não divulgou os nomes dos apostadores, as plataformas em que as contas estão registradas nem os valores individuais encontrados em cada uma delas.
Também não foi informado até agora quantas dessas 48 contas efetivamente serão objeto de investigação formal.
Dinheiro passa a ser rastreado em nova estrutura da PF
A análise ocorre paralelamente à criação de uma estrutura permanente dentro da Polícia Federal destinada ao combate à lavagem de dinheiro e à recuperação de ativos.
O Decreto nº 13.131/2026 reorganizou áreas do Ministério da Justiça e Segurança Pública e criou a Coordenação-Geral de Repressão à Lavagem de Dinheiro e Recuperação de Ativos, a CGLA, vinculada à estrutura de combate ao crime organizado e à corrupção da Polícia Federal.
A nova coordenação reúne atividades relacionadas à repressão à lavagem de dinheiro, inteligência financeira, investigação patrimonial e recuperação de bens. O objetivo é permitir que o rastreamento de recursos, o bloqueio de ativos e a recuperação patrimonial sejam acompanhados de forma integrada.
Dentro dessa estrutura haverá áreas específicas para apostas ilegais e para manipulação de resultados esportivos.
A decisão aumenta a capacidade de acompanhamento dos fluxos financeiros relacionados às bets justamente no momento em que o governo encerra o mercado de apostas de quota fixa previsto pela nova medida provisória.
A atuação também alcança situações em que recursos provenientes de apostas possam estar relacionados a organizações criminosas, lavagem de dinheiro ou movimentações realizadas com criptomoedas e outros ativos virtuais.
O ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva, afirmou que a Polícia Federal acompanhará possíveis conexões entre apostas e crime organizado.
A criação da estrutura não significa que todas as contas de apostadores serão investigadas criminalmente. O foco anunciado pelo governo está nas movimentações suspeitas, nas empresas que continuarem atuando ilegalmente e em fluxos financeiros que apresentem características incompatíveis com o padrão identificado pelas autoridades.
R$ 1,33 bilhão ainda precisa ser devolvido
O encerramento do prazo de saque direto não significa que os apostadores perderão o dinheiro que permaneceu nas plataformas.
O governo estabeleceu um cronograma específico para a restituição dos recursos.
Entre 7 e 8 de outubro, as empresas deverão informar às instituições financeiras os saldos remanescentes de cada usuário, discriminados por CPF. Entre 9 e 14 de outubro, caberá aos bancos responsáveis providenciar a devolução dos valores.
Caso exista algum impedimento para o pagamento nessa etapa, os recursos serão transferidos para a Caixa Econômica Federal a partir de 14 de outubro, e o banco ficará responsável pela restituição.
A Fazenda reforçou que os valores pertencem aos apostadores mesmo depois do encerramento das plataformas.
Com R$ 1,33 bilhão ainda registrado nas contas no último levantamento, o processo de devolução será uma das maiores operações financeiras decorrentes do encerramento das bets desde a entrada em vigor da medida provisória.
O valor inicial era de aproximadamente R$ 2,106 bilhões. A diferença de R$ 775,6 milhões até o último dia de saque significa que pouco mais de um terço do dinheiro existente em 26 de setembro já havia deixado as plataformas.
O governo também informou que, antes da proibição, aproximadamente R$ 600 milhões por dia eram transferidos para as casas de apostas. Segundo Durigan, esse fluxo deixou de ocorrer após a entrada em vigor da medida.
Se comparado ao saldo ainda existente ao final do prazo voluntário, o antigo fluxo diário de depósitos correspondia a aproximadamente 45% dos R$ 1,33 bilhão que ainda aguardavam restituição. A comparação ajuda a dimensionar a velocidade com que recursos circulavam entre apostadores e empresas antes da proibição.
Mais de 10 mil sites foram enviados para bloqueio
A ofensiva não está restrita à movimentação financeira. Entre 25 de setembro e 1º de outubro, 10.435 sites considerados ilegais foram encaminhados à Agência Nacional de Telecomunicações para bloqueio pelo Laboratório de Operações Cibernéticas do Ministério da Justiça e pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda.
O governo também solicitou a remoção de 3.040 páginas, perfis, canais, grupos e servidores relacionados às apostas em redes sociais e aplicativos de mensagens.
O levantamento inclui 1.974 páginas no Facebook, 375 perfis no Instagram, 605 canais, grupos e perfis no Telegram, 85 perfis no TikTok e um servidor no Discord.
Somados apenas Telegram, TikTok e Discord, os conteúdos identificados alcançavam aproximadamente 3,46 milhões de usuários, membros ou seguidores.
Outros 186 aplicativos disponíveis nas lojas da Apple e do Google foram notificados para retirada até esta terça-feira, 6 de outubro.
Google, Meta, YouTube, X, Telegram, TikTok, Kwai e Discord também receberam notificações relacionadas à retirada de publicidade de apostas.
A estratégia indica que o governo está atuando simultaneamente em três frentes: interrupção do fluxo financeiro, bloqueio da infraestrutura utilizada pelas plataformas e retirada da distribuição e publicidade das apostas em serviços digitais.
Fiscalização ganha caráter permanente
A reorganização promovida pelo governo vai além do período imediatamente posterior à proibição.
Na Secretaria Nacional do Consumidor foi criado o Departamento de Fiscalização e Prevenção de Danos ao Consumidor, com estrutura própria para ações de fiscalização e repressão a práticas que violem as normas de defesa do consumidor.
A Secretaria Nacional de Direitos Digitais também recebeu novas atribuições para acompanhar plataformas digitais, requisitar informações, analisar relatórios de transparência e solicitar a indisponibilização de produtos, serviços ou conteúdos que violem as regras estabelecidas pela medida provisória.
Com isso, o combate às apostas ilegais passa a envolver de maneira permanente Fazenda, Ministério da Justiça, Polícia Federal, Anatel, instituições financeiras, plataformas digitais e lojas de aplicativos.
A descoberta das 48 contas com mais de R$ 500 mil é um dos primeiros resultados dessa nova etapa.
O volume elevado não constitui, por si só, prova de irregularidade. A relevância do dado está na diferença entre essas contas e o padrão encontrado no restante da base: enquanto 92% dos saldos estavam abaixo de R$ 10, um grupo de apenas 48 contas mantinha individualmente mais de meio milhão de reais.
É essa concentração que agora será examinada pelas autoridades para identificar a origem, o destino e a natureza das movimentações e verificar se existem elementos que justifiquem a abertura de investigações.
Fontes
Ministério da Fazenda — balanço da fiscalização das apostas de quota fixa
Ministério da Justiça e Segurança Pública — fiscalização contra bets ilegais
Secretaria de Prêmios e Apostas — dados de bloqueios e movimentação financeira
Polícia Federal — estrutura de repressão à lavagem de dinheiro e recuperação de ativos
Decreto nº 13.131/2026 — estrutura do Ministério da Justiça e Segurança Pública
Medida Provisória nº 1.394/2026 — regras para encerramento das apostas de quota fixa










