O bitcoin (BTC) caminha para encerrar a semana em queda, pressionado pela retirada de recursos de fundos negociados em bolsa nos Estados Unidos, por liquidações de operações alavancadas e pela redução do apetite dos investidores por ativos de risco. Nesta sexta-feira (9), a maior criptomoeda do mundo era negociada na região de US$ 83 mil, depois de recuar até US$ 80.350 durante a recente onda de vendas. O movimento também atingiu o ethereum (ETH), a solana (SOL) e outras moedas digitais, que acumulam perdas mais expressivas do que as registradas pelo bitcoin nos últimos sete dias.
A deterioração do mercado aparece com maior clareza nos fluxos dos fundos de investimento. Dados da Farside Investors mostram que os ETFs à vista de bitcoin e ethereum listados nos Estados Unidos acumularam saídas líquidas de US$ 986,3 milhões entre 1º e 8 de outubro. Desse montante, US$ 407,4 milhões correspondem aos fundos de bitcoin e US$ 578,9 milhões aos produtos vinculados ao ethereum. Os resgates se intensificaram nas sessões de quarta-feira (7) e quinta-feira (8), quando os dois grupos de fundos, considerados em conjunto, perderam US$ 962,4 milhões.
A pressão vendedora coincidiu com uma forte correção no mercado de derivativos. Levantamento da CoinGlass, com dados referentes às 24 horas encerradas às 10h UTC desta sexta-feira, apontou aproximadamente US$ 1,09 bilhão em liquidações de posições alavancadas em criptomoedas. Desse total, cerca de US$ 1,05 bilhão envolveu operações compradas, conhecidas como posições long, nas quais investidores apostavam na valorização dos ativos. A concentração das perdas nessas operações indica que parte relevante da instabilidade foi agravada pelo encerramento compulsório de apostas na alta.
Apesar de ter apresentado uma recuperação parcial durante a manhã, o bitcoin ainda registrava desvalorização semanal próxima de 3,5% no levantamento divulgado nesta sexta-feira. O ethereum recuava aproximadamente 8,7% no mesmo intervalo, enquanto solana e XRP acumulavam perdas superiores a 9%. A diferença entre os desempenhos mostra que a correção atingiu com maior intensidade algumas das principais criptomoedas alternativas, mesmo com a recuperação pontual do bitcoin nas últimas 24 horas.
ETFs de bitcoin e ethereum acumulam saídas de US$ 986,3 milhões em outubro
O comportamento dos ETFs tornou-se um dos principais indicadores da disposição dos investidores institucionais em manter exposição ao mercado de criptomoedas. Esses fundos permitem acompanhar o desempenho do bitcoin e do ethereum por meio de produtos financeiros negociados em bolsas tradicionais, sem que o investidor precise comprar diretamente os ativos digitais ou administrar uma carteira de criptomoedas.
A movimentação registrada em outubro representa uma mudança em relação ao final de setembro, quando os ETFs de bitcoin haviam apresentado uma sequência de entradas líquidas de capital. Os dados da Farside mostram que, em 21 de setembro, esses produtos receberam US$ 999 milhões, seguidos de US$ 714,7 milhões no pregão seguinte. A entrada de recursos diminuiu progressivamente nos dias posteriores, até dar lugar a retiradas mais expressivas na primeira semana de outubro.
A mudança ficou evidente em 7 de outubro, quando os ETFs de bitcoin registraram saídas líquidas de US$ 484,9 milhões. No dia seguinte, outros US$ 244,1 milhões deixaram esses fundos. Somadas, as duas sessões representaram retiradas de US$ 729 milhões, valor superior ao saldo negativo acumulado no mês porque as entradas registradas nos primeiros pregões compensaram parcialmente os resgates posteriores.
O Fidelity Wise Origin Bitcoin Fund (FBTC) respondeu por US$ 197,1 milhões em saídas no pregão de quinta-feira, concentrando aproximadamente 80,7% do saldo negativo diário dos ETFs de bitcoin. O ARK 21Shares Bitcoin ETF (ARKB) registrou retiradas de US$ 20,3 milhões, enquanto o Bitwise Bitcoin ETF (BITB) perdeu US$ 17,7 milhões. O iShares Bitcoin Trust (IBIT), administrado pela BlackRock, apresentou saída líquida de US$ 5,5 milhões naquela sessão.
No caso do ethereum, o comportamento dos investidores foi ainda mais negativo. Os ETFs vinculados à segunda maior criptomoeda acumularam oito sessões consecutivas de resgates, entre 29 de setembro e 8 de outubro. Nesse período, a retirada líquida alcançou aproximadamente US$ 641,3 milhões. Somente na quinta-feira, os fundos perderam US$ 72,5 milhões, com destaque para o iShares Ethereum Trust (ETHA), da BlackRock, responsável por US$ 71,1 milhões em saídas.
A comparação entre os dois mercados revela que os fundos de ethereum responderam por aproximadamente 58,7% das retiradas líquidas combinadas em outubro, enquanto os ETFs de bitcoin representaram 41,3%. A diferença é relevante porque demonstra que o enfraquecimento da demanda não está concentrado exclusivamente na maior criptomoeda. O movimento alcança também os instrumentos de investimento ligados ao ethereum, cujo desempenho recente tem sido mais fraco.
Os fluxos negativos não significam necessariamente que todos os investidores estejam abandonando suas posições em criptomoedas. As saídas representam o saldo entre aplicações e resgates nos produtos analisados, podendo refletir operações de realização de lucros, ajustes de exposição ou mudanças nas estratégias das carteiras. Ainda assim, retiradas sucessivas reduzem uma fonte importante de demanda em um mercado no qual a participação institucional ganhou relevância nos últimos anos.
Bitcoin perde US$ 81 mil e provoca liquidações de posições alavancadas
A queda do bitcoin abaixo de US$ 81 mil representou um dos momentos de maior pressão da semana. A criptomoeda chegou a US$ 80.350 na plataforma Bitstamp, menor cotação desde 18 de setembro, antes de recuperar parte do terreno perdido. A oscilação ocorreu em meio ao encerramento de operações com alavancagem, mecanismo pelo qual investidores assumem posições superiores ao capital efetivamente depositado como garantia.
Quando o preço de uma criptomoeda cai de maneira acentuada, investidores posicionados para a alta podem atingir os limites de margem exigidos pelas corretoras. Nesses casos, as plataformas encerram compulsoriamente os contratos para impedir que as perdas ultrapassem determinadas garantias. Esse processo pode ampliar a pressão sobre os preços, principalmente quando muitas posições são liquidadas em intervalos curtos.
Os dados da CoinGlass mostraram que aproximadamente 96% do montante de US$ 1,09 bilhão liquidado no intervalo de referência estava associado a posições compradas. O percentual ajuda a dimensionar o desequilíbrio das apostas no mercado de derivativos durante a correção. Investidores que esperavam continuidade da valorização foram atingidos de maneira especialmente intensa quando o bitcoin rompeu níveis de preço que serviam de referência para suas operações.
O volume foi o maior registrado em uma janela diária desde 21 de agosto, quando uma forte valorização do bitcoin provocou aproximadamente US$ 1,3 bilhão em liquidações, predominantemente de posições vendidas. A comparação mostra que grandes movimentos de preço podem provocar encerramentos forçados tanto em operações que apostam na alta quanto naquelas montadas para lucrar com a queda.
As estatísticas de liquidação, entretanto, precisam ser interpretadas de acordo com o horário da consulta. Como a CoinGlass utiliza janelas móveis de 24 horas, o montante pode variar significativamente ao longo do dia, conforme eventos anteriores deixam de integrar o período observado. Outro levantamento divulgado na manhã desta sexta-feira apontava US$ 968,95 milhões em posições encerradas, dos quais US$ 773,99 milhões correspondiam a apostas na valorização. A diferença entre os números reflete os respectivos recortes de atualização e não deve ser confundida com duas ondas independentes de liquidação.
Também é importante distinguir o valor das posições liquidadas de uma perda equivalente no patrimônio agregado dos investidores. Em operações alavancadas, o valor nocional dos contratos pode superar consideravelmente as garantias depositadas. Por isso, uma liquidação de US$ 1 bilhão não significa necessariamente que o mercado tenha perdido esse mesmo montante em dinheiro efetivamente investido.
Investidores transferem 55,6 mil bitcoins para corretoras após perdas
Outro sinal de pressão sobre o mercado apareceu nos dados de movimentação das carteiras digitais. Uma análise publicada na CryptoQuant pelo colaborador Amr Taha identificou a transferência de aproximadamente 55.600 bitcoins para corretoras em 8 de outubro por detentores de curto prazo que apresentavam perdas em suas posições.
O indicador acompanha moedas enviadas às plataformas de negociação por investidores que mantêm os ativos por períodos relativamente curtos, geralmente inferiores a seis meses. Quando essas transferências ocorrem com prejuízo em relação ao custo de aquisição identificado nas movimentações anteriores, podem sinalizar maior disposição para vender diante da expectativa de novas quedas.
O volume observado superou em aproximadamente 12,9% os 49.250 bitcoins registrados em situação semelhante em 26 de junho. A comparação chama atenção porque o preço do bitcoin estava acima de US$ 81 mil no episódio mais recente, enquanto havia sido negociado perto de US$ 59.300 no evento anterior. Isso mostra que a pressão para reduzir posições apareceu mesmo em um patamar de preços substancialmente superior.
As transferências não comprovam, contudo, que todas as moedas foram efetivamente vendidas. O envio de bitcoins para corretoras pode anteceder operações de negociação, mas também pode estar relacionado à reorganização de posições, à constituição de garantias ou a outras movimentações operacionais. O dado aponta aumento potencial da oferta disponível para negociação, sem permitir determinar isoladamente o volume de vendas executadas.
A mesma análise da CryptoQuant mencionou a movimentação de 12.267 bitcoins, avaliados em aproximadamente US$ 1,01 bilhão, a partir de uma carteira associada a ativos apreendidos pelo governo dos Estados Unidos no caso do ataque à Bitfinex, ocorrido em 2016. A transferência para endereços não identificados alimentou especulações sobre uma eventual venda desses ativos, mas não havia confirmação de alienação das moedas. A simples movimentação entre carteiras não constitui prova de operação de mercado.
Ethereum, solana e XRP apresentam perdas maiores que o bitcoin
A correção da semana foi particularmente intensa entre as criptomoedas de maior capitalização que não são o bitcoin. O ethereum era negociado na região de US$ 2.490 nesta sexta-feira, acumulando queda próxima de 8,7% em sete dias. A perda semanal representava aproximadamente duas vezes e meia a desvalorização percentual do bitcoin, mostrando uma pressão mais intensa sobre o segundo maior ativo digital do mercado.
A solana também registrava desempenho negativo, com cotação próxima de US$ 110 e recuo semanal de aproximadamente 9,4%. O XRP, negociado na região de US$ 1,38 a US$ 1,40, acumulava perda semelhante. A BNB, por sua vez, apresentava desvalorização de aproximadamente 4,9% no período. Os números correspondem ao levantamento de mercado divulgado na manhã de 9 de outubro e podem mudar conforme as negociações prosseguem.
Entre os fatores que ajudam a explicar a diferença de desempenho está o perfil de risco atribuído pelos investidores a cada ativo. Embora o bitcoin também apresente volatilidade elevada, ele concentra a maior parte da capitalização do mercado de criptomoedas e dispõe de uma estrutura de negociação institucional mais ampla. Em períodos de instabilidade, algumas moedas alternativas podem sofrer movimentos proporcionalmente maiores em razão das condições de liquidez, da concentração de posições e da atuação dos participantes do mercado de derivativos.
O comportamento das stablecoins foi diferente. Tether (USDT) e USD Coin (USDC) permaneceram próximas de US$ 1, conforme seu mecanismo de referência ao dólar. Esses ativos têm estruturas próprias de manutenção de paridade e, por isso, seus preços normalmente apresentam oscilações menores que os de criptomoedas como bitcoin, ethereum e solana, embora não estejam livres de riscos.
A queda semanal também ocorre em um ambiente financeiro internacional de maior cautela. O avanço dos rendimentos dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos, a valorização do dólar e o encarecimento do petróleo têm influenciado a disposição dos investidores em assumir exposição a ativos voláteis. Esse contexto afeta diferentes segmentos dos mercados financeiros e pode reduzir o interesse por posições especulativas, especialmente aquelas financiadas com recursos emprestados.
Mercado acompanha fluxo dos ETFs e recuperação do bitcoin acima de US$ 82 mil
A recuperação parcial registrada nesta sexta-feira devolveu o bitcoin à região de US$ 82 mil a US$ 83 mil, mas não eliminou as perdas acumuladas durante a semana. O movimento ocorreu depois de uma sequência de vendas que atingiu tanto o mercado à vista quanto as operações alavancadas, enquanto os dados disponíveis dos ETFs continuavam apontando retirada líquida de recursos.
Para os próximos pregões, o comportamento dos fundos negociados nos Estados Unidos será um dos indicadores acompanhados pelo mercado. Os dados consolidados até 8 de outubro mostram um saldo negativo próximo de US$ 1 bilhão no mês, mas ainda não incorporam o resultado final das negociações desta sexta-feira. Uma retomada consistente das aplicações poderia indicar melhora da demanda institucional, enquanto novas retiradas manteriam a pressão sobre os ativos.
Outro fator importante será a capacidade do bitcoin de sustentar sua recuperação depois de ter chegado a US$ 80.350. A estabilização do preço pode reduzir o ritmo das liquidações compulsórias, mas não assegura, isoladamente, o encerramento da correção. A evolução dependerá da demanda no mercado à vista, do volume de posições alavancadas, dos fluxos de capital e das condições financeiras internacionais.
A semana termina, portanto, com uma combinação de sinais desfavoráveis para o mercado de criptomoedas: redução da exposição institucional nos ETFs, perdas relevantes entre investidores alavancados e aumento das transferências de bitcoins por detentores de curto prazo que acumulam prejuízos. A recuperação observada em parte desta sexta-feira mostra que compradores continuam presentes, mas os dados da semana ainda não permitem afirmar que a pressão vendedora tenha sido superada.
Fontes:
Farside Investors — dados diários de entradas e saídas líquidas dos ETFs à vista de bitcoin e ethereum negociados nos Estados Unidos, até 8 de outubro de 2026.
CryptoQuant — análise de Amr Taha sobre transferências de bitcoins por detentores de curto prazo em 8 de outubro de 2026 e movimentações de carteiras associadas ao governo norte-americano.
CoinGlass — estatísticas de liquidações de posições alavancadas no mercado de criptomoedas em 9 de outubro de 2026.
CoinMarketCap — informações de mercado e referências de cotação das principais criptomoedas em 9 de outubro de 2026.









