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Boletim Focus: inflação de 2026 sobe para 5,22% e Selic projetada cai a 13,25%

Mercado eleva projeção do IPCA pela quarta semana consecutiva, após alta dos preços de energia, combustíveis e alimentos; estimativa para os juros recua a 13,25%, enquanto dólar é projetado a R$ 5,15 no fim do ano.

por Bruno Assis
13/10/2026 às 10h05
em Economia
Boletim Focus: Mercado Corta Projeção Da Inflação De 2026 Para 5,30% - Gazeta Mercantil

O mercado financeiro elevou pela quarta semana consecutiva a projeção para a inflação brasileira em 2026, mesmo diante da expectativa de novos cortes da taxa básica de juros até dezembro. Segundo o Boletim Focus divulgado pelo Banco Central nesta terça-feira (13), a mediana das estimativas para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) passou de 5,01% para 5,22%, um aumento de 0,21 ponto percentual em relação à pesquisa anterior. A nova previsão coloca a inflação 0,72 ponto acima do limite superior de tolerância da meta estabelecida para o país, de 4,5%, reforçando as dificuldades enfrentadas pela política monetária nos últimos meses do ano.

A revisão ocorreu após a divulgação da inflação de setembro, que surpreendeu os economistas ao registrar alta de 0,82%, acima da expectativa de aproximadamente 0,76% apurada no mercado. O resultado foi influenciado principalmente pelo encarecimento da energia elétrica, mas também refletiu pressões sobre combustíveis, alimentos e serviços. Com isso, a inflação acumulada em 12 meses acelerou de 4,22% em agosto para 4,58% em setembro, ultrapassando novamente o teto do intervalo de tolerância.

Apesar da deterioração das expectativas inflacionárias, os economistas consultados pelo Banco Central reduziram de 13,50% para 13,25% ao ano a projeção para a Selic no encerramento de 2026. A taxa básica está atualmente em 13,75%, depois de o Comitê de Política Monetária (Copom) promover um corte de 0,25 ponto percentual em setembro. A nova estimativa pressupõe, portanto, uma redução adicional de 0,50 ponto percentual até dezembro, distribuída entre as duas reuniões restantes do colegiado neste ano, caso se confirme o cenário predominante entre os participantes da pesquisa.

O comportamento das projeções revela uma combinação incomum: inflação esperada mais elevada no curto prazo e juros projetados em patamar inferior ao estimado anteriormente. A diferença indica que parte dos analistas atribui a aceleração recente a fatores específicos, como energia e combustíveis, enquanto mantém a expectativa de desaceleração da atividade econômica suficiente para permitir a continuidade do ciclo de flexibilização monetária.

Inflação de 2026 sobe de 5,01% para 5,22% e se afasta da meta

A revisão de 0,21 ponto percentual no IPCA foi a maior registrada em uma semana desde abril, segundo análise dos dados do Focus realizada pela XP Investimentos. O movimento também marcou a quarta elevação consecutiva da estimativa para 2026, demonstrando que os economistas passaram a incorporar pressões mais intensas sobre os preços no encerramento do ano.

A meta brasileira de inflação é de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Dessa forma, o limite superior é de 4,5% e o inferior, de 1,5%. A previsão de 5,22% supera o centro da meta em 2,22 pontos percentuais, enquanto a distância em relação ao teto alcança 0,72 ponto.

É importante distinguir a projeção anual apresentada no Focus do mecanismo utilizado para verificar oficialmente o cumprimento da meta. Desde janeiro de 2025, o Brasil adota um sistema de meta contínua, no qual a inflação acumulada em 12 meses é acompanhada mensalmente. O descumprimento formal ocorre quando o IPCA permanece fora do intervalo de tolerância por seis meses consecutivos, e não simplesmente quando uma previsão para dezembro supera 4,5%.

O resultado de setembro, de 4,58% em 12 meses, indica que a inflação efetiva voltou a ultrapassar o limite superior. Isso, entretanto, não significa automaticamente que o Banco Central tenha descumprido a meta nos termos do regime vigente. A duração do desvio também precisa ser considerada.

Para 2027, a mediana das expectativas de inflação permaneceu em 4,30%, sem alteração em relação à semana anterior. A estimativa está abaixo do teto de 4,5%, mas ainda 1,30 ponto percentual acima do objetivo central perseguido pela autoridade monetária. Já para 2028, a projeção recuou ligeiramente, de 3,80% para 3,79%, indicando a expectativa de uma convergência gradual, e não imediata, ao centro da meta.

A diferença entre os horizontes é relevante para a condução dos juros. O Copom não considera apenas a inflação dos meses seguintes, mas a trajetória esperada dos preços ao longo do período em que os efeitos da política monetária deverão se manifestar. Por isso, um choque temporário pode ter consequências diferentes de uma aceleração persistente e disseminada.

Conta de luz respondeu por quase 40% da inflação de setembro

A principal explicação para a revisão do Focus está no IPCA divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) na sexta-feira (9). O índice avançou 0,82% em setembro, depois de registrar deflação de 0,32% em agosto. A diferença de 1,14 ponto percentual entre os dois meses mostra uma mudança expressiva no comportamento dos preços.

O grupo Habitação apresentou alta de 2,31% e respondeu por aproximadamente 0,35 ponto percentual do resultado mensal. Dentro dessa categoria, a energia elétrica residencial ficou 7,98% mais cara, com impacto individual de 0,32 ponto percentual sobre o IPCA.

Esse impacto corresponde a aproximadamente 39% da inflação total registrada em setembro. O cálculo evidencia o peso da conta de luz na aceleração do indicador, mas não significa que os demais preços tenham permanecido estáveis. Outros componentes da cesta de consumo também apresentaram aumentos.

A elevação das tarifas de eletricidade foi influenciada pelo encerramento do efeito do Bônus de Itaipu, que havia proporcionado redução nas faturas emitidas em agosto. Com o desaparecimento desse desconto na comparação mensal, o preço efetivamente captado pela pesquisa voltou a subir.

Esse mecanismo ajuda a explicar por que parte da aceleração é considerada pontual. O fim de um desconto pode elevar a inflação no mês em que ocorre, sem necessariamente provocar aumentos equivalentes nos meses seguintes. Ainda assim, contas de energia mais caras afetam diretamente o orçamento das famílias e podem elevar custos de produção e prestação de serviços.

O grupo Transportes também pressionou os preços, com avanço de 0,89% em setembro. A gasolina registrou aumento de 1,21%, enquanto outros serviços relacionados à mobilidade apresentaram variações positivas. A alimentação e bebidas subiu 0,83%, revertendo parte do alívio observado nos meses anteriores.

O resultado consolidado levou a inflação acumulada entre janeiro e setembro a 3,95%. O percentual oferece uma referência importante para avaliar o que ainda seria necessário acontecer nos últimos três meses para que a projeção de 5,22% se concretize.

Considerando a capitalização dos índices mensais, uma inflação anual de 5,22% exigiria avanço acumulado de aproximadamente 1,22% entre outubro e dezembro, a partir dos 3,95% já registrados até setembro. Trata-se de uma contribuição relativamente concentrada em um trimestre, especialmente depois das pressões recentes sobre energia e alimentação.

Serviços e núcleos de inflação também preocupam os economistas

Embora a alta de setembro tenha sido fortemente influenciada por preços administrados, a análise dos componentes subjacentes mostra que as preocupações inflacionárias não estão restritas à energia elétrica.

Segundo levantamento da XP Investimentos com base nos dados do IBGE, a média das medidas de núcleo de inflação avançou 0,36% em setembro. Em 12 meses, o indicador acelerou de 4,37% para 4,55%, ultrapassando também o limite superior de tolerância da meta.

Os núcleos procuram identificar a tendência dos preços ao reduzir a influência de componentes sujeitos a oscilações especialmente intensas. São acompanhados pelo Banco Central porque ajudam a avaliar se uma alta está concentrada em poucos produtos ou se existem pressões mais persistentes sobre a economia.

No setor de serviços, a inflação mensal foi de aproximadamente 0,61%, acima da previsão de 0,54% utilizada pela XP. Em 12 meses, o avanço chegou a 5,97%, ante 5,47% anteriormente.

A resistência dos serviços representa um desafio particular para a política monetária. Diferentemente de determinadas commodities, cujos preços podem recuar rapidamente quando há melhora na oferta, muitas atividades de serviços possuem custos associados a salários, aluguéis e contratos reajustados periodicamente. Isso pode tornar a desaceleração dos preços mais gradual.

A inflação de alimentos também merece acompanhamento. Depois de um período de quedas em parte dos produtos consumidos em casa, setembro registrou nova elevação. O comportamento dos preços nos próximos meses dependerá de condições climáticas, oferta agrícola, transporte e custos de produção.

A análise divulgada pela XP destaca o risco de pressões associadas ao fenômeno El Niño e à valorização internacional do petróleo. Esses fatores não possuem impactos previamente determinados sobre o IPCA, mas representam fontes de incerteza para as projeções de inflação do quarto trimestre.

Selic de 13,25% pressupõe mais dois cortes até dezembro

A redução da estimativa para a Selic constitui o principal contraponto à elevação das expectativas inflacionárias. O Focus passou a indicar juros de 13,25% no encerramento de 2026, abaixo dos 13,50% projetados na semana anterior.

Em setembro, o Copom reduziu a taxa básica de 14% para 13,75% ao ano, dando continuidade ao ciclo de flexibilização. Na ata da reunião, a autoridade monetária destacou a moderação gradual da atividade econômica, especialmente em setores mais sensíveis aos juros, mas reconheceu a persistência de riscos inflacionários e de incertezas no cenário externo.

A previsão atual do mercado corresponde a dois cortes adicionais de 0,25 ponto percentual, se distribuídos igualmente entre novembro e dezembro. Essa trajetória, entretanto, é uma expectativa dos economistas consultados, não uma decisão previamente tomada pelo Banco Central.

A própria comunicação do Copom ressalta que os movimentos seguintes dependerão dos dados disponíveis e da avaliação dos riscos para a convergência da inflação à meta. Uma sequência de indicadores acima do esperado poderia reduzir o espaço para novas quedas, enquanto sinais mais consistentes de desaceleração da atividade e dos preços poderiam favorecer a continuidade do ciclo.

Para 2027, a projeção da Selic permaneceu em 12% ao ano. A estimativa para 2028 também ficou estável, em 10,50%. Os números indicam que o mercado continua esperando uma redução gradual dos juros nos próximos anos, embora em ritmo condicionado à persistência da inflação e à evolução das expectativas.

A manutenção de taxas de dois dígitos, mesmo após novos cortes, mostra que as condições monetárias continuariam restritivas em termos nominais. Juros elevados tendem a encarecer financiamentos, empréstimos e capital de giro, afetando decisões de consumo e investimento. Ao mesmo tempo, aumentam a remuneração de diversas aplicações de renda fixa e o custo do serviço da dívida.

Dólar projetado para dezembro cai de R$ 5,20 para R$ 5,15

Além da Selic, o câmbio apresentou revisão para baixo no Focus desta semana. A mediana das estimativas para o dólar no encerramento de 2026 recuou de R$ 5,20 para R$ 5,15, uma redução de R$ 0,05, equivalente a aproximadamente 0,96%.

Foi a primeira mudança dessa projeção depois de 16 semanas de estabilidade, segundo levantamento da XP. A alteração ocorreu após um período de valorização do real, favorecido pela movimentação dos ativos brasileiros e pela reavaliação das perspectivas econômicas.

Para 2027, o dólar esperado passou de R$ 5,28 para R$ 5,26. Já a estimativa para 2028 permaneceu em R$ 5,30.

O comportamento do câmbio possui relação direta com a inflação brasileira, principalmente por meio dos preços de produtos importados, combustíveis, insumos industriais e bens comercializados internacionalmente. Uma valorização sustentada do real pode contribuir para limitar determinados reajustes, embora seus efeitos dependam das condições de cada mercado e não sejam necessariamente imediatos.

A queda da projeção cambial, portanto, pode ajudar a explicar por que os economistas ainda admitem cortes de juros mesmo com a inflação esperada mais elevada em 2026. A moeda nacional mais valorizada tende a reduzir parte das pressões externas sobre os preços domésticos, compensando parcialmente outros fatores de risco.

Esse efeito, contudo, depende de sua continuidade. Mudanças no ambiente internacional, nas taxas de juros americanas, nas cotações de commodities e nas expectativas sobre a política fiscal podem alterar rapidamente a direção do câmbio.

PIB permanece em 1,85% para 2026 e 1,40% para 2027

As previsões de crescimento econômico apresentaram maior estabilidade. A mediana das expectativas para a expansão do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2026 permaneceu em 1,85%, interrompendo a sequência recente de revisões negativas.

Para 2027, a projeção continuou em 1,40%. A estimativa indica uma desaceleração de 0,45 ponto percentual em relação ao crescimento previsto para este ano, reforçando a perspectiva de expansão moderada da atividade econômica.

Em 2028, o mercado elevou ligeiramente a previsão de crescimento, de 1,81% para 1,83%.

Os números mostram que a revisão da inflação não veio acompanhada de uma melhora nas expectativas de atividade. Essa combinação reforça o desafio para a política monetária: conter o aumento dos preços sem provocar uma desaceleração excessiva da economia.

A projeção de crescimento de 1,40% para 2027 é particularmente relevante porque sugere que os efeitos dos juros elevados poderão continuar sendo sentidos no próximo ano, mesmo com a expectativa de redução gradual da Selic.

Na análise da XP Investimentos, as estimativas de PIB feitas pelos participantes que atualizaram seus números nos últimos cinco dias úteis ficaram abaixo das medianas gerais do Focus, em 1,81% para 2026 e 1,35% para 2027. A diferença não assegura novas revisões negativas, mas indica que parte dos economistas acompanha a possibilidade de crescimento ainda mais moderado.

Quadro econômico coloca próximos dados de inflação no centro das decisões

O Focus divulgado nesta terça-feira apresenta uma combinação de sinais que exigirá atenção do Banco Central até o encerramento do ano. A inflação prevista em 5,22% permanece acima do intervalo de tolerância da meta, enquanto a expectativa de juros recuou e o crescimento projetado segue moderado.

A diferença de 0,72 ponto percentual entre a inflação esperada para dezembro e o teto da meta demonstra que o mercado não prevê uma convergência imediata. Para 2027, a estimativa de 4,30% permanece próxima do limite superior, sinalizando que o processo de desaceleração dos preços poderá continuar ao longo do próximo ano.

Os próximos resultados do IPCA, a evolução dos preços de combustíveis e alimentos e os indicadores de atividade serão determinantes para avaliar a viabilidade de novos cortes da Selic. O comportamento do câmbio e as expectativas sobre a política fiscal também poderão influenciar as decisões.

O relatório desta semana reforça, sobretudo, a necessidade de distinguir o efeito de choques pontuais de uma deterioração persistente da inflação. A alta da energia elétrica explica parcela expressiva do resultado de setembro, mas a aceleração dos núcleos e dos preços de serviços indica que o Banco Central ainda enfrenta pressões relevantes.

Nesse cenário, a trajetória de juros projetada pelos economistas não está assegurada. A possibilidade de a Selic encerrar 2026 em 13,25% dependerá de evidências de que a inflação poderá retornar gradualmente à meta, sem que novos choques comprometam a estabilidade dos preços.

Fonte:

Banco Central do Brasil — Relatório Focus, metodologia do Sistema de Expectativas de Mercado e critérios de cálculo das medianas das projeções econômicas.

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