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Juros futuros sobem mais de 20 pontos-base após pesquisas eleitorais

Taxas dos contratos DI avançam após pesquisas apontarem empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro; vencimento de janeiro de 2035 sobe 23 pontos-base, enquanto Focus eleva projeção da inflação para 5,22%.

por Camila Braga
13/10/2026 às 19h36
em Mercados
Taxa De Juros - Gazeta Mercantil

Os juros futuros brasileiros encerraram a terça-feira (13) em forte alta, com avanços superiores a 20 pontos-base em diversos vencimentos, interrompendo o movimento de queda registrado na semana anterior. A reversão ocorreu após a divulgação de novas pesquisas eleitorais que apontaram empate técnico entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) na disputa do segundo turno, marcado para 25 de outubro. O resultado levou investidores a reduzir posições montadas nos últimos pregões, período em que a expectativa de mudanças na política econômica havia favorecido os ativos domésticos.

No fechamento, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2028 atingiu 12,70% ao ano, aumento de 17 pontos-base em relação ao ajuste anterior, de 12,528%. Na ponta longa da curva, o DI para janeiro de 2035 avançou 23 pontos-base, encerrando a 12,57%, ante 12,345% na sexta-feira (9). O movimento ocorreu no primeiro pregão após o feriado de Nossa Senhora Aparecida e contrastou com o comportamento dos títulos do Tesouro norte-americano, cujos rendimentos recuaram durante a sessão.

A valorização dos contratos de juros representa uma mudança de percepção em relação ao cenário observado depois do primeiro turno das eleições. Na semana passada, o mercado havia reduzido significativamente os prêmios exigidos para carregar títulos brasileiros de prazo mais longo, movimento associado por operadores à expectativa de maior disciplina fiscal em um eventual governo Flávio Bolsonaro. As pesquisas divulgadas nesta terça-feira mostraram uma disputa competitiva, sem vantagem estatisticamente conclusiva para nenhum dos candidatos, levando parte dos investidores a realizar lucros.

A alta das taxas também ocorreu em um dia de divulgação do Boletim Focus, que trouxe sinais distintos para a política monetária. Embora os economistas tenham reduzido a projeção da taxa Selic no encerramento de 2026, elevaram pela quarta semana consecutiva a estimativa de inflação, agora acima do limite superior da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional.

DI para 2035 sobe 23 pontos-base e indica aumento do prêmio de risco

O avanço do contrato de janeiro de 2035 foi um dos movimentos mais relevantes da sessão. A taxa passou de 12,345% para 12,57%, diferença de aproximadamente 22,5 pontos-base, arredondada para 23 pontos-base na cotação divulgada ao mercado.

Um ponto-base corresponde a 0,01 ponto percentual. Assim, uma elevação de 23 pontos-base equivale a 0,23 ponto percentual, variação que pode representar uma mudança importante na avaliação de risco e no preço dos ativos financeiros, especialmente em operações de prazo mais longo.

No contrato de janeiro de 2028, a alta foi de aproximadamente 17 pontos-base, com a taxa passando de 12,528% para 12,70%. Embora menor do que a registrada no vencimento de 2035, a elevação também indica uma reprecificação das expectativas de juros.

A curva de DIs reúne taxas negociadas para diferentes vencimentos e funciona como referência para operações de renda fixa, crédito e instrumentos de proteção financeira. Seus preços refletem não apenas expectativas para a Selic, mas também fatores como inflação projetada, liquidez, risco fiscal e remuneração exigida pelos investidores para aplicações de maior prazo.

Por essa razão, a elevação dos juros futuros não significa que o Banco Central tenha aumentado a taxa básica de juros. A Selic permanece em 13,75% ao ano, após a redução de 0,25 ponto percentual determinada pelo Comitê de Política Monetária (Copom) em setembro.

O comportamento dos contratos representa uma alteração nas condições negociadas pelo mercado para os próximos anos. Também não é correto interpretar diretamente a taxa de um DI de janeiro de 2035 como uma previsão pontual da Selic naquela data, já que o contrato incorpora expectativas para todo o período até seu vencimento.

Pesquisas mostram empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro

O principal fator de atenção dos investidores foi a divulgação de dois levantamentos sobre a disputa presidencial. A pesquisa BTG/Nexus, realizada entre 10 e 12 de outubro com 2.002 eleitores, mostrou Flávio Bolsonaro com 48% das intenções de voto totais, enquanto Lula apareceu com 45%.

Considerando apenas os votos válidos, que excluem brancos, nulos e indecisos, Flávio registrou 52% e Lula, 48%. A margem de erro é de dois pontos percentuais, com nível de confiança de 95%, o que caracteriza empate técnico. O levantamento foi registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-07997/2026.

A pesquisa também identificou 5% de eleitores que pretendem votar em branco, anular o voto ou não escolher nenhum dos candidatos, além de 2% que não souberam responder.

O segundo levantamento, realizado pelo PoderData em parceria com a Aya, apontou Flávio com 51% dos votos válidos e Lula com 49%. A diferença ficou dentro da margem de erro de 1,8 ponto percentual. Foram entrevistados 3 mil eleitores entre 10 e 12 de outubro, e a pesquisa está registrada no TSE sob o número BR-01209/2026.

A comparação com a rodada anterior do PoderData/Aya mostra uma aproximação entre os candidatos. Em 8 de outubro, Flávio aparecia com 53% dos votos válidos, diante de 47% de Lula. A diferença numérica, portanto, diminuiu de seis para dois pontos percentuais.

Os levantamentos não permitem antecipar o resultado do segundo turno. Entretanto, sua divulgação alterou as expectativas de parte dos agentes financeiros, que haviam ampliado posições favoráveis aos ativos brasileiros depois da votação de 4 de outubro.

Mercado realiza lucros após forte valorização dos ativos brasileiros

A reação desta terça-feira precisa ser considerada à luz do desempenho excepcional registrado na semana anterior. Depois do primeiro turno, o Ibovespa acumulou valorização de 8,82%, encerrando a sexta-feira (9) acima dos 209 mil pontos, enquanto o dólar caiu 4,43% no período e terminou a semana abaixo de R$ 5.

As taxas dos contratos DI também recuaram intensamente, principalmente nos vencimentos longos. O movimento foi associado por participantes do mercado à perspectiva de ajustes na condução da política fiscal a partir de 2027, conforme a interpretação de investidores sobre as propostas e a orientação econômica dos candidatos.

A alta desta terça-feira, portanto, não representa necessariamente uma mudança definitiva das expectativas econômicas. Parte do movimento pode ser explicada pela realização de lucros, quando investidores encerram posições depois de uma valorização expressiva dos ativos.

Em operações de juros futuros, a queda das taxas pode produzir ganhos para participantes posicionados nesse sentido. Quando o movimento se torna muito intenso em pouco tempo, aumenta o incentivo para que gestores reduzam a exposição e assegurem os resultados obtidos.

A combinação de pesquisas eleitorais, posições acumuladas e menor liquidez após o feriado contribuiu para uma sessão de ajustes relevantes.

Na Bolsa, o Ibovespa também perdeu força depois dos recordes recentes e encerrou o pregão em queda superior a 1%, aos 206.872,78 pontos. No câmbio, o dólar voltou a superar R$ 5, acompanhando o movimento de maior cautela com os ativos brasileiros.

A reação simultânea de câmbio, ações e juros evidencia a influência das expectativas políticas sobre os preços, mas não significa que todos esses mercados estejam respondendo exclusivamente às pesquisas eleitorais.

Expectativa fiscal orienta parte das operações, mas depende de medidas concretas

Uma das principais interpretações presentes nas mesas de operações é a de que uma eventual mudança de governo poderia resultar em uma política de contenção de gastos e maior compromisso com o equilíbrio das contas públicas.

Essa avaliação ajudou a explicar a redução dos prêmios de risco depois do primeiro turno, mas continua sujeita a incertezas importantes. A adoção de medidas fiscais depende da definição de propostas, da composição do Congresso, das condições econômicas e da capacidade de implementação das decisões.

A simples expectativa de uma mudança de orientação política não assegura redução do déficit público, estabilização da dívida ou queda sustentável dos juros.

Do mesmo modo, a continuidade do atual governo não determina, isoladamente, uma trajetória específica para a política fiscal. As decisões sobre receitas, despesas, investimentos e cumprimento das regras orçamentárias dependem de escolhas futuras e das condições efetivas da economia.

O aumento dos juros futuros indica que investidores passaram a exigir uma remuneração maior nos contratos negociados nesta terça-feira. Não representa uma avaliação definitiva sobre qual candidato adotaria a política econômica mais eficaz.

Para a trajetória de longo prazo das taxas, indicadores como dívida pública, resultado primário, inflação e crescimento econômico continuarão sendo determinantes, independentemente do resultado eleitoral.

Boletim Focus eleva inflação de 2026 para 5,22%

Além das pesquisas, o mercado acompanhou a atualização das projeções econômicas divulgadas pelo Banco Central nesta terça-feira.

O Boletim Focus mostrou que a estimativa mediana para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2026 passou de 5,01% para 5,22%, completando quatro semanas consecutivas de revisão para cima.

A nova projeção supera em 0,72 ponto percentual o limite superior de 4,5% do intervalo de tolerância da meta de inflação, cujo centro é de 3%.

O aumento ocorre depois da divulgação do IPCA de setembro, que avançou 0,82%, pressionado principalmente por energia elétrica e outros componentes do consumo das famílias.

A revisão reforça as dificuldades para a convergência da inflação à meta, mesmo em um ambiente de juros elevados. Para 2027, a mediana das expectativas permaneceu em 4,30%, também acima do centro da meta.

Outro dado relevante é a manutenção da projeção de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 1,85% para 2026, indicando que os economistas não alteraram a estimativa central de atividade econômica na mesma intensidade observada na inflação.

A combinação de inflação projetada acima da meta e crescimento econômico moderado amplia a complexidade das decisões de política monetária. Cortes de juros podem contribuir para estimular o crédito e a atividade, mas dependem de condições que permitam preservar a estabilidade dos preços.

Mercado reduz projeção da Selic para 13,25% até dezembro

Apesar da piora nas expectativas de inflação, os economistas consultados pelo Banco Central reduziram de 13,50% para 13,25% a previsão mediana da Selic no encerramento de 2026.

Considerando que a taxa básica está atualmente em 13,75%, a projeção contempla uma redução adicional de 0,50 ponto percentual até o fim do ano.

A leitura predominante é de que o Copom ainda poderá realizar dois cortes de 0,25 ponto percentual nas reuniões restantes de 2026, caso as condições econômicas permitam.

Para 2027, a expectativa mediana da Selic permaneceu em 12,00%. Para 2028, a projeção continuou em 10,50%, enquanto a estimativa para 2029 ficou em 10,00%.

Esses números ajudam a explicar por que não existe contradição necessária entre a alta dos juros futuros em uma sessão e a redução da projeção da Selic no Focus.

O relatório do Banco Central consolida expectativas de economistas coletadas até a sexta-feira anterior à divulgação. Já os contratos DI são negociados continuamente e incorporam mudanças de percepção, necessidades de proteção e decisões de posicionamento dos investidores.

Dessa forma, a projeção mediana de juros para dezembro pode cair mesmo em uma sessão de aumento das taxas exigidas para vencimentos de 2028 ou 2035.

Juros brasileiros sobem apesar da queda dos Treasuries

Outro aspecto que chamou atenção foi o descolamento entre os juros futuros brasileiros e os rendimentos dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos.

Às 16h32, o rendimento do Treasury de dez anos, uma das principais referências internacionais para o custo do dinheiro, recuava três pontos-base, para 5,211% ao ano.

A queda dos rendimentos dos títulos norte-americanos costuma favorecer ativos de economias emergentes, pois reduz a remuneração relativa oferecida por instrumentos considerados de menor risco de crédito.

Nesta terça-feira, porém, os juros brasileiros seguiram direção contrária, registrando altas relevantes mesmo diante da redução dos rendimentos externos.

O comportamento fortalece a interpretação de que fatores domésticos exerceram influência predominante sobre a sessão, especialmente as pesquisas eleitorais, o reposicionamento de investidores e as discussões sobre a política fiscal.

O petróleo Brent também apresentava recuo durante o pregão, outro elemento que poderia contribuir para aliviar parte das preocupações inflacionárias internacionais.

Ainda assim, movimentos de um único dia não permitem estabelecer uma relação causal definitiva entre cada notícia e a variação das taxas. A curva de juros reflete simultaneamente diversas informações e operações financeiras.

Pacote de R$ 12,6 bilhões para MEIs entra na avaliação fiscal

O governo federal também anunciou nesta terça-feira um conjunto de medidas voltadas aos microempreendedores individuais, incluindo uma proposta de perdão de dívidas tributárias, renegociação de obrigações bancárias e repasses para investimento em pequenos negócios.

Segundo o anúncio, o projeto prevê a possibilidade de cancelar aproximadamente R$ 12,6 bilhões em dívidas tributárias de 3,6 milhões de MEIs. A iniciativa depende de aprovação do Congresso Nacional, não constituindo um perdão já efetivado.

O pacote inclui ainda mecanismos de renegociação de dívidas privadas e transferências de recursos a microempreendedores, cujos critérios e efeitos orçamentários dependem da regulamentação das medidas.

A proposta amplia o conjunto de informações que investidores precisam avaliar ao projetar as contas públicas. Entretanto, o valor nominal das dívidas que poderão ser perdoadas não equivale automaticamente a uma despesa orçamentária de igual montante.

Isso porque parte dos créditos tributários pode apresentar baixa probabilidade de recuperação. A consequência fiscal efetiva depende da capacidade de cobrança desses valores, do tratamento contábil e das regras finais aprovadas.

Também será necessário distinguir eventuais transferências diretas de recursos, que podem representar despesas, das medidas de cancelamento de créditos tributários e dos mecanismos de renegociação financeira.

Sem essas definições, não é possível atribuir ao pacote um impacto fiscal líquido equivalente ao valor integral anunciado.

O que esperar da curva de juros até o segundo turno?

A proximidade da votação tende a manter o cenário eleitoral entre os principais fatores observados pelos operadores de renda fixa, câmbio e ações. A divulgação de novas pesquisas poderá provocar ajustes adicionais nas posições, especialmente caso os resultados sejam interpretados como uma mudança relevante nas expectativas previamente incorporadas aos preços.

A evolução da inflação e as comunicações do Banco Central também permanecerão no radar, uma vez que a autoridade monetária precisa equilibrar os efeitos da política restritiva sobre a atividade econômica com o compromisso de convergência do IPCA à meta.

Para os investidores, a principal diferença entre os juros curtos e longos está na composição dos riscos. Enquanto os vencimentos mais próximos respondem de maneira mais direta às expectativas para as próximas decisões do Copom, os contratos longos incorporam maior incerteza sobre inflação, dívida pública, crescimento e condução da política econômica.

Essa característica ajuda a explicar por que o DI para janeiro de 2035 apresentou oscilação superior à registrada no vencimento de janeiro de 2028.

O encerramento desta terça-feira marca, sobretudo, uma interrupção da queda acelerada dos prêmios de juros observada depois do primeiro turno. Com os contratos de 2028 e 2035 negociados a 12,70% e 12,57%, respectivamente, o mercado passou a precificar novamente uma parcela dos riscos que haviam perdido importância relativa nos pregões anteriores.

Até 25 de outubro, pesquisas eleitorais, dados econômicos e informações fiscais continuarão compondo as expectativas de investidores. A trajetória efetiva dos juros, entretanto, dependerá de fundamentos econômicos e decisões de política monetária que vão além da disputa presidencial.

Fontes

  • B3 — Referências de mercado para contratos futuros de Depósito Interfinanceiro, vencimentos de janeiro de 2028 e janeiro de 2035.
  • Banco Central do Brasil — Relatório Focus de 9 de outubro de 2026, divulgado em 13 de outubro.
  • Banco Central do Brasil — Comunicados e ata da reunião do Comitê de Política Monetária de setembro de 2026.
  • Nexus Pesquisa e Inteligência de Dados — 17ª rodada da pesquisa BTG/Nexus, realizada de 10 a 12 de outubro de 2026, registro TSE BR-07997/2026.
  • PoderData/Aya — Pesquisa eleitoral realizada de 10 a 12 de outubro de 2026, registro TSE BR-01209/2026.

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