O BTG Pactual reformulou sua carteira recomendada de ações para novembro de 2026, após a turbulência provocada pelas eleições presidenciais, e passou a privilegiar empresas com geração de caixa consistente, menor endividamento e capacidade de distribuir dividendos. A nova seleção reúne dez companhias negociadas na B3, com potenciais individuais de valorização que chegam a 83%, segundo as estimativas divulgadas pelo banco nesta terça-feira, 3 de novembro.
As mudanças atingem três posições do portfólio 10SIM. O Itaú Unibanco (ITUB4), a construtora Cury (CURY3) e a companhia de energia Axia (AXIA3) foram retirados para dar lugar à Caixa Seguridade (CXSE3), à Ultrapar (UGPA3) e à TIM (TIMS3). A instituição decidiu preservar a exposição de 35% a empresas beneficiadas por receitas vinculadas ao dólar, mas reduziu a participação de negócios considerados mais vulneráveis à deterioração do crédito e à inflação de custos.
A revisão ocorre depois de outubro registrar uma queda de aproximadamente 9,9% no Ibovespa, conforme os cálculos apresentados pelo BTG. A carteira anterior recuou 6,5% no mesmo período, desempenho 3,4 pontos percentuais superior ao índice de referência. No relatório de novembro, os analistas apontam a indefinição sobre a futura equipe econômica do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a condução da política fiscal como fatores que justificam uma postura mais cautelosa na seleção de ações brasileiras.
Rede D’Or (RDOR3) lidera projeções de valorização com potencial de 83%
A Rede D’Or (RDOR3) apresenta o maior potencial de alta entre as dez ações selecionadas pelo BTG Pactual, com valorização estimada em 83%. A instituição considera que a recente correção dos preços deixou os papéis da rede de hospitais negociados próximos das mínimas históricas em termos de múltiplos, apesar da manutenção de perspectivas favoráveis para seus resultados operacionais.
Pelas projeções do banco, a companhia negocia a aproximadamente 11,6 vezes o lucro esperado para 2027, patamar que representa um desconto próximo de 35% em relação aos níveis históricos considerados na análise. A avaliação está associada à expansão dos negócios hospitalares, à atuação em seguros e oncologia e à possibilidade de ganhos de escala. O relatório também destaca a capacidade da empresa de manter crescimento em um ambiente de atividade econômica mais fraca.
O potencial de 83%, entretanto, é uma estimativa de valorização calculada a partir das premissas dos analistas, e não um retorno assegurado ao investidor. Mudanças nas taxas de juros, nos resultados das companhias e nas condições de mercado podem alterar tanto o preço-alvo quanto o prazo necessário para que a valorização eventualmente ocorra.
A segunda maior oportunidade identificada pelo BTG é a Motiva (MOTV3), antiga CCR, com potencial de alta de 43%. A concessionária de infraestrutura permanece na carteira com participação de 10%. O banco destaca a existência de mecanismos contratuais de reajuste tarifário, a resiliência da demanda e uma carteira potencial de projetos de ampliação de rodovias superior a R$ 20 bilhões. A análise atribui à companhia uma taxa interna de retorno real estimada de 13%.
A Sabesp (SBSP3) aparece na sequência, com valorização projetada de 42%, enquanto a Eneva (ENEV3) apresenta potencial de 40%. Ambas respondem por 10% da carteira cada uma. O BTG avalia que a Sabesp poderá ampliar seus resultados por meio de ganhos de eficiência e investimentos após a privatização, enquanto a Eneva apresenta maior previsibilidade de receitas devido à contratação de capacidade de geração de energia.
Petrobras (PETR4) recebe o maior peso entre as dez ações
A Petrobras (PETR4) continua sendo a principal posição da carteira, com participação de 15% e potencial de valorização estimado em 18%. A estatal divide a exposição cambial do portfólio com Embraer (EMBJ3), que representa 10% dos investimentos e apresenta projeção de alta de 38%, e Gerdau (GGBR4), também com peso de 10% e valorização esperada de 11%.
A manutenção dessas companhias preserva uma parcela importante da carteira vinculada a negócios internacionais ou a receitas influenciadas pelo dólar. Segundo o banco, essa exposição pode funcionar como proteção parcial em períodos de depreciação do real, embora não elimine os riscos específicos de cada empresa. A estratégia é particularmente relevante depois da forte volatilidade cambial observada no período eleitoral.
Para a Petrobras, os analistas trabalham com uma produção de aproximadamente 2,9 milhões de barris de petróleo por dia, acima das referências de produção de 2,5 milhões de barris diários para 2026 e de 2,6 milhões para 2027 utilizadas no relatório. O BTG também considera que a combinação de produção elevada, custos de extração menores e utilização das refinarias poderá sustentar a geração de caixa e a remuneração aos acionistas.
A instituição estima um rendimento de dividendos entre 10% e 12% em 2027 para a Petrobras, condicionado, entre outros fatores, a preços do petróleo Brent entre US$ 70 e US$ 80 por barril. O plano estratégico previsto para 23 de novembro é apontado como um dos eventos relevantes para a atualização dessas expectativas. Alterações na política de investimentos, nos preços dos combustíveis ou no ambiente internacional poderão modificar as projeções.
Caixa Seguridade (CXSE3) substitui Itaú em aposta por dividendos
A exclusão do Itaú representa uma das principais alterações da carteira. Embora o banco apresente fundamentos considerados sólidos, o BTG decidiu reduzir a exposição direta ao setor bancário devido ao risco de deterioração das condições de crédito, em um ambiente de juros elevados, endividamento das famílias e pressão sobre a atividade econômica.
A substituta, Caixa Seguridade (CXSE3), recebe peso de 10% na nova composição e apresenta potencial de valorização de 17%. A companhia foi escolhida pela previsibilidade de receitas, pela exposição aos mercados de seguros e previdência e pela capacidade de distribuir parte relevante de seus resultados aos acionistas.
O BTG projeta crescimento de lucros entre 8% e 12% para a empresa, com rendimento de dividendos próximo de 7%. A avaliação considera que o resultado financeiro poderá se beneficiar da manutenção de juros elevados por mais tempo, compensando parcialmente eventuais dificuldades em produtos associados à concessão de crédito.
A mudança não significa que a instituição tenha descartado os fundamentos do Itaú. Trata-se de uma alteração de posicionamento dentro de uma carteira mensal, na qual o objetivo declarado é reduzir a sensibilidade a determinados riscos econômicos enquanto se mantém exposição ao mercado acionário brasileiro.
Ultrapar (UGPA3) entra no lugar da Cury com expectativa de dividendos extraordinários
A saída da Cury (CURY3) ocorre apesar dos indicadores de avaliação considerados atraentes pelo BTG, incluindo uma relação entre preço e lucro de aproximadamente seis vezes e rendimento de dividendos estimado em 12%. A principal preocupação da equipe de análise está na possibilidade de aumento dos custos da construção civil, que poderia pressionar as margens operacionais nos próximos trimestres.
A Ultrapar (UGPA3), que ocupa a posição deixada pela construtora, passa a representar 10% da carteira. O banco calcula potencial de valorização de 23% para os papéis e destaca a recuperação das margens de distribuição de combustíveis, especialmente nas operações da Ipiranga.
Segundo o relatório, a companhia negocia a aproximadamente 8,8 vezes o lucro projetado para 2027, abaixo da média histórica de cinco anos, próxima de 11,5 vezes. A expectativa é de continuidade da geração de caixa no segundo semestre de 2026, com crescimento de volumes e margens operacionais ainda elevadas, embora o banco considere uma normalização desses indicadores no próximo ano.
A análise também identifica espaço para pagamentos extraordinários aos acionistas. O BTG estima a possibilidade de aproximadamente R$ 2 bilhões em distribuições relacionadas ao segundo semestre de 2026, montante equivalente a cerca de 6% do valor de mercado utilizado nos cálculos. Esse pagamento, que ainda depende de decisões societárias, poderia ocorrer em dezembro ou por ocasião da divulgação dos resultados do quarto trimestre, prevista para fevereiro de 2027.
TIM (TIMS3) assume posição de 5% com retorno esperado de dividendos
A terceira substituição retira a Axia Energia (AXIA3) e inclui a TIM (TIMS3), com peso de 5% na carteira. A operadora de telecomunicações foi selecionada principalmente pela expectativa de distribuição de recursos aos acionistas e pela avaliação de que parte das preocupações com concorrência e desaceleração do crescimento já estaria incorporada ao preço das ações.
O BTG calcula que a companhia poderá distribuir dividendos equivalentes a aproximadamente 9% de seu valor de mercado até abril de 2027. A estimativa abrange um período inferior a seis meses e não deve ser confundida com um rendimento anualizado. Também não representa compromisso formal de pagamento, pois depende da disponibilidade de resultados e das decisões da companhia.
O relatório observa que os papéis da TIM acumulavam desvalorização próxima de 30% em relação ao pico registrado no início de 2026. Para os analistas, a combinação entre preços mais baixos e remuneração esperada aos acionistas tornou a empresa relativamente mais atraente. Ainda assim, a intensificação da concorrência no setor permanece entre os fatores capazes de comprometer as projeções.
Carteira do BTG reúne quatro ações com potencial de alta de pelo menos 40%
A composição completa da 10SIM de novembro apresenta diferenças relevantes entre as expectativas de retorno e os pesos atribuídos a cada empresa. Os dez papéis estão distribuídos da seguinte forma, conforme o relatório original do BTG Pactual:
EmpresaCódigoPesoAlta potencialPetrobrasPETR415%18%SabespSBSP310%42%EmbraerEMBJ310%38%Rede D’OrRDOR310%83%Caixa SeguridadeCXSE310%17%EnevaENEV310%40%GerdauGGBR410%11%TIMTIMS35%15%UltraparUGPA310%23%MotivaMOTV310%43%
A análise dos pesos e das projeções mostra que quatro empresas apresentam potenciais de valorização iguais ou superiores a 40%: Rede D’Or, Motiva, Sabesp e Eneva. Juntas, elas representam 40% do patrimônio teórico da carteira. Já Petrobras, Embraer e Gerdau concentram os 35% de exposição cambial mantidos pelo banco.
Um cálculo realizado a partir dos percentuais individuais divulgados pelo BTG resulta em potencial médio ponderado de valorização de 33,15%. Esse número é apenas uma agregação matemática das estimativas para as dez ações, considerando os respectivos pesos iniciais. Não equivale a uma projeção oficial de retorno da carteira, pois desconsidera alterações futuras na composição, diferentes horizontes de preços-alvo, dividendos e oscilações de mercado.
A comparação com outubro também evidencia que as três substituições preservaram a soma dos pesos das posições alteradas. Itaú, Cury e Axia representavam conjuntamente 25% da carteira anterior, participação idêntica à atribuída a Caixa Seguridade, Ultrapar e TIM. A reorganização ocorreu, portanto, por meio de redistribuição da exposição entre empresas e setores, sem alteração do total investido nessas três posições.
BTG prevê economia mais fraca e Selic de 13,75% até dezembro de 2027
A escolha de ações mais defensivas está associada a uma revisão das expectativas econômicas do BTG para os próximos trimestres. A equipe de macroeconomia reduziu de 1,1% para 0,6% sua projeção de crescimento do Produto Interno Bruto brasileiro em 2027, considerando condições financeiras mais restritivas, inflação elevada e dificuldades na expansão do crédito.
Para 2026, a estimativa de crescimento foi reduzida de 1,8% para 1,7%. O banco também elevou sua previsão para a inflação de 2027, de 4,8% para 5,9%, enquanto a projeção para 2026 passou de 5,3% para 5,4%. A deterioração das perspectivas inflacionárias levou à revisão do cenário de política monetária.
Em vez de esperar que a taxa Selic encerre 2027 em 12,5%, o BTG passou a projetar manutenção dos juros básicos em 13,75% até dezembro daquele ano. Trata-se de uma previsão da instituição, sujeita a mudanças conforme a evolução da inflação, das contas públicas e das decisões do Banco Central.
No mercado de renda variável, a combinação de juros elevados e crescimento mais fraco tende a pressionar principalmente empresas que dependem de financiamento frequente, expansão acelerada ou consumo sensível ao crédito. Esse risco ajuda a explicar a retirada de uma instituição bancária e de uma construtora do portfólio, enquanto companhias com receitas recorrentes e capacidade de distribuir caixa ganharam espaço.
Desconto do Ibovespa convive com risco fiscal e incerteza sobre o novo governo
O relatório do BTG também identifica uma redução expressiva dos múltiplos de avaliação das ações brasileiras depois das eleições. Pelos cálculos da instituição, o Ibovespa passou a negociar a aproximadamente 7,3 vezes o lucro esperado para os 12 meses seguintes. Excluindo Petrobras e Vale, o múltiplo estimado sobe para 8,8 vezes, ainda abaixo de referências históricas.
Esse desconto, entretanto, não é interpretado pelo banco como garantia de recuperação. A equipe ressalta que as estimativas de lucro das companhias podem sofrer revisões negativas caso a atividade econômica desacelere mais do que o previsto, enquanto a persistência de juros reais elevados poderá limitar a valorização dos ativos.
A política fiscal ocupa posição central nessa avaliação. Os analistas aguardam a definição da equipe econômica do novo mandato e medidas capazes de moderar o crescimento das despesas públicas. O relatório considera que iniciativas de contenção dos gastos poderiam contribuir para reduzir os juros reais de longo prazo, embora ressalte a incerteza quanto à adoção e à abrangência de eventuais ajustes.
Entre os indicadores acompanhados pelo banco está o fluxo de capital estrangeiro. Segundo os dados apresentados na análise, investidores internacionais acumulavam compras líquidas de aproximadamente R$ 8,6 bilhões em outubro, apesar das vendas registradas depois do segundo turno. A reversão parcial desses fluxos mostra que a percepção de risco fiscal passou a influenciar de maneira mais intensa o posicionamento de investidores na Bolsa brasileira.
A carteira 10SIM é revista mensalmente e procura selecionar aproximadamente dez ações com perspectivas de desempenho consideradas atraentes pelos analistas do BTG Pactual. A nova composição representa a estratégia da instituição para novembro, sujeita a mudanças conforme a divulgação de resultados corporativos, a evolução das condições econômicas e os primeiros sinais da política fiscal do governo eleito.
Fontes:
BTG Pactual Equity Research — Carteira Recomendada de Ações 10SIM, relatório original de novembro de 2026, divulgado em 3 de novembro, com composição do portfólio, potenciais de valorização, projeções macroeconômicas, fundamentos das empresas e desempenho histórico.
BTG Pactual Research — Carteira 10SIM de outubro de 2026, composição oficial utilizada para verificar as posições anteriores, os pesos recomendados e as alterações realizadas para novembro.









