Conselho de Ética arquiva processo de cassação de Eduardo Bolsonaro e reforça imunidade parlamentar
O Conselho de Ética da Câmara dos Deputados decidiu, nesta quarta-feira (22/10), arquivar o processo de cassação de Eduardo Bolsonaro (PL-SP) por suposta quebra de decoro parlamentar. O caso, que gerava intensa disputa entre governistas e oposicionistas, foi encerrado após o colegiado aprovar, por 11 votos a 7, o parecer do relator Delegado Marcelo Freitas (União-MG), que considerou as acusações improcedentes.
Segundo o relatório, as declarações do deputado estão protegidas pela imunidade parlamentar, princípio constitucional que assegura liberdade de opinião e expressão aos parlamentares no exercício do mandato. O resultado representa uma vitória política para o PL, partido do ex-presidente Jair Bolsonaro, e encerra um dos capítulos mais delicados envolvendo o filho 03 da família Bolsonaro.
Entenda o processo de cassação de Eduardo Bolsonaro
A representação contra o deputado foi apresentada pelo Partido dos Trabalhadores (PT), que o acusou de usar o mandato para atacar instituições democráticas e influenciar autoridades estrangeiras a adotar sanções econômicas contra o Brasil.
O PT argumentou que essas ações configurariam quebra de decoro parlamentar, uma vez que atentariam contra os princípios da soberania nacional e do respeito às instituições do Estado Democrático de Direito.
No entanto, o relator Marcelo Freitas entendeu que as falas e atos de Eduardo Bolsonaro não ultrapassaram os limites da imunidade parlamentar, sendo, portanto, manifestações políticas protegidas pela Constituição. Ele destacou que a liberdade de expressão dos deputados é uma garantia essencial ao exercício do mandato e à representação popular.
Votação e divisões políticas no Conselho
A sessão do Conselho de Ética foi marcada por forte polarização política. Deputados de oposição, como Chico Alencar (PSOL-RJ) e Maria do Rosário (PT-RS), tentaram reverter o parecer, defendendo a continuidade do processo e a cassação do mandato de Eduardo Bolsonaro.
Alencar apresentou um voto em separado a favor da punição, enquanto Maria do Rosário classificou o arquivamento como “um mau exemplo institucional”, ao alegar que o comportamento do parlamentar teria afrontado a soberania nacional.
Já a base governista e aliados do PL consideraram o processo uma retaliação política. O líder da bancada, Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), afirmou que o caso se resumia a divergências ideológicas, e que não havia elementos concretos para caracterizar quebra de decoro.
A vitória do relatório foi vista como uma demonstração de força do PL dentro da Câmara e um recado sobre a resistência da base bolsonarista em aceitar punições políticas de origem partidária.
Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos
Eduardo Bolsonaro está licenciado do cargo e reside nos Estados Unidos desde março deste ano. O parlamentar tem mantido agenda política internacional, participando de eventos conservadores e mantendo diálogo com lideranças da direita norte-americana.
A ausência do país durante o andamento do processo gerou críticas de opositores, que alegaram fuga de responsabilidade parlamentar. No entanto, seus aliados afirmam que ele apenas cumpre uma licença regular aprovada pela Mesa Diretora da Câmara, e que sua atuação internacional reforça a presença política do Brasil em debates conservadores globais.
Imunidade parlamentar: o centro da discussão
O cerne do debate no Conselho de Ética girou em torno do conceito de imunidade parlamentar, previsto no artigo 53 da Constituição Federal. Essa prerrogativa garante aos deputados e senadores a inviolabilidade por suas opiniões, palavras e votos, protegendo-os de processos judiciais e disciplinares por manifestações relacionadas à atividade legislativa.
A defesa de Eduardo Bolsonaro sustentou que as declarações do deputado estavam dentro do âmbito da atividade política, e que puni-lo seria um precedente perigoso para a liberdade de expressão no Parlamento.
Especialistas em direito constitucional explicam que a imunidade não é um “cheque em branco”, mas uma garantia essencial para o equilíbrio democrático, especialmente em contextos de polarização ideológica. Nesse sentido, o arquivamento do processo reforça a leitura de que a Câmara tende a preservar a autonomia do mandato parlamentar diante de acusações de natureza política.
Oposição vê impunidade e desgaste institucional
A oposição reagiu duramente à decisão. Integrantes do PT, PSOL e Rede Sustentabilidade afirmaram que o Conselho de Ética perdeu a oportunidade de reafirmar os limites éticos do mandato parlamentar.
Parlamentares apontaram que a decisão pode enfraquecer o papel fiscalizador do colegiado, ao permitir que discursos considerados antidemocráticos sejam relativizados sob o argumento da imunidade.
Por outro lado, a base aliada ao PL comemorou o desfecho como uma vitória da democracia representativa e uma resposta àquilo que consideram tentativas de censura política.
O caso também reavivou o debate sobre o funcionamento dos mecanismos de controle disciplinar dentro da Câmara, questionando se o Conselho de Ética tem atuado de maneira técnica ou politizada.
Repercussão e impacto político
A decisão de arquivar a cassação de Eduardo Bolsonaro tem reflexos imediatos no cenário político. Ela consolida o fortalecimento da bancada bolsonarista e reafirma a influência do ex-presidente Jair Bolsonaro dentro do Congresso.
Analistas políticos avaliam que o resultado evita um precedente de punição interna contra figuras de grande visibilidade política, o que poderia abrir caminho para uma série de novas representações envolvendo outros deputados.
Além disso, o caso tende a intensificar a polarização entre governo e oposição, especialmente em temas sensíveis como liberdade de expressão, soberania nacional e ética pública.
Contexto: cassações e punições na Câmara
Historicamente, o Conselho de Ética da Câmara tem sido palco de disputas políticas em torno da punição de parlamentares. Poucos casos resultam em cassação, e a maioria é arquivada antes de chegar ao plenário.
Desde a redemocratização, apenas uma pequena parcela dos processos teve desfecho punitivo, o que reforça o entendimento de que a cassação é uma medida extrema, aplicada somente em situações de flagrante violação ética.
O arquivamento do caso Eduardo Bolsonaro segue essa tradição, sinalizando que o Parlamento brasileiro tende a preservar seus membros, salvo em casos de comprovada prática criminosa ou desvio de função.
Perspectivas e próximos passos
Com o processo arquivado, Eduardo Bolsonaro mantém todos os direitos políticos e prerrogativas parlamentares. No entanto, setores da oposição estudam novas medidas jurídicas e ações no Supremo Tribunal Federal (STF) questionando o alcance da imunidade parlamentar.
Apesar disso, fontes do Congresso indicam que é pouco provável que o STF interfira em uma decisão interna da Câmara, dado o respeito à separação entre os Poderes.
Para o PL, o desfecho é estratégico: mantém um dos seus principais nomes em posição de influência e evita um desgaste político adicional em meio a um cenário de recomposição das lideranças da direita.
O significado político do arquivamento
Mais do que uma decisão técnica, o arquivamento do processo de cassação de Eduardo Bolsonaro tem valor simbólico. Representa a consolidação da imunidade parlamentar como escudo político e reforça a narrativa de que o PL segue unido em torno de suas lideranças.
O episódio também revela o caráter político das decisões éticas no Congresso, que raramente se limitam a critérios jurídicos, refletindo o equilíbrio de forças entre as bancadas e o peso das alianças partidárias.
Com isso, o caso Eduardo Bolsonaro se soma a outros episódios que testaram os limites da liberdade parlamentar no Brasil contemporâneo — um tema que seguirá no centro do debate entre ética, política e imunidade.






