O Cidade Matarazzo, complexo de hotelaria, gastronomia, cultura e varejo instalado no antigo Hospital Matarazzo, na Bela Vista, projeta superar R$ 1,5 bilhão em movimentação econômica em 2026, depois de ultrapassar R$ 1 bilhão no ano passado. A estimativa representa crescimento de pelo menos 50% sobre o piso informado para 2025 e acompanha a entrada de novas operações em uma área que já recebeu mais de R$ 3 bilhões em investimentos a poucos metros da Avenida Paulista.
O empreendimento reúne atualmente Rosewood São Paulo, Soho House, Casa Bradesco e Mata Lab, além de restaurantes, lojas, galerias e espaços de eventos. Segundo Alexandre Allard, empresário responsável pelo projeto, o complexo pode receber até 20 mil pessoas nos dias de maior movimento. A próxima etapa prevê uma área subterrânea para experiências imersivas, apresentações e eventos, além de um projeto voltado a saúde e longevidade programado para 2027.
A expansão consolida uma mudança de escala iniciada há 15 anos, quando o terreno foi adquirido por R$ 117 milhões. O projeto deixou de ser centrado na recuperação dos edifícios históricos e na construção de um hotel de luxo para funcionar como um conjunto de negócios com públicos e fontes de receita diferentes. Gastronomia, cultura, hotelaria, varejo e entretenimento passaram a gerar fluxo próprio ao longo do dia e ampliaram a atividade econômica de uma área que permaneceu durante quase duas décadas sem ocupação permanente.
Estrutura financeira reuniu sócios e financiamento
A aquisição do terreno pelo grupo de Allard foi concluída em julho de 2011, depois de anos de negociação e de diferentes tentativas de dar uso comercial à propriedade. O desenvolvimento posterior exigiu uma estrutura de capital ampla, sobretudo porque o projeto combinava novas construções, restauração de imóveis tombados e obras subterrâneas de alta complexidade.
Na estrutura financeira do empreendimento, a Chow Tai Fook Enterprises (CTF), holding de Hong Kong, tornou-se a acionista majoritária da BM Empreendimentos, sociedade responsável pelo núcleo de hospitalidade do Cidade Matarazzo. O projeto também contou ao longo de seu desenvolvimento com aportes de outros investidores e financiamento bancário, em uma estrutura de capital formada para sustentar a restauração dos edifícios históricos e a implantação das novas operações.
O uso de diferentes fontes de capital foi necessário porque o projeto não seguia a lógica de uma incorporação imobiliária convencional. A preservação dos edifícios históricos, as restrições do tombamento e a necessidade de instalar boa parte da infraestrutura no subsolo aumentaram a complexidade e o prazo de execução.
Área ficou quase duas décadas sem uso permanente
O Hospital Umberto I foi inaugurado em 1904 pela comunidade italiana de São Paulo e tornou-se popularmente conhecido como Hospital Matarazzo. Nas décadas seguintes, o conjunto ganhou novos edifícios, entre eles a Maternidade Condessa Filomena Matarazzo, e se consolidou como referência da assistência hospitalar na cidade.
A importância histórica e arquitetônica levou ao tombamento estadual do conjunto em 1986. A proteção reconheceu tanto o valor dos edifícios quanto sua ligação com a imigração italiana e com o desenvolvimento da assistência médica em São Paulo, estabelecendo restrições que mais tarde condicionariam todo o desenho do novo empreendimento.
O hospital encerrou as atividades em 1993 depois de enfrentar uma longa crise financeira. Em 1996, a Previ adquiriu o imóvel e estudou diferentes alternativas para a área, mas nenhuma delas resultou em ocupação permanente. A antiga maternidade chegou a receber a Casa Cor em 2003, atraindo quase 103 mil visitantes, mas o conjunto voltou a permanecer sem uma função definitiva.
A mudança começou com a entrada de Allard. Mesmo depois da compra, o grupo precisou superar impasses relacionados ao patrimônio e definir uma solução que permitisse desenvolver o empreendimento sem eliminar as construções protegidas.
Tombamento levou infraestrutura para o subsolo
A necessidade de preservar os imóveis históricos obrigou o projeto a adotar soluções de engenharia pouco usuais. Em vez de concentrar toda a nova infraestrutura na superfície, estacionamentos, áreas técnicas, circulação e conexões entre as operações foram instalados em grande parte debaixo do terreno.
Uma das intervenções mais conhecidas ocorreu na Capela Santa Luzia. A estrutura precisou ser sustentada durante a escavação realizada sob o edifício, permitindo que a obra avançasse sem eliminar um dos elementos históricos do conjunto.
Ao lado dos prédios recuperados surgiu também a Torre Mata Atlântica, projetada pelo arquiteto francês Jean Nouvel. O edifício contemporâneo foi integrado à antiga maternidade e passou a formar, com ela, a estrutura do Rosewood São Paulo.
O hotel foi o primeiro grande ativo a colocar o empreendimento em funcionamento de maneira permanente. Com quartos, suítes, restaurantes, bares, spa, piscinas e uma extensa coleção de arte brasileira, o Rosewood marcou a transição de um canteiro de obras de longa duração para um complexo efetivamente aberto ao público.
Soho House e Casa Bradesco ampliaram o público
A ocupação ganhou velocidade com a chegada de operações que não dependem diretamente da hospedagem. A Soho House instalou no Cidade Matarazzo sua primeira unidade na América do Sul, ocupando parte da estrutura histórica com quartos, áreas sociais, piscina, academia e espaços voltados aos associados.
A Casa Bradesco adicionou uma frente dedicada à cultura e à criatividade, com exposições, atividades de formação e experiências multidisciplinares. A operação ocupa diferentes ambientes e passou a gerar fluxo próprio de visitantes, independentemente dos hotéis e restaurantes instalados no complexo.
No varejo, o Mata Lab consolidou uma área de aproximadamente 3 mil metros quadrados destinada a centenas de marcas, com forte presença de criadores brasileiros. A operação foi ampliada para segmentos como beleza, bolsas, calçados e acessórios, enquanto marcas internacionais começaram a utilizar o endereço para lançamentos e pontos físicos.
Essa diversificação é importante para interpretar os números econômicos do Cidade Matarazzo. O complexo reúne negócios diferentes, com estruturas e operadores próprios, de modo que a movimentação informada para 2025 e projetada para 2026 não deve ser confundida com o faturamento consolidado de uma única companhia.
Gastronomia vira uma das principais portas de entrada
A gastronomia tornou-se um dos segmentos mais visíveis da expansão. O Mata Città, aberto no fim de 2025, ocupa aproximadamente 1.600 metros quadrados e reúne ambientes inspirados na culinária italiana e na história da imigração em São Paulo. Posteriormente, a operação ganhou também um mercado com mais de mil produtos e ampla oferta de vinhos.
O complexo incorporou ainda o Preta Maria, desenvolvido a partir de referências da culinária afro-brasileira, o Lavva e o Bachour by Mata, primeira operação permanente no Brasil vinculada ao confeiteiro Antonio Bachour. Juntos, esses restaurantes ampliaram o alcance do empreendimento para um público que não necessariamente utiliza os hotéis ou participa da programação cultural.
A estratégia aumenta o tempo de permanência dos visitantes e distribui o movimento ao longo do dia. Uma pessoa pode chegar para uma refeição, visitar uma exposição, circular pelas lojas e utilizar outros serviços sem qualquer relação com a hospedagem, transformando a gastronomia em uma das principais portas de entrada do complexo.
Na prática, o Cidade Matarazzo passou a funcionar como um distrito privado de uso misto, com diferentes fontes de demanda compartilhando a mesma infraestrutura e o mesmo patrimônio histórico. Essa configuração ajuda a explicar a projeção de crescimento da atividade econômica mesmo depois da abertura dos principais ativos de hotelaria.
Entorno registra valorização acima da média da Bela Vista
A transformação do terreno coincide com uma valorização imobiliária superior no entorno imediato. Levantamento da Real Price Labs baseado em 823.933 transações apontou alta de 15,3% no preço do metro quadrado registrado em escrituras dentro de um raio de 1 quilômetro do Cidade Matarazzo entre setembro de 2023 e agosto de 2026.
No mesmo intervalo, a valorização média da Bela Vista foi de 12,4%, enquanto o Jardim Paulista registrou 13,4%. O entorno imediato teve, portanto, desempenho 2,9 pontos percentuais acima da média da Bela Vista e 1,9 ponto acima do Jardim Paulista.
Os números não permitem atribuir toda a diferença ao empreendimento. O comportamento dos imóveis depende também de juros, oferta, padrão das unidades negociadas, renda, infraestrutura e outras transformações urbanas. Ainda assim, o surgimento de hotelaria internacional, restaurantes, varejo e espaços culturais alterou de forma perceptível a dinâmica da região.
Ruas antes menos movimentadas passaram a receber visitantes, operações comerciais e serviços de alto padrão, ampliando a atividade econômica de uma área que permaneceu por anos marcada pela presença dos grandes edifícios fechados do antigo hospital.
Próxima etapa terá entretenimento e saúde
Uma das próximas entregas será uma área subterrânea ligada à Casa Bradesco destinada a exposições imersivas, apresentações, DJs e eventos. O projeto prevê capacidade aproximada de 1.500 pessoas e uma estrutura com cerca de 700 metros quadrados de telas de LED.
Outra frente programada para 2027 é um projeto dedicado a saúde e longevidade. A iniciativa recupera, de maneira simbólica, parte da vocação histórica do terreno, que durante grande parte do século passado esteve associado à assistência hospitalar, agora dentro de uma proposta voltada a serviços contemporâneos de saúde e bem-estar.
A projeção de ultrapassar R$ 1,5 bilhão em movimentação em 2026 mostra que a próxima etapa do Cidade Matarazzo não depende apenas de novas construções. O crescimento passa principalmente pela utilização mais intensa da estrutura já implantada, pela entrada de novas operações e pela capacidade de atrair públicos distintos para o mesmo endereço.
Mais de três décadas depois do fechamento do Hospital Matarazzo, o complexo entra assim em uma fase em que o principal indicador deixa de ser o tamanho da obra e passa a ser a atividade econômica gerada pelas operações instaladas. A expansão prevista para entretenimento e saúde deverá testar se esse crescimento pode continuar à medida que o projeto se aproxima de sua configuração definitiva.
Fontes:
Cidade Matarazzo e Mata Company — informações institucionais sobre operações instaladas, movimentação econômica e projetos em desenvolvimento
Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo e Condephaat — processo e resoluções de tombamento do antigo Hospital e Maternidade Umberto I e informações sobre a relevância histórica do conjunto
Rosewood São Paulo — informações institucionais sobre o hotel, ocupação da antiga maternidade, Torre Mata Atlântica e estrutura de hospedagem
Soho House São Paulo — informações institucionais sobre a unidade instalada no Cidade Matarazzo e sua estrutura
Casa Bradesco — informações sobre a operação cultural e espaços instalados no complexo
Real Price Labs — levantamento sobre transações imobiliárias e evolução do preço do metro quadrado na Bela Vista, Jardim Paulista e entorno do Cidade Matarazzo










