O Citi revisou para baixo suas estimativas de valor para Nubank (ROXO34), Inter (INBR34) e PicPay, antecipando um ambiente mais difícil para os bancos digitais brasileiros em 2027. As novas projeções atribuídas à instituição financeira indicam reduções de até 34,4% nos preços-alvo das companhias, apesar da expectativa de crescimento dos lucros no terceiro trimestre de 2026. A avaliação considera mudanças nas premissas macroeconômicas, elevação do custo de capital e riscos relacionados à qualidade das carteiras de crédito.
A maior revisão proporcional atingiu o Inter, cujo preço-alvo passou de US$ 6,10 para US$ 4 por ação negociada nos Estados Unidos. Para o PicPay, a estimativa caiu de US$ 24 para US$ 16, enquanto o Nubank teve seu valor projetado reduzido de US$ 14,50 para US$ 13. Os cortes equivalem, respectivamente, a 34,4%, 33,3% e 10,3%, segundo cálculos realizados a partir dos valores atribuídos ao relatório do Citi.
As estimativas foram apresentadas em uma análise assinada pelos analistas Gustavo Schroden e Arnon Shirazi, voltada aos resultados do terceiro trimestre e às perspectivas do setor financeiro para o próximo ano. Embora o banco ainda projete crescimento expressivo dos lucros, a avaliação indica que o desempenho futuro dependerá cada vez mais do controle da inadimplência e da capacidade das instituições de preservar margens em um ambiente de crédito menos favorável.
O ponto central da revisão é a diferença entre crescimento operacional e geração sustentável de resultados. A expansão das carteiras continua oferecendo oportunidades de aumento das receitas, mas também exige maior volume de capital, provisões para perdas e capacidade de administrar clientes com perfis distintos de risco. Esses fatores podem limitar a rentabilidade, mesmo quando o número de clientes e o volume de empréstimos continuam aumentando.
Inter (INBR34) tem maior corte proporcional, com preço-alvo reduzido a US$ 4
O Inter apresentou a maior redução percentual entre as três instituições. O preço-alvo atribuído ao Citi caiu de US$ 6,10 para US$ 4, uma diferença de US$ 2,10 por ação, equivalente a 34,4%. A principal justificativa apresentada para a revisão foi o aumento do custo de capital próprio, indicador utilizado para determinar a remuneração exigida pelos acionistas diante dos riscos associados ao investimento.
O aumento desse custo reduz o valor presente dos lucros projetados, mesmo quando as estimativas operacionais não sofrem deterioração equivalente. Na prática, um banco pode continuar aumentando suas receitas e resultados, mas apresentar avaliação de mercado menor caso os investidores passem a exigir retornos mais elevados para financiar seu crescimento.
Para o terceiro trimestre de 2026, o Citi estima lucro recorrente de R$ 426 milhões para o Inter, crescimento de 27% em relação ao mesmo período de 2025 e de aproximadamente 1% na comparação com o trimestre anterior. A projeção considera o avanço da receita líquida de juros, conhecida pela sigla NII, mas também incorpora uma desaceleração moderada da carteira de crédito.
O resultado esperado representa uma evolução limitada em relação ao segundo trimestre, quando o Inter registrou lucro líquido de R$ 421 milhões, segundo suas demonstrações financeiras. Naquele período, a instituição alcançou retorno sobre o patrimônio líquido de 16,3%, enquanto a receita líquida cresceu 32% em comparação anual.
A trajetória da inadimplência permanece entre os principais indicadores acompanhados pelos analistas. A expansão do crédito aumenta a capacidade de geração de receitas, mas exige acompanhamento das perdas esperadas, especialmente em modalidades de financiamento às famílias e em operações de maior risco.
Há também uma mudança importante para os investidores brasileiros. Os BDRs patrocinados do Inter, anteriormente negociados sob o código INBR32, deixaram de ser negociados na B3 em 16 de outubro de 2026. A companhia passou a contar com os BDRs não patrocinados INBR34, negociados desde 19 de outubro. Nos Estados Unidos, as ações ordinárias continuam identificadas pelo código INTR, na Nasdaq.
O preço-alvo de US$ 4 refere-se às ações negociadas no mercado americano. Portanto, não deve ser confundido com uma projeção de R$ 4 para os BDRs brasileiros, cujas cotações dependem também da relação de conversão e da taxa de câmbio.
PicPay tem preço-alvo reduzido em 33,3% apesar da projeção de lucro maior
O PicPay registrou o segundo maior corte proporcional. A estimativa de preço-alvo caiu de US$ 24 para US$ 16 por ação, redução de US$ 8, equivalente a 33,3%. A revisão acompanha a reavaliação do cenário macroeconômico e dos riscos associados à expansão acelerada da carteira de crédito.
De acordo com as projeções atribuídas ao Citi, o banco digital deverá apresentar lucro líquido ajustado de R$ 256 milhões no terceiro trimestre de 2026. O valor representa crescimento de 143% em relação ao mesmo intervalo de 2025, mas queda de aproximadamente 10% na comparação com o segundo trimestre deste ano.
A expectativa de retração trimestral ocorre depois de um período de forte crescimento operacional. No segundo trimestre, o PicPay registrou lucro de R$ 283 milhões e ultrapassou 70 milhões de contas. A carteira de crédito alcançou R$ 31,9 bilhões, expansão de 99% em relação ao ano anterior e de 14% sobre o trimestre imediatamente precedente.
Esse crescimento acelerado constitui uma das principais características do modelo de negócios da instituição. Com uma base ampla de clientes, o PicPay busca aumentar a utilização de produtos financeiros, incluindo crédito pessoal, empréstimos consignados e serviços de pagamento. Entretanto, o avanço do financiamento também amplia a exposição a eventuais mudanças na capacidade de pagamento dos tomadores.
Ao divulgar os resultados do segundo trimestre, a companhia informou que 55% da carteira era composta por operações com garantias totais ou parciais, participação dez pontos percentuais superior à registrada um ano antes. A mudança representa uma estratégia de redução da exposição relativa a modalidades de crédito sem garantias.
O custo de risco trimestral informado pela instituição ficou em 3,9%, dentro da faixa considerada adequada pela administração. Esse indicador será especialmente relevante na divulgação dos próximos resultados, uma vez que a expansão da carteira precisa ser acompanhada por provisões compatíveis com a probabilidade de inadimplência.
O PicPay informou em seu calendário de Relações com Investidores que divulgará o balanço do terceiro trimestre em 16 de novembro de 2026, após o fechamento do mercado americano. Até essa data, os valores apresentados pelo Citi permanecem como estimativas, sujeitas a diferenças em relação ao desempenho efetivamente apurado pela companhia.
Nubank (ROXO34) pode lucrar US$ 1,1 bilhão, mas Citi reduz preço-alvo
O Nubank apresentou a menor redução proporcional entre os três bancos digitais analisados. O preço-alvo caiu de US$ 14,50 para US$ 13 por ação, recuo de aproximadamente 10,3%. A revisão ocorreu apesar da expectativa de manutenção de um ritmo expressivo de crescimento dos resultados.
Para o terceiro trimestre de 2026, o Citi projeta lucro líquido recorrente de US$ 1,1 bilhão, aumento de 34% na comparação anual. A estimativa considera a expansão da carteira de crédito e o crescimento da receita líquida de juros, favorecidos pela ampliação da base de clientes e pelo aumento da utilização dos produtos financeiros.
A projeção ocorre depois de o Nubank superar pela primeira vez a marca de US$ 1 bilhão em lucro líquido trimestral. No segundo trimestre de 2026, a Nu Holdings registrou aproximadamente US$ 1,06 bilhão em lucro, conforme os dados oficiais divulgados em agosto. A instituição encerrou junho com 139 milhões de clientes distribuídos entre Brasil, México e Colômbia.
No mercado brasileiro, a base se aproximava de 118 milhões de clientes. A companhia também apresentou expansão de suas operações internacionais, especialmente no México, onde alcançou aproximadamente 16 milhões de clientes em julho.
Apesar da dimensão alcançada, o crescimento do banco depende da capacidade de ampliar receitas por cliente sem elevar desproporcionalmente as perdas com crédito. A instituição tem expandido sua atuação para diferentes segmentos, incluindo empréstimos pessoais, cartões e produtos direcionados a consumidores de maior renda.
Os dados do segundo trimestre já indicavam comportamentos distintos entre os indicadores de risco. A inadimplência de 15 a 90 dias apresentou redução para 4,8%, enquanto a proporção de créditos vencidos há mais de 90 dias avançou para 6,9%. O Nubank atribuiu parte dessas variações à sazonalidade e à composição da carteira.
A evolução desses indicadores será determinante para avaliar se o crescimento da receita financeira continuará se convertendo em lucro. O aumento do crédito pode elevar a rentabilidade no curto prazo, mas também exige provisões que reduzem o resultado quando as estimativas de perdas são revisadas.
As ações da Nu Holdings são negociadas na Bolsa de Nova York sob o código NU. No Brasil, investidores podem acessar exposição à companhia por meio dos BDRs ROXO34. Assim como nos demais casos, o preço-alvo em dólares informado pelo Citi corresponde à ação americana, não ao preço unitário do certificado negociado na B3.
Cortes de preços-alvo chegam a 34,4% e alteram perspectiva de valorização
A comparação entre as estimativas anteriores e os novos preços-alvo mostra que a revisão foi mais intensa para Inter e PicPay do que para Nubank.
O Inter teve seu valor projetado reduzido em 34,4%, seguido pelo PicPay, com 33,3%, e pelo Nubank, com 10,3%. Em termos absolutos, o maior ajuste foi registrado pelo PicPay, com redução de US$ 8 por ação.
Segundo os percentuais associados às projeções divulgadas, o novo preço-alvo do Nubank representa potencial de valorização de 8,4% em relação à cotação de referência utilizada na análise. Para o PicPay, a diferença positiva seria de 20,4%, enquanto o Inter apresentaria potencial de apenas 1,1%.
Esses percentuais não constituem previsões de rentabilidade garantida. O potencial de valorização é calculado pela comparação entre o preço-alvo estimado pelo analista e a cotação de mercado considerada no momento da avaliação. Mudanças nas ações, no câmbio, nas taxas de juros ou nas projeções de lucro podem alterar substancialmente essa relação.
Também é necessário distinguir uma redução de preço-alvo de uma recomendação de venda. Um analista pode diminuir sua estimativa de valor e, ainda assim, considerar que determinado papel apresenta potencial de valorização. O preço-alvo constitui uma referência de avaliação, não uma indicação de que a ação necessariamente alcançará aquele patamar.
Risco para 2027 está na desaceleração do crédito e no custo de inadimplência
A preocupação apresentada pelo Citi para 2027 está relacionada à possibilidade de que os bancos digitais passem a enfrentar uma combinação de crescimento mais lento das carteiras e maior necessidade de provisões para créditos de difícil recuperação.
Durante períodos de expansão acelerada, essas instituições podem aumentar sua participação de mercado e elevar rapidamente as receitas financeiras. Entretanto, o crescimento também aumenta a exposição ao comportamento dos consumidores, especialmente quando os juros permanecem elevados e a renda disponível das famílias sofre pressão.
O risco não se limita ao aumento da inadimplência já registrada. Os bancos precisam estimar antecipadamente as perdas esperadas em suas carteiras, considerando fatores como perfil dos clientes, condições econômicas e histórico de pagamento. Uma deterioração das perspectivas pode exigir reforço de provisões antes mesmo de determinados empréstimos entrarem efetivamente em atraso.
O custo de capital também influencia a avaliação dessas instituições. Quando os investidores exigem remuneração maior para assumir riscos, o valor atribuído aos lucros futuros diminui. Esse mecanismo ajuda a explicar por que revisões de preços-alvo podem ocorrer mesmo em períodos de crescimento de resultados.
Para os bancos digitais, uma consequência possível é a adoção de critérios mais seletivos na concessão de empréstimos. A priorização de clientes com menor probabilidade de inadimplência tende a reduzir o ritmo de expansão da carteira, mas pode preservar a rentabilidade e limitar perdas.
A escolha entre crescimento e controle de risco dependerá das estratégias de cada instituição. Nubank, Inter e PicPay apresentam estruturas de negócios, produtos financeiros e perfis de clientes diferentes, o que impede tratar suas perspectivas de inadimplência como idênticas.
Balanços de novembro vão mostrar se projeções do Citi se confirmam
A divulgação dos resultados do terceiro trimestre permitirá comparar as estimativas dos analistas com os números efetivamente registrados pelas instituições. O mercado acompanhará especialmente a evolução das receitas financeiras, das despesas com provisões, das margens de crédito e dos indicadores de inadimplência.
Nubank e Inter têm divulgação dos resultados trimestrais prevista para 12 de novembro. O PicPay programou a apresentação de seu balanço para 16 de novembro, após o encerramento das negociações nos Estados Unidos.
A comparação também permitirá avaliar se a desaceleração projetada para 2027 já começou a aparecer nos indicadores operacionais ou se permanece concentrada nas premissas utilizadas pelos analistas para calcular o valor das empresas.
No caso do Nubank, a principal referência será a capacidade de manter lucros próximos ou superiores ao patamar de US$ 1 bilhão alcançado no segundo trimestre. Para o Inter, a atenção estará na evolução da margem financeira e na qualidade da carteira, enquanto o PicPay precisará demonstrar que a expansão acelerada do crédito continua acompanhada por controle adequado das perdas.
A revisão atribuída ao Citi não representa uma previsão de queda obrigatória dos lucros das três instituições. As estimativas disponíveis ainda apontam expansão anual dos resultados no terceiro trimestre de 2026. A mudança está principalmente na avaliação dos riscos futuros e no retorno que os investidores poderão exigir para manter exposição ao setor.
Os novos balanços serão decisivos para verificar se os bancos digitais conseguem sustentar a trajetória de crescimento com níveis de rentabilidade compatíveis com um ambiente de juros elevados, concessão de crédito mais seletiva e maior atenção à inadimplência.
Fontes:
Nu Holdings — comunicado oficial de resultados do segundo trimestre de 2026, divulgado em 13 de agosto, com dados de lucro, clientes e qualidade da carteira de crédito.
Inter&Co — relatório oficial de resultados do segundo trimestre de 2026, apresentado à Securities and Exchange Commission dos Estados Unidos.
Inter&Co — comunicado regulatório de 19 de outubro de 2026 sobre a descontinuidade dos BDRs INBR32 e o início da negociação de INBR34.
PicPay — comunicado oficial de resultados do segundo trimestre de 2026, divulgado em 24 de agosto, com indicadores de lucro, carteira de crédito e custo de risco.
PicPay — calendário oficial de Relações com Investidores para a divulgação dos resultados do terceiro trimestre de 2026.









