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CSN (CSNA3), Vale (VALE3) e Braskem (BRKM5) compram gás em leilão inédito com 100% de vendas

Primeiro leilão de gás natural da União vende 1,1 milhão de m³ por dia a 23 indústrias, com preço médio estimado de US$ 5,83 por MMBtu e fornecimento em 2027.

por Sandro Dias
22/10/2026 às 21h55
em Empresas
Leilão De Gás - Gazeta Mercantil

A Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), a Vale e a Braskem estão entre as 23 empresas que arremataram gás natural da União no primeiro leilão destinado diretamente à indústria brasileira, realizado nesta quinta-feira (22) pela Pré-Sal Petróleo (PPSA). O certame terminou com a venda integral dos 110 lotes oferecidos, equivalentes a 1,1 milhão de metros cúbicos diários, e estabeleceu um preço médio estimado de US$ 5,83 por milhão de unidades térmicas britânicas (MMBtu). O resultado representa uma nova alternativa de contratação para grandes consumidores industriais, historicamente pressionados pelo custo elevado do insumo energético no país.

A operação reuniu empresas dos segmentos siderúrgico, metalúrgico, de mineração, químico, petroquímico, cerâmico, vidreiro e de fertilizantes nitrogenados. Das 36 companhias habilitadas, 32 participaram efetivamente da disputa, encerrada com 23 vencedoras. A concorrência ocorreu por meio da plataforma eletrônica da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), com contratos de fornecimento previstos para o período de março a dezembro de 2027.

O resultado também superou a etapa inicial de comercialização imaginada para o novo modelo de venda do gás pertencente à União. Todos os grupos industriais absorveram integralmente os volumes reservados, dispensando a necessidade de uma rodada adicional para redistribuição de lotes não vendidos. A PPSA informou um faturamento estimado de R$ 377 milhões, calculado a partir das condições de referência do leilão e sujeito às variáveis previstas nos contratos.

Para o Ministério de Minas e Energia, a competição demonstrou que existe demanda industrial por gás natural comercializado a preços inferiores aos usualmente encontrados no mercado brasileiro. O secretário de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, Renato Dutra, apontou reduções estimadas entre 38% e 57% em comparação com a referência de aproximadamente US$ 12 por MMBtu. Esses percentuais, entretanto, não representam necessariamente a economia final de cada fábrica, pois o transporte, os tributos e outras despesas de suprimento precisam ser considerados.

CSN, Vale, Braskem e Gerdau estão entre os vencedores

A distribuição dos volumes confirma a relevância dos segmentos industriais que utilizam gás natural em processos produtivos intensivos em energia. O grupo formado por siderurgia, metalurgia e mineração arrematou 320 mil metros cúbicos por dia, distribuídos em 32 lotes. Entre as vencedoras estão CSN, Gerdau Aços Longos, Samarco Mineração, Ternium Brasil e Vale.

O setor químico e petroquímico concentrou a maior parcela individual do leilão, com 350 mil metros cúbicos diários. Braskem, Rhodia Brasil, Evonik Brasil, Ingredion Brasil Ingredientes Industriais e Peróxidos do Brasil participaram da aquisição dos 35 lotes reservados ao segmento. A quantidade corresponde a aproximadamente 31,8% de todo o gás comercializado, evidenciando a importância do combustível tanto como fonte energética quanto como insumo para determinadas cadeias químicas.

Somados, os grupos químico, petroquímico, siderúrgico, metalúrgico e de mineração contrataram 670 mil metros cúbicos por dia. Esse volume representa aproximadamente 60,9% da oferta total, resultado que coloca essas atividades no centro da nova estratégia de comercialização. A concentração reflete a divisão previamente definida para o certame, e não permite concluir, isoladamente, que esses setores tenham apresentado maior demanda proporcional do que os demais.

Na indústria cerâmica, oito empresas dividiram os 200 mil metros cúbicos diários disponíveis. Entre as participantes vencedoras estão Biancogres, Formigres, Villagres, Delta, Dexco, Incepa, Mohawk Revestimentos e Ruy R. da Rocha Produtos Cerâmicos. O segmento reuniu o maior número de empresas contempladas em uma única etapa, embora seu volume tenha sido inferior ao destinado à siderurgia e à indústria química.

O setor vidreiro ficou com 100 mil metros cúbicos por dia, adquiridos por AGC Vidros do Brasil, Cebrace Cristal Plano e Wheaton Brasil Vidros. Na produção de fertilizantes nitrogenados, Yara Brasil e Multitécnica Industrial venceram a disputa pelos 130 mil metros cúbicos diários reservados ao segmento. A presença de fabricantes de fertilizantes também amplia a relevância da iniciativa para cadeias produtivas ligadas ao agronegócio, nas quais o gás natural desempenha papel importante como matéria-prima.

Preço médio de US$ 5,83 pode reduzir custos industriais

Um dos principais resultados econômicos do leilão foi a formação de um preço médio estimado de US$ 5,83 por MMBtu para a molécula de gás natural. A PPSA informou que o prêmio médio apurado nas ofertas ficou em US$ 2,44 por MMBtu, aproximadamente 35% acima da referência inicial de US$ 1,80 estabelecida para a disputa. O valor final estimado incorpora esse prêmio à fórmula de precificação vinculada ao mercado internacional.

O modelo contratual considera 115% da média das cotações diárias do Henry Hub, índice de referência do gás natural nos Estados Unidos, além do prêmio definido competitivamente. Para estimar o resultado, a PPSA utilizou um Henry Hub de US$ 2,9535 por MMBtu e taxa de câmbio de R$ 5,1447 por dólar. O preço efetivamente devido durante o fornecimento dependerá da atualização dos parâmetros previstos no contrato, razão pela qual o valor divulgado não constitui uma tarifa fixa para todo o período de entrega.

As disputas apresentaram diferenças relevantes entre os segmentos. No setor vidreiro, o prêmio corrente de encerramento alcançou US$ 4 por MMBtu, enquanto a indústria cerâmica terminou em US$ 1,86. Siderurgia, metalurgia e mineração registraram US$ 2,30; química e petroquímica, US$ 1,92; e fertilizantes nitrogenados, US$ 1,82. Esses números correspondem aos valores competitivos registrados nas etapas do leilão e não devem ser confundidos com o custo integral do gás entregue nas unidades industriais.

A diferença entre o prêmio apresentado em cada disputa e o preço final da molécula é fundamental para avaliar o efeito econômico da contratação. Considerando exclusivamente a média estimada de US$ 5,83 e a referência de US$ 12 por MMBtu utilizada na comparação oficial, a redução aritmética seria de aproximadamente 51,4%. Trata-se de um indicador de competitividade da molécula, não de uma estimativa automática de redução equivalente nas despesas energéticas totais das companhias.

Para empresas intensivas em gás natural, a redução do preço de aquisição pode representar uma oportunidade de aliviar custos operacionais. A magnitude desse benefício, entretanto, dependerá do volume contratado individualmente, da participação do combustível nos custos de produção e das condições logísticas necessárias ao abastecimento. O leilão não divulgou uma estimativa consolidada de ganhos de margem para CSN, Vale, Braskem ou qualquer outra companhia vencedora.

Transporte entre Itaboraí e as fábricas será responsabilidade das empresas

Embora a oferta seja realizada diretamente pela PPSA, a entrega do gás ocorrerá na saída da Unidade de Tratamento de Gás de Itaboraí, pertencente à Petrobras e localizada no Complexo de Energias Boaventura, antigo Comperj, no estado do Rio de Janeiro. A partir desse ponto, os compradores precisarão providenciar a contratação do transporte até suas instalações industriais. Essa etapa poderá ser realizada diretamente ou por intermédio de comercializadoras habilitadas pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

A exigência significa que duas empresas vencedoras de lotes com condições semelhantes podem enfrentar custos finais diferentes de abastecimento. A distância entre o ponto de entrega e a fábrica, a disponibilidade de capacidade nos gasodutos e as tarifas aplicáveis ao serviço de transporte influenciam o custo efetivo da operação. Dependendo da estrutura contratual, ainda poderão existir despesas adicionais relacionadas à distribuição e à tributação.

O ponto logístico merece atenção especial porque o leilão foi estruturado para comercializar gás processado, e não para entregar o combustível diretamente nas instalações dos compradores. A PPSA comercializa a parcela de gás natural pertencente à União, enquanto a infraestrutura de processamento e os serviços de transporte possuem funções próprias na cadeia de suprimento. A viabilidade econômica de cada contratação dependerá da combinação desses componentes.

O fornecimento ocorrerá durante dez meses, de março a dezembro de 2027. Considerando os 306 dias desse intervalo e a quantidade diária total ofertada, o volume nominal correspondente alcança aproximadamente 336,6 milhões de metros cúbicos ao longo do período. Essa projeção representa a multiplicação da capacidade diária pelo calendário contratual, não um registro de gás já entregue ou de consumo efetivamente realizado.

A execução também dependerá da conclusão dos procedimentos documentais e da assinatura dos contratos, prevista pela PPSA para a primeira quinzena de dezembro. Até essa formalização, o resultado eletrônico identifica as ofertas vencedoras, mas não equivale à comprovação de fornecimento já iniciado. As condições comerciais serão aplicadas no período contratual definido para 2027.

Venda direta do gás da União amplia alternativas ao mercado industrial

A realização do leilão marca uma mudança na comercialização da parcela de gás natural pertencente ao governo federal nos contratos de partilha da produção do pré-sal. A PPSA, responsável pela gestão dos interesses da União nesses contratos, passou a oferecer diretamente o produto a consumidores industriais habilitados, mediante uma disputa competitiva. O modelo foi estruturado a partir das diretrizes aprovadas pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) e regulamentadas pelo Ministério de Minas e Energia.

A iniciativa foi viabilizada por um acordo firmado entre a PPSA e a Petrobras em setembro, que estabeleceu mecanismos para a comercialização do gás natural da União. A estrutura permite que o produto processado seja ofertado em condições contratuais destinadas a ampliar o acesso de consumidores industriais. O objetivo da política pública é criar alternativas de suprimento e contribuir para a competição em um mercado no qual o custo do gás tem influência relevante sobre diferentes atividades produtivas.

Antes da publicação do edital definitivo, a PPSA realizou uma consulta ao mercado que recebeu 320 contribuições de 22 agentes. As manifestações levaram a alterações destinadas a oferecer maior flexibilidade ao processo de habilitação e às modalidades de contratação. O edital final foi publicado em 6 de outubro, com lotes fracionados em volumes de 10 mil metros cúbicos diários para permitir a participação de empresas com diferentes necessidades de consumo.

A procura registrada nesta quinta-feira oferece uma primeira referência pública sobre o interesse de grandes consumidores industriais nesse mecanismo de aquisição. Das 36 empresas habilitadas, 23 obtiveram lotes, equivalentes a aproximadamente 63,9% das proponentes previamente qualificadas. A participação de 32 companhias na disputa demonstra que o interesse pelo certame foi superior ao número final de vencedoras, embora a oferta disponível tenha sido integralmente absorvida.

O resultado também permite identificar diferenças entre a disposição de pagamento dos setores. O prêmio mais elevado no segmento vidreiro e os valores menores registrados em outras atividades revelam condições competitivas distintas dentro de uma mesma política de comercialização. Esses números oferecem referências para futuras disputas, mas não permitem estabelecer conclusões definitivas sobre a rentabilidade das empresas participantes.

PPSA prepara novo leilão em 2027 com oferta 64% maior

O desempenho do primeiro certame levou a PPSA a anunciar a intenção de realizar um novo leilão de gás natural da União em 2027. Segundo o diretor-presidente da estatal, Luis Fernando Paroli, a próxima oferta deverá alcançar 1,8 milhão de metros cúbicos por dia. O volume projetado representa um acréscimo de 700 mil metros cúbicos diários em relação ao leilão realizado nesta quinta-feira, equivalente a uma expansão de aproximadamente 63,6%.

A ampliação prevista sugere que a comercialização direta poderá se tornar um mecanismo recorrente de contratação para determinados segmentos industriais. A definição das condições do próximo certame, contudo, dependerá das disponibilidades de gás, das regras aplicáveis e da estrutura comercial estabelecida pela PPSA. A projeção de oferta não representa, por enquanto, volumes já contratados para o novo leilão.

Paroli avaliou que a absorção integral da oferta evidencia a existência de demanda industrial por gás natural a preços mais competitivos. Para o dirigente, a disputa também mostrou diferenças na capacidade de pagamento entre os segmentos atendidos, informação que poderá contribuir para o planejamento das próximas operações. A avaliação está alinhada ao objetivo do governo federal de utilizar a comercialização do gás pertencente à União como instrumento de estímulo à competitividade produtiva.

O efeito econômico concreto para as empresas participantes começará a ser observado durante a execução dos contratos em 2027. Além da evolução das cotações internacionais e do câmbio, serão determinantes a contratação da logística de transporte, o consumo efetivo das unidades industriais e a comparação com os acordos de fornecimento anteriormente mantidos por cada companhia.

Para CSN, Vale, Braskem e os demais compradores, o leilão representa a aquisição de uma alternativa de suprimento de gás natural em condições competitivas. A confirmação dos benefícios financeiros dependerá da efetiva entrega do combustível e de sua incorporação aos custos de produção. O próximo marco do processo será a formalização contratual prevista para dezembro, antes do início do abastecimento programado para março de 2027.

Fontes:

Pré-Sal Petróleo (PPSA) — Comunicado oficial de resultados do primeiro Leilão de Gás Natural da União, de 22 de outubro de 2026.

Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) — Painel público de acompanhamento do leilão, com volumes, prêmios e empresas vencedoras por segmento.

Pré-Sal Petróleo (PPSA) — Edital do primeiro Leilão de Gás Natural da União e documentação sobre as condições de contratação.

Ministério de Minas e Energia — Portaria Normativa nº 141/2026, com regras para a comercialização do gás natural processado da União.

Pré-Sal Petróleo (PPSA) — Comunicado institucional de setembro de 2026 sobre o acordo de comercialização firmado com a Petrobras.

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