A Enjoei (ENJU3) aprovou nesta terça-feira, 8 de setembro, o grupamento de todas as suas ações na proporção de dez para uma, movimento que deverá retirar os papéis da companhia da faixa de centavos e encerrar uma longa sequência de notificações da B3 relacionadas à cotação inferior a R$ 1.
A decisão foi tomada em Assembleia Geral Extraordinária e reduzirá o número de ações que representam o capital social da empresa de 205.017.990 para 20.501.799. Na prática, um investidor que hoje possua dez ações da Enjoei passará a ter uma depois da conclusão da operação. Quem tiver mil papéis ficará com cem. O preço unitário, por sua vez, será ajustado proporcionalmente, de modo que o patrimônio do acionista não seja alterado apenas em razão do grupamento.
A operação ocorre em um momento delicado da trajetória da plataforma de comércio eletrônico na Bolsa. ENJU3 voltou a ser negociada abaixo de R$ 1 neste ano e permaneceu nessa faixa durante boa parte dos últimos meses. Nesta terça-feira, antes da implementação do grupamento, a ação era negociada por cerca de R$ 0,79.
Esse preço contrasta fortemente com os R$ 10,25 cobrados por ação no IPO realizado em novembro de 2020. Embora a comparação entre preços ao longo de vários anos deva considerar as mudanças ocorridas na companhia e no mercado, a distância mostra a dimensão da perda de valor enfrentada pelo papel desde a abertura de capital.
O grupamento resolve formalmente a questão do preço unitário, mas não altera os fundamentos econômicos da empresa. Essa distinção será central para os investidores: transformar dez ações de aproximadamente R$ 0,80 em uma ação próxima de R$ 8 não cria valor novo. A recuperação sustentável da cotação dependerá da capacidade da Enjoei de melhorar seus resultados, gerar caixa e convencer o mercado de que seu negócio pode produzir retornos mais consistentes.
Por que a Enjoei precisa fazer o grupamento
A origem da operação está nas regras da B3 para as chamadas penny stocks, ações negociadas abaixo de R$ 1. A Bolsa procura evitar que papéis permaneçam durante perÃodos prolongados em valores muito baixos porque pequenas variações em centavos passam a representar oscilações percentuais muito grandes.
Uma ação que sobe de R$ 0,50 para R$ 0,51, por exemplo, registra valorização de 2% com apenas um centavo de diferença. A mesma oscilação nominal em um papel de R$ 10 corresponderia a apenas 0,1%. Esse efeito pode aumentar a volatilidade e dificultar a formação adequada de preços.
As regras da B3 preveem o acompanhamento de ações que ficam abaixo de R$ 1 durante 30 pregões consecutivos. Quando isso ocorre, a companhia pode ser obrigada a apresentar medidas para restabelecer uma cotação compatÃvel com as normas do mercado.
Para a Enjoei, o problema não começou agora. Em outubro de 2025, a companhia comunicou ao mercado que havia recebido um ofÃcio da B3 depois de suas ações permanecerem abaixo de R$ 1 desde agosto daquele ano. Na ocasião, a Bolsa estabeleceu prazo para que a empresa apresentasse providências destinadas ao reenquadramento.
A companhia já admitia naquela época a possibilidade de levar um grupamento de ações à votação dos acionistas caso o papel não conseguisse permanecer consistentemente acima de R$ 1.
O cenário melhorou temporariamente. ENJU3 voltou a superar esse patamar em dezembro de 2025 e permaneceu acima dele durante algum tempo. Em março deste ano, a B3 aceitou suspender o prazo de reenquadramento justamente porque a cotação havia se recuperado.
A trégua não durou.
Em junho, os papéis voltaram para menos de R$ 1, e a contagem para adoção de novas medidas foi retomada. Em julho, a Enjoei voltou a informar que poderia convocar uma assembleia para discutir o grupamento. Agora, com a aprovação pelos acionistas, a alternativa que vinha sendo preparada há meses tornou-se efetivamente a solução escolhida.
O que acontece com quem possui ENJU3
A principal preocupação de pequenos investidores diante de um grupamento costuma ser a impressão de que parte das ações será perdida. Não é isso que acontece.
Se um acionista possui 1.000 ações negociadas, hipoteticamente, a R$ 0,80 antes de um grupamento de dez para um, sua posição vale R$ 800. Depois da operação, ele passaria a possuir 100 ações com preço teórico inicial próximo de R$ 8. A posição continuaria valendo os mesmos R$ 800, desconsideradas as oscilações de mercado.
O mesmo raciocÃnio vale para o valor da companhia. O grupamento reduz o número de papéis em circulação, mas não aumenta o capital social e não acrescenta dinheiro ao caixa.
A Enjoei informou que seu capital, atualmente dividido em 205.017.990 ações ordinárias, passará a ser representado por 20.501.799 ações. O limite do capital autorizado também será ajustado na mesma proporção, caindo de 235.533.382 para 23.553.338 ações ordinárias.
A questão exige mais atenção quando o investidor possui uma quantidade de papéis que não é múltipla de dez. Quem tiver 103 ações, por exemplo, não poderia simplesmente receber 10,3 ações depois da operação, porque a negociação ordinária precisa tratar as frações segundo procedimentos especÃficos.
Por isso, antes da implementação, deverá existir um perÃodo no qual os acionistas poderão ajustar suas posições. As frações remanescentes de grupamentos normalmente são reunidas pela companhia e posteriormente negociadas em Bolsa, com os valores correspondentes distribuÃdos proporcionalmente aos titulares.
A B3 estabelece procedimentos justamente para evitar que pequenos investidores sejam indevidamente eliminados do quadro acionário por causa de um grupamento.
Preço maior não significa que a ação ficou mais cara
Outro ponto que costuma gerar confusão é a mudança visual da cotação.
Supondo que ENJU3 estivesse a R$ 0,80 imediatamente antes do grupamento, o preço teórico depois de dez ações serem transformadas em uma seria de aproximadamente R$ 8. Isso não significaria uma valorização de 900%.
O investidor teria apenas uma quantidade dez vezes menor de ações, cada uma valendo teoricamente dez vezes mais.
A partir da primeira negociação já considerando a nova quantidade de papéis, entretanto, o mercado volta a determinar o preço. A ação poderá subir ou cair normalmente de acordo com expectativas sobre os resultados, fluxo de investidores, cenário macroeconômico e notÃcias relacionadas à companhia.
O grupamento também não apaga as perdas acumuladas anteriormente pelo acionista. Quem comprou o papel a valores muito mais altos continuará carregando a diferença entre seu preço médio de aquisição e a cotação ajustada depois da operação.
Enjoei chegou à Bolsa avaliada em cerca de R$ 2 bilhões
A situação atual é particularmente simbólica quando comparada à entrada da empresa no mercado de capitais.
A Enjoei realizou seu IPO em novembro de 2020, durante uma onda de ofertas públicas que levou dezenas de empresas brasileiras à Bolsa. Criada em 2009 como um brechó virtual, a companhia chegou ao mercado apresentando uma tese ligada ao crescimento do comércio eletrônico, à economia circular e à compra e venda de produtos usados.
Na oferta, cada ação foi precificada em R$ 10,25, no piso da faixa indicativa estabelecida para o IPO. A operação movimentou mais de R$ 1 bilhão e colocou a empresa na Bolsa com avaliação próxima de R$ 2 bilhões.
Mesmo naquele momento, o mercado deu os primeiros sinais de cautela. ENJU3 fechou seu pregão de estreia abaixo do preço da oferta.
Nos anos seguintes, a ação perdeu grande parte do valor. Com os papéis atualmente abaixo de R$ 1, a cotação está mais de 90% distante do preço utilizado no IPO.
O desempenho reflete uma combinação de fatores, entre eles mudanças na avaliação das empresas de tecnologia depois do perÃodo de juros extremamente baixos, dificuldades de geração consistente de lucro e decisões tomadas durante a estratégia de expansão da companhia.
PrejuÃzo de R$ 47,6 milhões aumenta desafio
O grupamento acontece poucas semanas depois de a Enjoei divulgar um segundo trimestre marcado por crescimento de receita, mas também por um prejuÃzo relevante.
A receita lÃquida avançou 24% em relação ao mesmo perÃodo do ano anterior e chegou a R$ 60,8 milhões. O resultado operacional medido pelo Ebitda ajustado permaneceu positivo em R$ 1,56 milhão, embora tenha recuado fortemente na comparação anual.
Na última linha do balanço, entretanto, a companhia registrou prejuÃzo lÃquido de R$ 47,6 milhões, ante resultado negativo próximo de R$ 8 milhões um ano antes.
Parte importante dessa deterioração esteve relacionada a itens não recorrentes, incluindo impactos decorrentes da decisão de encerrar as operações da Elo7 e custos ligados à regularização de uma controvérsia tributária envolvendo ISS.
A Elo7 havia sido adquirida pela Enjoei em 2023 em uma tentativa de ampliar o ecossistema da companhia para além do marketplace de itens usados. Em maio deste ano, o Conselho de Administração decidiu descontinuar as operações da plataforma após avaliar diferentes cenários para o negócio.
Esse processo mostra que, enquanto resolve a questão técnica relacionada ao preço das ações na B3, a Enjoei também atravessa uma fase de reorganização operacional.
Grupamento resolve regra da B3, não o desempenho da empresa
Para o mercado, essa é a diferença fundamental entre o efeito imediato e o efeito econômico da decisão tomada nesta terça-feira.
O agrupamento de dez para um deve elevar mecanicamente a cotação unitária e criar uma margem confortável em relação ao piso de R$ 1 exigido pela B3. Se um papel de R$ 0,80 passa teoricamente para R$ 8, seria necessária uma queda adicional muito significativa para que a companhia voltasse rapidamente à situação de penny stock.
A medida também tende a reduzir distorções provocadas pelas oscilações mÃnimas de um centavo e pode melhorar algumas caracterÃsticas de negociação do papel. As próprias orientações da B3 citam a redução da volatilidade excessiva como uma das razões para a realização desse tipo de operação.
Nada disso, porém, altera receitas, despesas, caixa, dÃvida ou lucratividade da empresa.
É justamente por isso que grupamentos são frequentemente acompanhados com cautela pelos investidores. Eles podem resolver uma exigência de listagem, mas não substituem uma recuperação operacional.
No caso da Enjoei, os próximos balanços serão mais importantes para determinar a trajetória de longo prazo da ação do que o novo preço nominal que aparecerá na tela das corretoras.
A empresa precisará demonstrar que o crescimento das receitas pode ser convertido em melhora consistente de margens e resultados depois da reorganização de seu portfólio. O encerramento da Elo7 e a simplificação da estrutura podem ajudar nesse processo, mas os efeitos ainda precisarão aparecer nos números.
Uma ação de R$ 8 continuará representando a mesma empresa
Para o acionista, portanto, a leitura do grupamento deve separar preço de valor.
Uma ação que aparece na tela por R$ 8 depois de um grupamento não necessariamente vale mais do que dez ações de R$ 0,80 antes dele. Economicamente, no instante da conversão, são duas representações da mesma participação societária.
O que muda é a unidade utilizada pelo mercado.
A partir daÃ, a capacidade da Enjoei de recuperar valor dependerá novamente de fatores que nenhuma alteração matemática na quantidade de ações consegue modificar: crescimento, rentabilidade, geração de caixa, execução da estratégia e confiança dos investidores.
A assembleia desta terça-feira resolve um problema regulatório que acompanha ENJU3 há meses. O desafio seguinte é mais complexo: fazer com que o preço mais alto produzido pelo grupamento seja sustentado por uma empresa também mais valiosa.
Fontes: Enjoei S.A.; B3; Comissão de Valores Mobiliários; documentos de Relações com Investidores da Enjoei; demonstrações financeiras da companhia; prospecto do IPO.








