O mercado brasileiro de fundos negociados em bolsa atingiu 929 mil investidores em agosto, alta de 39% em 12 meses, segundo dados divulgados pela B3. O avanço levou a indústria de ETFs para perto da marca de 1 milhão de participantes ao mesmo tempo em que o patrimônio total chegou a R$ 142 bilhões e a quantidade de produtos emitidos localmente alcançou 219.
Os números foram apresentados em 16 de setembro, durante o ETF Day, realizado na B3 Week 2026, em São Paulo. A expansão ocorre em várias frentes: além dos ETFs listados no mercado brasileiro, a B3 já disponibiliza 312 BDRs de ETFs, instrumentos que permitem ao investidor acessar fundos negociados no exterior por meio do mercado local.
A combinação dos dados mostra que o crescimento do segmento não se limita à entrada de novos investidores. A oferta de produtos também aumentou de forma significativa e passou a abranger classes de ativos e estratégias que vão além dos tradicionais fundos voltados à replicação de Ãndices de ações.
Pela variação de 39% informada pela B3, a base de investidores era de aproximadamente 668 mil pessoas um ano antes. Isso significa um acréscimo estimado de cerca de 261 mil participantes em 12 meses. O cálculo considera a base de agosto de 2026 e a taxa de crescimento divulgada pela bolsa.
Patrimônio cresce e oferta de ETFs se diversifica
O patrimônio de R$ 142 bilhões registrado em agosto também representa uma mudança de escala para a indústria. Em fevereiro, a B3 havia informado estoque de R$ 107 bilhões em ETFs. A comparação entre os dois pontos indica aumento nominal de aproximadamente R$ 35 bilhões, ou 32,7%, em seis meses. As datas e as métricas não permitem atribuir toda a diferença exclusivamente a captação lÃquida, porque a evolução do patrimônio também incorpora a valorização ou desvalorização dos ativos que compõem as carteiras.
O crescimento da oferta foi ainda mais acelerado em termos proporcionais. Os 219 ETFs emitidos localmente representam expansão de 55% em um ano. Pela taxa divulgada pela B3, havia aproximadamente 141 produtos locais no perÃodo de comparação. O aumento estimado é de cerca de 78 ETFs em 12 meses.
A oferta disponÃvel ao investidor brasileiro é maior quando são considerados os BDRs de ETFs. Os 312 produtos globais mencionados pela B3 são recibos negociados no mercado brasileiro que têm como referência ETFs estrangeiros. Na prática, essa estrutura permite obter exposição a mercados e estratégias internacionais sem que o investidor precise realizar diretamente a operação em uma bolsa estrangeira.
A própria definição regulatória ajuda a explicar a caracterÃstica dos ETFs. Segundo a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), esses fundos são estruturados para investir em uma carteira que busca replicar um Ãndice de referência, que pode ser de ações ou de renda fixa. Ao adquirir uma cota, o investidor passa a ter exposição indireta aos ativos que compõem o Ãndice, respeitada a participação de cada componente na carteira de referência.
Renda fixa, criptoativos e mercados internacionais ampliam o cardápio
A expansão do segmento ocorreu também pela diversificação dos ativos utilizados como referência. A B3 informou que sua plataforma reúne mais de 40 ETFs relacionados a criptoativos. A renda fixa ganhou espaço entre as alternativas disponÃveis, enquanto os produtos ligados a mercados internacionais ampliaram o acesso a ativos estrangeiros.
Esse movimento modifica a composição histórica da indústria. O primeiro ETF brasileiro começou a ser negociado em 2004, com o PIBB11, em uma iniciativa que envolveu o BNDES. Naquele momento, a principal lógica do produto estava associada à reprodução de uma carteira de ações. Mais de duas décadas depois, a categoria reúne produtos relacionados a ações, tÃtulos de renda fixa, commodities, ativos digitais, mercados estrangeiros e estratégias temáticas.
A diversificação da oferta ocorre em um mercado de capitais que também ampliou sua base de investidores em outras modalidades. Dados divulgados pela B3 em agosto mostram que a renda variável brasileira alcançou 5,6 milhões de investidores no segundo trimestre de 2026, alta de 4% em relação ao encerramento de 2025. O número de pessoas que realizaram pelo menos uma operação mensal no mercado de ações chegou a aproximadamente 1,7 milhão, crescimento de 6% em 12 meses.
Os ETFs, portanto, continuam representando apenas uma parcela do universo de investidores de renda variável. A base de 929 mil participantes corresponde a cerca de 16,6% dos 5,6 milhões de investidores de renda variável informados pela B3 para o segundo trimestre, embora os perÃodos de referência sejam diferentes e as bases não sejam necessariamente excludentes.
Essa ressalva é importante porque um mesmo investidor pode possuir diferentes classes de ativos. O número de investidores de ETFs não deve ser interpretado como quantidade de pessoas que ingressaram individualmente no mercado de capitais ou como uma parcela exclusiva da população investidora.
Regulamentação pode abrir espaço para ETFs de gestão ativa
Outra frente em desenvolvimento é a possibilidade de expansão dos ETFs de gestão ativa. O modelo tradicional está associado à busca de replicação de um Ãndice ou de uma estratégia previamente definida. Na gestão ativa, o gestor passa a ter maior discricionariedade para selecionar e ajustar os ativos da carteira com o objetivo de superar ou perseguir uma referência de mercado.
A mudança está prevista na agenda regulatória da CVM para 2026, que inclui o ETF de gestão ativa entre os projetos relacionados ao Anexo Normativo V da Resolução CVM 175. A autarquia também registra que o processo de reforma do anexo está em andamento.
O marco regulatório atual dos ETFs está inserido na Resolução CVM 175. O Anexo Normativo V trata especificamente dos fundos de investimento em Ãndice de mercado. A norma consolidou as regras dos fundos de investimento e passou a concentrar em uma estrutura única diferentes categorias anteriormente disciplinadas por normas separadas.
Em maio de 2026, uma ata do Colegiado da CVM registrou que os ETFs brasileiros eram, sob a regulamentação então vigente, fundos passivos destinados à replicação de um Ãndice de referência. O documento também registrou o processo regulatório em andamento para incorporar os ETFs ativos ao mercado brasileiro.
A eventual ampliação dessa categoria poderá alterar novamente o perfil da indústria, ao permitir que a negociação em bolsa seja combinada com estratégias em que o gestor tenha maior liberdade para tomar decisões de alocação. A mudança, entretanto, depende da evolução do processo normativo da CVM e não deve ser tratada como uma autorização já plenamente implementada para todos os produtos de gestão ativa.
Mercado ainda busca ampliar conexão com ativos estrangeiros
A internacionalização também aparece entre as frentes de desenvolvimento da B3. Os 312 BDRs de ETFs já disponÃveis ampliam o universo de produtos acessÃveis no mercado brasileiro, enquanto a bolsa trabalha no chamado ETF Connect entre Brasil e China, iniciativa voltada à conexão de produtos dos dois mercados.
A expansão internacional ocorre em paralelo ao crescimento dos ETFs domésticos. O investidor pode, por meio de produtos listados no Brasil, obter exposição a diferentes mercados e classes de ativos sem necessariamente estabelecer uma estrutura operacional diretamente no exterior.
Esse desenho ajuda a explicar por que a contagem de produtos disponÃveis supera com folga o número de ETFs emitidos localmente. Somados os 219 ETFs locais e os 312 BDRs de ETFs globais informados pela B3, o mercado reúne 531 produtos nessas duas categorias. O número não representa 531 ETFs brasileiros, já que os BDRs são recibos de valores mobiliários estrangeiros.
A distinção também é relevante para avaliar o crescimento da oferta. O avanço de 55% informado pela B3 refere-se aos ETFs locais, enquanto os 312 BDRs de ETFs correspondem a uma categoria distinta de instrumentos negociados no mercado brasileiro.
Crescimento muda escala do segmento, mas não elimina diferenças
A evolução desde fevereiro fornece uma medida adicional da velocidade de expansão. Naquele mês, a B3 registrava 187 ETFs e R$ 107 bilhões em estoque, além de 774 mil investidores. Em agosto, a indústria havia chegado a 219 ETFs locais, R$ 142 bilhões em patrimônio e 929 mil investidores.
Entre fevereiro e agosto, portanto, a base de investidores aumentou em 155 mil pessoas, ou aproximadamente 20%. O número de ETFs locais avançou 32 produtos, equivalente a 17,1%, enquanto o patrimônio cresceu cerca de 32,7%. Como os perÃodos de referência e as metodologias de cada indicador devem ser observados, essas variações servem como comparação de escala, e não como medida de rentabilidade ou captação lÃquida.
Outro indicador da ampliação do mercado é a captação da indústria de ETFs registrada em 2025. A B3 informou que os produtos alcançaram captação lÃquida de R$ 23,2 bilhões naquele ano, o maior valor da série histórica iniciada em 2004, segundo levantamento citado pela própria bolsa.
A expansão acontece, portanto, em três dimensões simultâneas: mais investidores, maior patrimônio e maior diversidade de produtos. A próxima etapa depende, entre outros fatores, da evolução das regras para ETFs de gestão ativa e da ampliação das conexões internacionais.
Com 929 mil participantes em agosto, faltavam cerca de 71 mil investidores para que a base alcançasse 1 milhão, considerando apenas a diferença aritmética em relação à marca de referência. A trajetória até essa faixa, porém, dependerá da evolução efetiva do número de contas e investidores nos meses seguintes, sem que a taxa anual de crescimento possa ser automaticamente projetada para o futuro.
Fontes:
B3 – dados de agosto de 2026 sobre investidores, patrimônio, ETFs locais e BDRs de ETFs
B3 – informações do ETF Day realizado durante a B3 Week 2026
B3 – dados de fevereiro de 2026 sobre patrimônio, número de ETFs e investidores
Comissão de Valores Mobiliários – Resolução CVM 175 e Anexo Normativo V sobre fundos de Ãndice
Comissão de Valores Mobiliários – Agenda Regulatória 2026 e informações sobre ETFs de gestão ativa








