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EUA propõem tarifa contra Brasil por suposta falha no combate ao trabalho forçado

Medida pode chegar a 12,5%, inclui outros 58 países e a União Europeia, e será discutida em consulta pública antes de decisão final.

por Álvaro Lima
03/06/2026 às 09h12
em Economia
Eua Propõem Tarifa Contra Brasil Por Suposta Falha No Combate Ao Trabalho Forçado - Gazeta Mercantil - Economia

O governo dos Estados Unidos propôs uma nova tarifa contra o Brasil, de até 12,5%, sob a alegação de suposta falha no combate ao trabalho forçado em cadeias comerciais. A investigação, conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, inclui outros 58 países e a União Europeia e foi aberta no âmbito da Seção 301 da Lei de Comércio americana. A medida surge na esteira de outra apuração que já havia sugerido sobretaxa de 25% contra produtos brasileiros, ampliando a pressão comercial de Washington sobre o país.

A proposta ainda passará por consulta pública antes de eventual aplicação. O governo americano receberá manifestações por escrito de representantes do setor privado até 6 de julho e prevê a realização de audiências públicas em 7 de julho para discutir objeções tarifárias apresentadas por empresas e entidades afetadas.

Leia também: Trump eleva tarifa sobre carros da União Europeia para 25% e amplia tensão comercial com Europa

Segundo a avaliação americana, a circulação de mercadorias produzidas com trabalho forçado criaria concorrência desleal contra empresas e trabalhadores dos Estados Unidos. O relatório afirma que o Brasil não teria mecanismos legais e efetivos suficientes para impedir a entrada e circulação interna de bens produzidos nessas condições.

Brasil entra na faixa mais alta de tributação

A proposta dos Estados Unidos prevê duas faixas de tarifa. A menor, de 10%, seria aplicada a mercados que possuem alguma proibição parcial ou acordos comerciais recíprocos. Nesse grupo estão Canadá, Equador, União Europeia, Indonésia, México e Paquistão.

O Brasil foi incluído na faixa mais alta, de até 12,5%, ao lado de parceiros comerciais relevantes dos Estados Unidos, como China, Índia, Japão, Coreia do Sul e Reino Unido.

A inclusão brasileira nesse grupo eleva a sensibilidade política e econômica do caso. A nova tarifa, se confirmada, poderá afetar setores exportadores e ampliar incertezas em um momento em que o comércio bilateral já enfrenta tensão por outras investigações conduzidas por Washington.

O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos sustenta que essas economias não apresentariam regimes suficientemente eficazes para controlar o trabalho forçado em suas cadeias comerciais.

Seção 301 volta a ser usada contra parceiros comerciais

A investigação tem como base a Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos, instrumento que permite ao governo americano apurar práticas consideradas injustas, discriminatórias ou restritivas ao comércio do país.

A mesma base legal já havia sido usada em outras disputas comerciais relevantes. No caso atual, Washington argumenta que falhas no combate ao trabalho forçado permitiriam a entrada de produtos a custos artificialmente baixos no comércio internacional.

O representante comercial americano, Jamieson Greer, afirmou que a circulação global de mercadorias produzidas nessas condições gera concorrência desleal com empresas locais. A justificativa oficial é enfraquecer o financiamento global do trabalho escravo moderno e proteger trabalhadores americanos.

Para o Brasil, a utilização da Seção 301 aumenta o risco de uma disputa comercial mais ampla. O instrumento permite medidas unilaterais e pode levar à imposição de tarifas mesmo sem decisão prévia de organismos multilaterais.

Governo brasileiro contesta conclusão americana

O governo brasileiro contestou a abertura do processo e afirmou que eventuais sanções unilaterais seriam desproporcionais e injustas. A posição brasileira sustenta que o país é referência global no combate ao trabalho escravo contemporâneo.

A reação busca preservar a imagem institucional do Brasil em um tema sensível. O país mantém sistemas de fiscalização trabalhista, cadastro de empregadores flagrados em condições análogas à escravidão e operações conduzidas por órgãos públicos para repressão desse tipo de prática.

Ainda assim, o relatório americano afirma que o Brasil teria falhado em impor e fiscalizar uma proibição efetiva contra a importação de bens produzidos com trabalho forçado. A divergência deverá ser um dos pontos centrais da consulta pública.

A etapa de manifestações permitirá que governo, empresas, associações setoriais e especialistas apresentem argumentos técnicos contra a aplicação da tarifa ou contra a inclusão de determinados produtos e países na medida.

Carne congelada aparece no centro da preocupação

A investigação americana cita a carne congelada brasileira como um dos principais pontos de preocupação na discussão sobre trabalho forçado. O setor é relevante para as exportações brasileiras e tem peso nas relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos.

Uma eventual tarifa sobre produtos ligados ao agronegócio poderia ter impacto sobre frigoríficos, cadeias de proteína animal, exportadores e empresas de logística. Também poderia influenciar negociações diplomáticas e comerciais em um momento de maior tensão entre os dois países.

O alcance final da medida, no entanto, dependerá da redação definitiva da decisão americana. A consulta pública poderá definir setores, alíquotas, exceções, prazos e procedimentos de aplicação.

Para empresas brasileiras, o risco imediato é de aumento de custo de acesso ao mercado americano. Tarifas adicionais reduzem competitividade, pressionam margens e podem deslocar compradores para fornecedores de outros países.

Nova tarifa amplia tensão comercial entre Brasil e EUA

A proposta surge em um contexto de deterioração da relação comercial entre Brasil e Estados Unidos. A investigação sobre trabalho forçado foi aberta semanas após a Suprema Corte americana derrubar sobretaxas aplicadas de forma mais ampla pelo governo dos Estados Unidos.

Além disso, a nova medida aparece na sequência de outra apuração que propôs tarifa de 25% contra o mercado brasileiro. A sobreposição de processos amplia a percepção de risco para exportadores e para setores com exposição relevante aos Estados Unidos.

O impacto potencial não se limita ao valor da tarifa. Investigações desse tipo aumentam incertezas regulatórias, exigem resposta técnica de empresas e governos e podem afetar decisões de investimento, contratos de fornecimento e planejamento de exportações.

Para o mercado, o tema também pode influenciar câmbio, ações de companhias exportadoras e expectativas sobre o desempenho da balança comercial. Setores diretamente citados ou com maior exposição ao mercado americano tendem a ser os mais acompanhados.

Consulta pública será etapa decisiva

A proposta de tarifa ainda não tem aplicação imediata. O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos receberá manifestações por escrito até 6 de julho. No dia seguinte, estão previstas audiências públicas para discutir as objeções apresentadas.

Essa fase será decisiva para definir se a tarifa será mantida, alterada ou eventualmente retirada. Empresas americanas que importam produtos dos países listados também poderão se manifestar, especialmente se avaliarem que a medida aumentará custos internos ou afetará cadeias produtivas.

Do lado brasileiro, a estratégia deverá combinar defesa diplomática, argumentos técnicos e mobilização de setores exportadores. O objetivo será demonstrar que a aplicação de sanções seria inadequada, desproporcional ou baseada em avaliação incompleta dos mecanismos brasileiros de combate ao trabalho forçado.

Até a conclusão do processo, exportadores brasileiros seguem expostos à incerteza. A decisão final de Washington poderá abrir uma nova frente de atrito comercial e ampliar a pressão sobre empresas que dependem do mercado americano.

Medida pode atingir comércio e diplomacia

A proposta americana coloca o Brasil em uma disputa sensível, que combina comércio internacional, direitos trabalhistas, diplomacia e política econômica. Ao enquadrar a questão como concorrência desleal, Washington amplia o alcance do tema para além da fiscalização trabalhista.

Para o Brasil, o desafio será defender sua estrutura de combate ao trabalho escravo contemporâneo e, ao mesmo tempo, evitar que a medida se transforme em barreira comercial permanente contra produtos nacionais.

A inclusão do país na faixa de até 12,5% sinaliza uma postura mais dura dos Estados Unidos. Caso a tarifa avance, setores exportadores poderão enfrentar perda de competitividade e necessidade de redirecionar vendas ou renegociar contratos.

A disputa ainda está em fase de consulta, mas já adiciona pressão à relação econômica entre Brasília e Washington. A decisão final dependerá da análise das manifestações, das audiências públicas e da disposição política dos dois governos para evitar uma escalada comercial.

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