A autoridade finlandesa de licenciamento e supervisão determinou que a Tuike Finland Oy interrompa as atividades preparatórias de dois projetos de data centers planejados para Muhos e Kajaani-Otanmäki, no norte do país. A ordem, emitida em 6 de outubro, prevê a suspensão imediata — e, no máximo, até 23 de outubro — de trabalhos que alterem o solo, a vegetação, a paisagem ou a drenagem das áreas até que os procedimentos de avaliação de impacto ambiental sejam concluídos.
A decisão atinge projetos que a Tuike conduz em nome do grupo Google e que fazem parte da expansão anunciada pela companhia em setembro. Em 9 de setembro, o Google informou que pretende investir € 13 bilhões na Finlândia nos dois anos seguintes em infraestrutura digital, energia limpa e parcerias locais. A empresa classificou o pacote como seu maior investimento individual na Europa.
O caso coloca em evidência uma questão regulatória que acompanha a expansão dos data centers: a necessidade de compatibilizar a instalação de infraestrutura para computação e inteligência artificial com os procedimentos ambientais prévios exigidos pela legislação finlandesa.
Autoridade interrompe atividades que já modificaram as áreas
A ordem da Lupa- ja valvontavirasto, autoridade finlandesa criada em janeiro de 2026 para concentrar funções de licenciamento, orientação e fiscalização, alcança uma extensa lista de serviços de preparação. Entre eles estão corte de árvores, retirada de solo superficial, escavações, detonação e britagem de rocha, movimentação de terra, abertura de valas e construção de vias internas e áreas de armazenamento. Trabalhos de planejamento, medições, estudos de solo e outras intervenções de baixo impacto e facilmente reversíveis podem continuar.
A autoridade afirmou que os dois locais já passaram por operações de preparação em escala relevante. Em Muhos, a própria Tuike informou às autoridades que aproximadamente 330 hectares haviam sido abrangidos por desmatamento e preparação do terreno. Em Kajaani-Otanmäki, a empresa informou uma área de pouco menos de 200 hectares com remoção de vegetação e trabalhos preparatórios. Somadas, as áreas já atingidas ou preparadas são inferiores a 530 hectares.
Os dois projetos, entretanto, são ainda maiores. A área prevista em Muhos é de aproximadamente 571 hectares, enquanto o empreendimento de Kajaani-Otanmäki ocupa cerca de 405 hectares. A soma chega a 976 hectares planejados para as duas unidades.
A dimensão também aparece no número de instalações previstas. Muhos contempla nove edifícios de data center; Kajaani-Otanmäki, oito. Os dois projetos, portanto, somam 17 edifícios planejados. Ambos ainda têm estruturas de apoio, como sistemas de resfriamento, subestações, vias internas, áreas de estacionamento e equipamentos de geração de emergência.
Projetos somam mais de 600 MW em geração de emergência
Os documentos submetidos à autoridade mostram que a escala energética dos empreendimentos também é expressiva. Tanto Muhos quanto Kajaani-Otanmäki foram planejados com necessidade de potência de geração de emergência superior a 300 megawatts. Considerados conjuntamente, os projetos representam uma necessidade de geração de emergência superior a 600 MW, embora os documentos não apresentem a potência total exata de cada sistema.
Em Muhos, o planejamento considera a possibilidade de captação e devolução de água do rio Oulujoki para o sistema de resfriamento. O local é predominantemente ocupado por áreas de exploração florestal e exige operações de escavação, britagem e movimentação de materiais para nivelamento do terreno. Em Kajaani-Otanmäki, o projeto também analisa a necessidade de captação de água do lago Oulujärvi e prevê uma ligação aérea de 400 kV, além de uma subestação.
Em maio, o Google anunciou uma arquitetura energética própria para sustentar sua expansão finlandesa. A empresa informou ter firmado um acordo de 22 anos para apoiar a extensão da vida útil da usina nuclear de Loviisa, contratado mais capacidade de geração eólica e viabilizado uma bateria de 94 MW em Kajaani. O grupo também afirmou que seus contratos de energia eólica na Finlândia alcançam 629 MW de novos projetos conectados à rede.
A companhia estima que sua expansão na Finlândia apoiará mais de 37 mil empregos durante a fase inicial de construção, prevista para 2027 e 2028, e contribuirá com € 3,6 bilhões por ano para o Produto Interno Bruto finlandês durante esse período. Trata-se de estimativas divulgadas pelo próprio Google, não de projeções oficiais do governo.
Disputa envolve duas regras de preparação de obras
A suspensão determinada pela autoridade ambiental não decorre simplesmente da ausência de qualquer manifestação municipal. Os documentos mostram que houve interpretações diferentes sobre o alcance das regras aplicáveis às atividades preparatórias.
Em Muhos, a prefeitura informou que não havia concedido licença de construção nem outra autorização para executar o empreendimento. A Tuike havia apresentado, em março, um pedido relacionado a trabalhos de paisagismo e movimentação de solo, mas o procedimento não avançou depois que a autoridade ambiental comunicou, em maio, que o estudo de impacto e sua conclusão fundamentada ainda não estavam disponíveis. Em junho, a fiscalização municipal informou à empresa que determinadas medidas preparatórias poderiam ser realizadas com base na legislação de construção.
A autoridade ambiental, porém, avaliou que essa interpretação não afastava as obrigações previstas na legislação de avaliação de impacto. Segundo o documento de 6 de outubro, a permissão para determinados trabalhos preparatórios sob a legislação de construção não elimina a obrigação de observância do procedimento ambiental nem restringe a competência da autoridade responsável pela fiscalização do YVA, sigla usada na Finlândia para a avaliação de impacto ambiental.
Em Kajaani, a situação apresenta outra configuração. A fiscalização municipal informou que havia aprovado a realização de determinadas atividades preliminares permitidas antes do início formal da construção, incluindo retirada de solo, construção de vias, sistemas de drenagem e nivelamento de rochas. Ainda assim, não havia sido concedida licença de construção para o empreendimento.
A diferença de interpretações é relevante porque o procedimento de avaliação ambiental tem caráter preventivo. A legislação finlandesa determina que os impactos relevantes sejam identificados e avaliados antes de decisões que possam encaminhar a execução do projeto ou reduzir as alternativas disponíveis. A própria autoridade citou esse princípio ao justificar a suspensão.
A legislação finlandesa estabelece ainda avaliação obrigatória para determinadas mudanças permanentes em mais de 200 hectares de áreas florestais, de pântanos ou zonas úmidas. A regra faz parte do anexo da lei de avaliação de impacto ambiental.
Google diz que seguirá orientação da autoridade
Em manifestação reproduzida pela imprensa, o Google reconheceu a preocupação provocada pelo caso e afirmou que ficou abaixo de seus próprios padrões. A empresa também sustentou que agiu de boa-fé com base na legislação florestal, realizou estudos ambientais e adotou medidas de proteção para áreas consideradas de alto valor. Entre as iniciativas anunciadas está o plantio de árvores em 130 hectares em Muhos.
A posição da empresa é relevante porque a controvérsia atual não representa uma decisão definitiva sobre a viabilidade ambiental dos dois data centers. O que a autoridade determinou foi a interrupção das atividades que, na avaliação do órgão, já estavam modificando o ambiente antes da conclusão do procedimento ambiental.
Em Muhos, o procedimento de avaliação começou no verão de 2025 e já havia recebido manifestação da autoridade ambiental regional em novembro daquele ano. Em Kajaani-Otanmäki, o procedimento também foi iniciado em 2025. Após a reorganização administrativa ocorrida em 1º de janeiro de 2026, a Lupa- ja valvontavirasto passou a atuar como autoridade responsável pelos processos. Os relatórios de avaliação dos dois projetos estão previstos para o fim de 2026.
Próximo prazo é 14 de outubro
A Tuike Finland Oy recebeu prazo até 14 de outubro para apresentar manifestação escrita à autoridade e informar, entre outros pontos, se pretende cumprir a determinação. A suspensão dos trabalhos deverá ocorrer imediatamente ou, no máximo, em 23 de outubro.
Caso a empresa não cumpra a orientação, a autoridade informou que poderá avaliar a abertura de um procedimento administrativo coercitivo com base na legislação aplicável ou na própria lei de avaliação ambiental. O mecanismo pode ser reforçado por multa coercitiva. A decisão de 6 de outubro, portanto, ainda não corresponde à aplicação de uma multa nem a uma conclusão definitiva sobre eventual irregularidade: trata-se de uma determinação acompanhada de prazo para manifestação da empresa.
O desfecho do procedimento ambiental será determinante para a sequência dos projetos. A própria autoridade estabeleceu que a interrupção deve permanecer até que a avaliação seja concluída e esteja disponível a conclusão fundamentada sobre os impactos ambientais.
O episódio ocorre enquanto a Finlândia amplia a estrutura regulatória para acompanhar a expansão dos data centers. Em setembro, o governo colocou em consulta uma proposta de registro nacional destinado a reunir informações sobre instalações existentes e planejadas, propriedade, finalidade, consumo de eletricidade e efeitos sobre a rede. A medida mostra que o crescimento acelerado da infraestrutura digital passou a exigir não apenas capital e energia, mas também mecanismos de acompanhamento dos impactos territoriais e ambientais.
Para o Google, a paralisação ocorre menos de um mês depois do anúncio de € 13 bilhões em investimentos no país. Para as autoridades finlandesas, o caso reforça que a escala dos projetos não altera a sequência legal exigida para avaliar seus impactos. O calendário agora depende da manifestação da Tuike, da conclusão dos estudos ambientais e das decisões administrativas que virão na sequência.
Fontes:
Lupa- ja valvontavirasto — decisões de 6 de outubro de 2026 sobre a suspensão das atividades preparatórias dos projetos de data center de Muhos e Kajaani-Otanmäki
Google — anúncio de 9 de setembro de 2026 sobre investimento de € 13 bilhões em infraestrutura digital, energia limpa e parcerias na Finlândia
Finlex — Lei 252/2017 de avaliação de impacto ambiental e relação de projetos sujeitos ao procedimento
Kajaanin kaupunginhallitus — documento de 6 de outubro de 2026 sobre o acordo entre a cidade de Kajaani e a Tuike Finland Oy para projetos locais de energia
Governo da Finlândia — proposta de registro nacional de data centers e informações sobre a política de atração de investimentos no setor










