O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou nesta sexta-feira (30) que decidiu deixar o Brasil após ser intimado pela Polícia Federal a entregar seus passaportes, mas não esclareceu como organizou, financiou ou viabilizou a viagem que o levou aos Estados Unidos. Em sua primeira transmissão ao vivo desde a chegada a Miami, o candidato derrotado nas eleições presidenciais relatou uma conversa com o pai, Jair Bolsonaro, e afirmou que somente sua esposa, Fernanda, participou da decisão de sair do país.
A manifestação ocorreu quatro dias depois da intimação realizada pela Polícia Federal, em 26 de outubro, e dois dias após o desembarque da família na Flórida. Durante a transmissão pelo Instagram, Flávio apresentou sua versão sobre os motivos da saída, acusou o Supremo Tribunal Federal (STF) de perseguição política e declarou que pretende continuar exercendo influência sobre a oposição brasileira a partir do exterior. O senador também voltou a questionar o resultado das eleições, sem apresentar provas de fraude.
O pronunciamento não esclareceu aspectos centrais da viagem, incluindo a contratação do jato particular, os custos do deslocamento, a documentação utilizada para entrar nos Estados Unidos e a eventual participação de autoridades estrangeiras. Essas questões passaram a integrar uma cobrança formal de 25 deputados americanos ao secretário de Estado Marco Rubio, enquanto a Polícia Federal brasileira investiga as circunstâncias do descumprimento das restrições impostas ao parlamentar.
Flávio relata conversa com Jair Bolsonaro antes de deixar o país
Durante a transmissão, Flávio descreveu o encontro que teve com Jair Bolsonaro na manhã de segunda-feira, 26 de outubro, um dia depois do segundo turno presidencial.
Segundo seu relato, ele permaneceu aproximadamente 30 minutos na residência do pai, que cumpre pena por participação na tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022. Ao deixar o imóvel, por volta das 10h30, foi abordado por agentes da Polícia Federal responsáveis por comunicar as determinações judiciais relativas aos seus documentos de viagem.
O senador afirmou que o pai percebeu a presença dos policiais e acompanhou parte da situação. De acordo com sua versão, os dois conversaram brevemente sobre as possíveis consequências da ordem expedida pelo ministro Alexandre de Moraes.
Flávio declarou que, depois da intimação, retornou para casa e conversou com Fernanda sobre as medidas que adotaria. O parlamentar sustentou que a decisão de viajar foi tomada pelo casal e procurou afastar a responsabilidade de terceiros pela iniciativa.
Ele afirmou que não havia informado outras pessoas sobre o plano, argumentando que a divulgação antecipada poderia comprometer sua execução.
Apesar dessa explicação, o senador não detalhou quando os preparativos começaram, quem participou da organização do transporte ou quais providências foram necessárias para realizar o deslocamento internacional com a esposa e as duas filhas.
A versão apresentada na sexta-feira também acrescenta um elemento à cronologia das manifestações do parlamentar. Em vídeo publicado no próprio dia 26, depois da intimação, Flávio havia afirmado que não pretendia deixar o Brasil e que entregaria os passaportes para contestar judicialmente a decisão. Dois dias depois, desembarcou nos Estados Unidos.
Polícia Federal confirma cancelamento dos passaportes e ausência de registro migratório
A situação jurídica do senador foi detalhada pela Polícia Federal em comunicado oficial divulgado em 28 de outubro.
Segundo a corporação, o pedido de medidas cautelares foi apresentado ao Supremo Tribunal Federal em 25 de outubro, após a identificação de risco de saída do país por Flávio Bolsonaro.
O parlamentar é investigado no âmbito da Petição nº 16.877, que tramita no STF. A representação policial solicitou a apreensão dos passaportes, a proibição de viagens internacionais e restrições de contato com outros investigados.
Depois da decisão judicial, os passaportes comum e diplomático brasileiros de Flávio foram cancelados, e um alerta foi inserido no sistema de controle migratório utilizado pela Polícia Federal.
A corporação informou que o senador foi intimado, na manhã de 26 de outubro, a entregar eventuais passaportes de outras nacionalidades no prazo de 24 horas. A determinação não foi cumprida.
A Polícia Federal também declarou que não encontrou registro oficial da saída do parlamentar pelos postos brasileiros de controle migratório.
O comunicado apresenta uma ressalva importante sobre sua situação jurídica. Segundo a PF, as restrições relacionadas aos documentos de viagem não caracterizam, por si só, a condição formal de foragido nem autorizam automaticamente sua prisão ou a adoção de medidas adicionais.
Isso significa que a investigação sobre o descumprimento das determinações judiciais deve ser diferenciada de uma eventual ordem de prisão, que dependeria de decisão específica e fundamentação própria.
A corporação afirmou que continua apurando as circunstâncias da saída do senador e a possível violação das medidas cautelares impostas pelo Supremo.
Viagem passou pela Argentina e pelo Equador antes da chegada a Miami
O deslocamento de Flávio Bolsonaro envolveu três países após sua saída do território brasileiro.
As informações divulgadas sobre o itinerário indicam que o senador atravessou a fronteira terrestre com a Argentina em 27 de outubro, acompanhado da esposa e das duas filhas. A entrada no país vizinho teria ocorrido mediante apresentação de documentos de viagem de nacionalidades diferentes, incluindo passaporte italiano utilizado pelo parlamentar.
A família embarcou posteriormente em um avião particular, que realizou uma escala em Guayaquil, no Equador, antes de seguir para os Estados Unidos.
O voo chegou ao Aeroporto Executivo de Miami-Opa Locka na manhã de quarta-feira, 28 de outubro. O pouso ocorreu por volta das 9h23 no horário local da Flórida, correspondentes às 10h23 em Brasília, segundo os dados de rastreamento divulgados sobre a aeronave.
A viagem foi realizada em um intervalo de aproximadamente dois dias após a comunicação das restrições judiciais ao senador.
Apesar de apresentar essa cronologia, as informações públicas disponíveis não permitem determinar de maneira conclusiva quem custeou a aeronave, quais foram as condições contratuais do transporte ou se houve participação institucional de governos estrangeiros na organização do deslocamento.
Informações divulgadas sobre a viagem atribuíram a Jason Miller, aliado e assessor próximo do presidente americano Donald Trump, participação na disponibilização do avião particular.
A eventual colaboração de Miller, contudo, não significa automaticamente que recursos oficiais dos Estados Unidos tenham sido utilizados. A distinção entre apoio pessoal, atuação política e assistência governamental é uma das questões pendentes de esclarecimento.
Flávio não apresentou, durante o pronunciamento de sexta-feira, documentos ou informações que permitissem esclarecer essas circunstâncias.
Deputados americanos exigem explicações sobre eventual apoio à viagem
A falta de informações sobre o deslocamento passou a ter repercussão institucional nos Estados Unidos.
Um grupo de 25 integrantes da Câmara dos Representantes encaminhou uma carta ao secretário de Estado Marco Rubio, questionando se autoridades americanas participaram da saída de Flávio Bolsonaro do Brasil ou facilitaram sua entrada em território americano.
A iniciativa foi liderada pelas deputadas democratas Sydney Kamlager-Dove, da Califórnia, e Dina Titus, de Nevada. A correspondência, datada de 29 de outubro, solicita esclarecimentos sobre as providências diplomáticas e migratórias relacionadas à viagem.
Os parlamentares querem identificar se o Departamento de Estado, a Embaixada dos Estados Unidos no Brasil ou outras agências federais tinham conhecimento das restrições determinadas pelo STF.
Também pedem informações sobre a eventual concessão de vistos, a participação de funcionários americanos nos preparativos da viagem e os procedimentos utilizados para permitir a entrada da família.
A documentação solicitada inclui questões relacionadas a possíveis contatos entre autoridades americanas e representantes de Flávio Bolsonaro, bem como à eventual coordenação com órgãos responsáveis pelo controle migratório.
Os deputados solicitaram uma resposta por escrito e uma reunião de esclarecimentos com representantes do Departamento de Estado até 13 de novembro.
A carta não comprova que o governo Trump tenha utilizado recursos públicos para facilitar o deslocamento do senador. Trata-se de uma iniciativa de fiscalização parlamentar destinada a esclarecer a existência e a extensão de eventual assistência oficial.
O pedido acrescenta uma dimensão diplomática ao episódio, pois envolve decisões tomadas por autoridades americanas diante de restrições judiciais estabelecidas no Brasil.
Senador volta a questionar resultado eleitoral sem apresentar provas
Além de justificar sua saída do Brasil, Flávio Bolsonaro utilizou a transmissão para contestar o resultado da eleição presidencial de 25 de outubro.
O parlamentar alegou que teria sido prejudicado pelo funcionamento das instituições brasileiras e levantou suspeitas sobre o processo eleitoral. Não apresentou, entretanto, elementos capazes de demonstrar fraude na apuração dos votos.
Os dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito com 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79% dos votos válidos.
Flávio Bolsonaro recebeu 59.826.041 votos, correspondentes a 48,21%.
A diferença entre os candidatos foi de 4.430.191 votos, ou 3,58 pontos percentuais. A totalização de 100% das urnas foi concluída às 23h26 de 25 de outubro, segundo o TSE.
O resultado foi proclamado pelo presidente da Corte, ministro Kassio Nunes Marques.
A contestação política apresentada pelo senador não altera a votação oficialmente apurada. Qualquer questionamento judicial sobre o resultado depende de instrumentos processuais específicos e da apresentação de fundamentos e provas que possam ser examinados pela Justiça Eleitoral.
No pronunciamento, Flávio também mencionou a possibilidade de disputar novamente a Presidência antes de 2030, ano previsto para a próxima eleição presidencial ordinária.
A declaração representa uma intenção política do senador e não corresponde a qualquer convocação oficial de novas eleições.
A realização de um novo pleito antes do calendário regular dependeria de hipóteses constitucionais e eleitorais específicas, que não decorrem automaticamente da insatisfação de um candidato com o resultado.
Flávio anuncia apoio a Rogério Marinho para presidir o Senado
A transmissão também foi utilizada para apresentar uma orientação política aos integrantes da oposição.
Flávio Bolsonaro anunciou apoio ao senador Rogério Marinho (PL-RN) para a presidência do Senado Federal, cuja eleição está prevista para fevereiro de 2027.
O parlamentar afirmou que pretende concentrar sua atuação política no Congresso Nacional, especialmente no Senado, e defendeu a formação de uma frente parlamentar capaz de se contrapor às propostas do governo Lula.
A manifestação indica que Flávio pretende continuar participando das articulações legislativas e partidárias mesmo permanecendo fora do Brasil.
A escolha do próximo presidente do Senado, entretanto, depende do voto dos integrantes da Casa. A indicação de um nome por Flávio Bolsonaro não constitui decisão institucional do Partido Liberal nem garante a eleição do candidato apoiado.
O Senado possui 81 integrantes, e a eleição para sua presidência exige maioria absoluta, equivalente a 41 votos.
O PL terá 29 cadeiras na legislatura que começa em fevereiro de 2027, conforme os resultados eleitorais divulgados pelo Senado. Mesmo que todos os integrantes da bancada apoiassem o mesmo candidato, seriam necessários pelo menos mais 12 votos de parlamentares de outras legendas.
A posição anunciada por Flávio também se insere nas disputas sobre a condução do Congresso e as negociações relacionadas a propostas de anistia ou redução de penas para condenados pelos acontecimentos de 8 de janeiro de 2023.
O senador criticou o ambiente institucional brasileiro e reafirmou sua oposição à atuação do STF. Essas manifestações representam posições políticas do parlamentar e não modificam as competências constitucionais dos órgãos mencionados.
Manifestação não esclarece financiamento nem situação migratória nos EUA
O pronunciamento de 30 de outubro apresentou a primeira explicação pública mais detalhada de Flávio Bolsonaro sobre sua decisão de deixar o país, mas manteve sem esclarecimento diferentes aspectos concretos da viagem.
Entre as informações ainda não demonstradas documentalmente estão a origem dos recursos utilizados para pagar o transporte, a identidade dos responsáveis por contratar a aeronave e os procedimentos migratórios adotados para sua entrada nos Estados Unidos.
Também não foi esclarecido publicamente qual modalidade de visto ou autorização de entrada foi aplicada ao senador e a seus familiares.
Essas informações são relevantes porque a entrada em território americano e a eventual concessão de mecanismos especiais de permanência dependem da legislação dos Estados Unidos e das decisões das autoridades competentes.
A existência de uma proibição judicial de saída do Brasil não determina automaticamente a situação migratória de um estrangeiro em outro país. Entretanto, o conhecimento dessa restrição por autoridades americanas pode ser relevante para esclarecer as circunstâncias administrativas e diplomáticas da viagem.
A documentação solicitada pelo Congresso americano poderá oferecer respostas sobre parte dessas questões.
No Brasil, a Polícia Federal mantém a investigação sobre o descumprimento das medidas cautelares impostas ao senador, enquanto eventuais consequências processuais dependem das decisões do Supremo Tribunal Federal.
A transmissão realizada em Miami acrescentou a versão pessoal de Flávio Bolsonaro à cronologia dos acontecimentos, sem apresentar elementos suficientes para esclarecer a organização completa do deslocamento.
Com isso, permanecem duas frentes distintas de apuração: a investigação brasileira sobre a saída do parlamentar apesar das restrições judiciais e a cobrança apresentada por deputados americanos para esclarecer se houve participação de autoridades dos Estados Unidos na viagem.
Fontes:
Flávio Bolsonaro — Pronunciamento público e manifestações divulgadas em redes sociais em 26, 28 e 30 de outubro de 2026.
Polícia Federal — Nota oficial de 28 de outubro de 2026 sobre a Petição nº 16.877, as restrições de viagem, o cancelamento de passaportes e a investigação do descumprimento das determinações judiciais.
Tribunal Superior Eleitoral — Resultado oficial do segundo turno das eleições presidenciais de 2026 e comunicado de 29 de outubro sobre a conclusão da totalização dos votos.
Câmara dos Representantes dos Estados Unidos — Comunicado institucional das deputadas Sydney Kamlager-Dove e Dina Titus, de 30 de outubro de 2026, sobre o pedido de esclarecimentos ao Departamento de Estado.
Senado Federal — Informações institucionais sobre a composição da Casa na legislatura iniciada em fevereiro de 2027 e o procedimento de eleição da Mesa Diretora.





