O Ibovespa retomou o sinal positivo nesta quinta-feira (8), depois de duas sessões de correção após o salto provocado pelo resultado do primeiro turno das eleições presidenciais. No fim da manhã, o índice avançava 0,86%, aos 206.056,75 pontos, enquanto o dólar comercial oscilava perto da estabilidade, a R$ 5,016. A recuperação da Bolsa ocorre em um ambiente de forças opostas: de um lado, a alta do petróleo e a continuidade da percepção favorável ao mercado em relação ao cenário eleitoral; de outro, o avanço dos juros dos títulos americanos e a perspectiva de novas altas de juros pelo Federal Reserve.
A sessão também mostra uma mudança importante na composição do movimento. O índice é sustentado principalmente por empresas ligadas ao petróleo, enquanto bancos e Vale pressionam o desempenho. Petrobras (PETR3) avançava 2,25% e Petrobras (PETR4), 1,80%. Prio (PRIO3) subia 2,72% e Brava Energia (BRAV3), 1,56%. Em sentido contrário, Vale (VALE3) perdia 1,09%, Bradesco (BBDC3) recuava 1,24% e Bradesco (BBDC4), 1,14%, enquanto Itaú Unibanco (ITUB4) caía 0,71% e Banco do Brasil (BBAS3), 0,45%.
O desempenho atual ainda deixa o Ibovespa abaixo do fechamento de 206.911 pontos registrado na segunda-feira (5), quando o mercado reagiu ao primeiro turno com uma alta de 7,70%. Naquela sessão, o índice chegou a 209.605 pontos na máxima intradiária, antes de encerrar em 206.911 pontos. Depois, recuou 0,52% na terça e 0,74% na quarta-feira, fechando o dia 7 aos 204.302,33 pontos. Com a recuperação observada nesta quinta-feira, o índice devolve boa parte da correção mais recente, mas ainda permanece cerca de 0,4% abaixo do fechamento de segunda e aproximadamente 1,7% distante da máxima intradiária que marcou o primeiro pregão após a eleição.
Petróleo muda a composição das altas na B3
O principal vetor setorial do pregão é a disparada do petróleo no mercado internacional. O Brent subia mais de 3,6%, para a região de US$ 105 por barril, enquanto o WTI avançava perto de 4%, em um ambiente de preocupação com a oferta no Oriente Médio. A escalada das tensões envolvendo Estados Unidos e Irã elevou o prêmio geopolítico da commodity e reforçou a percepção de risco sobre o transporte de petróleo na região.
Para as ações brasileiras, o movimento tem efeito desigual. As companhias produtoras de petróleo tendem a se beneficiar diretamente da alta das cotações, especialmente quando o mercado interpreta o avanço do barril como persistente o suficiente para melhorar as expectativas de receita e geração de caixa. É esse mecanismo que ajuda a explicar a diferença de desempenho entre Petrobras, Prio e Brava e os setores domésticos que lideraram o primeiro movimento de alta após a eleição.
A Petrobras ainda recebeu um estímulo específico do lado operacional. No 4º Ciclo da Oferta Permanente de Partilha, realizado pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) na quarta-feira (7), a companhia arrematou, sozinha, os blocos Azurita, na Bacia de Campos, e Cruzeiro do Sul, na Bacia de Santos. Os dois ficaram com 100% de participação da estatal. A rodada teve sete blocos arrematados, com bônus de assinatura somando R$ 530,5 milhões e previsão de R$ 778,4 milhões em investimentos mínimos na fase de exploração.
A participação da Petrobras na rodada amplia sua exposição à fronteira exploratória do pré-sal, mas os efeitos financeiros não são imediatos. Segundo o cronograma da ANP, as vencedoras ainda precisam cumprir etapas de qualificação, pagamento dos bônus e formalização contratual, com assinatura dos contratos de partilha prevista até 26 de fevereiro de 2027. Para o mercado acionário, portanto, a contribuição mais imediata nesta quinta-feira vem do petróleo, enquanto o resultado do leilão adiciona um componente operacional à leitura sobre a estratégia de longo prazo da companhia.
Eleição continua influenciando prêmio de risco brasileiro
O segundo elemento doméstico continua sendo a disputa presidencial. O primeiro turno terminou com Flávio Bolsonaro (PL) em primeiro lugar, com 47,03% dos votos válidos, ante 45,16% de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A diferença foi de 1,87 ponto percentual, e o segundo turno está marcado para 25 de outubro.
A primeira pesquisa divulgada para a nova etapa da disputa ampliou a vantagem do candidato do PL. O PoderData/Aya mostrou Flávio com 53% dos votos válidos e Lula com 47%. O levantamento ouviu 3.000 eleitores entre 5 e 7 de outubro, tem margem de erro de 1,8 ponto percentual e foi registrado no Tribunal Superior Eleitoral.
O dado representa uma alteração relevante em relação à margem observada nas urnas. A diferença passou de 1,87 ponto percentual no resultado oficial do primeiro turno para seis pontos na pesquisa. Em termos absolutos, a vantagem estimada no levantamento é mais de três vezes maior do que a registrada na votação. Isso não significa antecipação do resultado eleitoral, mas explica por que o mercado continua incorporando ao preço dos ativos uma probabilidade maior de alternância de poder do que aquela implícita antes da votação.
O movimento também precisa ser lido com cautela. Pesquisa eleitoral é uma fotografia da intenção de voto no período de coleta, e não uma projeção matemática do resultado final. Além disso, a primeira pesquisa Datafolha sobre o segundo turno está prevista para esta quinta-feira, depois do horário em que o mercado brasileiro já opera, o que mantém a possibilidade de novas oscilações ao longo do pregão. O Datafolha entrevistou 2.520 eleitores entre os dias 6 e 8 de outubro.
Juros dos EUA colocam limite para a busca por risco
No exterior, a principal dificuldade para a continuidade do rali brasileiro está nos juros americanos. O rendimento do Treasury de dez anos chegou à região de 5,33%, próximo dos níveis mais altos em mais de duas décadas, enquanto os títulos mais longos também operam com taxas elevadas. Esse movimento reduz a atratividade relativa dos mercados emergentes ao elevar o retorno disponível em ativos considerados mais seguros.
A pressão aumentou depois de uma manifestação do governador do Federal Reserve Christopher Waller nesta quinta-feira. Segundo ele, caso os dados econômicos evoluam conforme o esperado, novos aumentos da taxa básica americana podem ser necessários para levar a inflação de volta à meta de 2%. O Fed elevou em setembro a faixa dos juros para 3,75% a 4% e terá nova reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto em 27 e 28 de outubro.
Os números do mercado de trabalho também reforçaram essa leitura. Os pedidos iniciais de seguro-desemprego caíram para 197 mil na semana encerrada em 3 de outubro, abaixo da expectativa de 200 mil. Os pedidos continuados subiram em 17 mil, para 1,716 milhão. A combinação indica que as demissões permanecem contidas, ao mesmo tempo em que a absorção dos trabalhadores desempregados mostra alguma perda de velocidade.
Esse quadro é particularmente relevante para o Brasil porque aumenta a sensibilidade dos mercados locais à trajetória dos juros americanos. Uma política monetária mais restritiva nos Estados Unidos tende a fortalecer o dólar e elevar o custo de financiamento global, reduzindo parte do efeito positivo gerado por fatores domésticos.
Dólar permanece acima de R$ 5 após forte valorização do real
O câmbio reflete essa disputa de forças. O dólar comercial ronda R$ 5 nesta quinta-feira, depois de ter encerrado a quarta-feira a R$ 5,016. A moeda voltou a superar a marca simbólica após o forte recuo registrado imediatamente depois do primeiro turno, quando chegou a ser negociada abaixo de R$ 5.
Mesmo com a recuperação recente, o movimento acumulado desde o início da semana permanece favorável ao real. Na segunda-feira, o dólar caiu 4,11% e fechou em R$ 5,001, acompanhando a alta da Bolsa e a queda dos juros futuros. A sessão seguinte trouxe nova baixa antes da recuperação registrada na quarta-feira. O quadro revela que a moeda deixou de responder exclusivamente ao resultado eleitoral e passou a incorporar também o ambiente externo de maior aversão ao risco.
Na Bolsa, a diferença entre os setores reforça essa mudança. Na segunda-feira, a valorização foi disseminada entre bancos, varejistas e empresas mais sensíveis à queda dos juros domésticos. Nesta quinta-feira, o petróleo assume maior protagonismo, enquanto os bancos operam em baixa. A composição sugere que o mercado não abandonou a tese eleitoral, mas passou a dividir a atenção entre a perspectiva para a política econômica brasileira e uma deterioração do ambiente internacional.
O mesmo ocorre com a Vale, que perde terreno enquanto as petroleiras avançam. A valorização do real após o primeiro turno e a pressão sobre commodities metálicas criam uma combinação menos favorável para a mineradora do que para as empresas de petróleo. O resultado é um Ibovespa sustentado por poucos grupos de ações, em vez de uma alta uniforme do mercado.
O pregão desta quinta-feira, portanto, não representa uma repetição da euforia de 5 de outubro. O índice voltou a superar 206 mil pontos, mas o movimento é mais seletivo e condicionado por fatores externos. O mercado continua precificando o cenário eleitoral, mas a direção do petróleo, os rendimentos dos Treasuries e as próximas pesquisas passaram a disputar o comando dos preços com as expectativas sobre a eleição de 25 de outubro.
A combinação mantém a Bolsa próxima das máximas recentes, mas também aumenta a possibilidade de oscilações rápidas. Enquanto o resultado eleitoral segue favorecendo a percepção de menor risco doméstico em parte do mercado, a alta do petróleo e a possibilidade de juros americanos mais elevados funcionam como freios. Para os ativos brasileiros, o equilíbrio entre esses dois vetores será determinante para definir se o rali do início da semana terá continuidade ou dará lugar a uma nova rodada de realização.
Fontes:
Tribunal Superior Eleitoral – resultado do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 e calendário do segundo turno
B3 – desempenho do Ibovespa e do mercado acionário brasileiro nas sessões de 5, 6 e 7 de outubro de 2026
Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis – resultados do 4º Ciclo da Oferta Permanente de Partilha e cronograma dos contratos
Petrobras – comunicado sobre a participação e o resultado da companhia no leilão da ANP
Federal Reserve – discurso de Christopher Waller sobre inflação, juros e perspectivas para a política monetária
U.S. Department of Labor – relatório semanal de pedidos de seguro-desemprego de 8 de outubro de 2026
PoderData/Aya – pesquisa de intenção de voto para o segundo turno das eleições presidenciais de 2026
Exame – cotações intradiárias do Ibovespa, dólar e ações brasileiras em 8 de outubro de 2026







