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Ibovespa apaga ganhos e fecha outubro com queda de 9,88%; dólar sobe 5,22%

Bolsa brasileira registra pior desempenho mensal desde junho de 2022, após forte reversão das expectativas eleitorais. Índice termina aos 167.921 pontos, enquanto dólar alcança R$ 5,44 e investidores aguardam definições sobre a política fiscal.

por Camila Braga
30/10/2026 às 23h09
em Ibovespa
Ibovespa - Gazeta Mercantil

O Ibovespa encerrou outubro de 2026 com desvalorização de 9,88%, aos 167.921,80 pontos, registrando seu pior desempenho mensal desde junho de 2022. O dólar comercial acumulou valorização de aproximadamente 5,22% no período e terminou a sexta-feira (30) cotado a R$ 5,44. Os resultados refletem uma mudança nas expectativas do mercado financeiro brasileiro, que iniciou o mês com forte valorização das ações e terminou sob pressão após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

A reversão foi concentrada nos cinco pregões posteriores ao segundo turno presidencial, realizado em 25 de outubro. Nesse intervalo, o Ibovespa perdeu 18,12%, a maior desvalorização semanal desde março de 2020, enquanto a moeda americana avançou mais de 9%, em seu movimento de valorização semanal mais intenso desde outubro de 2008. A deterioração ocorreu em meio à redução das posições de risco, à elevação dos juros futuros e às dúvidas sobre as medidas econômicas que serão adotadas no próximo mandato.

O contraste com o início de outubro foi significativo. No primeiro pregão após o primeiro turno, em 5 de outubro, a Bolsa brasileira havia subido 7,70%, alcançando 206.911,89 pontos, seu maior fechamento até então. Ao longo daquele dia, o índice chegou a ultrapassar os 209 mil pontos. A expectativa de mudanças na condução da política econômica impulsionou principalmente ações de bancos, empresas de consumo e companhias mais sensíveis à trajetória dos juros.

Bolsa passou de recorde histórico a maior queda mensal em quatro anos

O desempenho do Ibovespa em outubro foi marcado por dois movimentos de direção oposta.

Na primeira etapa, investidores ampliaram suas posições em ações brasileiras diante do resultado do primeiro turno das eleições presidenciais. Flávio Bolsonaro (PL) terminou aquela votação à frente de Lula, aumentando as expectativas de alternância no comando do Executivo federal.

A possibilidade de uma política fiscal considerada mais restritiva por parte dos investidores favoreceu a valorização de empresas ligadas ao mercado doméstico. Os participantes do mercado também passaram a considerar um ambiente potencialmente mais favorável para a redução dos juros.

Em 5 de outubro, o Ibovespa avançou 7,70%, com máxima intradiária de 209.605,70 pontos. O movimento foi o maior ganho diário do índice desde 2020, segundo a B3.

A valorização, entretanto, perdeu sustentação após a definição do segundo turno.

Em 25 de outubro, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) confirmou a reeleição de Lula, que recebeu 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79% dos válidos. Flávio Bolsonaro obteve 59.826.041 votos, correspondentes a 48,21%.

O resultado levou investidores que haviam ampliado suas posições diante da expectativa de vitória do candidato do PL a reavaliar suas estratégias.

Na segunda-feira (26), primeiro pregão após a eleição, a queda do Ibovespa atingiu 10% durante as negociações e provocou o acionamento do circuit breaker, mecanismo de interrupção temporária das operações da Bolsa.

O índice terminou aquela sessão com recuo de 13,88%, aos 176.608,23 pontos.

As perdas prosseguiram nos dias seguintes e levaram o Ibovespa a encerrar outubro abaixo de 168 mil pontos.

Ibovespa perdeu quase 20% desde a máxima registrada no início de outubro

A comparação entre os pontos extremos do mês permite dimensionar a intensidade da reversão.

Em 5 de outubro, o Ibovespa atingiu a máxima intradiária de 209.605,70 pontos. No encerramento do dia 30, o índice estava em 167.921,80 pontos.

A diferença entre esses dois níveis é de 41.683,90 pontos, equivalente a uma desvalorização de aproximadamente 19,89% em relação à máxima intradiária.

Esse cálculo não representa a rentabilidade mensal oficial, porque compara uma cotação registrada durante o pregão com o fechamento do último dia útil. A variação mensal de 9,88% considera os fechamentos de setembro e outubro, conforme a metodologia utilizada para calcular o desempenho do índice.

Outra comparação evidencia como a última semana concentrou a deterioração.

Com base na queda semanal de 18,12% e no resultado mensal de 9,88%, é possível calcular que o Ibovespa acumulava valorização aproximada de 10,1% entre o fechamento de setembro e a sexta-feira anterior ao segundo turno.

Isso significa que os ganhos obtidos durante grande parte de outubro foram mais do que anulados nos cinco pregões finais.

Mesmo após a desvalorização, o Ibovespa preservou alta de 4,22% no acumulado de 2026, resultado que indica a existência de ganhos registrados nos meses anteriores.

O desempenho de outubro foi o pior desde junho de 2022, quando o principal índice de ações brasileiras havia recuado aproximadamente 11,5%.

Dólar sobe 5,22% no mês após ser negociado abaixo de R$ 5

O mercado de câmbio também apresentou uma mudança expressiva de direção.

Durante a primeira parte de outubro, o dólar chegou a ser negociado abaixo de R$ 5, acompanhando a valorização do real e a entrada de recursos em ativos brasileiros.

A moeda americana voltou a subir com intensidade depois do resultado presidencial, encerrando o mês próxima de R$ 5,44.

Considerando a cotação de R$ 5,4443 e a valorização mensal de 5,22%, o dólar estava próximo de R$ 5,17 no fechamento de setembro. A diferença representa um aumento aproximado de R$ 0,27 por unidade da moeda americana ao longo do mês.

No último dia útil, a pressão cambial também esteve relacionada à formação da taxa Ptax de fim de mês, utilizada como referência para contratos financeiros e operações de liquidação.

O Banco Central divulgou para 30 de outubro uma Ptax de venda de R$ 5,4212, inferior à cotação comercial observada no fechamento do mercado à vista.

Essa diferença ocorre porque a Ptax é calculada a partir de consultas realizadas ao longo do dia e não corresponde necessariamente à última negociação do dólar comercial.

A valorização cambial tem efeitos diferentes sobre os setores da economia. Empresas importadoras podem enfrentar custos mais elevados, enquanto exportadoras com receitas em moeda estrangeira podem obter ganhos cambiais, dependendo de suas despesas e instrumentos de proteção financeira.

Para a inflação, o impacto depende da duração da valorização do dólar e da capacidade das empresas de repassar aumentos de custos aos preços finais.

Investidores estrangeiros retiraram recursos da Bolsa após segundo turno

A deterioração das condições de mercado também foi acompanhada por redução da exposição de investidores estrangeiros às ações brasileiras.

Dados da B3 referentes aos três primeiros pregões posteriores ao segundo turno indicaram saída líquida de aproximadamente R$ 7,6 bilhões do mercado secundário de ações.

O movimento representa a diferença entre compras e vendas realizadas por investidores não residentes naquele intervalo.

A retirada de recursos pode intensificar quedas quando ocorre simultaneamente à redução de posições por fundos locais e outros participantes do mercado.

No entanto, o fluxo estrangeiro não explica isoladamente o comportamento do Ibovespa. Os preços também são influenciados por expectativas econômicas, resultados corporativos, decisões de política monetária e movimentos internacionais.

Durante outubro, parte das apostas em ações brasileiras estava associada à expectativa de condições fiscais mais favoráveis e de queda dos juros.

Com a reeleição de Lula, os investidores passaram a buscar informações sobre a composição da equipe econômica e os compromissos que orientarão a política de despesas do governo federal.

A ausência de definições concretas sobre essas medidas contribuiu para a manutenção da volatilidade, especialmente nos ativos mais sensíveis à percepção de risco fiscal.

Juros futuros sobem e mercado reduz expectativa de corte da Selic

A mudança nas expectativas também atingiu o mercado de juros.

Na sexta-feira, os contratos futuros de depósitos interfinanceiros apresentaram taxas elevadas em diferentes vencimentos. O contrato para janeiro de 2027 era negociado próximo de 13,64% ao ano, enquanto os vencimentos de janeiro de 2029 e janeiro de 2031 apresentavam taxas próximas de 14,97% e 15,26%, respectivamente, em cotações observadas durante o pregão.

Esses valores não representam necessariamente os ajustes definitivos divulgados pela B3.

A elevação das taxas futuras reflete a remuneração exigida pelos participantes do mercado para assumir compromissos financeiros em diferentes prazos.

Entre os fatores considerados estão as expectativas de inflação, a trajetória da Selic, o risco fiscal e as condições internacionais de financiamento.

O Itaú passou a projetar que o Comitê de Política Monetária (Copom) interromperá o ciclo de redução dos juros em novembro, mantendo a Selic em 13,75% ao ano.

Segundo a avaliação divulgada pela instituição, a combinação de pressões inflacionárias domésticas, petróleo elevado e condições financeiras internacionais mais restritivas reduz o espaço para novos cortes imediatos.

A taxa básica está em 13,75% desde setembro, quando o Banco Central promoveu uma redução de 0,25 ponto percentual.

Na comunicação daquela reunião, o Copom já havia destacado a necessidade de cautela diante dos riscos fiscais e da persistência das expectativas de inflação acima da meta.

A manutenção dos juros em novembro permanece uma projeção do mercado, e não uma decisão previamente anunciada pela autoridade monetária.

Desemprego cai a 5,2%, mas resultado não impede perdas na Bolsa

O último dia útil de outubro também foi marcado pela divulgação de indicadores positivos do mercado de trabalho.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de desocupação ficou em 5,2% no trimestre encerrado em setembro de 2026, abaixo dos 5,4% observados no trimestre móvel anterior e dos 5,6% registrados no mesmo período de 2025.

O resultado representou a menor taxa para esse trimestre desde o início da série histórica comparável, em 2012.

O rendimento médio real habitual dos trabalhadores ocupados alcançou R$ 3.790, conforme os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua.

Apesar da melhora do emprego, os indicadores não foram suficientes para reverter a pressão sobre o mercado acionário.

A relação entre atividade econômica e preços dos ativos não é necessariamente direta. Um mercado de trabalho aquecido pode favorecer o consumo e as receitas empresariais, mas também pode influenciar as expectativas de inflação e a avaliação sobre a velocidade de redução dos juros.

No caso de outubro, as preocupações fiscais e a reorganização das posições após a eleição tiveram peso relevante nas decisões de investimento.

Vale (VALE3) avança após balanço, enquanto ações domésticas seguem pressionadas

Mesmo diante da queda mensal do Ibovespa, o encerramento de outubro apresentou diferenças importantes entre empresas e setores.

A Vale (VALE3) terminou a sexta-feira com valorização de 3,28%, a R$ 62,02, após a divulgação dos resultados do terceiro trimestre.

A mineradora informou Ebitda pro forma consolidado de US$ 3,5 bilhões e crescimento de 66% no resultado operacional do negócio de cobre, que alcançou aproximadamente US$ 1 bilhão.

A geração de fluxo de caixa livre recorrente foi de cerca de US$ 1,4 bilhão, apoiada por mecanismos de proteção financeira e gestão do capital de giro.

Outras ações também apresentaram valorização no último pregão, como CSN Mineração (CMIN3), Magazine Luiza (MGLU3) e Cosan (CSAN3).

Na direção contrária, Usiminas (USIM5), CSN (CSNA3) e B3 (B3SA3) registraram perdas expressivas na sessão.

Esses resultados mostram que o comportamento das ações não depende exclusivamente do ambiente macroeconômico. Informações específicas de cada companhia, como balanços, perspectivas operacionais e condições setoriais, também influenciam os preços negociados.

Novembro começa com foco na política fiscal e nas decisões do Banco Central

A abertura de novembro ocorre em um ambiente de maior cautela entre os investidores.

A definição dos integrantes da equipe econômica para o novo mandato presidencial estará entre os principais acontecimentos acompanhados pelo mercado, ao lado de anúncios sobre a trajetória das despesas públicas e a sustentabilidade fiscal.

Também serão avaliados os indicadores de inflação, os dados de atividade econômica e as próximas decisões do Copom.

No exterior, a temporada de balanços das empresas de tecnologia e os investimentos em infraestrutura de inteligência artificial continuam influenciando as bolsas internacionais.

O mercado brasileiro permanecerá fechado na segunda-feira, 2 de novembro, em razão do feriado de Finados. As negociações regulares serão retomadas na terça-feira (3).

O encerramento de outubro deixa três referências para o início do novo mês: o Ibovespa aos 167.921,80 pontos, o dólar comercial próximo de R$ 5,44 e a Selic em 13,75% ao ano.

Depois de iniciar outubro com recordes históricos na Bolsa, o mercado brasileiro termina o período com perdas expressivas nas ações e maior demanda por proteção cambial. A evolução dos preços em novembro dependerá das novas informações econômicas, fiscais e empresariais disponíveis aos investidores.

Fontes:

B3 — Dados oficiais de fechamento do Ibovespa em 30 de outubro de 2026, desempenho mensal e variações das ações negociadas.

B3 — Informações de 5 de outubro de 2026 sobre a valorização de 7,70% do Ibovespa e a máxima intradiária de 209.605,70 pontos.

B3 — Comunicado de 26 de outubro de 2026 sobre o acionamento do circuit breaker e suspensão temporária das negociações.

Banco Central do Brasil — Taxa Ptax de 30 de outubro de 2026 e histórico das cotações de referência do dólar.

Banco Central do Brasil — Comunicado da 281ª reunião do Copom, de setembro de 2026, e histórico da taxa Selic.

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística — Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, trimestre encerrado em setembro de 2026.

Tribunal Superior Eleitoral — Resultado oficial do segundo turno das eleições presidenciais de 25 de outubro de 2026.

Vale — Relatório de resultados financeiros e operacionais do terceiro trimestre de 2026.

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