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Ibovespa tenta interromper série de nove quedas com IBC-Br, eleições e Casas Bahia no radar

Bolsa oscila perto da estabilidade após perder mais de 6% em nove pregões; atividade desacelera, Focus mantém inflação acima do teto da meta e pesquisa mostra disputa apertada entre Lula e Flávio Bolsonaro

por Gabriel Monteiro
28/08/2026 às 12h48
em Notícias

O Ibovespa (IBOV) tenta interromper nesta segunda-feira (17) uma sequência de nove pregões consecutivos de queda, mas opera sem direção firme diante de uma combinação de desaceleração da atividade econômica, incerteza eleitoral, crise financeira no Grupo Casas Bahia (BHIA3), tensão no Estreito de Ormuz e expectativa pela divulgação da ata do Federal Reserve.

Por volta das 11h47, o principal índice da B3 operava praticamente estável, aos 166,9 mil pontos, enquanto o dólar recuava e era negociado na região de R$ 5,21. Mais cedo, o Ibovespa chegou a superar os 167 mil pontos. O movimento ocorre depois de uma sequência de nove quedas que acumulou perda superior a 6% e levou o índice de uma região próxima a 178 mil pontos para menos de 167 mil.

O mercado doméstico começou a semana diante de sinais contraditórios. O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) mostrou que a economia ainda cresceu no segundo trimestre, mas perdeu velocidade de maneira expressiva em relação aos três primeiros meses do ano. Ao mesmo tempo, o Relatório Focus manteve a previsão de inflação de 2026 acima do teto da meta, enquanto uma nova pesquisa presidencial confirmou um cenário de disputa apertada entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).

No ambiente corporativo, a recuperação judicial da Casas Bahia adicionou pressão sobre o varejo e sobre empresas dependentes de crédito. No exterior, o petróleo voltou a subir diante da redução do fluxo de navios no Estreito de Ormuz, enquanto investidores aguardam para quarta-feira (19) a ata da reunião de julho do Federal Reserve.

IBC-Br cai 0,6% em junho e mostra perda de força da economia

O dado doméstico mais importante do início do pregão veio do Banco Central. O IBC-Br recuou 0,6% em junho ante maio, considerando dados com ajuste sazonal. O resultado foi pior do que a queda de aproximadamente 0,5% esperada pelo mercado.

Mesmo com a contração no último mês do trimestre, o indicador avançou 0,2% entre abril e junho na comparação com os três primeiros meses do ano. O problema para o mercado está na velocidade dessa expansão.

No primeiro trimestre, o IBC-Br havia registrado alta de aproximadamente 1,2%. A passagem para avanço de apenas 0,2% no segundo trimestre representa uma desaceleração de cerca de 1 ponto percentual entre os dois períodos. É um sinal mais relevante do que a leitura isolada de junho porque sugere que o aperto monetário começa a aparecer de maneira mais clara na atividade.

Na composição trimestral calculada pelo Banco Central, a indústria avançou 0,5% e a agropecuária cresceu 0,3%, enquanto os serviços recuaram 0,1%. A perda de força desse último segmento merece atenção por sua elevada participação na economia brasileira.

A confirmação oficial sobre o Produto Interno Bruto virá em 1º de setembro, quando o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística divulgará as Contas Nacionais do segundo trimestre. O PIB havia crescido 1,1% nos três primeiros meses de 2026 em relação ao trimestre anterior.

Para a Bolsa, uma desaceleração moderada pode ter duas leituras. Por um lado, menor atividade prejudica receitas e lucros de empresas mais dependentes do ciclo doméstico. Por outro, uma economia perdendo força aumenta o espaço para o Banco Central continuar reduzindo os juros, desde que a inflação permita.

Focus mantém IPCA em 5,02% e Selic em 13,75%

A segunda peça dessa equação veio do Relatório Focus divulgado nesta segunda-feira. A mediana das projeções para o IPCA de 2026 permaneceu em 5,02%, interrompendo uma sequência de seis semanas consecutivas de redução das expectativas.

O número continua 0,52 ponto percentual acima do teto de 4,5% do intervalo de tolerância da meta de inflação, cujo centro é de 3%.

Para 2027, a situação piorou marginalmente. A estimativa para o IPCA subiu de 4,22% para 4,24%. Ao mesmo tempo, a previsão de expansão do PIB do próximo ano recuou pela quarta semana seguida, de 1,52% para 1,50%. Para 2026, o crescimento esperado permaneceu em 1,98%.

A combinação de inflação mais resistente e crescimento menor no horizonte de 2027 é desfavorável para ativos domésticos porque reduz a margem para uma queda acelerada dos juros.

O Focus manteve a projeção da Selic em 13,75% ao ano no fim de 2026, ante a taxa corrente de 14%. Isso significa que a mediana do mercado contempla apenas mais 0,25 ponto percentual de redução até dezembro. Para 2027, a projeção permanece em 12%.

O câmbio esperado para dezembro está em R$ 5,20 por dólar, praticamente na mesma região em que a moeda americana era negociada nesta manhã. Essa proximidade também reduz, no curto prazo, a percepção de uma grande distorção entre o preço corrente e a mediana das instituições consultadas pelo Banco Central.

Lula tem 47% e Flávio Bolsonaro 44% em eventual segundo turno

O componente político voltou a entrar diretamente nos preços nesta segunda-feira com a décima rodada da pesquisa BTG/Nexus.

No principal cenário de primeiro turno, Lula aparece com 41% das intenções de voto, contra 36% de Flávio Bolsonaro. Ronaldo Caiado tem 5%, enquanto Renan Santos e Romeu Zema aparecem com 4% cada.

Em uma simulação de segundo turno entre os dois principais candidatos, Lula registra 47%, ante 44% de Flávio Bolsonaro. Os números são os mesmos da pesquisa anterior.

A vantagem nominal é de três pontos percentuais, mas a margem de erro é de dois pontos para mais ou para menos. Os cenários possíveis dentro desse intervalo se sobrepõem, razão pela qual a disputa permanece tecnicamente equilibrada.

A Nexus entrevistou 2.003 eleitores por telefone entre 14 e 16 de agosto, nas 27 unidades da Federação. O levantamento tem nível de confiança de 95% e está registrado no TSE sob o número BR-03317/2026.

Outro dado acrescenta importância à pesquisa: 78% dos entrevistados que escolheram algum candidato afirmam que sua decisão já está tomada. Entre os eleitores de Lula, o percentual chega a 86%; entre os de Flávio Bolsonaro, a 82%.

Para o mercado, essa consolidação diminui a probabilidade de mudanças bruscas provocadas apenas pelo início da propaganda eleitoral, autorizada desde domingo (16), e aumenta a importância dos debates, das propostas econômicas e de eventuais choques políticos durante as próximas semanas.

Casas Bahia entra em recuperação judicial e ações desabam

No ambiente corporativo, o Grupo Casas Bahia (BHIA3) protocolou pedido de recuperação judicial na Justiça de São Paulo depois de uma forte deterioração de suas condições financeiras.

A companhia atribuiu a situação a um ambiente macroeconômico difícil, marcado por juros elevados, restrição de crédito, aumento dos custos de financiamento e pressão sobre o consumo. Também afirmou que tentativas de obtenção de novos recursos não tiveram sucesso.

As ações chegaram a cair cerca de 30% nos primeiros negócios após a divulgação do pedido, segundo dados reportados durante a manhã. A reação ampliou o estresse sobre o setor varejista e empresas com necessidade elevada de refinanciamento.

O pedido ocorreu depois de a Casas Bahia divulgar prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre de 2026, contra resultado negativo de R$ 555 milhões no mesmo período do ano anterior. A empresa também informou que já fechou 298 lojas dentro de seu processo de reestruturação.

A crise funciona como um exemplo extremo do efeito dos juros altos sobre companhias muito alavancadas. Se o crédito permanecer caro por mais tempo, o mercado tende a aumentar o prêmio de risco exigido para empresas dependentes de refinanciamento.

Ormuz mantém petróleo perto de US$ 90

O cenário internacional adiciona outra camada de volatilidade.

O petróleo Brent avançava cerca de 0,5%, para US$ 88,95 por barril, no início da tarde europeia, enquanto o WTI era negociado a US$ 82,65. Os dois contratos haviam acumulado valorização superior a 5% na semana anterior.

O principal fator permanece sendo o Estreito de Ormuz. Dados de rastreamento marítimo mostraram que cinco navios de commodities atravessaram a passagem no sábado e nenhum foi registrado no domingo, contra 31 no fim de semana anterior.

Antes do início do atual conflito envolvendo Irã e Estados Unidos, cerca de um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito transportados globalmente passava pela região. Qualquer interrupção mais severa pode elevar novamente os preços de energia, pressionar inflação mundial e dificultar cortes de juros por bancos centrais.

Para o Brasil, o petróleo possui efeito ambíguo. A valorização tende a favorecer Petrobras (PETR4) e outras empresas ligadas à produção da commodity, dando suporte ao Ibovespa, mas também pode aumentar pressões inflacionárias e prejudicar a curva de juros.

Ata do Fed ganha importância após três votos por alta de juros

Nos Estados Unidos, a próxima referência importante será divulgada na quarta-feira (19), quando o Federal Reserve publicará a ata da reunião realizada em 28 e 29 de julho.

O documento terá interesse adicional porque a decisão não foi unânime. O Comitê Federal de Mercado Aberto manteve a taxa dos Fed Funds entre 3,50% e 3,75%, mas aprovou a decisão por nove votos a três.

Os três dissidentes — Beth Hammack, Neel Kashkari e Lorie Logan — defenderam uma alta de 0,25 ponto percentual, e não um corte. O episódio mostra uma divisão de natureza mais restritiva dentro do banco central americano em meio a uma inflação ainda acima do objetivo de 2% e às pressões de energia provocadas pelo conflito no Oriente Médio.

A ata será divulgada às 14h em Washington, 15h pelo horário de Brasília. O próximo encontro do Fed está marcado para 15 e 16 de setembro.

Uma leitura mais dura pode fortalecer os juros dos títulos americanos e o dólar, dificultando a recuperação de ativos emergentes. Uma interpretação de que a maioria do Fed continua confortável com a estabilidade dos juros poderia produzir o efeito oposto.

Ibovespa precisa confirmar reação depois de nove quedas

A tentativa de recuperação desta segunda-feira ocorre, portanto, em um ponto delicado.

Depois de nove pregões negativos e queda acumulada superior a 6%, parte da pressão técnica sobre o Ibovespa pode estar madura para uma correção. Ao mesmo tempo, os fatores que provocaram a deterioração recente não desapareceram: o cenário eleitoral permanece aberto, a atividade desacelera, as expectativas de inflação seguem acima da meta e as empresas mais expostas ao crédito enfrentam juros ainda muito elevados.

O dólar recuando para a região de R$ 5,21 ajuda a aliviar parte da pressão, assim como a valorização do petróleo pode oferecer suporte às ações ligadas a commodities.

Mas o comportamento dos ativos nesta segunda-feira mostra que os investidores ainda não enxergam um catalisador suficientemente forte para uma reprecificação ampla. O desafio do Ibovespa deixa de ser apenas interromper a sequência de nove quedas e passa a ser demonstrar que existe força compradora suficiente para sustentar uma recuperação além de um único pregão.

Fontes:

Banco Central do Brasil — Índice de Atividade Econômica e Relatório Focus divulgados em 17 de agosto de 2026.

Nexus — décima rodada da pesquisa BTG/Nexus sobre a eleição presidencial de 2026.

Federal Reserve — comunicado da reunião de 28 e 29 de julho e calendário oficial de divulgação da ata do FOMC.

Grupo Casas Bahia — informações financeiras e comunicados relacionados ao processo de reestruturação.

Reuters — informações de mercado sobre a recuperação judicial da Casas Bahia, atividade econômica brasileira e mercado internacional de petróleo.

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