A intenção de compra de imóveis chegou a 52% das famÃlias brasileiras no segundo trimestre de 2026, o maior nÃvel da série histórica iniciada em 2019. O avanço, de três pontos percentuais sobre o mesmo perÃodo de 2025, ocorre em um mercado no qual o crédito continua condicionando o momento da aquisição e o tipo de imóvel que consegue atender ao orçamento dos compradores.
A pesquisa da Brain Inteligência Estratégica, divulgada pela Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc), estima que 21,9 milhões de famÃlias tenham intenção de comprar um imóvel. Desse total, 68% planejam realizar a aquisição em até dois anos. Aplicando os percentuais da própria pesquisa à estimativa nacional, cerca de 14,9 milhões de famÃlias estariam nesse horizonte, sendo aproximadamente 6,8 milhões com intenção de comprar em até um ano e 8,1 milhões entre um e dois anos.
O dado mostra que o interesse pela moradia continua elevado, mas também evidencia a diferença entre intenção e fechamento de negócio. A mesma pesquisa indica que 38% dos interessados ainda não iniciaram a busca por um imóvel. Apenas 10% já pesquisam unidades pela internet e 4% visitam imóveis presencialmente. Em números absolutos, são 4,3 milhões de famÃlias em busca online e 1,7 milhão realizando visitas.
A distância entre desejo e aquisição ganha importância em um ambiente de financiamento ainda restritivo. O Banco Central reduziu a taxa Selic para 13,75% ao ano em setembro, após o ciclo de cortes iniciado em 2026, mas o custo do dinheiro permanece em patamar elevado para uma compra que normalmente depende de financiamento de longo prazo.
Vendas avançam, mas o mercado não cresce de forma homogênea
Os dados de comercialização mostram que a demanda não ficou apenas no campo da intenção. As vendas de imóveis residenciais novos totalizaram 226.536 unidades no primeiro semestre, alta de 5,4% em relação à s 214.910 unidades registradas no mesmo perÃodo de 2025. Em termos absolutos, foram 11.626 unidades adicionais vendidas.
No segundo trimestre, as vendas chegaram a 113.676 unidades, aumento de 5,3% sobre as 107.924 unidades comercializadas um ano antes. O número também ficou 0,7% acima do primeiro trimestre de 2026.
O desempenho das vendas, porém, contrasta com a estabilidade dos lançamentos. Entre janeiro e junho, foram lançadas 211.651 unidades, contra 212.338 no primeiro semestre de 2025, uma redução de apenas 0,3%. Ou seja, enquanto as vendas cresceram 5,4%, a quantidade de novos produtos colocados no mercado permaneceu praticamente estável.
No segundo trimestre, essa diferença também apareceu: foram 107.161 lançamentos, queda de 1,3% em relação ao mesmo perÃodo de 2025. O resultado sugere que o avanço da comercialização não decorreu de uma expansão equivalente da oferta de novos empreendimentos.
O Minha Casa, Minha Vida concentra parte relevante dessa atividade. Das 113.676 unidades vendidas no segundo trimestre, 58.392 estavam enquadradas no programa, o equivalente a cerca de 51,4% do total. O programa também representou 58% dos lançamentos do trimestre, maior participação da série histórica iniciada em 2019.
A concentração no segmento habitacional subsidiado ajuda a explicar por que os indicadores agregados do mercado podem apresentar crescimento mesmo em um cenário de crédito caro. O comportamento das vendas depende não apenas do custo do financiamento, mas também da composição da demanda, das condições de acesso aos programas habitacionais e do preço dos imóveis disponÃveis em cada faixa de renda.
Crédito muda o perfil do imóvel procurado
Outro indicador ajuda a dimensionar o efeito das condições financeiras sobre as escolhas dos compradores. No primeiro semestre, o volume de financiamentos para aquisição de imóveis com recursos do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE) chegou a R$ 67,2 bilhões, aumento de 12% ante os R$ 60,1 bilhões registrados no mesmo perÃodo de 2025.
Considerando aquisição e construção, os financiamentos do SBPE somaram R$ 93,7 bilhões no semestre, alta de 29% em relação aos R$ 72,9 bilhões de um ano antes. O crédito para construção avançou 107%, passando de R$ 12,8 bilhões para R$ 26,5 bilhões, enquanto o volume destinado à aquisição cresceu em ritmo menor.
Mesmo com o aumento do crédito, a composição das operações mostra uma migração relevante para o mercado secundário. Dados da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip) apontam que mais de 160 mil financiamentos para aquisição foram concedidos a pessoas fÃsicas no primeiro semestre, dos quais 70% tiveram como destino imóveis usados. Isso equivale, em ordem de grandeza, a mais de 112 mil operações nessa categoria.
A preferência pelos usados não significa necessariamente redução do interesse pelos imóveis novos. Ela indica que preço, parcela mensal, valor de entrada e disponibilidade de produtos interferem na conversão da intenção em compra.
A própria pesquisa da Brain mostra diferença entre o imóvel desejado e aquele efetivamente adquirido. A casa em rua é escolhida por 38% dos entrevistados como tipo de imóvel preferido, mas representa 26% das compras. Já o apartamento é desejado por 40% e responde por 41% das aquisições. A pesquisa atribui esse descompasso à combinação entre orçamento, oferta disponÃvel e urgência da decisão.
Esse comportamento também aparece nas razões para comprar. Sair do aluguel foi citado por 37% dos entrevistados, contra 28% um ano antes. Deixar a casa dos pais correspondeu a 15%, enquanto a busca por mais espaço representou 14%. A compra para investimento respondeu por 13% das motivações.
A mudança é relevante para o mercado porque parte expressiva da demanda não está associada apenas à expectativa de valorização dos imóveis. A decisão está relacionada também a formação de famÃlia, mudança de residência e necessidade de adaptação da moradia à renda e à rotina.
Oferta regional mostra concentração em unidades menores
Os números de Maringá, no Paraná, ajudam a ilustrar como a oferta vem se ajustando aos diferentes perfis de demanda. Levantamento do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Paraná – Região Noroeste (Sinduscon-PR/Noroeste), em parceria com a Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), identificou 97 edifÃcios residenciais em construção na cidade até junho, totalizando 11.823 apartamentos e aproximadamente 1,5 milhão de metros quadrados de área construÃda.
Do total de unidades em execução, 6.186 tinham até 55 metros quadrados. Isso representa cerca de 52,3% dos apartamentos em construção, ou pouco mais da metade de toda a oferta em obras. Outras 3.259 unidades estavam na faixa entre 55,01 e 80 metros quadrados.
Os apartamentos de dois dormitórios somavam 4.149 unidades, equivalentes a aproximadamente 35% do total. Os de três dormitórios chegavam a 3.302, enquanto havia 1.452 studios e 1.385 apartamentos de um dormitório. Na outra ponta, 344 unidades tinham mais de 180 metros quadrados.
A distribuição demonstra que o mercado não está produzindo um único tipo de imóvel. Há concentração nos produtos compactos e de dois dormitórios, mas permanecem empreendimentos destinados a famÃlias que demandam áreas maiores.
Maringá tinha ainda 28 empreendimentos em fase de lançamento ou aprovação, somando 4.986 unidades. Outros 20 projetos haviam sido entregues em 2026 até o perÃodo considerado pela sondagem, com 1.614 apartamentos. O levantamento também registrava 12.003 trabalhadores com carteira assinada no setor da construção civil em maio.
O retrato regional reforça uma caracterÃstica do ciclo imobiliário de 2026: a oferta reage à s condições de mercado, mas precisa equilibrar custo de produção, preço final e capacidade de pagamento do comprador. O fato de uma unidade estar em construção, portanto, não significa que ela seja necessariamente compatÃvel com o perfil de todas as famÃlias que manifestam intenção de compra.
Recorde de interesse não elimina a barreira da entrada
A pesquisa nacional aponta ainda uma concentração regional da intenção de compra. O Nordeste registra 59%, enquanto Centro-Oeste e Norte aparecem com 53%. O Sul chega a 49% e o Sudeste a 47%. Pela renda, o indicador ficou próximo de 52% na maior parte das faixas, mas alcançou 58% entre famÃlias com renda superior a R$ 20 mil mensais.
O dado reforça que o interesse imobiliário está disseminado, mas não significa que o potencial de compra tenha a mesma capacidade financeira em todas as regiões ou faixas de renda. O impacto do crédito sobre o orçamento tende a ser maior quanto maior for a dependência do financiamento e menor for a capacidade de formar uma entrada elevada.
Ao mesmo tempo, o mercado de crédito mostra que os recursos continuam fluindo. Os R$ 93,7 bilhões financiados pelo SBPE para aquisição e construção no primeiro semestre representam avanço de 29% sobre o ano anterior, enquanto as concessões para compra atingiram R$ 67,2 bilhões.
O que mudou, portanto, não é simplesmente a existência de demanda ou de crédito. O principal movimento está na forma como compradores e empresas se ajustam à s condições financeiras. FamÃlias interessadas podem alongar o prazo de decisão, buscar imóveis menores, aumentar a entrada ou recorrer ao mercado de usados. Incorporadoras, por sua vez, precisam dimensionar os lançamentos de acordo com a capacidade de absorção de cada segmento.
A intenção de compra recorde amplia o mercado potencial, mas não transforma automaticamente todas essas famÃlias em compradores no curto prazo. O próprio levantamento mostra que uma parcela expressiva ainda não iniciou a busca, enquanto os indicadores de crédito e vendas apontam concentração em produtos e modalidades especÃficos.
Para o restante de 2026, a combinação entre juros, renda, disponibilidade de crédito, preço dos imóveis e oferta por faixa de valor seguirá sendo determinante para saber quanto dos 52% de intenção se converterá em contratos efetivamente fechados. O dado mais imediato, porém, já está estabelecido: a demanda potencial atingiu o maior nÃvel da série, enquanto a compra efetiva continua sendo filtrada pelas condições de financiamento e pela oferta disponÃvel.
Fontes:
Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias e Brain Inteligência Estratégica – pesquisa nacional de intenção de compra de imóveis do segundo trimestre de 2026, incluindo intenção, horizonte de compra, motivações e perfil dos compradores
Câmara Brasileira da Indústria da Construção e Brain Inteligência Estratégica – Indicadores Imobiliários Nacionais do segundo trimestre de 2026, com dados de lançamentos, vendas e participação do Minha Casa, Minha Vida
Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança – dados de financiamento imobiliário pelo SBPE no primeiro semestre de 2026 e composição das operações por imóveis novos e usados
Banco Central do Brasil – histórico das decisões do Copom e da taxa Selic vigente em setembro de 2026
SindusCon-PR/Noroeste e Fiep – Sondagem do Mercado Imobiliário de Maringá, com dados de obras, unidades em construção, perfil das metragens e emprego na construção civil










