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Juros futuros recuam após disparada e Tesouro anuncia nova recompra de títulos públicos

Taxas de contratos de DI chegam a superar 15% ao ano, enquanto Tesouro Nacional cancela leilões de venda e amplia medidas para reduzir a volatilidade no mercado de renda fixa.

por Camila Braga
27/10/2026 às 12h29
em Mercados
Juros Futuros Fecham Em Alta Pela 5ª Vez Seguida Com Payroll

Os juros futuros brasileiros operam em queda na manhã desta terça-feira, 27 de outubro de 2026, após registrarem forte alta no pregão anterior, marcado pela reação dos investidores à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O movimento ocorre em meio a novas medidas anunciadas pelo Tesouro Nacional para preservar o funcionamento do mercado de títulos públicos, além do recuo do dólar e dos rendimentos dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos.

O Tesouro comunicou o cancelamento do leilão tradicional de Letras Financeiras do Tesouro (LFT), títulos públicos remunerados pela taxa Selic, que estava previsto para esta terça-feira. O órgão também anunciou uma nova operação de recompra de Notas do Tesouro Nacional – Série B (NTN-B), papéis cuja remuneração está vinculada à inflação medida pelo IPCA.

A atuação dá continuidade às medidas adotadas na segunda-feira (26), quando o mercado brasileiro enfrentou intensa volatilidade após a confirmação do resultado das eleições presidenciais. Na ocasião, os contratos de juros futuros registraram movimentos superiores a 200 pontos-base em determinados vencimentos, refletindo uma rápida reavaliação das condições econômicas e financeiras pelos investidores.

Às 9h10 desta terça-feira, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 recuava de 13,696% para 13,685% ao ano. O DI para janeiro de 2029 caía de 15,223% para 15,150%, enquanto o vencimento de janeiro de 2031 passava de 15,279% para 15,195%.

Os movimentos representam quedas de 1,1 ponto-base, 7,3 pontos-base e 8,4 pontos-base, respectivamente. Apesar da correção, as taxas dos vencimentos mais longos continuavam acima de 15% ao ano, indicando que o mercado ainda exigia remuneração elevada para assumir riscos relacionados aos próximos anos.

Tesouro cancela leilão de LFT e anuncia recompra de NTN-B

A nova intervenção do Tesouro Nacional envolve duas decisões destinadas a administrar as condições de negociação da dívida pública federal.

A primeira foi o cancelamento do leilão regular de LFT, inicialmente previsto para terça-feira. Esses títulos acompanham a taxa básica de juros e representam uma das modalidades utilizadas pelo governo federal para financiar suas necessidades de recursos.

A segunda medida foi o anúncio de um leilão extraordinário de recompra de NTN-B, com vencimentos em 15 de agosto de 2030, 15 de maio de 2035, 15 de agosto de 2040 e 15 de maio de 2045.

A operação permite que o Tesouro adquira títulos anteriormente vendidos a investidores, oferecendo uma alternativa de liquidez aos participantes do mercado que desejam reduzir suas posições.

Em condições normais, o Tesouro realiza leilões de venda para captar recursos e administrar o financiamento da dívida pública. Em momentos de estresse, entretanto, pode atuar na direção contrária, recomprando títulos para facilitar as negociações e reduzir situações de desequilíbrio entre compradores e vendedores.

Esse mecanismo é particularmente relevante quando ocorre uma queda rápida nos preços dos papéis públicos. Como os preços e as taxas de rendimento desses títulos apresentam relação inversa, uma onda de vendas pode provocar elevações expressivas dos juros exigidos pelos investidores.

A recompra não garante, isoladamente, a redução das taxas de mercado. Seu efeito depende das condições de negociação, do volume de títulos adquirido e da reação dos demais participantes.

Medidas começaram após forte turbulência na segunda-feira

As intervenções desta terça-feira representam a continuidade de uma atuação iniciada na sessão anterior, quando o Tesouro Nacional anunciou o cancelamento dos leilões tradicionais de títulos prefixados e vinculados à inflação programados para esta semana.

Na segunda-feira, a instituição também promoveu duas operações extraordinárias de recompra de títulos públicos, abrangendo papéis prefixados e indexados ao IPCA.

A primeira operação envolveu Notas do Tesouro Nacional – Série F (NTN-F), títulos prefixados com pagamento periódico de juros. A segunda foi direcionada às NTN-B, modalidade que oferece remuneração composta pela variação da inflação e por uma taxa real de juros.

Essas operações buscam ampliar a liquidez em segmentos do mercado que enfrentam pressões de venda. Quando muitos investidores tentam se desfazer simultaneamente de títulos, a redução da demanda pode provocar quedas acentuadas de preços e dificultar a formação de taxas de referência.

O cancelamento temporário de novas ofertas também evita acrescentar títulos ao mercado em um momento de demanda enfraquecida.

A decisão não representa a suspensão do pagamento da dívida pública nem o descumprimento de obrigações do governo federal. Trata-se de uma alteração na programação de operações de mercado, instrumento previsto na gestão da dívida pública.

O Tesouro mantém autonomia operacional para ajustar as características e o calendário de seus leilões conforme as condições de financiamento e a demanda dos participantes.

Juros futuros de 2029 e 2031 seguem acima de 15% ao ano

Embora as taxas tenham recuado na abertura desta terça-feira, os contratos de vencimento mais longo permanecem em níveis elevados.

O DI para janeiro de 2029 era negociado a 15,150% ao ano no horário considerado, enquanto o DI de janeiro de 2031 apresentava taxa de 15,195%.

Esses contratos são utilizados por bancos, investidores institucionais e empresas para administrar a exposição às oscilações dos juros. As taxas negociadas refletem a combinação de expectativas sobre a trajetória da política monetária e de prêmios exigidos pelos participantes para assumir riscos.

Os vencimentos mais próximos costumam ser mais sensíveis às decisões esperadas do Comitê de Política Monetária (Copom). Já os contratos longos incorporam, de maneira mais ampla, incertezas relativas à inflação, às contas públicas, às condições internacionais e ao financiamento da dívida.

A permanência das taxas acima de 15% nos vencimentos de 2029 e 2031 sinaliza que a correção observada nesta manhã ainda não eliminou a pressão acumulada sobre a curva de juros.

É importante distinguir essas taxas da Selic efetiva. Os contratos de DI futuro representam preços negociados para diferentes prazos e não correspondem a decisões já tomadas pelo Banco Central sobre a taxa básica de juros.

Dólar e juros dos Estados Unidos também recuam

O movimento dos juros brasileiros ocorre em uma sessão de correção parcial de preços em diferentes mercados.

Além da queda dos contratos de DI, o dólar apresenta recuo em relação ao real, depois da forte valorização registrada na segunda-feira. Os rendimentos dos títulos do Tesouro norte-americano, conhecidos como Treasuries, também operam em baixa, enquanto as cotações internacionais do petróleo perdem força.

Os rendimentos dos títulos públicos dos Estados Unidos são utilizados como referência para o custo global do dinheiro. Quando essas taxas recuam, pode haver redução da pressão sobre ativos de países emergentes, embora o resultado dependa de fatores específicos de cada economia.

No Brasil, a taxa de câmbio exerce influência adicional sobre o mercado de juros. Uma valorização expressiva do dólar pode elevar os preços de produtos importados e pressionar expectativas de inflação, afetando as projeções para a política monetária.

A redução do dólar e dos rendimentos dos Treasuries, portanto, contribui para um ambiente internacional menos pressionado nesta manhã. Isso não significa, porém, que as oscilações dos juros brasileiros estejam relacionadas exclusivamente aos movimentos externos.

A percepção dos investidores sobre a política fiscal e a trajetória da dívida pública permanece entre os principais fatores domésticos acompanhados pelo mercado financeiro.

Reeleição de Lula provoca reavaliação de expectativas no mercado

A forte movimentação dos ativos brasileiros começou na segunda-feira, primeiro pregão após a confirmação da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno das eleições presidenciais, realizado em 25 de outubro.

O resultado desencadeou uma revisão rápida dos preços de ações, câmbio e contratos de juros, em um ambiente de incerteza sobre as prioridades econômicas do novo mandato.

No mercado de renda fixa, a reação foi observada principalmente na elevação das taxas exigidas para títulos de prazos mais longos, que são particularmente sensíveis às expectativas fiscais e inflacionárias.

Investidores acompanham possíveis mudanças na condução da política econômica, nas metas fiscais e nas medidas de controle de despesas, além das perspectivas para a relação entre dívida pública e Produto Interno Bruto (PIB).

Esses fatores influenciam o prêmio de risco incorporado às taxas de juros de longo prazo. Quanto maior a percepção de incerteza sobre a trajetória das contas públicas, maior pode ser a remuneração exigida para financiar o governo.

A correção parcial desta terça-feira não permite concluir que o mercado tenha encerrado o processo de reavaliação dos riscos. Os preços continuam sujeitos a alterações ao longo do pregão e às informações econômicas e políticas divulgadas nos próximos dias.

Por que a alta dos juros futuros afeta empresas e consumidores?

As oscilações da curva de juros têm consequências que vão além das negociações entre instituições financeiras.

Os contratos de DI funcionam como referência para operações de crédito, instrumentos de renda fixa e estratégias de proteção contra variações das taxas de juros. Quando as taxas futuras aumentam de maneira persistente, o custo de captação de recursos tende a ficar mais elevado.

Para as empresas, isso pode representar despesas financeiras maiores na emissão de debêntures, na contratação de financiamentos e na rolagem de dívidas existentes.

Setores que dependem de crédito de longo prazo, como construção civil, infraestrutura e atividades intensivas em investimentos, costumam ser especialmente sensíveis às alterações nas taxas futuras.

Para consumidores, a transmissão pode ocorrer por meio das taxas cobradas em financiamentos imobiliários, empréstimos pessoais e operações de crédito ao consumo. Entretanto, a intensidade e a velocidade dessa transmissão dependem das condições de mercado e das políticas de crédito de cada instituição financeira.

Os juros futuros também afetam o preço de ativos financeiros. Quando as taxas de mercado sobem, os preços de títulos prefixados e indexados à inflação já emitidos tendem a cair, especialmente os de maior prazo.

Esse movimento é conhecido como marcação a mercado e pode produzir oscilações no valor das carteiras de investidores que possuem títulos públicos, fundos de renda fixa e outros instrumentos de dívida.

Mercado acompanha novas operações do Tesouro e trajetória dos juros

A atenção dos investidores permanece concentrada nas medidas de gestão da dívida pública, na liquidez do mercado de títulos e na evolução da curva de juros ao longo desta terça-feira.

A decisão do Tesouro de cancelar os leilões tradicionais da semana e anunciar novas recompras representa uma tentativa de preservar as condições de negociação após a forte volatilidade registrada na sessão anterior.

A continuidade da queda dos juros, entretanto, dependerá de fatores que incluem o comportamento do câmbio, as condições internacionais, a demanda por títulos públicos e as expectativas para a política econômica brasileira.

As taxas apresentadas nesta reportagem correspondem às negociações registradas às 9h10 de 27 de outubro de 2026 e não representam os valores de fechamento do pregão.

Fontes:

Secretaria do Tesouro Nacional — Informações sobre leilões da Dívida Pública Federal e operações de recompra de títulos públicos.

Secretaria do Tesouro Nacional — Comunicados de 26 e 27 de outubro de 2026 sobre alterações nos leilões de títulos públicos.

B3 — Especificações oficiais do contrato futuro de taxa média de Depósitos Interfinanceiros de um dia (DI1).

Banco Central do Brasil — Sistema Especial de Liquidação e de Custódia (Selic), utilizado nas operações com títulos públicos federais.

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