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Justiça manda devolver bilhões da conta de luz e derruba ações de elétricas na B3

Decisão do TRF1 sobre indenizações da RBSE aumenta incerteza regulatória e afeta transmissoras de energia

por Alice Nascimento
29/05/2026 às 14h37
em Empresas
Justiça Manda Devolver Bilhões Da Conta De Luz E Derruba Ações De Elétricas Na B3-Gazeta Mercantil

conta de luz (Foto: Marcello Casal Jr / Agência Brasil)

Uma decisão da 7ª Turma do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) provocou forte repercussão no setor elétrico e pressionou ações de transmissoras de energia na B3 nesta semana. O tribunal determinou a anulação parcial de uma portaria federal relacionada às indenizações bilionárias da chamada RBSE (Rede Básica do Sistema Existente), mecanismo criado após a renovação antecipada de contratos de transmissão no governo Dilma Rousseff. A medida prevê que valores já pagos pelas tarifas de energia sejam compensados aos consumidores.

A decisão atingiu diretamente empresas que ainda possuem fluxos bilionários de recebimento vinculados à RBSE, como ISA Energia Brasil (ISAE4) e Axia Energia (AXIA3). Após a divulgação do julgamento, as ações preferenciais da ISA Energia encerraram o pregão em queda de 1,44%, cotadas a R$ 27,38. Já os papéis da Axia Energia recuaram 1,76%, a R$ 52,57.

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No mesmo pregão, a Taesa (TAEE11), outra companhia relevante do segmento de transmissão, destoou do movimento negativo e avançou 0,95%, fechando a R$ 39,37.

O caso reacendeu discussões sobre segurança regulatória, previsibilidade tarifária e riscos jurídicos no setor elétrico brasileiro, um dos segmentos historicamente mais defensivos da Bolsa brasileira.

Leia também: Ações da Intel: governo dos EUA compra 10% de participação e empresa alerta para riscos.

RBSE volta ao centro da disputa regulatória no setor elétrico

A controvérsia envolve a RBSE, mecanismo criado para indenizar transmissoras de energia após a renovação antecipada das concessões estabelecida pela Medida Provisória 579, editada em 2012 durante o governo da ex-presidente Dilma Rousseff.

Na prática, o modelo permitiu que empresas do setor continuassem recebendo compensações financeiras relacionadas a ativos já existentes da rede básica de transmissão. Esses pagamentos passaram a ser incorporados às tarifas cobradas dos consumidores de energia elétrica.

Desde então, o tema se transformou em um dos principais debates regulatórios do setor elétrico, envolvendo transmissoras, consumidores, associações empresariais, Aneel e União.

O julgamento do TRF1 analisou ações ajuizadas entre 2017 e 2018 por grandes consumidores industriais e geradores de energia contra a União e a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Entre os autores dos processos estão CSN (CSNA3), Intercast, DMA, Tecnosider e a Abragel, associação ligada às geradoras de energia renovável.

A decisão judicial determinou que parte dos valores pagos às transmissoras seja compensada aos consumidores, o que elevou preocupações sobre eventuais revisões futuras na estrutura de ressarcimento da RBSE.

Mercado reage com cautela após decisão do TRF1

Apesar da reação negativa das ações ligadas ao segmento de transmissão, parte do mercado financeiro avalia que o impacto estrutural pode ser limitado.

Analistas do Bradesco BBI classificaram o episódio como “marginalmente negativo”, mas consideram que a decisão tende a gerar mais ruído regulatório do que uma mudança efetiva na dinâmica do setor elétrico.

Segundo o banco, o entendimento do tribunal beneficia especificamente os autores das ações judiciais e, caso seja mantido nas instâncias superiores, as transmissoras poderiam ser obrigadas a devolver apenas valores relacionados ao chamado “ajuste Ke” referentes ao período entre 2012 e meados de 2017.

Na avaliação dos analistas, os impactos sobre ISA Energia Brasil (ISAE4) e Auren Energia (AURE3) seriam limitados no cenário atual.

O mercado também foi surpreendido porque, em primeira instância, a Justiça havia mantido integralmente a estrutura da RBSE sem alterações.

A mudança de entendimento elevou as preocupações sobre judicialização do setor elétrico justamente em um momento em que empresas de transmissão vinham sendo vistas como ativos defensivos em meio à volatilidade econômica global.

Investidores monitoram efeitos sobre tarifas e fluxo de caixa

A principal preocupação do mercado envolve os possíveis reflexos da decisão sobre fluxo de caixa futuro das transmissoras e sobre a previsibilidade tarifária do setor.

A RBSE representa uma fonte relevante de receitas para parte das companhias de transmissão, especialmente empresas que participaram do processo de renovação antecipada das concessões.

Caso haja mudanças mais profundas no modelo de compensação, investidores avaliam que pode haver impacto sobre dividendos, geração de caixa e percepção de risco regulatório das companhias.

Empresas do setor elétrico tradicionalmente são consideradas investimentos defensivos devido à previsibilidade das receitas reguladas e ao forte pagamento de dividendos. Qualquer mudança judicial envolvendo regras tarifárias costuma provocar reação imediata do mercado.

Analistas também acompanham possíveis efeitos indiretos sobre futuras concessões de transmissão e sobre o custo de capital do setor.

A percepção de insegurança regulatória pode afetar o apetite de investidores por novos leilões de infraestrutura elétrica, segmento considerado estratégico para expansão do sistema energético brasileiro.

Setor prepara recursos no STJ e possível disputa no STF

Entidades representativas do setor elétrico e empresas afetadas devem recorrer da decisão nas próximas semanas.

A Associação Brasileira das Empresas de Transmissão de Energia Elétrica (Abrate) e as transmissoras avaliam levar o caso ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) e, eventualmente, ao Supremo Tribunal Federal (STF).

Além dos recursos, as empresas também devem solicitar suspensão da liminar para impedir que eventuais recalculos da RBSE sejam incorporados já no ciclo tarifário de 2026 e 2027.

Durante a sustentação oral no TRF1, a Advocacia-Geral da União (AGU) atuou em defesa da manutenção integral do modelo atual da RBSE.

O envolvimento da AGU demonstra a relevância econômica e institucional do tema para o governo federal, uma vez que mudanças tarifárias podem afetar diretamente consumidores, empresas do setor elétrico e equilíbrio regulatório do mercado de energia.

Especialistas do setor observam que a disputa tende a se prolongar por vários anos nos tribunais superiores devido ao volume financeiro envolvido e à complexidade regulatória do caso.

ISA Energia e transmissoras seguem no radar do mercado

A ISA Energia Brasil (ISAE4) permanece como uma das companhias mais expostas ao debate envolvendo RBSE. A empresa possui participação relevante em ativos de transmissão e segue sendo acompanhada de perto por investidores institucionais.

Mesmo após a queda recente das ações, parte dos analistas ainda considera que o mercado não trabalha com cenário de reversão estrutural completa da RBSE.

Os investidores também acompanham o andamento de projetos de expansão da companhia, incluindo investimentos bilionários em infraestrutura de transmissão.

A Axia Energia (AXIA3), outra empresa impactada pela decisão, também entrou no radar dos investidores devido ao potencial efeito sobre receitas futuras vinculadas ao mecanismo de compensação.

A Taesa (TAEE11), apesar da valorização no pregão, permanece entre as empresas monitoradas pelo mercado diante da possibilidade de novos desdobramentos judiciais envolvendo transmissoras.

O setor elétrico brasileiro continua sendo considerado estratégico para investidores locais e estrangeiros, especialmente por conta da previsibilidade operacional e da demanda estrutural crescente por energia.

Ainda assim, decisões judiciais envolvendo contratos, indenizações e regras tarifárias tendem a aumentar a volatilidade no curto prazo.

Decisão amplia debate sobre segurança jurídica no setor elétrico

O julgamento do TRF1 recolocou no centro das discussões um tema sensível para o mercado de infraestrutura: a segurança jurídica dos contratos regulados no Brasil.

A possibilidade de revisão de mecanismos tarifários implementados há mais de uma década levanta preocupações sobre estabilidade regulatória e previsibilidade para investidores de longo prazo.

O setor elétrico depende fortemente de investimentos bilionários em transmissão, geração e distribuição, normalmente financiados com horizonte de retorno de várias décadas.

Nesse contexto, mudanças judiciais que possam alterar premissas econômicas previamente estabelecidas tendem a elevar a percepção de risco do segmento.

Embora o mercado ainda avalie que os impactos financeiros imediatos possam ser limitados, o caso da RBSE passa a ser acompanhado como um teste importante para o ambiente regulatório brasileiro.

Os próximos movimentos do STJ e eventualmente do STF devem definir se a disputa permanecerá restrita aos autores das ações ou se poderá abrir precedentes mais amplos para revisão de compensações tarifárias no setor elétrico.

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