A Axia Energia (AXIA3) aprovou em 22 de setembro a quarta operação de resgate ou conversão de ações preferenciais classe C (PNC), envolvendo 70.716.228 papéis, equivalentes a 15,46% dessa classe. O valor de referência da operação é de R$ 3,9 bilhões, com preço de R$ 55,15 por ação PNC, correspondente ao fechamento das ações ordinárias da companhia no pregão de 21 de setembro.
A decisão amplia a execução do mecanismo criado pela companhia para reduzir gradualmente a participação das PNCs em sua estrutura de capital. Os titulares dos papéis incluÃdos na operação poderão, em vez de receber o resgate, optar pela conversão total ou parcial em ações ordinárias, na proporção de uma ação ordinária para cada PNC. O perÃodo para manifestação vai de 28 a 30 de setembro, enquanto a entrega das ações ordinárias decorrentes da conversão está prevista para 2 de outubro.
O pagamento aos acionistas que permanecerem com a alternativa de resgate está previsto para 8 de outubro. As PNCs tiveram data de corte em 23 de setembro e passaram a ser negociadas ex-direitos a partir de 24 de setembro. Para os detentores de American Depositary Receipts (ADRs) lastreados nas PNCs, não há opção de conversão: os papéis correspondentes serão obrigatoriamente resgatados, e o pagamento será feito pelo depositário em até sete dias úteis após a liquidação para os titulares das ações negociadas na B3.
A operação anunciada em setembro deve ser distinguida da aprovação orçamentária de capital feita pela Axia ao longo do primeiro semestre. Em maio, o conselho havia aprovado até R$ 4 bilhões de capital alocável para o resgate de PNCs ao longo de 2026, mas a própria companhia esclareceu que esse valor era uma previsão orçamentária, e não uma obrigação de realizar resgates nesse montante. Em agosto, após a divulgação do resultado do segundo trimestre, a empresa informou uma nova parcela de até R$ 3,7 bilhões, levando o capital alocável referente ao primeiro semestre a até R$ 7,7 bilhões.
Operação de setembro é a quarta desde a criação das PNCs
O programa de resgate e conversão começou em junho, quando a Axia executou uma primeira operação de apenas R$ 30 milhões. A companhia adotou uma operação inicial reduzida porque o mecanismo ainda era inédito e serviria para testar os procedimentos operacionais antes das etapas seguintes. Na primeira rodada, foram resgatadas 576.923 PNCs, ao preço de R$ 52 por ação.
A segunda operação foi aprovada em agosto, envolvendo 37.237.014 PNCs e valor de referência de R$ 2 bilhões. Naquela etapa, os acionistas também tiveram a possibilidade de converter seus papéis em ações ordinárias, em vez de receber o pagamento do resgate. O cronograma foi posteriormente utilizado pela companhia para estabelecer procedimentos padronizados para as operações seguintes.
Na terceira rodada, aprovada em setembro, a companhia anunciou o resgate de 111.591.072 PNCs, equivalente a R$ 6,2 bilhões no valor bruto da operação. O resultado efetivo, porém, mostrou a importância da opção de conversão: 69.886.551 ações foram convertidas em ordinárias, enquanto 41.648.420 PNCs foram efetivamente resgatadas e canceladas, levando a uma liquidação financeira de cerca de R$ 2,31 bilhões.
A diferença entre o valor nominal da terceira operação e o desembolso efetivo ajuda a explicar a dinâmica do programa. O montante anunciado para uma rodada representa o valor das PNCs elegÃveis ao resgate, mas o acionista pode substituir o recebimento em dinheiro pela conversão para ações ordinárias. Assim, a cifra máxima de uma operação não equivale necessariamente ao dinheiro que sairá do caixa da empresa.
Conversão reduz a necessidade de desembolso em dinheiro
A estrutura criada pela Axia combina resgate financeiro com conversão societária. O conselho de administração pode definir o volume de PNCs abrangido por cada operação, enquanto o preço de resgate corresponde ao fechamento das ações ordinárias no pregão imediatamente anterior à deliberação. Para o acionista, a alternativa é receber o valor estipulado ou transformar total ou parcialmente sua posição em ações ordinárias.
Essa caracterÃstica produz efeitos diferentes sobre a estrutura de capital e sobre o caixa. Quando ocorre a conversão, a empresa reduz a quantidade de ações preferenciais sem realizar o desembolso correspondente ao resgate. Quando o investidor opta pelo pagamento, ocorre a saÃda financeira e o cancelamento das PNCs resgatadas. O comportamento dos acionistas, portanto, determina quanto do valor bruto anunciado em cada rodada se transforma efetivamente em pagamento.
A terceira operação oferece o exemplo mais claro dessa mecânica. Do total de mais de 111,5 milhões de PNCs originalmente envolvidas, quase 70 milhões foram convertidas em ações ordinárias. Com isso, o pagamento efetivo ficou muito abaixo dos R$ 6,2 bilhões inicialmente associados à operação.
Na quarta rodada, a relação será novamente definida pelas manifestações dos titulares entre 28 e 30 de setembro. Caso todas as ações incluÃdas sejam resgatadas, o desembolso associado à operação chegará ao valor de aproximadamente R$ 3,9 bilhões. Caso parte dos acionistas escolha a conversão, a saÃda de caixa será inferior ao valor bruto anunciado.
Programa está ligado à reorganização da estrutura de capital
As ações preferenciais classe C foram criadas em dezembro de 2025, quando uma assembleia extraordinária aprovou a reorganização societária da antiga Eletrobras. Na ocasião, a companhia aprovou a emissão de 606.796.117 PNCs por meio de bonificação, usando R$ 30 bilhões das reservas de lucro para a capitalização. As novas ações foram distribuÃdas segundo a proporção estabelecida pela operação societária.
As PNCs têm caracterÃsticas próprias. Elas possuem direito a voto, participação igualitária nos dividendos em relação à s ações ordinárias. O desenho societário prevê que as ações sejam convertidas e/ou resgatadas gradualmente, com conclusão do processo até 2031. Para 2026, a apresentação da companhia estabelece volume mÃnimo de conversão equivalente a 4% das PNCs, mesma referência indicada para cada ano entre 2027 e 2030; em 2031, as ações remanescentes entram na etapa final do processo.
A companhia concluiu em junho sua migração para o Novo Mercado da B3. Com a mudança, a estrutura passou a concentrar as ações ordinárias no código AXIA3 e as PNCs no código AXIA7. A migração também fez parte do esforço de simplificação da estrutura societária e de redução das diferentes classes de ações existentes anteriormente.
Base acionária das PNCs diminuiu antes da nova rodada
A evolução da quantidade de PNCs mostra o efeito das primeiras operações. Após a conclusão da segunda rodada, em agosto, o capital social da Axia estava dividido entre 2,347 bilhões de ações ordinárias, 569,057 milhões de ações preferenciais classe C e uma ação especial da União, totalizando 2,916 bilhões de papéis.
Posteriormente, a conversão de 69,9 milhões de PNCs em ações ordinárias e o cancelamento de mais de 41,6 milhões de preferenciais na terceira operação reduziram ainda mais o estoque da classe. A estrutura acionária disponibilizada pela companhia para agosto, antes dos eventos posteriores, registrava 457,522 milhões de PNCs, enquanto a operação de setembro corresponde a 70,716 milhões de papéis, ou 15,46% dessa base.
Na prática, isso significa que a quarta rodada alcança uma parcela relevante, mas não a totalidade, das ações preferenciais ainda em circulação. O processo continua dividido em etapas, e o saldo da classe dependerá tanto dos resgates em dinheiro quanto das conversões para ações ordinárias.
Resultado do segundo trimestre sustenta nova etapa de alocação de capital
A polÃtica de resgate das PNCs está inserida na estratégia de alocação de capital da companhia. No segundo trimestre, a Axia registrou investimentos de R$ 3,117 bilhões, alta de 53% sobre os R$ 2,043 bilhões aplicados no mesmo perÃodo de 2025. No acumulado do primeiro semestre, os investimentos chegaram a R$ 4,472 bilhões, crescimento de 47%.
O desempenho financeiro também ampliou a geração de recursos disponÃvel para a estratégia. No segundo trimestre, a companhia contabilizou lucro lÃquido de R$ 1,191 bilhão, contra prejuÃzo de R$ 1,325 bilhão no mesmo trimestre do ano anterior. No critério ajustado utilizado pela empresa, o lucro lÃquido alcançou R$ 1,608 bilhão. O EBITDA contábil ficou em R$ 5,925 bilhões, enquanto o EBITDA ajustado chegou a R$ 6,307 bilhões.
Ao mesmo tempo, a Axia manteve um programa elevado de investimentos em transmissão. A empresa informou que possui 288 empreendimentos de grande porte em implantação, com previsão de adicionar cerca de R$ 2 bilhões à Receita Anual Permitida (RAP) entre 2026 e 2030. O CAPEX estimado para esses projetos é de R$ 15,5 bilhões.
Esse conjunto de compromissos ajuda a explicar por que a companhia trata a alocação de capital e os investimentos como elementos simultâneos da estratégia financeira. O resgate das PNCs não ocorre isoladamente: disputa recursos com projetos de expansão, gestão de dÃvida e outras alternativas de utilização do caixa. A administração, porém, estabeleceu as operações de PNC dentro de um mecanismo especÃfico, com volumes e datas deliberados pelo conselho.
Próxima etapa começa com prazo de conversão no fim do mês
O próximo evento operacional da quarta rodada será o perÃodo de manifestação dos acionistas entre 28 e 30 de setembro. Quem escolher a conversão receberá uma ação ordinária para cada PNC abrangida pela opção, com entrega das novas ações prevista para 2 de outubro. Para os papéis que não forem convertidos, o resgate ocorrerá automaticamente conforme as condições da operação.
O pagamento está programado para 8 de outubro, encerrando a etapa financeira da quarta operação. Depois disso, a quantidade de PNCs remanescentes será determinante para o tamanho das rodadas futuras. Como as operações são realizadas em sequência e o acionista pode optar pela conversão, o valor efetivamente desembolsado pela companhia em cada etapa depende da adesão ao mecanismo.
A Axia, portanto, segue reduzindo gradualmente a presença das ações preferenciais classe C criada no processo de reorganização societária de 2025. A operação de R$ 3,9 bilhões anunciada em setembro representa mais uma etapa desse processo, mas seu impacto financeiro efetivo somente estará definido após o encerramento do prazo de conversão.
Fontes:
AXIA Energia – comunicado ao mercado sobre a quarta operação de resgate ou conversão das ações preferenciais classe C, de 22 de setembro de 2026
AXIA Energia – relatório de resultados do segundo trimestre de 2026, com dados financeiros, investimentos e metodologia de alocação de capital
AXIA Energia – fato relevante de 6 de maio de 2026 sobre a aprovação de até R$ 4 bilhões de capital alocável para resgate de PNCs
AXIA Energia – comunicado de 5 de agosto de 2026 sobre procedimentos para resgate e conversão das PNCs
Comissão de Valores Mobiliários – registros das operações de resgate, conversão e reorganização das ações PNC da Axia Energia
Atlas Público – reprodução estruturada do comunicado da AXIA Energia à CVM sobre a quarta operação de resgate ou conversão







