As empresas que integram o Ãndice S&P 500 devem registrar crescimento próximo de 30% nos lucros do terceiro trimestre de 2026, em comparação com o mesmo perÃodo do ano passado, segundo estimativas de analistas compiladas por diferentes instituições financeiras. A expansão, contudo, está concentrada em um grupo relativamente pequeno de companhias ligadas à inteligência artificial (IA), com destaque para Alphabet, controladora do Google, Amazon e Meta Platforms. A dependência dos resultados em relação a esse segmento coloca a rentabilidade dos investimentos em infraestrutura tecnológica no centro da temporada de balanços, que começa a ganhar força na semana de 12 de outubro.
Os cálculos da LSEG indicam avanço de aproximadamente 31% nos lucros das empresas do S&P 500. Cerca de dois terços desse crescimento devem vir do setor de tecnologia e das grandes companhias diretamente beneficiadas pela expansão da inteligência artificial. A FactSet, que utiliza sua própria metodologia de consolidação das estimativas de resultados, projetava em 2 de outubro crescimento de 29,5% nos lucros por ação do Ãndice. Embora os números não sejam idênticos, as duas referências apontam para uma temporada de resultados robusta, sustentada principalmente pelas empresas de tecnologia.
A diferença entre as projeções também demonstra que os percentuais dependem da base de cálculo, da definição de lucro utilizada e do conjunto de estimativas incorporadas por cada instituição. O avanço esperado, portanto, não representa uma taxa uniforme para todas as companhias americanas. Setores ligados à infraestrutura de inteligência artificial devem apresentar expansão muito superior à de segmentos mais dependentes do consumo doméstico, das condições de crédito e do comportamento dos custos operacionais.
O ponto central para os investidores será verificar se a evolução dos lucros acompanha a valorização das ações. O S&P 500 atingiu nÃveis recordes no inÃcio de outubro, impulsionado pelas expectativas de crescimento das grandes empresas e pela procura por companhias capazes de monetizar a inteligência artificial. Com as avaliações de mercado elevadas em relação aos resultados de vários negócios, a divulgação de números positivos pode não ser suficiente para sustentar novas altas caso as projeções para os trimestres seguintes decepcionem.
Revisões positivas melhoram as perspectivas para a temporada
Um dos sinais favoráveis à temporada apareceu antes da divulgação dos balanços. De acordo com a FactSet, o lucro por ação projetado para o conjunto das empresas do S&P 500 subiu de US$ 88,64, estimados em 30 de junho, para US$ 89,84 em 30 de setembro. A diferença equivale a um aumento de 1,4% nas estimativas durante o terceiro trimestre.
O comportamento contrasta com o padrão histórico. Nos últimos cinco anos, as projeções agregadas de lucro por ação para o S&P 500 caÃram, em média, 2,2% ao longo de cada trimestre. Em horizontes de dez, 15 e 20 anos, as reduções médias foram de 2,5%, 3,2% e 4,2%, respectivamente. Em vez da revisão para baixo que normalmente antecede a publicação dos balanços, os analistas elevaram as expectativas para o perÃodo encerrado em setembro.
A mudança também pode ser observada na comparação anual. No inÃcio do terceiro trimestre, em 30 de junho, a estimativa de crescimento dos lucros do Ãndice era de 26,7%. Ao final de setembro, havia subido para 29,5%, uma diferença de 2,8 pontos percentuais. Se confirmada, a taxa representará o terceiro trimestre consecutivo com expansão superior a 25% e o oitavo perÃodo consecutivo com crescimento anual de dois dÃgitos.
As expectativas para a receita também melhoraram. A FactSet passou a projetar aumento anual de 12,3% no faturamento agregado, ante 10,9% no começo do trimestre. A combinação de maior receita esperada e revisões positivas dos lucros sugere que o desempenho projetado não depende exclusivamente de reduções de custos ou de ajustes pontuais de despesas.
Outro indicador é a orientação fornecida pelas próprias companhias. Entre 116 empresas do S&P 500 que haviam apresentado projeções de lucro por ação para o terceiro trimestre, 72 divulgaram indicações positivas e 44, negativas. A proporção de avaliações favoráveis, de 62%, superou a média de 40% dos últimos cinco anos e a de 41% dos últimos dez anos, segundo a FactSet.
Esses dados, porém, medem expectativas, não resultados já realizados. A confirmação do crescimento dependerá dos balanços efetivos e da capacidade das empresas de explicar a evolução das margens, dos custos financeiros e das receitas ao longo do perÃodo.
Semicondutores continuam na liderança, mas o ritmo tende a diminuir
A indústria de semicondutores é um dos segmentos mais diretamente expostos ao investimento em inteligência artificial. A procura por processadores, aceleradores de cálculo e memórias de alto desempenho acompanha a expansão dos centros de processamento de dados, que exigem maior capacidade de computação para treinar e executar modelos de IA.
As estimativas compiladas pela LSEG indicam que os lucros das fabricantes americanas de chips podem crescer aproximadamente 136% no terceiro trimestre, em comparação com o mesmo perÃodo de 2025. No segundo trimestre, a expansão havia sido estimada em cerca de 158%. A diferença de 22 pontos percentuais indica uma desaceleração da taxa de crescimento, embora o avanço projetado continue expressivo.
A comparação exige cuidado: uma taxa de crescimento menor não significa necessariamente redução do lucro. Ela indica apenas que o resultado deve aumentar em ritmo menos intenso. Depois de uma expansão muito forte, a base de comparação fica mais elevada, tornando progressivamente mais difÃcil repetir os mesmos percentuais.
A Micron Technology (MU) oferece um exemplo da dimensão alcançada pelo ciclo de demanda por memória. Em 30 de setembro, a empresa divulgou receita de US$ 54,23 bilhões no quarto trimestre fiscal de 2026, encerrado em 3 de setembro. No mesmo perÃodo do exercÃcio anterior, o faturamento havia sido de US$ 11,32 bilhões. O crescimento anual foi de aproximadamente 379%.
No conjunto do exercÃcio fiscal de 2026, a receita da Micron alcançou US$ 133,19 bilhões, ante US$ 37,38 bilhões no ano anterior, aumento de aproximadamente 256%. Os números refletem a força da demanda por memória e outros componentes utilizados em sistemas de computação, embora o desempenho de uma empresa especÃfica não possa ser automaticamente extrapolado para todas as fabricantes de semicondutores.
A projeção apresentada pela própria companhia reforçou essa perspectiva. Para o primeiro trimestre fiscal de 2027, a Micron indicou receita de US$ 61,5 bilhões, com margem de variação de US$ 1,5 bilhão para cima ou para baixo. O ponto médio da projeção representa avanço de cerca de 13,4% sobre os US$ 54,23 bilhões registrados no trimestre fiscal anterior.
O desafio para o setor é transformar a demanda atual em resultados sustentáveis. A ampliação da capacidade produtiva exige investimentos, enquanto a escassez de determinados componentes pode limitar entregas e alterar custos. Para o mercado acionário, a questão não se resume ao crescimento da receita: os balanços também precisarão demonstrar que a rentabilidade acompanha o aumento das vendas e o volume de capital empregado.
Investimentos em IA ampliam a demanda por energia
A infraestrutura necessária à inteligência artificial também conecta a expansão da tecnologia ao mercado de energia. Centros de processamento de dados exigem fornecimento elétrico contÃnuo, sistemas de refrigeração e capacidade de transmissão compatÃvel com cargas crescentes. A disponibilidade de eletricidade tornou-se, assim, uma questão relevante para os planos de expansão das grandes companhias digitais.
A Constellation Energy e o Google anunciaram em 6 de outubro um acordo de compra de energia de 20 anos que prevê investimentos para adicionar 890 megawatts de capacidade nuclear à rede administrada pela PJM Interconnection. O projeto envolve a modernização de 11 unidades nucleares operadas pela Constellation em Illinois, Pensilvânia e Nova Jersey, com investimento superior a US$ 4,3 bilhões da empresa de energia.
As companhias também firmaram um acordo separado de fornecimento de energia por 15 anos, envolvendo 2.700 megawatts da frota de geração da Constellation no mercado da PJM. Essa parcela se refere ao fornecimento de energia da frota existente e não deve ser somada à capacidade nuclear adicional como se toda a potência contratada representasse nova geração.
O acordo foi anunciado depois do encerramento do terceiro trimestre e, portanto, não constitui resultado financeiro do perÃodo analisado. Ele oferece, entretanto, uma indicação concreta do volume de recursos e dos compromissos de longo prazo envolvidos na expansão da infraestrutura necessária à inteligência artificial.
Na estimativa da LSEG, os lucros do setor de energia podem aumentar aproximadamente 115% no terceiro trimestre, em relação ao ano anterior. O avanço projetado está associado, entre outros fatores, à alta dos preços do petróleo, que teriam subido cerca de 30% no mercado americano durante o perÃodo.
A alta das commodities energéticas produz efeitos distintos entre as empresas. Para produtores de petróleo e companhias com exposição favorável aos preços, a valorização pode elevar receitas e margens. Para transportadoras, indústrias, prestadores de serviços e negócios com consumo intensivo de energia, o encarecimento dos insumos pode pressionar os custos e reduzir a rentabilidade, caso não seja possÃvel repassar integralmente os aumentos aos clientes.
A expansão esperada dos lucros de energia, portanto, não representa uma melhora equivalente para toda a economia americana. Ela combina fatores especÃficos de mercado com uma mudança no custo de insumos essenciais para grande parte das atividades empresariais.
Taxa de juros mais alta aumenta a pressão sobre custos e avaliações
As condições monetárias acrescentam outra variável à leitura dos resultados. Em 16 de setembro, o Federal Reserve elevou a faixa-alvo dos juros básicos americanos em 0,25 ponto percentual, para entre 3,75% e 4% ao ano. Na ocasião, o banco central afirmou que a inflação continuava elevada e que as incertezas permaneciam significativas, em parte por causa dos acontecimentos geopolÃticos.
A relação entre juros e rentabilidade corporativa ocorre por diferentes canais. O aumento do custo do crédito pode encarecer financiamentos, restringir investimentos e reduzir a disposição de consumidores e empresas para assumir novas despesas. Os efeitos variam de acordo com o endividamento, a capacidade de geração de caixa e a estrutura de receitas de cada companhia.
No mercado acionário, juros mais altos também afetam o valor atribuÃdo a lucros futuros. Empresas de tecnologia cujas avaliações dependem de expectativas de crescimento por vários anos podem ficar mais sensÃveis à elevação das taxas de desconto. Mesmo quando apresentam resultados sólidos, suas ações podem enfrentar pressão se as condições financeiras tornarem menos atraentes os fluxos de caixa esperados para perÃodos distantes.
Os dados da FactSet indicavam, no inÃcio de outubro, uma relação entre preço e lucro projetado para os 12 meses seguintes de 19 vezes para o S&P 500. O múltiplo estava abaixo da média de cinco anos, de 19,8 vezes, e ligeiramente inferior à média de dez anos, de 19,1 vezes. O indicador isolado não determina se o mercado está caro ou barato, mas mostra que a avaliação das ações continua sensÃvel à evolução das expectativas de lucro e das taxas de juros.
Para as empresas que investem intensamente em inteligência artificial, o custo do financiamento é apenas parte da equação. Também será necessário demonstrar que os gastos com equipamentos, centros de dados e desenvolvimento de modelos geram receitas e ganhos de produtividade compatÃveis com o capital aplicado. Quanto maior o investimento acumulado, maior a importância de comprovar sua contribuição para os resultados operacionais.
Setores fora da tecnologia oferecem um teste para a amplitude do crescimento
Apesar do protagonismo de tecnologia, energia e comunicação, os resultados esperados apresentam diferenças importantes entre os setores. A FactSet projetava crescimento anual dos lucros nos 11 setores do S&P 500, mas apenas cinco deveriam alcançar expansão de dois dÃgitos. A expectativa de crescimento generalizado, portanto, não elimina a concentração dos maiores avanços em grupos especÃficos.
As revisões das estimativas para o terceiro trimestre reforçam essa diferença. Entre 30 de junho e 30 de setembro, as projeções de lucro por ação do setor de energia subiram 18%, enquanto as de tecnologia avançaram 3,5%. Em sentido contrário, os analistas reduziram as estimativas de materiais em 10,2%, de bens de consumo básico em 4% e de saúde em 3,3%.
A distância entre os movimentos de energia e materiais chegou a 28,2 pontos percentuais. Trata-se de um cálculo a partir das variações publicadas pela FactSet, que evidencia como os efeitos das condições econômicas e dos preços das commodities podem beneficiar alguns negócios e prejudicar outros no mesmo intervalo.
Os setores de consumo básico e imobiliário também estão entre aqueles em que as projeções de crescimento dos lucros são mais fracas nas estimativas atribuÃdas à LSEG. O primeiro depende de condições de demanda e preços em mercados de grande volume, enquanto o segundo tende a ser particularmente sensÃvel aos juros, ao financiamento e aos custos de ocupação e investimento.
A diferença entre as empresas será importante para interpretar o desempenho agregado do Ãndice. Um avanço expressivo dos lucros do S&P 500 pode coexistir com resultados fracos em uma parcela relevante de suas componentes. O Ãndice resume a evolução de grandes companhias, mas não representa uma distribuição uniforme dos ganhos entre todos os setores e modelos de negócio.
Bancos abrem uma temporada decisiva para as projeções
A divulgação dos resultados dos bancos americanos começa em 13 de outubro, com JPMorgan Chase (JPM) e Goldman Sachs entre as primeiras grandes instituições a apresentar seus números trimestrais. Os balanços fornecerão informações sobre a atividade de crédito, as operações de mercado de capitais, a negociação de ativos e a evolução dos custos de financiamento.
No caso dos bancos, os investidores deverão observar como o nÃvel dos juros influencia tanto a receita financeira quanto a inadimplência, a remuneração de depósitos e a procura por empréstimos. Em instituições com operações relevantes de mercado de capitais, também será importante avaliar a evolução das receitas provenientes de negociação de ativos e da assessoria em fusões e aquisições.
A temporada permitirá ainda comparar as projeções anteriores com os números efetivamente publicados e verificar se a força observada em tecnologia se estende para outras atividades. As orientações das empresas para o quarto trimestre serão especialmente importantes porque ajudarão a determinar se o crescimento esperado para 2026 pode se manter no fim do ano.
A inteligência artificial continuará no centro dessa avaliação. O volume de investimentos anunciado pelas grandes empresas, a demanda por semicondutores e os acordos de fornecimento de energia apontam para uma expansão significativa da infraestrutura. A sustentabilidade financeira desse movimento, no entanto, dependerá da capacidade de transformar o investimento em receitas recorrentes, ganhos operacionais e lucros que justifiquem as expectativas incorporadas aos preços das ações.
As previsões de crescimento próximas de 30% estabelecem um patamar elevado para os resultados do terceiro trimestre. A temporada deverá mostrar se o avanço continuará sustentado por um conjunto restrito de grandes companhias ligadas à inteligência artificial ou se haverá sinais mais amplos de melhora da rentabilidade empresarial. A resposta dependerá não apenas dos lucros publicados, mas também das margens, do ritmo dos investimentos e das perspectivas apresentadas para os próximos perÃodos.
Fontes:
FactSet – relatório de perspectivas para os resultados do S&P 500 no terceiro trimestre de 2026, publicado em 2 de outubro
FactSet – revisões das estimativas de lucro por ação do S&P 500 e orientação das empresas, dados publicados em 7 de outubro de 2026
LSEG – estimativas de consenso I/B/E/S para o crescimento dos lucros do S&P 500 e dos setores de tecnologia, semicondutores e energia no terceiro trimestre de 2026
Micron Technology – resultados do quarto trimestre e do exercÃcio fiscal de 2026 e projeções de receita para o primeiro trimestre fiscal de 2027, divulgados em 30 de setembro
Constellation Energy – comunicado conjunto com o Google sobre o acordo de fornecimento de energia e a ampliação da capacidade nuclear, publicado em 6 de outubro de 2026
Federal Reserve – comunicado do Comitê Federal de Mercado Aberto sobre a decisão de polÃtica monetária de 16 de setembro de 2026
JPMorgan Chase – calendário oficial de divulgação dos resultados do terceiro trimestre de 2026
Goldman Sachs – calendário oficial de divulgação dos resultados do terceiro trimestre de 2026







