O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) criticou nesta quinta-feira, 5 de novembro, a saída de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) do Brasil após a derrota nas eleições presidenciais e afirmou que o senador terá de retornar ao país para responder a processos judiciais. Durante uma transmissão ao vivo com o deputado federal André Janones (Rede-MG), Lula chamou o adversário de “pé-frio” e associou sua chegada aos Estados Unidos à derrota do Partido Republicano, do presidente Donald Trump, nas eleições legislativas americanas realizadas na terça-feira (3).
As declarações ocorreram durante uma transmissão organizada por Janones para celebrar a reeleição presidencial. Lula afirmou que Flávio havia procurado proteção política nos Estados Unidos e questionou a eficácia dessa estratégia diante do resultado das eleições de meio de mandato americanas. O senador deixou o território brasileiro em 27 de outubro, dois dias depois do segundo turno, apesar de uma decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que havia proibido sua saída do país.
A situação judicial de Flávio passou a ser acompanhada pela Polícia Federal depois que a instituição identificou o descumprimento de determinações relacionadas à entrega de passaportes e à restrição de deslocamento internacional. Em comunicado oficial divulgado em 28 de outubro, a PF informou que investiga as circunstâncias da saída do parlamentar, mas esclareceu que a existência dessas restrições não caracteriza, por si só, a condição jurídica de foragido nem autoriza automaticamente sua prisão.
Lula ironiza viagem de Flávio Bolsonaro e derrota de aliados de Trump
Durante a conversa com André Janones, Lula comparou o comportamento dos dois candidatos durante a campanha presidencial e voltou a criticar a aproximação política de Flávio Bolsonaro com Donald Trump. O presidente mencionou manifestações em que apareceu segurando a bandeira brasileira e contrapôs essas imagens às demonstrações de apoio do adversário aos Estados Unidos.
Na sequência, Lula ironizou a coincidência entre a chegada de Flávio ao território americano e o resultado desfavorável aos republicanos nas eleições legislativas.
“Derrotou o Trump. Chegou nos Estados Unidos, Trump perdeu”, afirmou o presidente, em referência à perda do controle do Congresso pelo partido do chefe da Casa Branca.
A declaração teve caráter político e não corresponde a uma relação causal entre a presença do senador brasileiro nos Estados Unidos e o resultado eleitoral americano. Donald Trump não disputou as eleições legislativas de 3 de novembro, nas quais os eleitores escolheram representantes para o Congresso e outros cargos estaduais.
Lula também afirmou que seu adversário havia deixado o Brasil em busca de proteção. Em tom de advertência, disse que o senador precisaria retornar ao país para enfrentar questões judiciais pendentes.
A fala não representa uma ordem judicial de retorno nem indica a existência de um novo mandado de prisão. O eventual cumprimento de medidas contra o parlamentar depende das decisões das autoridades competentes e dos procedimentos legais aplicáveis.
Polícia Federal investiga saída do senador após restrição determinada por Moraes
O caso teve início formalmente em 25 de outubro, quando a Polícia Federal solicitou ao Supremo Tribunal Federal a adoção de medidas cautelares contra Flávio Bolsonaro. A representação foi apresentada no mesmo dia da votação do segundo turno presidencial, após a instituição identificar risco de saída do país.
A solicitação incluiu a apreensão dos passaportes, a proibição de viagem internacional e a restrição de contato com outros investigados. O pedido foi apresentado no âmbito da Petição nº 16.877, em tramitação no STF.
Após a decisão de Alexandre de Moraes, os passaportes comum e diplomático brasileiros do senador foram cancelados. A Polícia Federal também incluiu um alerta migratório no Sistema Nacional de Procurados e Impedidos, conhecido como Sonar, utilizado no controle das fronteiras.
Na manhã de 26 de outubro, Flávio foi intimado a entregar eventuais passaportes de outras nacionalidades no prazo de 24 horas. Segundo a comunicação oficial da PF, a determinação não foi cumprida.
No dia seguinte, o senador deixou o Brasil em direção aos Estados Unidos, utilizando uma rota que passou pela Argentina. Ele chegou a Miami em 28 de outubro.
A Polícia Federal informou que não havia registro da saída do parlamentar pelos postos oficiais de controle migratório brasileiros. A declaração é relevante porque demonstra a ausência de registro regular no sistema nacional, mas não esclarece integralmente o trajeto percorrido ou os meios utilizados para atravessar a fronteira.
A instituição ressaltou ainda que a investigação sobre o descumprimento das determinações judiciais deve respeitar os limites legais e dependerá de decisões específicas para a adoção de eventuais medidas adicionais.
O procedimento mencionado pela PF envolve investigação e medidas cautelares, não uma condenação criminal definitiva. A situação processual do senador deve ser distinguida das declarações políticas feitas pelo presidente da República.
Flávio Bolsonaro contesta resultado eleitoral e diz sofrer perseguição política
Depois de chegar aos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro divulgou uma carta em que questionou a legitimidade da eleição presidencial e declarou que pretende continuar exercendo influência sobre a oposição brasileira a partir do exterior.
O documento apresentou alegações de fraude eleitoral sem comprovação pública. Na primeira versão que circulou entre aliados, o senador foi descrito como o verdadeiro presidente eleito do Brasil, apesar da confirmação oficial da vitória de Lula pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Posteriormente, o texto passou por alterações. A versão publicada pelo próprio parlamentar em uma rede social utilizou inicialmente a expressão “verdadeiro presidente”, substituída depois por “líder do Brasil”. Outra referência à condição de presidente eleito também foi modificada.
Na manifestação, Flávio afirmou considerar-se vítima de perseguição política e declarou que não reconhecia determinadas decisões tomadas contra ele. O senador também agradeceu o acolhimento recebido nos Estados Unidos e na Argentina.
As alegações sobre fraude não alteram o resultado proclamado pela Justiça Eleitoral. O TSE mantém a totalização oficial dos votos e disponibiliza os dados da apuração para consulta pública, incluindo a evolução dos resultados em cada unidade da Federação e município.
A posição do senador também não foi integralmente acompanhada por integrantes de seu próprio campo político. O PL reconheceu o resultado das urnas, enquanto aliados defenderam que eventuais questionamentos fossem apresentados por meio dos procedimentos legais.
O senador Rogério Marinho (PL-RN), que coordenou a campanha presidencial de Flávio, também manifestou reservas em relação às alegações de fraude, apontando a ausência de elementos que permitissem ao partido sustentá-las oficialmente.
TSE confirmou vitória de Lula com 51,79% dos votos válidos
A eleição presidencial de 2026 foi decidida em 25 de outubro, quando Lula conquistou seu quarto mandato como presidente da República. De acordo com a totalização divulgada pelo Tribunal Superior Eleitoral, o candidato do PT recebeu 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79% dos votos válidos.
Flávio Bolsonaro obteve 59.826.041 votos, correspondentes a 48,21%. A diferença entre os dois candidatos foi de 4.430.191 votos, aproximadamente 3,58 pontos percentuais.
O resultado representou uma inversão da vantagem observada no primeiro turno, realizado em 4 de outubro. Naquela votação, Flávio havia recebido 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula terminou com 45,16%.
A vitória do presidente foi consolidada após a totalização das seções eleitorais em todo o país. O TSE disponibilizou posteriormente uma ferramenta digital que permite acompanhar a evolução da apuração e verificar os resultados por região, estado e município.
A divulgação desses dados fornece uma referência pública para a comparação entre as alegações apresentadas pelos candidatos e os números registrados oficialmente. Até a publicação desta reportagem, não havia sido demonstrada fraude capaz de invalidar a totalização do segundo turno.
A confirmação da reeleição também reorganizou as articulações políticas para o período iniciado em janeiro de 2027, quando começará o novo mandato presidencial. O resultado influencia a composição das alianças no Congresso e a posição dos partidos que disputaram a eleição.
Democratas conquistam maioria no Congresso americano e ampliam pressão sobre Trump
As críticas de Lula ocorreram depois das eleições legislativas dos Estados Unidos, realizadas em 3 de novembro, nas quais o Partido Democrata conquistou, segundo as projeções eleitorais divulgadas após a votação, o controle da Câmara dos Representantes e do Senado.
As chamadas eleições de meio de mandato são realizadas dois anos depois da eleição presidencial americana. Nesse processo, os eleitores renovam toda a Câmara dos Representantes, parte do Senado e diversos governos estaduais.
A votação de 2026 ocorreu durante o mandato de Donald Trump e foi acompanhada como um indicador da aprovação política de seu governo. O Partido Republicano, que anteriormente controlava as duas Casas do Congresso, perdeu espaço para os democratas em estados e distritos importantes.
No Senado, as projeções apontaram 54 cadeiras para o bloco democrata, incluindo dois parlamentares independentes que integram sua bancada, contra 44 republicanos. Algumas disputas ainda aguardavam a conclusão da apuração, mas a maioria necessária para o controle da Casa já havia sido alcançada pelo grupo de oposição.
Na Câmara, o Partido Democrata também ultrapassou o número de cadeiras necessário para garantir a maioria. A mudança modifica a relação entre o Executivo e o Legislativo americano, especialmente em assuntos como Orçamento, fiscalização governamental e aprovação de propostas.
A nova composição do Congresso tomará posse em janeiro de 2027. Até lá, permanecem em exercício os parlamentares integrantes da legislatura atual.
Embora a derrota republicana tenha sido utilizada por Lula para ironizar Flávio Bolsonaro, a alteração do equilíbrio político americano não modifica automaticamente a situação migratória ou judicial de brasileiros que estejam nos Estados Unidos.
Lula menciona Netanyahu e chama reeleição de vitória internacional
Na mesma transmissão, Lula relacionou sua vitória presidencial a resultados eleitorais registrados em Israel e nos Estados Unidos. O presidente afirmou interpretar esses acontecimentos como sinais de mudanças no ambiente político internacional.
Ao comentar a reeleição, declarou que considerava o resultado brasileiro uma vitória que ultrapassava as fronteiras nacionais. Também mencionou a perda da maioria parlamentar pela coalizão liderada pelo primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu e os resultados desfavoráveis ao partido de Donald Trump.
As declarações expressam a avaliação política do presidente. As eleições ocorreram em países diferentes, com sistemas eleitorais e disputas próprias, não havendo relação institucional direta entre os resultados.
Em Israel, a composição do Parlamento, conhecido como Knesset, passou por uma reorganização após as eleições legislativas. Nenhum dos principais blocos obteve isoladamente a maioria de 61 cadeiras necessária para formar governo, mantendo abertas as negociações para a composição de uma coalizão.
Nos Estados Unidos, a perda da maioria republicana nas duas Casas amplia a capacidade dos democratas de exercer fiscalização sobre o governo Trump. Isso não significa, porém, que a política externa americana em relação ao Brasil sofrerá mudanças imediatas ou que decisões individuais sobre imigração e cooperação judicial serão automaticamente revistas.
Retorno de Flávio Bolsonaro dependerá de decisões judiciais e procedimentos legais
A situação do senador nos Estados Unidos envolve questões distintas: a investigação que tramita no STF, o cumprimento das medidas cautelares determinadas no Brasil e as condições de sua permanência em território americano.
A decisão de Alexandre de Moraes proibiu a saída do parlamentar e determinou a entrega de seus documentos de viagem. O descumprimento dessas medidas passou a ser objeto de investigação pela Polícia Federal.
Entretanto, a existência de uma restrição judicial brasileira não determina, por si só, a deportação ou extradição de alguém que esteja nos Estados Unidos. Uma eventual medida de cooperação internacional dependeria de fundamentos jurídicos próprios, da legislação aplicável e da atuação das autoridades dos países envolvidos.
Também é necessário distinguir a condição de investigado da de acusado formalmente em uma ação penal ou condenado pela Justiça. A investigação mencionada pela Polícia Federal busca esclarecer fatos e responsabilidades, sem representar conclusão definitiva sobre a ocorrência de crimes.
Até o momento, a manifestação oficial da PF não informou a existência de uma ordem de prisão decorrente exclusivamente da saída do senador do território brasileiro. A instituição foi explícita ao esclarecer que o descumprimento das restrições de viagem não autoriza automaticamente determinadas medidas cautelares mais severas.
O discurso de Lula acrescenta pressão política ao episódio, mas não substitui os procedimentos judiciais. A evolução do caso dependerá das decisões do Supremo Tribunal Federal, do trabalho investigativo da Polícia Federal e de eventuais medidas de cooperação internacional.
Enquanto isso, Flávio Bolsonaro mantém publicamente a posição de que deixou o país por considerar-se alvo de perseguição política e pretende atuar na oposição a partir do exterior. Lula, por sua vez, sustenta que o adversário deverá retornar ao Brasil para responder às questões judiciais pendentes.
A disputa política permanece aberta, embora a eleição presidencial já tenha sido concluída e seu resultado oficialmente reconhecido pela Justiça Eleitoral.
Fontes:
Polícia Federal — nota oficial de 28 de outubro de 2026 sobre medidas cautelares contra Flávio Bolsonaro, cancelamento de passaportes e investigação do descumprimento das determinações judiciais.
Tribunal Superior Eleitoral — painel oficial de totalização dos votos do segundo turno presidencial de 2026, com resultados nacionais e dados da apuração.
Senado Federal — registros institucionais do mandato de Flávio Bolsonaro e sua participação nas eleições presidenciais de 2026.
Tribunal Superior Eleitoral — informações oficiais sobre a totalização, a transparência da apuração e os procedimentos de contestação dos resultados eleitorais.










