A Marcopolo (POMO4) encerrou o terceiro trimestre de 2026 com lucro líquido de R$ 186,5 milhões, uma redução de 43,4% em relação aos R$ 329,6 milhões registrados entre julho e setembro do ano passado. O resultado divulgado na terça-feira, 3 de novembro, mostrou uma deterioração da rentabilidade da fabricante de carrocerias para ônibus, pressionada pela redução das entregas internacionais, pelo menor ritmo de produção no Brasil e pelo aumento de custos industriais.
A receita operacional líquida alcançou R$ 2,293 bilhões, queda de 8,5% na comparação anual, enquanto a produção consolidada recuou 25,2%, para 3.085 unidades. A diferença entre o comportamento do faturamento e o volume produzido indica que a composição das vendas ajudou a compensar parte da retração da atividade. Essa compensação, entretanto, não foi suficiente para preservar os resultados operacionais, que sofreram perdas mais acentuadas do que a receita.
O Ebitda, indicador de geração operacional de resultados antes de juros, impostos, depreciação e amortização, caiu 34,7%, para R$ 274,1 milhões. A margem Ebitda diminuiu de 16,8% para 12%, uma redução de 4,8 pontos percentuais em um ano. O balanço também incorporou R$ 19,9 milhões em despesas extraordinárias relacionadas à reestruturação de operações no Brasil e no México.
Os resultados foram encaminhados ao sistema da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) na noite de terça-feira. A divulgação ocorreu antes da teleconferência com investidores e analistas, programada pela Marcopolo para esta quarta-feira, 4 de novembro, às 11h, no horário de Brasília.
Produção no exterior cai 59,3% e compromete rentabilidade
A redução da atividade industrial foi particularmente acentuada nas unidades internacionais. A produção consolidada fora do Brasil atingiu 337 veículos no terceiro trimestre, queda de 59,3% em relação ao mesmo período de 2025. Nas fábricas brasileiras, foram produzidas 2.748 unidades, retração de 16,7% na mesma comparação.
A diferença entre os dois mercados revela a dimensão do enfraquecimento das operações externas. Embora representem uma parcela menor da produção consolidada, essas unidades têm participação na estrutura de custos, no faturamento e na capacidade de geração de resultados da fabricante. Quando a produção diminui de forma acentuada, despesas fixas passam a ser distribuídas por uma quantidade menor de veículos, reduzindo a eficiência operacional.
Segundo as informações divulgadas pela Marcopolo, as operações no México, na Argentina e na África do Sul estiveram entre os principais fatores de pressão sobre os resultados. A menor utilização da capacidade industrial nesses países prejudicou a absorção dos custos de fabricação e contribuiu para a redução da margem operacional consolidada.
A receita das operações internacionais totalizou R$ 703,2 milhões, recuo de 21,4% em relação ao terceiro trimestre de 2025. A retração equivale a aproximadamente R$ 191 milhões em faturamento, considerando os valores e percentuais apresentados pela companhia.
As exportações realizadas diretamente a partir do Brasil tiveram comportamento diferente. Nesse segmento, a receita alcançou R$ 377,8 milhões, crescimento de 3% na comparação anual. O avanço indica que a comercialização de veículos produzidos no país para clientes estrangeiros apresentou maior resistência do que as atividades das fábricas internacionais.
O desempenho positivo das exportações brasileiras, contudo, não eliminou as pressões sobre a rentabilidade. A valorização do real diante do dólar prejudicou as receitas convertidas para a moeda nacional, enquanto determinados custos de matérias-primas ficaram acima dos valores previstos quando os pedidos foram negociados.
Essa combinação reduziu a capacidade de a empresa transformar faturamento em resultado operacional. Mesmo com contratos de venda mantidos, alterações cambiais e aumentos de custos podem diminuir a margem efetivamente obtida na entrega dos veículos.
Marcopolo registra R$ 19,9 milhões em custos de reestruturação
A redução das margens levou a Marcopolo a intensificar ajustes em sua estrutura operacional. No terceiro trimestre, a companhia reconheceu R$ 19,9 milhões em despesas não recorrentes relacionadas à reorganização das atividades no Brasil e no México, incluindo custos associados à redução de pessoal.
Desse montante, R$ 16,7 milhões corresponderam às operações brasileiras e R$ 3,2 milhões às atividades mexicanas. Os valores representam despesas contabilizadas no período e ajudam a explicar parte da diferença entre o desempenho operacional divulgado e o resultado que seria obtido sem esses efeitos extraordinários.
Excluídos os custos de reestruturação, o Ebitda teria alcançado R$ 294 milhões, com margem de 12,8%. Embora superior ao indicador efetivamente registrado, esse resultado ajustado ainda evidencia perda de rentabilidade em comparação com o terceiro trimestre de 2025.
A margem bruta da fabricante também apresentou deterioração. O lucro bruto recuou 30,5%, para R$ 464,8 milhões, enquanto a margem bruta passou de 26,7% para 20,3%, redução de 6,4 pontos percentuais.
Em termos operacionais, isso significa que a empresa passou a reter uma parcela menor de cada real faturado depois da dedução dos custos diretamente associados à produção e à comercialização dos veículos. No terceiro trimestre de 2025, a Marcopolo registrava aproximadamente R$ 26,70 de lucro bruto a cada R$ 100 de receita líquida. No mesmo período de 2026, esse valor caiu para R$ 20,30.
O movimento é relevante porque a redução da margem bruta ocorre antes da contabilização de diversas despesas administrativas, comerciais e financeiras. Dessa forma, uma deterioração nessa etapa pode comprometer a geração de resultados mesmo quando o faturamento permanece em patamar elevado.
A administração da Marcopolo tem indicado a preservação da competitividade como prioridade diante do menor nível de atividade. As medidas de adequação da estrutura industrial procuram alinhar despesas e capacidade produtiva ao volume atual de encomendas, mas seus efeitos sobre a rentabilidade dos próximos trimestres dependerão também da recuperação das vendas.
Programa Caminho da Escola influencia produção de micro-ônibus
A retração das atividades brasileiras esteve associada, entre outros fatores, à desaceleração das entregas de micro-ônibus vinculadas ao programa federal Caminho da Escola. A Marcopolo participa do fornecimento de veículos destinados ao transporte de estudantes das redes públicas de ensino, atividade que representa uma fonte relevante de encomendas para determinados modelos.
A empresa atravessou um intervalo entre etapas do programa, com redução das entregas relacionadas aos contratos anteriores e transição para novos pedidos. Esse descompasso afetou particularmente a produção de micro-ônibus, segmento que havia contribuído para sustentar o volume de fabricação em períodos anteriores.
A participação em licitações públicas, entretanto, não significa que todos os veículos previstos sejam entregues imediatamente. No modelo de registro de preços utilizado pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), as aquisições dependem de procedimentos posteriores, incluindo adesões de estados e municípios, contratação e programação das entregas.
Essa característica torna o cronograma das encomendas relevante para o planejamento industrial. Mesmo quando existem oportunidades de fornecimento de grandes quantidades de veículos, diferenças entre a contratação e a execução efetiva dos pedidos podem produzir oscilações importantes na utilização das fábricas.
A fabricante também enfrentou demanda mais fraca por ônibus urbanos. O segmento depende, em grande medida, das decisões de investimento de empresas de transporte coletivo e de operadores vinculados a contratos de concessão, que precisam considerar tarifas, custos operacionais e condições de financiamento antes de renovar suas frotas.
O aumento dos custos associados à operação dos veículos, especialmente combustíveis e manutenção, pode limitar a capacidade de investimento dessas empresas quando não há compensação correspondente nas receitas. Para fabricantes de carrocerias, esse ambiente contribui para adiar pedidos e reduzir a previsibilidade da produção.
Produção nacional de ônibus diminui ao longo do trimestre
Os dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Ônibus (Fabus) mostram que o enfraquecimento da atividade não ficou restrito à Marcopolo. Considerando os levantamentos mensais da entidade, a indústria brasileira produziu 6.740 carrocerias entre julho e setembro de 2026, incluindo os veículos da linha Volare.
A produção nacional foi de 2.485 unidades em julho, diminuiu para 2.390 em agosto e chegou a 1.865 em setembro. O resultado do último mês representou uma retração de aproximadamente 22% em relação a agosto, evidenciando a desaceleração da atividade na parte final do trimestre.
Na comparação anual, a fabricação nacional de carrocerias caiu cerca de 7,1% no terceiro trimestre. Esse recuo foi menos acentuado que a redução de 25,2% registrada na produção consolidada mundial da Marcopolo. As bases de comparação são diferentes, mas os números mostram que a fabricante enfrentou problemas adicionais nas atividades internacionais.
A série mensal da Fabus também permite identificar mudanças na composição da produção. Em setembro, foram fabricadas 775 carrocerias urbanas, 657 rodoviárias, 70 micro-ônibus e 363 miniônibus, considerando os volumes da Volare incorporados ao levantamento.
O enfraquecimento mais expressivo ocorreu na produção mensal de micro-ônibus, que havia atingido 615 unidades em julho e 464 em agosto. A fabricação caiu para apenas 70 unidades em setembro, sinalizando uma alteração importante no ritmo de encomendas desse segmento.
Os dados setoriais não representam automaticamente as vendas consolidadas da Marcopolo, pois a metodologia da Fabus acompanha a produção brasileira de carrocerias de seus associados. Ainda assim, ajudam a dimensionar a contração da atividade nacional e as diferenças entre os segmentos do mercado.
Lucro acumulado em 2026 recua para R$ 722,4 milhões
Apesar da redução mais intensa no terceiro trimestre, a Marcopolo permaneceu lucrativa no acumulado de 2026. Entre janeiro e setembro, a companhia registrou lucro líquido de R$ 722,4 milhões, queda de 19,2% em relação aos nove primeiros meses do ano anterior.
A receita líquida acumulada alcançou R$ 6,32 bilhões, retração de 2,6% na comparação anual. O contraste entre as quedas de faturamento e lucro evidencia que os custos e as despesas tiveram impacto proporcionalmente maior sobre os resultados do que a redução das vendas.
O desempenho dos nove primeiros meses também permite dimensionar a contribuição do terceiro trimestre para a rentabilidade anual. Os R$ 186,5 milhões obtidos entre julho e setembro corresponderam a aproximadamente 25,8% do lucro acumulado até setembro, enquanto a receita trimestral representou cerca de 36,3% do faturamento dos nove meses.
Essa diferença mostra que o trimestre teve participação relativamente menor na formação do lucro do que na geração de receita. O resultado reflete a compressão das margens e reforça a importância da recuperação operacional para o desempenho do encerramento do exercício.
A situação financeira da companhia apresenta uma leitura distinta da queda de rentabilidade. Ao fim de setembro, a dívida líquida do segmento industrial estava em aproximadamente R$ 341,1 milhões, abaixo dos R$ 475,1 milhões registrados no encerramento de junho. A redução foi de cerca de 28,2% no trimestre.
Considerando também o Banco Moneo, braço financeiro do grupo, a dívida líquida consolidada alcançou aproximadamente R$ 1,80 bilhão. A diferença entre os indicadores decorre da inclusão das atividades financeiras, cuja estrutura de ativos e passivos não deve ser interpretada da mesma maneira que o endividamento exclusivamente industrial.
A redução da dívida líquida industrial ocorreu em um trimestre de menor geração operacional de resultados. Os dois movimentos precisam ser acompanhados separadamente, pois a posição financeira reflete também disponibilidades, financiamentos e outras alterações patrimoniais, não apenas o lucro produzido durante o período.
Recuperação dependerá das entregas e dos ajustes industriais
O desempenho da Marcopolo no encerramento de 2026 dependerá da evolução das encomendas no mercado brasileiro, da regularização das entregas vinculadas ao Caminho da Escola e das condições comerciais enfrentadas pelas unidades internacionais.
A companhia tem sinalizado cautela com a possibilidade de uma recuperação consistente das vendas e da produção no curto prazo. A administração também acompanha os efeitos da antecipação de compras em determinados segmentos, especialmente ônibus rodoviários, que pode reduzir a demanda em períodos posteriores.
No exterior, o comportamento das operações no México, na Argentina e na África do Sul continuará relevante para avaliar a recuperação das margens. A menor escala produtiva nessas unidades foi um dos fatores identificados pela empresa para explicar a deterioração do terceiro trimestre, e uma melhora dependerá tanto de novos pedidos quanto da adequação da estrutura de custos.
A teleconferência marcada para esta quarta-feira deverá oferecer informações adicionais sobre as perspectivas da companhia, a execução dos programas de fornecimento e o estágio das medidas de reestruturação. Os próximos resultados permitirão avaliar se os ajustes realizados começam a compensar a redução dos volumes ou se a menor atividade continuará pressionando a rentabilidade.
Fontes:
Comissão de Valores Mobiliários (CVM) — registro das Informações Trimestrais da Marcopolo referentes a 30 de setembro de 2026, encaminhadas em 3 de novembro.
Marcopolo Relações com Investidores — divulgação dos resultados financeiros e operacionais do terceiro trimestre de 2026 e calendário da teleconferência com investidores.
Associação Nacional dos Fabricantes de Ônibus (Fabus) — mapas oficiais de produção de carrocerias referentes a julho, agosto e setembro de 2026.
Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) — informações oficiais sobre o funcionamento das aquisições e dos registros de preços do programa Caminho da Escola.









