O mercado brasileiro abre esta terça-feira, 6 de outubro, tentando medir quanto da forte valorização registrada depois do primeiro turno das eleições pode ser sustentada nas próximas sessões. Depois de o Ibovespa avançar 7,70%, fechar acima dos 206 mil pontos e renovar seu recorde histórico, investidores voltam as atenções para a disputa presidencial, para a curva de juros e para uma agenda política que ganha um novo componente com a chegada ao Plenário do Senado da PEC que prevê o fim da escala de trabalho 6×1.
A Proposta de Emenda à Constituição 221/2019 começa a ser discutida pelos senadores nesta terça-feira. O texto reduz de 44 para 40 horas a jornada máxima semanal, permitindo sua distribuição em cinco dias de oito horas e garantindo dois dias de repouso remunerado, um deles preferencialmente aos domingos, sem redução salarial. A matéria foi aprovada em setembro pela Comissão de Constituição e Justiça e chega ao Plenário em pleno início do segundo turno da eleição presidencial.
A proposta se tornou uma das bandeiras trabalhistas defendidas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante a campanha. Sua tramitação, porém, ainda tem etapas pela frente. Pela regra do Senado, são necessárias cinco sessões de discussão antes da votação em primeiro turno. Se aprovada, haverá mais três sessões antes do segundo turno. Um calendário especial pode reduzir esses intervalos.
Como qualquer emenda constitucional, a PEC precisa do apoio de três quintos dos senadores, ou 49 dos 81 integrantes da Casa, em cada uma das duas votações. Se o Senado mantiver o texto recebido da Câmara, a proposta poderá seguir para promulgação pelo Congresso. Mudanças de mérito obrigariam uma nova análise pelos deputados.
O início dessa discussão ocorre apenas dois dias depois de uma eleição que modificou a correlação de forças no Congresso e abriu uma nova fase da campanha presidencial. Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula recebeu 45,16%. A diferença foi de pouco mais de 2,2 milhões de votos, e a decisão ficou para 25 de outubro.
Mercado tenta definir novo preço depois de sessão excepcional
A reação dos ativos brasileiros ao resultado eleitoral foi imediata. Na segunda-feira, o Ibovespa subiu 7,70% e terminou aos 206.911,89 pontos, o maior fechamento nominal de sua história. Durante o pregão, chegou a 209.605,70 pontos, estabelecendo também uma nova máxima intradiária.
O movimento ocorreu ao mesmo tempo em que o dólar caiu mais de 4% e voltou à região de R$ 5. A curva de juros sofreu um ajuste ainda mais acentuado, com contratos de longo prazo recuando mais de um ponto percentual em determinados vencimentos. A volatilidade chegou a levar o Tesouro Direto a suspender temporariamente as negociações na manhã de segunda-feira para atualização dos preços dos títulos públicos.
A concentração das maiores altas mostrou de onde partiu boa parte da reprecificação. Empresas sensíveis ao custo de capital e ao mercado doméstico dispararam, enquanto bancos e companhias diretamente ligadas ao mercado financeiro também tiveram ganhos muito superiores aos do índice.
Magazine Luiza avançou mais de 24%, B3 e BTG Pactual subiram mais de 22%, Bradesco ganhou 13,57%, Banco do Brasil avançou 11% e Itaú teve valorização superior a 10%. O movimento refletiu principalmente a queda dos juros futuros, a redução do prêmio exigido pelos investidores e a expectativa de entrada de recursos em ativos brasileiros.
Na direção oposta ficaram empresas mais expostas ao dólar. A forte valorização do real pressionou companhias exportadoras, entre elas Suzano e Embraer, enquanto Vale também terminou no campo negativo.
A sessão desta terça-feira tende a mostrar se investidores ainda encontram espaço para ampliar posições depois de um ajuste tão concentrado em um único dia ou se parte dos ganhos será objeto de realização. Depois de altas superiores a 20% em alguns papéis, pequenas mudanças nas expectativas podem produzir oscilações relevantes.
Segundo turno mantém política fiscal no centro das negociações
A percepção dos investidores sobre a política fiscal tornou-se um dos principais motores do mercado depois do resultado das urnas. O movimento de segunda-feira incorporou uma expectativa de mudança na condução das contas públicas a partir de 2027, caso Flávio Bolsonaro vença o segundo turno.
Essa avaliação ainda está baseada predominantemente em expectativas. O candidato do PL fez sinalizações de maior disciplina fiscal, mas o mercado ainda aguarda detalhes sobre despesas, dívida pública, reformas e composição de uma eventual equipe econômica. Lula, por sua vez, entra no segundo turno defendendo a continuidade de sua agenda econômica e ampliando o peso de pautas sociais e trabalhistas na campanha.
É nesse ambiente que a PEC da escala 6×1 passa a ganhar importância que vai além do Congresso. A proposta tem impacto potencial sobre custos trabalhistas, organização das jornadas e produtividade, razão pela qual sua tramitação é acompanhada também por empresas dos setores de comércio, indústria e serviços.
O texto aprovado na CCJ determina uma jornada máxima de 40 horas por semana e dois dias de descanso, sem redução de salário. Para os defensores da proposta, a mudança melhora as condições de trabalho e aproxima o Brasil de modelos adotados em outros mercados. Representantes empresariais e críticos da medida concentram suas preocupações principalmente no impacto sobre custos e na capacidade de setores intensivos em mão de obra reorganizarem escalas.
A discussão no Senado ocorrerá, portanto, simultaneamente em duas dimensões: a legislativa, que envolve a obtenção dos 49 votos necessários, e a eleitoral, já que a proposta entra no centro do debate entre os dois candidatos à Presidência.
Exterior oferece ambiente mais favorável na abertura
Os mercados internacionais também oferecem algum suporte aos ativos de risco nesta manhã. Os índices futuros de Nova York operavam em alta nas primeiras horas desta terça-feira, depois de o Nasdaq renovar seu recorde na sessão anterior. A redução dos rendimentos dos títulos do Tesouro americano e o recuo do petróleo ajudavam a melhorar o ambiente.
O Brent voltou a ser negociado abaixo de US$ 100 por barril. O movimento ocorre após sinais de recuperação das exportações do Oriente Médio e medidas destinadas a ampliar a disponibilidade de petróleo e derivados, reduzindo parte da preocupação imediata com a oferta global.
A queda da commodity é particularmente importante para a inflação internacional depois da pressão provocada nos últimos meses pelo conflito no Oriente Médio. Para o mercado brasileiro, porém, preços menores do petróleo podem produzir efeitos diferentes: aliviam expectativas inflacionárias, mas também podem limitar o desempenho das ações de empresas petrolíferas com peso relevante no Ibovespa.
Nos Estados Unidos, investidores acompanham ainda novos dados econômicos e discursos de integrantes do Federal Reserve. Depois da pressão recente sobre os rendimentos dos Treasuries de longo prazo, qualquer sinalização sobre inflação e política monetária pode voltar a influenciar mercados emergentes.
Na Europa, as bolsas operavam em alta nesta manhã, enquanto o mercado de títulos mostrava algum alívio depois das fortes oscilações provocadas pelas preocupações fiscais em países como França e Espanha. O euro permanece próximo dos menores níveis em mais de um ano diante do dólar.
Depois do rali, mercado procura confirmação
A principal questão para os ativos brasileiros nesta terça-feira não é mais explicar o movimento de segunda, mas avaliar quanto dele consegue permanecer nos preços. O resultado eleitoral provocou uma das maiores reprecificações simultâneas de Bolsa, juros e câmbio dos últimos anos, mas a disputa presidencial ainda terá quase três semanas de campanha.
Nesse período, declarações dos candidatos, novos apoios, pesquisas eleitorais e principalmente informações sobre política econômica poderão alterar novamente a percepção dos investidores. Depois de uma queda superior a um ponto percentual em alguns vencimentos dos juros futuros, o mercado passa a exigir elementos concretos para justificar a manutenção das taxas em patamares tão diferentes dos negociados antes da eleição.
O mesmo vale para a Bolsa. O Ibovespa saiu de menos de 192 mil pontos na mínima de segunda-feira para uma máxima superior a 209 mil no mesmo pregão. Uma oscilação dessa magnitude mostra que o mercado ainda procura um novo equilíbrio depois das urnas.
A PEC da escala 6×1 adiciona um novo elemento a essa discussão porque conecta campanha eleitoral, Congresso e economia real. O Senado começa nesta terça-feira a etapa de debates, enquanto os investidores acompanham a primeira sessão depois do rali histórico de segunda.
O comportamento dos juros deverá permanecer como um dos principais termômetros. Se a curva continuar fechando, ações ligadas ao crédito e ao mercado doméstico podem manter parte do impulso. Uma reversão das taxas, por outro lado, tende a aumentar a pressão por realização de lucros justamente nos papéis que mais avançaram na segunda-feira.
Depois de um pregão dominado pela reação imediata ao resultado eleitoral, a terça-feira começa, assim, como o primeiro teste para saber se o mercado brasileiro entrou efetivamente em um novo patamar de preços ou se parte do movimento representou apenas uma correção rápida de posições construídas antes do primeiro turno.
Fontes
Senado Federal — tramitação e texto da PEC 221/2019
Senado Federal — agenda do Plenário para 6, 7 e 8 de outubro de 2026
Tribunal Superior Eleitoral — resultado oficial do primeiro turno das Eleições 2026
B3 — fechamento do Ibovespa e dados do pregão de 5 de outubro de 2026
Tesouro Direto — comunicado sobre suspensão temporária das negociações por volatilidade
Reuters — mercados internacionais, petróleo e juros em 6 de outubro de 2026
Dados de mercado — Ibovespa, câmbio, juros futuros e ações negociadas na B3







