A Petrobras (PETR4) identificou um segundo intervalo portador de petróleo no poço Morpho, no bloco FZA-M-59, em águas ultraprofundas da Bacia da Foz do Amazonas, na costa do Amapá. A ocorrência foi localizada durante a continuidade da perfuração do poço exploratório, que está em uma área com lâmina d’água de 2.886 metros e a cerca de 175 quilômetros do litoral do estado. A companhia classificou o achado como uma nova descoberta e informou que ainda realizará análises laboratoriais para caracterizar o petróleo e avaliar o potencial dos recursos.
A nova identificação foi feita por meio da interpretação de perfis elétricos, indícios observados nas rochas e amostras de fluidos obtidas durante a operação. Segundo a Petrobras, a perfuração prosseguiu depois da primeira descoberta anunciada em agosto com o objetivo de investigar intervalos exploratórios mais profundos. O trabalho ainda não foi encerrado, e a estatal informou que pretende concluir a perfuração e continuar a avaliação das formações encontradas.
A primeira ocorrência no Morpho foi comunicada em 14 de agosto. Entre aquele anúncio e o novo resultado divulgado em 2 de outubro transcorreram 49 dias. Na primeira etapa, a Petrobras identificou hidrocarbonetos no mesmo poço e afirmou que a avaliação prosseguiria para determinar a extensão e as características da ocorrência. Desde então, os dados obtidos permitiram confirmar a boa qualidade do petróleo encontrado no primeiro intervalo, mas a empresa não declarou a comercialidade da descoberta.
O segundo intervalo não significa, neste momento, que a Petrobras tenha acrescentado um volume definido de reservas provadas ao seu balanço. A informação divulgada nesta sexta-feira, 2 de outubro de 2026, é de caráter exploratório: há presença de petróleo em uma nova faixa da formação geológica, mas ainda são necessárias análises para estimar características do fluido, extensão, espessura, produtividade potencial e demais parâmetros utilizados na avaliação de uma descoberta.
Novo intervalo amplia a avaliação geológica da Foz do Amazonas
A principal consequência imediata do achado é a ampliação do conjunto de informações disponíveis sobre a estrutura geológica do bloco. A Petrobras informou que os dados coletados serão integrados ao material obtido anteriormente para a avaliação dos sistemas petrolíferos da Bacia da Foz do Amazonas. O procedimento é importante porque uma descoberta exploratória precisa ser submetida a uma série de avaliações antes que a companhia possa concluir se há um projeto economicamente viável.
A distância de aproximadamente 175 quilômetros do litoral e a lâmina d’água de 2.886 metros ajudam a dimensionar a complexidade operacional do projeto. A profundidade informada pela Petrobras corresponde à coluna de água no local da operação e não deve ser confundida com a profundidade total perfurada pelo poço. O Morpho é um poço exploratório em área de fronteira, e o objetivo nesta fase é obter dados suficientes para reduzir as incertezas geológicas antes de qualquer decisão sobre desenvolvimento.
A Petrobras também destacou que as análises do novo intervalo ainda estão em andamento. A companhia pretende caracterizar as amostras em laboratório e combinar esses resultados com os registros adquiridos durante a perfuração. No caso do intervalo identificado em agosto, a estatal informou que as análises já realizadas confirmaram a boa qualidade do óleo. Para a nova ocorrência, entretanto, esse trabalho ainda não foi concluído.
A distinção é relevante porque presença de hidrocarbonetos e comercialidade são etapas diferentes. A própria sistemática regulatória da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis prevê que, durante a fase de exploração, o concessionário avalie as descobertas e, caso conclua pela viabilidade econômica, declare a comercialidade da área. Portanto, o novo intervalo amplia o conhecimento sobre o bloco, mas não representa por si só autorização ou decisão de desenvolvimento de um campo produtor.
Petrobras concentra 100% da participação no bloco
O bloco FZA-M-59 tem hoje a Petrobras como operadora e detentora de 100% da participação. A área foi adquirida originalmente na 11ª Rodada de Licitações da ANP, em 2013, sob o regime de concessão. Na composição inicial, a BP Energy detinha 70% e a Petrobras 30%. O controle do bloco foi posteriormente transferido para a estatal, que passou a concentrar a participação integral. A mudança aparece também na documentação histórica do processo de licenciamento ambiental.
O histórico ajuda a explicar por que o resultado atual tem peso maior para a estratégia exploratória da companhia. Como operadora exclusiva, a Petrobras concentra no bloco tanto os investimentos de avaliação quanto a exposição financeira associada à continuidade da campanha exploratória. Em contrapartida, caso uma futura avaliação demonstre viabilidade econômica, a companhia também não precisará dividir a participação societária do projeto com parceiros privados dentro do contrato atual.
A empresa vem apresentando a exploração de novas fronteiras como parte de sua estratégia de recomposição das reservas de petróleo e gás. A descoberta de agosto e o novo intervalo identificado em outubro ampliam, nesse contexto, a quantidade de dados disponíveis para avaliar o potencial da Bacia da Foz do Amazonas. Isso, porém, ainda está distante de uma estimativa consolidada de reservas recuperáveis no bloco.
Licenciamento ambiental levou mais de uma década
A perfuração do Morpho ocorre após um processo de licenciamento ambiental que atravessou diferentes administrações e decisões. O pedido relacionado ao bloco FZA-M-59 foi protocolado inicialmente em 2014, quando a BP ainda era a operadora. Em maio de 2023, o Ibama indeferiu o pedido de licença apresentado pela Petrobras, citando inconsistências técnicas e questões associadas à sensibilidade socioambiental da região da Bacia da Foz do Amazonas.
Entre os pontos apresentados pelo Ibama naquele momento estavam a necessidade de aprimoramentos no projeto e a ausência de uma Avaliação Ambiental de Área Sedimentar para a região. O processo continuou posteriormente, e a Petrobras avançou nas exigências relacionadas à preparação para uma eventual emergência ambiental.
Em setembro de 2025, o Ibama aprovou a Avaliação Pré-Operacional vinculada ao projeto. Em outubro do mesmo ano, o Ministério de Minas e Energia informou a concessão da licença ambiental para a perfuração do bloco FZA-M-59. A autorização permitiu que a campanha exploratória avançasse até o poço Morpho, onde a Petrobras passou a registrar ocorrências de hidrocarbonetos em 2026.
A cronologia mostra que a descoberta anunciada nesta sexta-feira não é resultado de uma operação iniciada recentemente. Entre o início formal do licenciamento, em 2014, e a segunda descoberta comunicada em outubro de 2026, passaram-se mais de 12 anos. Nesse período, houve mudança de operador, indeferimento de licença, revisão do projeto ambiental, aprovação de procedimentos operacionais e, finalmente, execução da perfuração exploratória.
Perfuração teve incidente ambiental no início de 2026
A campanha no Morpho também foi marcada por um incidente ambiental comunicado ao Ibama em janeiro de 2026. Segundo o órgão, a Petrobras informou a perda de fluido de perfuração em duas linhas auxiliares que ligavam a sonda ao poço. Após inspeção, foi constatada descarga do fluido para o mar. A empresa interrompeu as operações, isolou as linhas afetadas e manteve fechada a válvula de fundo, interrompendo a descarga.
Na nota divulgada à época, o Ibama informou que as causas do incidente estavam em apuração e que o instituto acompanhava o caso. O episódio não impediu a continuidade posterior da campanha exploratória, que avançou até a identificação do primeiro intervalo de hidrocarbonetos em agosto e, agora, do segundo intervalo em outubro.
O histórico ambiental torna o bloco particularmente sensível dentro da expansão da fronteira exploratória brasileira. A Bacia da Foz do Amazonas é uma região submetida a escrutínio regulatório e ambiental elevado, e a retomada da perfuração ocorreu somente depois de uma sequência de exigências e avaliações. Com a confirmação de novos intervalos de petróleo, a necessidade de caracterização técnica das formações passa a caminhar paralelamente ao acompanhamento das condições ambientais da operação.
Próxima etapa é medir o potencial econômico da descoberta
A Petrobras informou que concluirá a perfuração do Morpho e seguirá com a avaliação das formações identificadas. O próximo conjunto de informações relevante será formado pelos resultados das análises laboratoriais e pela integração dos dados de perfis, rochas e fluidos obtidos no poço. É essa combinação que permitirá dimensionar melhor a ocorrência e avaliar sua continuidade.
Para a ANP, a identificação de hidrocarbonetos é uma etapa da exploração, e a decisão sobre comercialidade exige uma avaliação adicional. Somente depois de concluído esse trabalho a companhia poderá decidir se existem condições para declarar a comercialidade da descoberta e avançar para fases posteriores do projeto. Até lá, não há base para tratar o novo intervalo como produção futura assegurada ou como reservas já incorporadas à companhia.
A segunda descoberta no mesmo poço, portanto, aumenta a quantidade de evidências de que o sistema petrolífero da área contém hidrocarbonetos, mas deixa em aberto as dimensões econômicas do achado. A confirmação de óleo de boa qualidade no primeiro intervalo é um dado adicional favorável à avaliação técnica, enquanto os resultados do segundo intervalo ainda precisam ser consolidados.
O resultado também reforça o caráter estratégico do bloco para a Petrobras. Como operadora e dona integral da participação, a estatal poderá incorporar diretamente os dados obtidos ao seu processo de decisão sobre a continuidade da fronteira exploratória. Por enquanto, porém, o principal resultado concreto da campanha é geológico: a companhia encontrou mais um intervalo com petróleo e ampliou o conhecimento disponível sobre a Bacia da Foz do Amazonas, sem ainda transformar a descoberta em um novo ativo produtor.
Fontes:
Petrobras – comunicado de 2 de outubro de 2026 sobre a nova descoberta de petróleo no poço Morpho, no bloco FZA-M-59
Petrobras – comunicado de 14 de agosto de 2026 sobre a primeira descoberta de hidrocarbonetos no poço Morpho e a participação integral da companhia no bloco
Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis – regras e dados sobre fase de exploração, resultados de poços e avaliação de descobertas
Ibama – histórico do licenciamento ambiental do bloco FZA-M-59 e decisão de 2023 sobre o pedido de licença de perfuração
Ministério de Minas e Energia – aprovação da Avaliação Pré-Operacional e concessão da licença ambiental para o bloco FZA-M-59 em 2025
Ibama – comunicação sobre o incidente envolvendo perda de fluido de perfuração no poço Morpho em janeiro de 2026
B3 – identificação dos códigos de negociação da Petrobras na bolsa brasileira









