Os ativos brasileiros negociados no exterior abriram a segunda-feira, 5 de outubro, com forte valorização depois de Flávio Bolsonaro (PL) terminar o primeiro turno da eleição presidencial à frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Antes da abertura de Wall Street, os ADRs da Petrobras chegaram a subir quase 10%, enquanto Vale, bancos, Embraer e fundos que concentram ações brasileiras também registraram ganhos expressivos.
Por volta das 6h45, no horário de Brasília, o ADR da Petrobras negociado em Nova York subia 9,93%, cotado a US$ 23,80. Na sexta-feira, o papel havia encerrado a sessão a US$ 21,65, o que representa uma valorização de US$ 2,15 por recibo apenas na indicação do pré-mercado. O movimento ganhou força poucas horas depois da confirmação de que Flávio terminou a primeira etapa da eleição com 47,03% dos votos válidos, diante de 45,16% de Lula.
A Vale acompanhou a reação, ainda que em intensidade menor. Os ADRs da mineradora avançavam 6,03%, para US$ 14,59. O comportamento da companhia ajuda a mostrar que o movimento não estava restrito às estatais ou a empresas diretamente expostas a decisões de governo. A Vale é uma companhia privada e, neste caso, a valorização reflete também uma reprecificação mais ampla do risco Brasil e das expectativas dos investidores em relação à política econômica a partir de 2027.
Os bancos tiveram algumas das maiores altas da manhã. Itaú Unibanco chegou a avançar 12,4%, para US$ 9,66, enquanto os ADRs do Bradesco subiam 11,93%, para US$ 4,08. O Nubank apresentava valorização em torno de 10,2%, e as ações da XP negociadas na Nasdaq chegaram a ganhar aproximadamente 15%. O Santander Brasil também operava no campo positivo, com alta próxima de 3,7%. A Embraer avançava 5,72%, para US$ 79,51.
As cotações são fotografias de um mercado ainda com volume menor do que o pregão regular e podem mudar rapidamente antes da abertura de Nova York. O pré-mercado tende a apresentar oscilações mais acentuadas, especialmente depois de eventos políticos capazes de alterar de forma brusca as posições dos investidores. Por isso, os percentuais registrados durante a madrugada e o início da manhã não devem ser tratados como indicação exata de quanto cada ação subirá quando as bolsas brasileira e americana estiverem plenamente abertas.
EWZ antecipa forte volatilidade para a Bolsa brasileira
Outro termômetro acompanhado desde a noite de domingo foi o iShares MSCI Brazil ETF, negociado nos Estados Unidos pelo código EWZ. O fundo reúne algumas das maiores empresas brasileiras e acompanha o MSCI Brazil 25/50 Index. Embora seja frequentemente chamado de “Ibovespa em dólar”, o EWZ não replica o Ibovespa e sua composição e metodologia são diferentes das do principal índice da B3.
O fundo chegou a registrar altas superiores a 8% no after-market de domingo e teve indicações acima de 10% em determinados momentos das negociações fora do horário regular. As cotações variaram de forma significativa ao longo da madrugada e da manhã, justamente em razão da baixa liquidez desses períodos e do reposicionamento acelerado dos investidores depois da apuração.
A volatilidade do EWZ é um dos principais sinais de que a abertura da B3 deverá ser marcada por movimentos fortes. O fundo possui elevada concentração em instituições financeiras, energia e mineração, exatamente os setores que apareceram entre os maiores ganhadores nas negociações americanas desta segunda-feira.
A reação também começou no Japão. Um ETF que acompanha ações brasileiras e é negociado em Tóquio abriu a sessão asiática com valorização próxima de 8%, tornando-se um dos primeiros ativos líquidos a incorporar o resultado eleitoral brasileiro depois do fechamento das urnas.
Mercado havia se preparado para outro resultado
A intensidade do movimento está relacionada menos à confirmação do segundo turno — cenário que já era amplamente esperado — e mais à ordem em que os candidatos terminaram a votação e à diferença entre eles.
Na reta final da campanha, boa parte das principais pesquisas mostrava Lula numericamente à frente. Datafolha, Quaest e AtlasIntel apontavam vantagem do presidente, ainda que alguns dos levantamentos colocassem os dois candidatos dentro ou próximos das margens de erro. A apuração produziu o cenário inverso: Flávio terminou em primeiro lugar e abriu aproximadamente 1,9 ponto percentual sobre Lula.
Essa diferença obrigou gestores a rever posições montadas antes da votação. Para parte do mercado, o resultado aumentou a probabilidade de uma vitória de Flávio no segundo turno e, consequentemente, a chance de uma mudança na condução da política econômica em 2027.
Analistas ouvidos pela Reuters projetavam uma reação inicial de aproximadamente 7% a 8% para as ações brasileiras e uma valorização do real que poderia chegar a 4% ou 5%, dependendo das condições de mercado ao longo do dia. Gestores consultados pela Bloomberg também trabalharam com uma abertura fortemente positiva da Bolsa e queda relevante do dólar.
Essas projeções não significam que os preços necessariamente terminarão a sessão nesses níveis. Representam a avaliação feita antes da abertura da B3 e podem ser alteradas por realização de lucros, movimentos externos, declarações políticas ou novas informações sobre o segundo turno.
Petrobras concentra expectativa sobre mudança de política econômica
A valorização mais intensa da Petrobras tem uma explicação adicional. Por ser uma companhia controlada pela União, a empresa costuma responder com maior sensibilidade às mudanças de percepção sobre política de preços, dividendos, investimentos e eventual interferência governamental.
Quando investidores passam a atribuir maior probabilidade a uma administração considerada mais favorável à autonomia empresarial, redução da interferência estatal ou distribuição de dividendos, é comum que as ações da companhia sejam reavaliadas rapidamente. O movimento inverso também ocorre quando cresce a expectativa de utilização da estatal para objetivos de política pública que possam reduzir a rentabilidade percebida pelos acionistas.
Isso não significa que Flávio Bolsonaro tenha anunciado nesta segunda-feira uma mudança específica para a Petrobras. A alta é uma resposta das mesas de negociação às expectativas sobre o que uma eventual troca de governo poderia significar para a companhia.
Há ainda um componente que não pode ser atribuído à eleição. A Petrobras já havia subido 2,81% na sexta-feira, para R$ 51,17 nas ações preferenciais negociadas na B3, após fatores corporativos e movimentos do mercado internacional. Parte da valorização anterior ao pleito também refletia investidores ajustando suas posições para a votação.
Bancos sobem com expectativa de redução do risco fiscal
O avanço de Itaú, Bradesco, Nubank e XP indica que a leitura dos investidores vai além das empresas controladas pelo governo. Instituições financeiras são particularmente sensíveis às expectativas para juros, atividade econômica, crédito e risco soberano.
A interpretação predominante nas primeiras horas da segunda-feira era de que uma eventual mudança de governo poderia aumentar as chances de um ajuste fiscal mais forte. Se essa percepção levar a uma redução dos prêmios cobrados nos juros de longo prazo, bancos, varejistas, construtoras e outras empresas voltadas ao mercado doméstico tendem a ser beneficiados pela reprecificação.
O raciocínio, porém, depende de várias etapas que ainda não ocorreram. Flávio precisa vencer o segundo turno, anunciar uma equipe econômica, apresentar medidas concretas e demonstrar capacidade de aprovação no Congresso. Uma reação positiva imediata do mercado não equivale, portanto, a uma avaliação definitiva sobre um eventual governo.
O novo Congresso também entrou nas contas dos investidores. O fortalecimento da direita e do PL no Senado e na Câmara aumentou a percepção de que um eventual governo Flávio poderia encontrar condições políticas mais favoráveis para aprovar parte de uma agenda econômica liberal. Esse cenário também ajuda a explicar por que a reação dos ativos foi mais ampla do que apenas Petrobras e outras estatais.
Bolsa já havia subido 2,6% antes da votação
O Ibovespa entrou na eleição em um patamar elevado. Na sexta-feira, último pregão antes do primeiro turno, o índice avançou 2,63% e encerrou aos 192.114 pontos, próximo das máximas observadas no ano. O dólar terminou o dia a aproximadamente R$ 5,216.
Parte da alta de sexta já refletia o chamado “trade eleitoral”, mas o movimento não estava isolado do cenário internacional. Dados mais fracos do mercado de trabalho dos Estados Unidos aliviaram pressões sobre os juros americanos e favoreceram moedas e bolsas de países emergentes. A Petrobras também teve suporte de notícias corporativas.
Essa combinação é relevante para interpretar o que acontecerá nesta segunda-feira. Nem toda variação do Ibovespa ou do câmbio poderá ser atribuída exclusivamente às urnas. Juros americanos, preço do petróleo, minério de ferro e desempenho das bolsas internacionais continuam interferindo nos ativos brasileiros.
Ainda assim, o tamanho dos movimentos registrados nos ADRs antes da abertura deixa pouca dúvida de que o resultado eleitoral será o principal vetor do pregão doméstico.
Segundo turno pode devolver volatilidade aos preços
A primeira reação é favorável aos ativos brasileiros, mas faltam três semanas para a decisão presidencial. Flávio terminou o primeiro turno com 47,03%, enquanto Lula recebeu 45,16%, e os dois voltarão às urnas em 25 de outubro.
Uma diferença inferior a dois pontos não transforma o segundo turno em resultado definido. Os votos dos demais candidatos, a abstenção, os apoios partidários e o desempenho das próximas pesquisas poderão alterar as expectativas do mercado durante todo o período.
Isso cria espaço para movimentos bruscos nas duas direções. Uma pesquisa mostrando aumento da vantagem de Flávio pode reforçar posições iniciadas nesta segunda-feira. Uma recuperação de Lula, por outro lado, pode provocar realização de lucros e reversão parcial das altas.
O mercado também deverá acompanhar as primeiras sinalizações econômicas das duas campanhas. Nomes cogitados para a Fazenda, compromisso com metas fiscais, trajetória da dívida pública, papel das estatais e relação com o Congresso tendem a assumir importância crescente à medida que a eleição se aproxima da decisão.
A sessão desta segunda-feira é, portanto, a primeira reprecificação concreta do cenário político depois das urnas. Petrobras e Vale abriram esse movimento em Nova York, seguidas pelos bancos, Embraer e pelos fundos de ações brasileiras. A B3 será o próximo teste para medir quanto da surpresa eleitoral será efetivamente incorporado aos preços — e quanto será devolvido depois da euforia inicial.
Fontes
Reuters — reação de investidores e analistas ao primeiro turno das eleições brasileiras.
Bloomberg — projeções de gestores para Bolsa, real e ativos brasileiros após o resultado eleitoral.
Folha de S.Paulo — cotações de Petrobras, Vale, bancos e Embraer no pré-mercado de Nova York.
Tribunal Superior Eleitoral — resultado oficial do primeiro turno da eleição presidencial de 2026.
B3 — fechamento do Ibovespa e das ações brasileiras no pregão de 2 de outubro.
iShares — metodologia e composição do MSCI Brazil ETF (EWZ).






